Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.

Capítulo 184

Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.


Toc, toc.


“…Quem é?”


Leonia perguntou ao ouvir alguém batendo na porta do escritório.


Seus olhos ainda estavam fixos numa pilha de documentos, e a caneta na mão girava distraidamente.


“Sou o Les.”


“Les?”


Ao ouvir o nome, Leonia levantou a cabeça.


Logo que a porta se abriu, uma cabeça de cabelo cor de cenoura entrou em cena, familiar.


“Unni, Les!”


Leonia se levantou do assento com um sorriso radiante.


“Como você está? Não consegui te ver na última visita à capital!”


“E você, também está bem, jovem senhora?”


Enquanto Les a cumprimentava, ela percebeu a presença de outra pessoa na sala.


“Marquês!”


Lupe, que estava de licença parental, deu uma leve acenada.


Ele parecia ter ficado mais relaxado após se casar, e agora seu rosto parecia praticamente brilhar.


“Marquês, você está ótimo!”


Ele costumava parecer morto com a face pálida, e Les olhou curiosa para a vitalidade que Lupe agora exalava.


“Fico feliz em ver que também está saudável, senhorita Les.”


“Ora, sem saúde eu estaria até agora como um cadáver. Mas, Marquês, o senhor não estava de licença...


“É uma volta temporária.”


A expressão de Lupe não tinha muito brilho ao responder.


Les percebeu algo estranho de novo.


“De qualquer forma, unni, você veio para o Norte porque...”


Leonia apoiou o queixo em um braço descansando sobre a mesa, perguntando de modo preguiçoso.


Ela parecia completamente relaxed, como se estivesse apoiada na mesa à toa, mas seus olhos negros piscando brilhavam de inteligência.


“Então, finalmente o Tribunal Imperial enviou alguém.”


Levantando lentamente da cadeira, Leonia olhou de relance para Les de lado.


“Não foi?”


Diante daquele olhar firme, Les engoliu seco, incapaz de fazer qualquer movimento. Ela tremeu um pouco sem poder evitar.


“...Sim, isso mesmo.”


Fazia tempo que Les não se sentia tão nervosa assim.

Havia algo de arrepiante na menina de doze anos.

Só agora ela percebia de verdade que havia entrado na mansão Voreoti.

Ela tinha ficado tempo demais na capital e se esquecido da presença opressiva da besta negra.

“O Tribunal Imperial enviou especialistas para cada região.”

“Você tem a lista dos enviados?”

“Já entrei em contato com as Regiões Leste e Oeste.”

“Mudanças na lista?”

“Nenhuma.”

Les, agora em pé, tensa, respondeu com precisão.

“Então...”

Leonia estendeu a mão. Lupe colocou uma carta aberta sobre ela.

Era a carta que Les tinha enviado logo após receber as listas de especialistas de cada região.

“Todas as regiões estão recebendo funcionários do Ministério de Terras.”

Les explicou.

“Houve uma grande reformulação no corpo administrativo alguns anos atrás.”

Lupe acrescentou.

“Por isso, trocaram todos por lacaios da facção imperial.”

Leonia leu em voz alta os nomes dos dois funcionários enviados ao Norte.


“Que tipo de canalhas são esses?”


“Estão tendo um affair.”

Les relatou sem hesitar. Ainda podia ouvir os sussurros cobiçosos na cabeça.


O rosto de Lupe se contorceu de nojo, e Leonia sorriu, incentivando a que ela contasse mais.


“Foi horrível...”

Les reclamou, dizendo que nunca mais queria lembrar daquele momento.


Leonia a consolou, prometendo que seu pai lhe daria uma recompensa generosa depois.


“Então, os cavaleiros já estão atrás desses dois, né?”


“Provavelmente vão subir para as montanhas enquanto eu estiver fora.”


“Por que eles estão implorando pela morte...?”

Leonia inclinou a cabeça, genuinamente perplexa.


“Os monstros estão bastante agitados agora, não estão?”


“Monstros estão sempre agitados.”

Lupe respondeu.

Durante a temporada de verão, os monstros entravam na fase de reprodução.

Como Lupe disse, os monstros eram sempre perigosos—mas ainda mais durante a reprodução. Era absolutamente proibido se aproximar deles.

“Seria ótimo se eles virassem comida de monstro...”

Leonia disse, girando a caneta.

“Melhor não dar motivo para nada.”

Lupe aconselhou.

“Então, eu só vou assustar eles mesmo.”

Leonia rabiscou algo numa folha, entregando ao Lupe, chamando de especialidade Voreoti.

Lupe pegou e saiu rapidamente do escritório.

“Ooooh.”

Les, observando tudo, soltou um som de admiração.

“Jovenzinha, você é demais.”

“Desde quando eu não sou?”

Leonia levantou o queixo com orgulho.

Na idade de doze anos, ela já tinha perfeição suficiente para herdar o título a qualquer momento.

“Fiquei muito surpresa mais cedo! Eu nem fiz nada de errado, mas fiquei intimidada!”

“Você diz isso, mas não vai ter mais.”

Apesar das palavras, Leonia claramente ficou satisfeita com o elogio.

“Aliás, cadê o duque?”

Les perguntou de forma casual, sem dar muita importância.

“....”

E, de repente, o ambiente quente no escritório ficou frio novamente. Les foi puxada para uma estranha sensação de dissonância.

“Meu pai...”

Um estalo agudo soou, sinalizando uma ruptura na mão de Leonia. A caneta que ela segurava quebrou.

Les apressadamente puxou um lenço e limpou a tinta da mão.

“Está tudo bem, jovem senhora?”

“Estou, mas...”

Huuu...

Um suspiro longo—quase dez segundos—escapou da boca da menina.

Seu peito arfante a fazia parecer um gatinho bravo, com o pelo eriçado.

“Por que você está procurando aquele babaca?”

“Babaca...”

Les repetiu distraidamente a palavra de Leonia.

“Perguntei só porque ele não estava por perto.”

Ela rapidamente acrescentou.

Depois de tudo, ela já tinha informado ao duque interino, Leonia. Não havia motivo real pra procurar o Ferio.

Mas Leonia parecia pensar diferente.

“Unni, você falou a coisa certa.”


Então ela de repente pulou da cadeira, rodou os ombros como um bandido de rua, e virou o pescoço de um lado pro outro.


Ela fechou as mãos em punho e as esticou no ar, e no pulso pendia um relógio novo, da linha de luxo deste outono.


“Hoje...”


Era um modelo chamativo, feito para atrair os filhos ricos de famílias nobres.

E ficava muito bem em Leonia.

“Vou arrastá-lo pra fora.”


“...Hoje?”


“Só vou sair um pouco.”

Ela pediu pra Les se sentar e descansar, e saiu do escritório à passos largos.


Mas Les, cheia de curiosidade, a seguiu atrás.


‘O que está acontecendo?’


Desde os cavaleiros na estalagem, passando por Mia na entrada, até a jovem senhora.

‘Algo está estranho.’

Ela seguiu Leonia até uma porta.

Quando viu, um calafrio percorreu a espinha de Les.

Ao mesmo tempo, as palavras de Mia de antes ecoaram em sua cabeça.

‘Você sabe onde está? Não chame a madame pelo nome!’

Mia tinha chamado Varia de madame.

‘Você vai se matar se chamar ela pelo nome de jeito imprudente!’

Les parou de andar.

Um alarme sonoro soou na cabeça dela.

Todo seu instinto gritava que seguir adiante a destruiria mentalmente.

Mas Leonia não demonstrou hesitação alguma.

“Espera aí.”

Ela parou uma criada que passava.

A criada carregava uma bandeja com pratos vazios—parecia conter comida do ✪ Nоvеlіgһt ✪ (versão oficial).

“Quando trouxe isso?”

“N-Nesse meio-dia...”

Ela tinha acabado de recolher, deixando fora a comida na porta.

“Jovem senhora.”

A criada falou hesitante.

“Hoje já faz quatro dias...”

“Você está enganada.”

Leonia bufou.

“Já virou o quinto.”

Depois, ela bateu com força na porta onde a criada tinha acabado de pegar os pratos.

“Seu casal de apaixonados babacas!”

Leonia gritou.

“Já passaram cinco dias! Chega de ficar grudado um no outro e sai logo daqui!”


***


Depois que Ferio e Varia entraram na sala—


“Uau, é a noite de núpcias!”

Leonia correu pela mansão, espalhando alegremente a notícia de felicidade.

Nunca tinha acontecido uma festa assim.

Enfim, o duque de Voreoti tinha tomado sua dama.

O Norte agora tinha uma senhora, e a Casa Voreoti ficara ainda mais forte.

Kara chorou alto e de forma aberta, e Felica comemorou junto com as criadas.

“Hoje à noite, vamos beber até cair!”

Como seu primeiro ato de autoridade como duquesa interina, Leonia ordenou que a mansão fosse inundada de comida e bebida.

Nessa noite, a mansão Voreoti realizou um banquete grandioso até o amanhecer, e todos beberam até cambalear.


Leonia vibrou ao ver a demonstração de músculos dos Cavaleiros Gladiago, pela primeira vez em muito tempo, e até compôs uma música nova sobre músculos.

Assim passou o primeiro dia.


No segundo dia—


Ferio e Varia não deram sinal de saírem de seus aposentos.


Mas, não poderiam ficar sem comer, então Leonia instruiu os criados a levarem refeições leves até a porta de seus pais.


Os empregados que voltaram tinham as faces vermelhas.

“Ugh, esses monstros vigorosos!”

Leonia finalmente entendeu por que Kara não quis enviá-la para aquele quarto.

“Realmente, juventude é potente.”

Depois, entregou uma nota aos empregados para que entregassem junto da comida, pedindo para moderarem na refeição, pois estavam deixando os que passavam desconfortáveis.

“Nenhuma filha é tão filial quanto eu.”

Limpando o nariz com um dedo, Leonia se admirou orgulhosa.

Com generosa tolerância, a criança apoiava a animada atividade do quarto de seus pais.

Ela tinha certeza — esse era o momento que esperava.

Porém—

“...Será que eles morreram de exaustão?”

O problema aconteceu no terceiro dia.

Enquanto comia o café da manhã, Leonia comentou sozinha. Os empregados que a acompanhavam ficaram chocados.

Mas, secretamente, todos concordavam — era possível.

Então, pela primeira vez, Leonia foi até o quarto do Ferio.

“Você está vivo?”

Você não morreu, né?

Felizmente, eles estavam vivos. Algo escapou por baixo da porta.

“Uau! A coleção mais nova de cadernos de esboço de músculos!”

A menina, que estava prestes a ralhar por eles não terem saído, correu com o presente inesperado nos braços.

Mesmo assim, no quarto dia, até mesmo a foca mais feroz já estava exausta.

“Saia logo, seu bando de idiotas!”

Naquele dia, Leonia finalmente bateu na porta e gritou.

“Vamos diminuir isso, pelo amor de Deus! Seus ossos vão apodrecer desse jeito!”

Ela estava assustada.

Subestimou a resistência na cama dos personagens principais de ficção. Isso claramente foi um erro.

Imaginava que eles sairiam depois de um ou dois dias, e se permanecesse por três, teria aplaudido como protagonistas.

Mas quatro dias? Isso já era demais.

“De jeito nenhum meus pais vão morrer na cama de exaustão de verdade!”

Então ela bateu novamente na porta, exigindo que saíssem.

“...Leo.”

Finalmente.

No quarto dia, Leonia ouviu a voz do Ferio.

“...Ai, que chatice!”

Ao ouvir o pai, ela gritou.

“Não saia dessa sala!”

“Você foi quem mandou eu—”

“É nojento, fica aí dentro!”

Leonia agitou freneticamente a mão na direção da porta.


A voz de Ferio era tão baixa e áspera que qualquer um podia perceber que vinha de alguém profundamente envolvido em atividade vigorosa na cama.

“A-Unni ainda está viva?”

Leonia correu para perguntar sobre Varia.

“A-unni ainda está viva? Não—espere, a mamãe está viva? Ela não morreu, né?”

Felizmente, ela devia estar respirando ainda, pois uma voz rouca murmurou uma desculpa.

......

Leonia não tinha mais nada a dizer. Virou as costas, derrotada.

Levou ambas as mãos ao céu, como se dissesse que não tinha mais o que fazer.

Murmurando que a estrutura familiar daquela casa estava totalmente ferrada e que só por ela estar ali permitindo isso tudo acontecer, ela se entregou.

E justo há pouco—

Logo após Les ter chegado ao palácio—

O maratona do quarto dos pais tinha oficialmente passado do quinto dia.

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