Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.

Capítulo 197

Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.

"Eu trato aquele sujeito como se ele não existisse."


"Então você também deveria tratar o filho dele como se não existisse, né?"


Leonia soltou uma risada suave.


Mas ela sabia de tudo.


O Marquês de Pardus realmente tinha uma boa relação com seu filho mais novo, Lupe, e adorava a nova nora Inseréa. Quanto a Rupi, o filho deles — ele praticamente idolejava o menino, como se fosse obcecado.


"Leo."


Enquanto trocavam farpas, uma voz familiar chamou Leonia.


"O presente que acabamos de pedir—"


Varia, chamando a criança com uma voz gentil, interrompeu a fala no meio.

"Ma-Marquis."


"Mãe, não chame ele assim."


Leonia cutucou Varia repetidamente, indicando que ela fosse mais cuidadosa.


Só então Varia percebeu o erro e se corrigiu.


"É bastante inesperado encontrá-lo aqui, Marquis."


"Saúdo a Duquesa."


O Marquês de Pardus fez uma reverência respeitosa. A sinceridade e cortesia naquele cumprimento eram genuínas.


"Sou Rand Pardus."


Após o cumprimento, o Marquis olhou para Varia com leve curiosidade.


"Essa é nossa primeira vez nos encontrando, não é?"

O Marquis não tinha memória de ter encontrado Varia antes.

Ele havia recebido relatórios em nome de Ferio, para fins de vigilância, mas hoje era a primeira vez que a via pessoalmente.


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Varia percebeu a mesma coisa algum instante depois.


"Li você de relance passando pelo Ministério da Fazenda enquanto trabalhava lá."


Varia respondeu com naturalidade, sem se abalar.


O Marquis acreditou nela facilmente. Ele fez várias visitas ao palácio enquanto estada na capital — se ela o viu naquela época, faz sentido.


"Estou ansiosa para trabalhar com você."


"E eu com você, Marquis."


"É uma honra ter uma dama tão excepcional na família ducal."


"Você me enaltece. Não diria que sou particularmente habilidosa."


"De jeito nenhum."

O Marquis negou firmemente a humildade de Varia.


"Você realmente é excepcional."


Caso contrário, a capital não estaria em caos neste momento.


O Marquis já tinha sido informado sobre a situação que se desenrolava na capital. E ele tinha certeza de que a família Voreoti também tinha ouvido falar disso.


E o cérebro por trás de tudo isso estava bem ali, na sua frente.


Como esperado—


Varia, percebendo o significado oculto nas palavras do Marquis, ajustou um pouco os olhos.


"...Obrigada pelo elogio."

Ela apenas sorriu. Antes, talvez tivesse ficado envergonhada, sem saber o que fazer. Mas agora ela aceitou de forma natural, tranquila.


Como se dissesse: Não sei do que você está falando.


Como se dissesse: O que está acontecendo na capital não tem nada a ver comigo.


Vendo sua compostura, o Marquis assentiu satisfeito. Seus olhos mostravam aprovação.


Leonia, que acompanhava a conversa, sentiu o mesmo.


"Mulheres Voreoti são naturalmente capazes e incríveis."


O filhotinho levantou uma sobrancelha e sorriu com orgulho.


O Marquis gargalhou com essa atitude imponente.

Seu riso era tão alegre que parecia fazer as bonecas nas prateleiras ao redor estremecerem.


"Se continuar assim, vou arrancar suas orelhas."


Naquele momento, Ferio apareceu.


Ele carregava duas caixas — os presentes de Leonia — nos braços.

"Meus presentes!"


Leonia correu em alta velocidade até ele.


Depois, saltando de uma perna para a outra, estendeu as mãos para ele.

"Presentes! Presentes!"


"A gente falou que você ia abrir no seu aniversário."


Ferio colocou uma mão firme na cabeça dela para impedi-la de pular.

"Não dá para abrir só esse agora?"


Leonia arregalou os olhos enormes e com voz de pedido, cheia de charme.

O presente da loja de bonecas era um conjunto familiar com a boneca de leão que Ferio tinha dado a ela há cinco anos.


Quando ela teve dificuldade de escolher um presente, Varia viu uma boneca de leão preta — e pensou logo nela. Se acrescentassem uma mãe e uma filhote ao lado do leão original, ficaria parecido com a família deles.


Leonia ficou muito animada com a ideia que Varia teve.

"Por favor, papai!"


Ela até bateu os pés enquanto implorava.

"...Tá bom, então vamos abrir quando chegarmos em casa."


Para acalmar seu humor com a demonstração de carinho da filha, Ferio cedeu um pouco.

"Hum, não. Vou abrir só no meu aniversário."


Mas, após uma breve pausa, Leonia rapidamente mudou de ideia.

"Você está me zoando?"


"Yup."


"...Varia, vamos."


Ferio entregou as caixas a um criado que os acompanhava.

Com as mãos livres agora, ele segurou naturalmente uma das mãos de Leonia e uma de Varia. Hoje em dia, parecia estranho alguma delas não estar presente.


"Duque."


O Marquês de Pardus se aproximou para se despedir.


"Já faz tempo."


"Gostaria que fosse para sempre assim."

"Você é bem divertido com as piadas."


"Não era piada."


"Vocês parecem uma família muito próxima."


O Marquis falou com uma surpresa suave.

Era a primeira vez que via Ferio junto de Varia.

Segundo Lupe, eles tinham ficado juntos por cinco dias seguidos — e o casal Voreoti de fato parecia afetuoso.


"Para de ficar olhando pra meus pais. Você vai cansar seus músculos e sua beleza."

Leonia, entre eles, parecia incrivelmente feliz.

Quando Ferio anunciou seu noivado, o Marquis ficou preocupado que Leonia pudesse se sentir excluída.

Todo mundo sabia que Ferio era um pai zeloso, mas nunca se sabe ao certo.

Especialmente com os rumores de quanto Ferio amava Varia já espalhados.


Mas tudo não passava de preocupação infundada.

Varia e Leonia se davam muito bem, e Leonia parecia tão viva e feliz quanto sempre, entre seus pais.

De fato, uma dama nobre.

Que uma mulher tão extraordinária se tornasse madrasta da Casa Voreoti...


"Interromper um momento tão doce da família seria uma pena..."


O Marquis pegou uma boneca próxima.

Era uma pequena, costurada com retalhos de tecido colorido e vibrante.

"Deixe eu oferecer isto como um pequeno presente."


Ele colocou a boneca no balcão. O dono da loja, que observava discretamente a interação entre Voreoti e Pardus, demorou a calcular o valor.


A boneca paga foi logo entregue a Leonia.

"Este é o meu presente de aniversário para você."


"Marquis, o que você pensa de mim..."

Leonia pegou a boneca pelos dois lados e murmurou.

"Não é coisa de cachorros isso que fazem?"


Seu rosto refletia insatisfação.

"Minhas coisas, mesmo que baratas, costumam custar o equivalente a uma mansão."


"Usar coisas assim com muita liberdade vai te levar à falência."

"Voreoti não vai à falência."

Somos imensamente ricos.


Leonia analisou a boneca de todos os ângulos, depois fez um feio e jogou na direção de Ferio.

"Aqui, pai. Você fica com ela."


"Não me dá porcaria desse tipo."

"Use para treinar. É ótimo para enfiar a espada."


Leonia fez um gesto simulando perfurar a boneca com uma espada.

"Algo que seu corpinho de rato iria despedaçar com um golpe só."


"...Você me chamou de rato agora?"

"Ah, desculpa. Queria ter guardado isso na cabeça..."


"Como assim, você me acha do tamanho de um rato?!"


"Ugh, vocês dois de novo."


Varia conseguiu separá-los com facilidade, conduzindo-os para fora da loja.

"Não briguem onde todo mundo pode ver. Guardem para a carruagem."


"Se não fosse por mim, vocês ainda estariam solteiros pra sempre!"


"Eu teria me casado com Varia mesmo sem você."


"Por que está gritando isso em público?!"

Os três animais de Voreoti fizeram barulho até a saída.


O Marquês de Pardus os observou partir com um sorriso gentil.


"Agora, atendente."


Só depois que a carruagem partiu, o Marquis falou com o dono da loja sobre seu real motivo para a visita.


"Me recomende uma boneca que sirva para um garotinho brincando."


***


Assim que entraram na carruagem, Leonia perguntou:


"O que o vovô Marquis te deu?"


"Calma."

Ferio puxou a criança animada para sentar ao seu lado.


"Então é assim que ele manda mensagens..."


Na poltrona do lado oposto, Varia encarava a boneca que o Marquês havia lhes dado.


Ela soube que Pardus atuava como informante de Voreoti, mas era a primeira vez que via uma coisa assim tão coordenada pessoalmente. Sua curiosidade ardeu.


"......"


Encaixado entre sua esposa e sua filha, Ferio se sentia estranhamente constrangido.


"Mãe, você viu isso? O pai é tão legal!"


"Já sei que o Ferio é muito legal."


"Você precisa perceber isso mais! Porque meu pai é o mais forte do mundo!"


"Ela tem razão! Preciso perceber mais isso!"

Ferio já sabia bem o quão incrível e impressionante ele era.


"De que adianta dizer o óbvio?"


Mesmo assim, sendo elogiado pelos dois lados, filha e esposa, sua alma já altiva quase furava o teto da carruagem.


Ferio, quase se controlando, mexia na boneca.


"...Dentro das roupas."


Havia um pedaço de papel escondido na camisa da boneca.


Quando o abriu, continha detalhes sobre o estado atual da capital, a reação da Família Imperial e os movimentos dos nobres imperialistas.


Os três monstros Voreoti ficaram em silêncio enquanto liam.


"...Então o Imperador está indo com a desculpa de 'não sabia de nada.'"


Foi Leonia quem quebrou o silêncio.

"Bem, eu esperava isso."

Ela não pensava que o Imperador ia cair só por causa desse incidente.

Juntar tudo à base de acusações de crimes escondidos numa instituição de caridade já era exagero.

Mas para os nobres da sua facção, foi um golpe sério.

"O grupo de patrocínio desmoronou, e o Imperador perdeu parte do seu apoio."

Ferio completou.

A organização que tinha por missão promover as artes virou um covil de crimes.

Os artistas patrocinados foram presos na hora por fabricação de drogas, e os nobres que os apoiavam usavam a fundação para sonegar impostos e lavar dinheiro ilícito.

Já era tarde para inventar desculpas.

Alguém publicou provas irrefutáveis na praça pública.

"As autoridades não têm escolha a não ser prender e punir, e o Imperador não tem muitas maneiras de protegê-los. Os crimes são evidentes demais."

"Justo pros imperialistas de gosto duvidoso."

"Leo."

"...Aqueles imperialistas idiotas."

Reprimida por Ferio, Leonia fez uma cara de assunto e reformulou sua ofensa.

"Sinceramente, chamar eles de ‘idiotas’ já é muito gentil."

Idiotas pelo menos são fofos.

Leonia saiu de entre os pais e cruzou para o banco livre na frente deles.

Ao lado dela, estavam os dois presentes de aniversário ainda fechados.

"Mãe."


Ela chamou ✪ Nоvеlіgһt ✪ (versão oficial) para Varia.


Varia tinha estado quieta, lendo o jornal o tempo todo. Finalmente levantou a cabeça.

Seus olhos verdes, agora erguidos, tremiam um pouco.

Estavam ligeiramente desfocados — como se estivesse sonhando. Como se não conseguisse compreender totalmente a revelação do papel.

Ver ela assim apertou o peito de Leonia.


Na vida anterior, mamãe...


Ela suportou tanta coisa.

Apenas para ser traída e morrer no final.

Mas não desta vez.

"Foi tudo graças a você, mamãe."

Leonia disse.

"Tudo isso aconteceu por causa de tudo que eu tenho sido—"

Varia, com a voz tremendo levemente, tropeçou nas palavras.

Ela mal podia acreditar que esses resultados tinham vindo de seus próprios esforços.

"Tudo é culpa minha."

Foi Ferio quem falou, com clareza e certeza.

Naquelas palavras, os olhos de Varia tremeram.

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