
Capítulo 203
Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.
Varia gostava do cabelo preto de Ferio. E ela também gostava do cabelo preto de Leonia, que se parecia perfeitamente com o dele.
Portanto, o Colar do Crime carregava uma mensagem mais profunda da mãe — nunca zombar das características que você compartilha com a família.
Leonia silenciosamente prendeu o colar ao redor do pescoço.
“Sente-se aqui.”
Ferio, que observava, apontou para uma cadeira já preparada.
A expressão de Leonia ficou rígida ao vê-la.
“É muito pequena!”
A cadeira que Ferio tinha preparado era uma relíquia da infância dela — um item nostálgico de quando era mais nova.
“Isto é humilhante!”
“É exatamente por isso que é uma punição.”
“Pelo menos, use uma cadeira maior!”
A criaturinha tentou latir e fazer biquinho. Ela resmungou que sentar numa cadeira tão minúscula arruinaria suas preciosas costas e quadris.
“Minha lombar precisa ser preservada cuidadosamente para o futuro!”
“Você só consegue segurar seus comentários pervertidos na frente da Varia, não é?”
“Só agora você percebeu isso?”
“Minha pequena monstra constante.”
Ferio soltou um suspiro de alívio.
Se Varia de fato tivesse conseguido reformar Leonia, aquilo teria doído um pouco.
Depois de tudo, o tempo e esforço que Ferio dedicara para criar essa criança tinha sido enorme.
Por sorte, Leonia ainda era uma pervertida irrecuperável, sem chance de reabilitação.
Ferio assentiu solenemente. Mesmo ele, um especialista em parentalidade, não tinha conseguido consertar essa pequena desvia.
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Por mais incrível que Varia fosse — isso era impossível.
“Certo, então. É hora de começar sua punição.”
No final, Leonia foi forçada a se sentar na cadeirinha minúscula.
“Isso é uma humilhação...”
Leonia cobriu o rosto com as mãos, envergonhada.
O que a embaraçava não era a punição em si, mas a vergonha de estar sentada numa cadeira ridiculamente pequena.
Mas a verdadeira vergonha ainda nem tinha começado.
“Para minha filha desobediente e má, este pai agora lhe lerá um conto de fadas.”
A palavra "conto de fadas" fez Leonia estremecer de horror puro.
“N-Não quer dizer...!”
“Ah, quer exatamente isso.”
“Por favor, não!”
“Vou sim.”
Ferio abriu o livro de contos de fadas.
“Era uma vez...”
“Aaaaagh!”
Leonia gritou.
“Por favor! Qualquer coisa, menos isso!”
“Algum doido — ah, minha cisa — algum lenhador ou caçador, seja lá o que ele fosse...”
“Não me leia um conto que romantiza criminosos sexuais!”
A criança choramingou.
“Desculpa! Desculpa!”
Ela finalmente gritou um pedido de desculpas.
Mas Ferio não parou. Sem uma ponta de culpa, ele continuou firmemente a leitura.
“E então, um dia...”
“AAAÁÁH! AAAÁÁHHH!”
Os gritos de Leonia encheram a sala sem parar.
E, um pouco mais distante, Varia mal segurava o riso.
Encostada no apoio do sofá, seus ombros tremiam. Ela quase chorava de tanto segurar a risada.
“Minha senhora, está tudo bem?”
Tra veio verificar.
Só então Varia endireitou-se. Suas bochechas inchadas, cheias de risos, finalmente começaram a se acalmar.
“Meu marido e minha filha... eles não são demais, são?”
Ela fez um gesto em direção ao casal barulhento.
“Se é assim que vê, minha senhora, acho que é um alívio.”
Tra sorriu levemente.
A ele, parecia mais uma briga bruta entre duas feras tentando se devorar.
“O papai tenta forçar voyeurismo, aprisionamento e casamentos por conveniência nos meus gostos perversos! Pare de ler isso!”
“Se suas vontades perversas são irreparáveis, então é dever do pai mostrar o quanto as coisas podem dar errado. Essa é minha sabedoria profunda.”
“Seu pai louco!”
A troca feroz entre pai e filha era tão intensa que nenhum funcionário ousou se aproximar.
Tra simplesmente não entendia como Varia podia olhar para os dois e achar graça.
‘Como era de esperar de minha senhora.’
Ela realmente não era uma mulher comum.
***
Embora fosse tarde da noite, Lota não conseguia dormir.
Ele está atrasado de novo...
A escuridão lá fora, com os ponteiros do relógio marcando meia-noite, a deixava ainda mais ansiosa.
Lota passeava nervosamente pelo quarto, esperando pelo marido, Remus.
Finalmente, ela parou na penteadeira e se sentou.
No espelho ornamentado, uma jovem e bela mulher a observava.
Seu cabelo rosado suave era motivo de inveja de todas; sua pele clara, lisa, até chamava sua própria admiração.
Seus olhos gentis conquistavam facilmente as pessoas, e seu corpo naturalmente curvilíneo atraía a atenção de homens que passavam.
No entanto, a expressão de sua reflexão não eram de felicidade.
Remus...
Lota se sentia insegura.
Ultimamente, o casamento deles tinha parecido fora de sintonia.
Remus chegava cada vez mais tarde, e o carinho que antes dedicava a ela agora parecia frio e forçado — mais uma obrigação do que amor.
Não! Isso não pode ser verdade!
Lota saltou da cadeira. Era só porque ela tinha se olhado no espelho. Ultimamente, toda vez que se via, sentia mais ansiedade do que orgulho.
Especialmente desde que Varia virou duquesa.
Por que alguém como ela virou duquesa?!
Varia sempre foi quieta, sombria e sem jeito social. Ela sempre invejou a beleza de Lota.
Seus pais sempre tiveram mais afeição por Lota. A irmã mais velha, tímida e sacrificada, ficava em segundo lugar.
Mas, de repente, tudo mudou.
Agora, seus pais tentavam desesperadamente alcançar Varia.
Chegaram até a visitar a propriedade Voreoti ao saber que ela tinha chegado à capital — só para serem rejeitados na porta.
É tudo por causa da sua maldade com ela!
Depois, eles viraram o ataque contra Lota.
Você empurrou Varia para dentro do lago, não foi?! É por isso que ela mudou tanto!
Já pensou em sua irmã alguma vez, como a irmão mais nova que é?!
Você é egoísta e cruel!
Lota ficou sem palavras.
Todo aquele críticas duras e implacáveis que ela tinha direcionado a Varia agora voltavam para ela.
Eram os pais que sempre privilegiaram uma filha em detrimento da outra!
Furiosa, Lota abanou-se com força, cheia de raiva.
Ela quase se afogou no lago por não ter entregado o grampo de cabelo para ela!
Na época, eles tinham ficado do lado dela — então, por que estão a culpando agora?
A mudança tão descarada no tratamento dos pais fez Lota se sentir completamente traída.
Sua irmã virou duquesa.
Seus pais ficaram frios com ela.
“Que decepção, você realmente é...”
Tsk.
A voz da condessa Neophelli ecoou em sua cabeça, de uma festa do chá — na qual ela havia sido humilhada na cara dura.
“Kyaaaah!”
Lota acabou desabando, soltando um grito.
“Lota?”
Naquele instante, Remus entrou na sala.
Ele olhou para sua esposa, que acabara de soltar um grito agudo, com uma expressão estranha.
“O que aconteceu? Algo aconteceu?”
Mas ele rapidamente trocou a expressão por uma mais suave, aproximando-se delicadamente, com a máscara de um marido gentil e preocupado.
Lota chorou nos braços dele.
“Meus pais são tão cruéis! Só se preocupam com minha irmã!”
“Calma. Não há como seus pais fazerem isso.”
“Dizem que tudo é minha culpa! Que eu fiz ela assim!”
“Lota, por favor, se acalme.”
Remus passou a mão em suas costas. Ela fungou no peito dele por um tempo. A mão dele se moveu mecânica.
Sigh.
Remus exalou silenciosamente, cheio de irritação.
A face que ela não podia ver, enquanto se enterrava em seu abraço, estava fria — assustadoramente fria.
Tudo que ela faz é chorar.
Ele já não tinha mais paciência para lidar com as lágrimas dela.
Tanque de merda acontecendo ao seu redor.
A associação de patrocínio artístico tinha completamente desmoronado, e todos os nobres ligados a ela estavam sendo investigados.
Até a Casa Olor tinha sido questionada, e alguns nobres foram presos.
Graças à proteção do Imperador Subiteo, Olor conseguiu sair com apenas uma investigação.
O imperador sacrificou algumas casas menores e artistas, protegendo o resto.
Mas os infortúnios não pararam por aí.
Tudo que ele tocava depois disso parecia desmoronar.
Todo investimento resultou em perda, e os envios pelo seu grêmio comercial diminuíram drasticamente.
Hoje, até um parceiro de negócios disse que não renovariam o contrato.
Um dos carruagens quase virou por causa de uma roda quebrada.
A paciência de Remus se esgotava.
Para piorar, seu pai, o visconde Olor, continuava a reclamar sobre quando eles iriam produzir um herdeiro. Começava a resentir Lota por ela nem conseguir engravidar.
E, para ser sincero, seu charme estava desaparecendo.
No começo do noivado, ela tinha sido linda — sua juventude radiante.
Mas agora, ao envelhecer, seus sentimentos esfriavam.
...Assim como Regina.
Enquanto ainda a abraçava, Remus se pegou pensando na garota que um dia realmente amou.
“Remus.”
Enquanto mergulhava em suas memórias, Lota olhava para cima com olhos marejados.
“Tenho uma pergunta.”
“O que é?”
Remus respondeu com uma voz mais suave. Com os olhos cheios de lágrimas, Lota parecia mais jovem que o normal — e ele gostava disso.
“O símbolo do Olor é o cisne, certo?”
“Isso mesmo. Elegante e gracioso.”
“Como seria se alguém mais usasse um cisne como joia?”
“Seria extremamente ofensivo e insultuoso.”
Remus respondeu.
No Império Bellius, ornamentos em forma de animais eram raros.
Isso porque a maioria dos animais já era usada como símbolos de casas nobres.
Especialmente as famílias imperiais e regionais — usar seus símbolos podia resultar em acusações graves de insulto.
“Por que pergunta?”
“Bem, na festa do chá...”
Lota hesitou.
“Dona Voreoti.”
“O que foi dela?”
Remus respondeu suavemente, como se estivesse convencendo uma criança — embora por dentro estivesse amaldiçoando ela por trazer Voreoti à tona novamente.
Encorajada pelo tom, Lota confessou.
“Ela estava usando uma pulseira de cisne.”
A mão de Remus, que tinha estado a acariciando as costas dela, parou.
***
“Funcionou?”
Leonia murmurou sozinha, deitada na cama, jogando uma bola para cima e para baixo.
“Será que deu certo...”
Boiing, boiing — a bola ricocheteou com perfeição antes de cair limpidamente numa cesta ao lado da parede, traçando um arco perfeito.
Mas Leonia não parecia divertida.
Já fazia uma semana desde a festa do chá.
Ela se lembrava claramente de ter mostrado o colar de cisne que tinha enrolado duas vezes ao redor do pulso. Tinha confirmado que tanto Lota quanto a senhora ao lado tinham visto.
Lota não parecia ter percebido... mas a outra senhora? Seus olhos quase saltaram da órbita.
Ela não disse nada?
Segundo suas pesquisas anteriores, aquela convidada era conhecida por falar demais. Era quase certo que ela tinha contado tudo para Lota.
“Tch...”
Leonia resmungou com irritação.
Se, por um acaso, a mulher tivesse decidido ficar em silêncio, ela teria que continuar exibindo o colar de novo.
Nesse ponto, seria mais fácil perdoar Olor.
“Jovem senhora.”
Naquele momento, Connie entrou.
“A família do visconde Ricoss chegou.”
Leonia se levantou de salto.