
Capítulo 186
Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.
“Mesmo ela nunca tendo dito em voz alta...”
Os olhos de Ferio, fixos na sepultura, pareciam revisitar o passado.
“Acho que ela se sentia desconfortável com os novos irmãos.”
Para Regina, que tinha nascimento nobre, a ideia de sua antiga criada se tornar madrasta devia ser desagradável, até repulsiva.
Por isso, ela nunca chamou as crianças do conde com sua nova esposa de irmãos.
“A condessa parecia uma pessoa boa,”
Leonia disse, inclinando-se levemente contra Ferio.
“Por mais que alguém seja gentil, ela ainda pode ser antipática para outra pessoa.”
Ferio suavemente passou os dedos pela testa de Leonia ao dizer isso.
Leonia inflou os lábios e mumurou uma repreensão cheia de moralidade.
“Como era Regina?”
Varia perguntou.
“Ela era imatura,”
Respondeu Ferio imediatamente.
“A vovó, a governanta, e o tio Lupe disseram que gostavam da minha mãe biológica.”
Leonia de repente entrou na conversa.
“Mas eu não sou fã.”
Ferio fez uma expressão de reprovação. Ele nunca gostou de Regina, a mulher que todos adoravam.
“Então aquela história... era sobre meu pai!”
Leonia deu uma risada alta.
Os três fecharam os olhos e fizeram uma oração pelo descanso pacífico de Regina.
Varia, em particular, orou com mais devoção—mas, inesperadamente, foi ela quem abriu os olhos primeiro.
“O que você pediu em oração?”
Leonia perguntou, enquanto deixavam o cemitério.
“Agradeci por ela ter permitido que eu conhecesse uma filha tão linda e maravilhosa.”
Varia respondeu, segurando a mão de Leonia. Leonia sorriu amplamente.
“E eu?”
Ferio perguntou, segurando a outra mão de Leonia. Uma leve ponta de ciúmes estampava seu rosto bonito.
Varia caiu na risada com a pergunta surpresa.
“Ai, que b emirra!”
Leonia, por outro lado, parecia constrangida com o pai.
“Mamãe, você entende, né? Nosso pai pode parecer adulto, mas lá no fundo ainda é uma criança.”
Ela fez fofoca, dizendo que a inveja de Ferio era inacreditável. Ela não esqueceu de chamá-lo de mesquinho também.
“Se você não o elogiar nem um pouquinho, ele faz birra assim. Sério, ele é tão...”
“Nossa Leo realmente consegue dizer poeticamente que não precisa de herança.”
“...Viu? Sou perfeita. Mamãe, me elogie um pouquinho o papai.”
Para garantir a herança.
Leonia implorou com olhos lacrimejantes.
“Pfff!”
Justo quando Varia quase conseguiu parar de rir, ela exploded novamente, agarrando a barriga de tanto rir.
***
Na sala de estar, Les aguardava nervoso.
‘Devo chamá-la de Senhora, né?’
Alguns dias atrás, ao esforçar-se para entrar na propriedade, ele vira Varia saindo de uma sala com o duque de Voreoti.
Parece que eles passaram cinco dias juntos.
Les, paralisado no lugar, teve que ser ajudado por duas empregadas próximas até casa.
E agora, dois dias depois—
‘Não Varia. É Senhora, Senhora...’
Esperando por Varia, que sairia brevemente, Les praticava a forma adequada de chamá-la.
“Les!”
Mas foi em vão.
“Varia!”
Assim que a viu retornar com a família, Les, instintivamente, soltou o mesmo nome de antes.
“Faz tanto tempo!”
“ Seu idiota...!”
Les ficou quase sem ar.
Varia parecia realmente feliz.
Ela tinha um sorriso relaxado—algo que Les nunca tinha visto enquanto ela morava no dormitório do palácio.
Ela sempre carregou um peso pesado sozinho, mas agora, finalmente, tinha uma família na qual podia confiar e contar.
Embora Les tivesse originalmente a missão de monitorar Varia por ordem de Ferio, ele também genuinamente queria vê-la feliz como amigo.
“Como você tem estado?”
Varia abraçou Les calorosamente.
Então Ferio e Leonia apareceram por trás dela.
Leonia acenou com familiaridade para Les.
Ferio, por outro lado, observava silenciosamente os dois amigos se abraçando. Seu olhar claramente dizia: Afaste-se, essa é minha esposa.
Les rapidamente recuou, entendendo a ameaça silenciosa.
“Ei.”
Segurando ainda a mão de Les, Varia perguntou,
“Você me espionou desde o começo?”
“...Vamos lá.”
Les se sentiu tonto com a pergunta repentina, que não dava espaço para respirar.
Ele não esperava que ela fosse perguntar de forma tão direta.
“Pois é...”
Antes que pudesse responder, olhou para Ferio. Sentado firme ao lado de Varia, Ferio fingiu que não se importava, apenas assentiu discretamente.
“Foi por ordem.”
Les respondeu honestamente e acrescentou rapidamente, preocupado que ela entendesse mal,
“Mas eu realmente te considerei uma verdadeira amiga! Pode não parecer, mas eu me diverti e aproveitei cada momento com você.”
Mesmo que fosse uma ordem, ficar cinco anos com alguém não era fácil.
“...Está brava?”
Les perguntou.
“Não.”
Varia balançou a cabeça.
Estranhamente, ela não estava nem um pouco zangada.
Embora fosse um momento em que ela tinha todo o direito de gritar “Como pode mentir pra mim!”, na verdade, ela se sentia grata a Les.
“Eu também senti o mesmo.”
Nas horas mais difíceis, foi graças a Les que ela conseguiu perseverar.
E por causa dele, Ferio veio até ela. De muitas formas, Les tinha feito algo realmente significativo.
“Siiiii...”
Tomado de emoção, Les a abraçou e soluçou.
“Você é muito gentil, de verdade.”
Observando-os, Leonia inclinou a cabeça, incrédula.
“Se fosse comigo, tinha arrancado o couro deles.”
Ela disse, estendendo o braço para o alto, balançando-o violentamente como se estivesse de fato destruindo o cabelo de alguém.
Surpreendido, Les se cobriu a cabeça com as mãos.
“-Eu- só estava seguindo ordens!”
“Ah, era brincadeira.”
“Não, era sério.”
Les retrucou com uma voz indignada.
Os gestos selvagens de Leonia há pouco não eram uma brincadeira, de jeito nenhum.
“...Enfim.”
Ferio, a origem de tudo isso, foi o último a falar.
“Bom trabalho.”
“De nada.”
Les encolheu os ombros. No fundo, não tinha sido uma missão tão ruim assim.
Ele ganhou uma amiga, que logo seria duquesa, e conseguiu bastante dinheiro com toda essa situação.
No geral, um final feliz.
“E quanto àqueles dois?”
Ferio foi direto ao ponto.
Ele perguntava sobre o barão Onokenta e o oficial administrativo com quem ele mantivera um caso—que fugira para as Montanhas do Norte assim que Les partiu para sua cidade natal.
“Estão vivos, por enquanto.”
Disse Les.
Gostaria que os monstros simplesmente os comessem...
Que não fizessem nada pelo qual pudéssemos ser culpados.
Ao menos, deveriam assustá-los bastante.
Leonia e Lupe trocaram esses pensamentos, que foram repassados direto para os cavaleiros.
Os cavaleiros que estavam rastreando os dois rumo às montanhas apareceram em um certo ponto.
“É muito perigoso além daqui.”
“Por favor, desçam a montanha.”
Tentaram dissuadi-los.
Claro que era inútil.
Barão Onokenta, insistindo que estava cumprindo a vontade do imperador, continuou obstinadamente. O outro oficial, assustado, parou.
No final, o barão subiu sozinho.
“O barão...”
Varia franziu o cenho. Memórias de sua relação ruim com Onokenta voltaram.
“Aquele cara já assediou minha irmã.”
Leonia rapidamente contou para Ferio.
De entre os lábios dele saiu um som de ranger—os dentes trincados. Uma sentença silenciosa de morte para Onokenta.
“Seja por sorte ou azar, nenhum monstro apareceu.”
Continuou Les.
“Mas o barão caiu da montanha.”
“Ele caiu?”
Varia piscou, surpresa com a ideia de um homem tão grande rolando morro abaixo.
Depois, deu uma risadinha com a imagem.
Um pouco—sentiu uma sensação de justiça.
“Ele foi assustado pelo uivo de um monstro.”
A área onde os cavaleiros intervieram era conhecida por frequentes aparições de monstros.
Sensível ao som de intrusão, um monstro soltou um grito alto. O barão, assustado, tropeçou e caiu rolando.
“E onde ele está agora?”
Ferio perguntou.
“Ele está reclamando.”
Les rangeu a língua.
Quando visitou o barão ontem, o homem não refletiu em nada—apenas amaldiçoou os cavaleiros de Gladiago por não terem protegido ele.
Depois, viu os cavaleiros atrás de Les e desmaiou na hora, com o rosto pálido.
Les tinha certeza de que nem os monstros dariam bola para comer alguém daquele jeito.
“...Então, não tem jeito.”
Ferio falou.
Ele organizou que somente Les e mais um oficial encarassem as inspeções do Norte.
Quanto ao Onokenta, ele relataria a má conduta do barão diretamente à família imperial.
“A família imperial vai abandona-lo?”
Leonia perguntou.
“Provavelmente sim.”
Varia respondeu.
“Eles alegaram publicamente que tudo foi feito em benefício do Império.”
Externamente, tentariam parecer cooperativos com todas as quatro regiões.
Até com o Norte, que era notoriamente hostil à família imperial.
“Mas ainda não.”
Onokenta ainda era uma peça útil. Trocar uma peça dessas seria ineficiente.
“O que quer dizer que podemos usar isso também.”
Varia concordou com Ferio.
Assim, o Norte enfrentaria oficialmente a família imperial.
“...Ah!”
Leonia bateu palmas com uma expressão de realização.
“Estamos fazendo eles acharem que não sabemos de nada sobre o esquema deles, né?”
O Norte trataria o erro do Onokenta como um acidente no trabalho.
Isso significava que eles fingiriam não estar cientes da conspiração imperial.
A família imperial não podia descartá-lo imediatamente—então lidar-se-ia com isso como um erro individual.
O plano deles estaria escondido por trás da falha do Onokenta.
E o Norte usaria essa falha como uma máscara de ignorância.
Não era só isso.
“Também bloqueamos a exploração do Norte por eles.”
A espionagem imperial na região norte era extremamente desconfortável.
Entre os três oficiais enviados, o mais perigoso era Onokenta.
Ele buscava sucesso na missão e conquistar o favor do Imperador Subiteo.
Provavelmente carregava uma ordem secreta do próprio imperador.
Por isso tentou subir as Montanhas do Norte.
Agora, só sobrara uma oficial—sua cúmplice—e ao lado dela estavam Les e os Cavaleiros de Gladiago.
Não era exatamente fácil mover-se livremente.
“Na verdade, podemos tirar alguma coisa dela ficando de cara feia e nervosa.”
Podiam obter pistas por meio de suas ações suspeitas ou palavras descuidadas.
“Mesmo que o barão diga alguma coisa, ela não vai ousar agir.”
“Muito bem.”
Ferio deu um doce para Leonia como elogio.
“Humm, docinho!”
Sorrindo orgulhosa, Leonia encheu a boca com o doce. O sabor de morango com leite estava mais forte do que nunca.
“Nossa moça é mesmo impressionante.”
Varia olhou para Leonia com admiração.
“Então me chame pelo meu nome!”
Leonia disse, com o doce fazendo uma de suas bochechas inflar.
“A-meu, ainda acho meio estranho falar...”
“O que é estranho agora?”
Você já foi longe com o papai. Ainda assim, aquela pequena e dedicada garota guardou o último comentário bem fundo no coração.