Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.

Capítulo 180

Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.


Os olhos fechados de Ferio franziram levemente.


“...De repente?”


Já haviam se passado vários dias desde a visita à Casa Aust.


“Você demorou bastante para perguntar.”


“Não seja sarcástico!”


“Então eu não deveria ser sarcástico?”


“Vou deixar uma marca no seu rosto, pode apostar!”


Leonia murmurou uma ameaça assustadora, dizendo que deixaria uma marca indeletável naquele rosto bonito dele—uma que não pudesse ser apagada.


Só então Ferio se endireitou.


“Antes de tudo, sua pergunta está errada.”


Ferio realmente tinha ido ao Sul visitar a Casa Aust.


Mas foi porque eles o convocaram primeiro.


Ou seja, quem tinha uma real missão era a Casa Aust.


Ferio tinha deliberadamente mudado seus planos de viagem porque disseram que tinham algo para lhe contar.


“Sério? Então eles preveram algo a nosso respeito...?”


“Silêncio.”


Ferio levou um dedo aos lábios. Não havia mais ninguém por perto, mas era um sinal para tomarem cuidado com as palavras.


“Silêncio!”


Leonia copiou-o.


Naquele momento, Ferio viu um vislumbre da jovem Leonia.


A pequena pervertida que costumava usar o cabelo em rabo de cavalo todo dia frequentemente imitava suas ações por brincadeira.


“...Você cresceu, Leo.”


Antes que percebesse, Ferio estava sentado completamente ereto.


Com os braços apoiados nos joelhos, ele se inclinou levemente para frente para encarar o olhar de Leonia.


“De repente?”


Leonia soltou uma risadinha ao ouvir o comentário repentino dele.


“Não é novidade eu ter crescido!”


“Você também está ficando velha, hein.”


“Ugh, sério, que irritante...”


O filhote de besta fez uma careta, os olhos flamejando como uma machadinha. Como sempre, ele não deu nem um momento para ela se emocionar.


Leonia resmungou, culpando Ferio—completamente irracionalmente—por sua seca emocional.


“Mas e você?”


“Eu?”


“Você ficou sozinho com o Duque de Aust.”


“Ah...”


Leonia hesitou, coçando a nuca.


“Não é que não tenha sido nada, mas...”


Ela ficou em silêncio por um momento, depois falou novamente com uma expressão pensativa:


“Você passou na minha antiga instituição de crianças porque aquela pessoa mandou?”


Leonia decidiu deixar de lado a estranha profecia que o Duque de Aust tinha compartilhado com ela.


Estava desconfortável falar sobre aquilo agora, além de não conseguir deixar de pensar no conselho que Salus lhe dera.


<Eu não vou tirar de você, então fica tranquilo.>


Leonia reafirmou sua determinação.


Ela herdaria seu título por direito legítimo de sucessão.


Mesmo que levasse tanto tempo que suas feições enrugassem e os cabelos pretos de Ferio ficassem completamente grisalhos.


Um futuro distante não iria impedir um pai e uma filha que já eram tão ligados.


“Isso mesmo,” respondeu Ferio.


“Eu ia te contar isso eventualmente.”


Mas ele continuou, dizendo que a oportunidade nunca surgia e, por isso, ele ia adiando.


“Você se preocupa com as besteiras, pai.”


Leonia sorriu.

“É seu problema, não é?”


Ferio, no entanto, respondeu seriamente.


Nunca tratou as questões relacionadas à sua filha com leviandade.


Mesmo quando ela era mais jovem, sempre perguntava primeiro a opinião dela e a ouvia atentamente.


“Hmm, pai estiloso!”


Leonia sorriu larga, claramente satisfeita.


“E você?”


“Eu, hein?”


“Só isso?”


Ferio lembrou-se de que naquele dia Leonia não parecia lá muito bem.


“...Ouvi uma coisa,” ela disse.


“Mas Salus me deu uma ordem para não contar pra ninguém. Eu ia te falar naquele dia, mas ela me impediu.”


A descrição dela parecia uma reclamação de quem estava se queixando.


Ela não queria enganar o pai nem seguir a profecia, mas seu tom carregava uma pontinha de birra.


Ferio escutou silenciosamente, assentindo levemente.

“Então não conte.”


Ele concordou com o julgamento de Salus.


Depois, ele deu a Leonia uma explicação adicional sobre os poderes do Sul que ela ainda não conhecia.


“O poder deles é uma espécie de conselho.”


“Conselho?”


“Sim. Às vezes parece inútil, mas todos os futuros importantes que a Casa Aust já viu serviram como pontos de orientação para alcançar os melhores resultados.”


E eles até usaram esse poder para ajudar outras regiões.


Por isso, apesar de nunca aparecer na capital, as autoridades do Sul não eram criticadas pelos demais líderes regionais—pelo contrário, eram protegidas.


“Conselho...” Leonia inclina a cabeça.


Era realmente um conselho ela ouvir que deveria aceitar o título do pai?


A profecia desagradável do Duque de Aust agora parecia um pouco diferente—apenas um tantinho.


Talvez aquelas palavras tivessem algum significado oculto.


“Hmm, então vou pensar com mais calma.”


Leonia acreditava mais nas palavras de Ferio do que na própria profecia.


Ferio olhava para sua filha, que ainda não tinha uma resposta e parecia frustrada, e seus lábios se suavizaram num sorriso gentil.


Ela poderia ter crescido fisicamente, mas ainda era uma criança ingênua. Esse fato dava um certo conforto a Ferio.


Quando as duas voltaram para a vila, encontraram Varia conversando tranquilamente com as criadas.


“Varia unni!”


Leonia, curiosa, correu até ela. Varia sorriu brilhantemente e mostrou o que ela carregava nos braços.


“Olha só isso.”


“Waaah!”

Os olhos de Leonia arregalaram.


“É um filhotinho!”


Um filhote preto se contorcia nos braços de Varia.


Seus olhos e o focinho eram brilhantes e úmidos, refletindo-se na pelagem fofa.


O filhote apoiava as duas patas dianteiras em um braço de Varia e se deitava confortavelmente em seus braços.


“Não é fofo?”


Varia acariciou delicadamente o queixo do filhote com o dedo.


Leonia começou a pular no lugar, querendo fazer o mesmo, mas se lembrou de Ferio atrás dela.


“Pai, olha! Um filhote!”


“Vossa Graça, olhe isso! Não é fofo?”


Leonia e Varia olharam para Ferio com olhos suplicantes.


“......”


Ferio sentiu uma pressão naqueles olhares.


Nenhuma delas se esforçava para esconder o desejo de ficar com o bichinho só porque achavam “muito fofo”.


“Quem trouxe isso aqui?”


“Pai! Não chame de ‘isso’!”


“Ah, bem, o Sir Gaber...”


“Opa Paavo fez uma coisa boa!”


Porém, Ferio parecia pouco contente com aquilo.


Depois de olhar um tempo para o filhote, finalmente ordenou para colocá-lo de volta no local onde foi encontrado.


“Pai, por quê? Então ele vai ficar sozinho!”


“Vossa Graça, eu pagarei pelos cuidados dele. Podemos ficar com ele, por favor?”


Mas a resposta veio fria, e tanto Leonia quanto Varia imploraram novamente.


“Não é um cachorro.”


Ferio solicitou a uma criada próxima que trouxesse Paavo de volta.


“É um filhote de urso.”


Justamente naquele instante, o filhote deu umмотрите✿


“...Ok, então não é um cachorro.”


Leonia cochichou.


Varia congelou, ainda segurando o filhote de urso em seus braços.


***


O filhote de urso foi levado de volta à floresta pelos cavaleiros.


Eles até confirmaram que a mãe urso veio buscá-lo.


Por sorte, logo após devolverem o filhote ao local onde foi encontrado, a própria mãe apareceu.


Ao ver seu filhote perdido, ela lambia furiosamente e o abraçava com afinco.


E, ao voltarem, os Cavaleiros de Gladiago foram severamente reprimidos por Ferio.


Isso já tinha acontecido há dois dias.


“Nem para distinguir um filhote de urso de um filhote de cachorro...”


Finalmente, chegou o dia de partida do Sul.


Ferio, ainda incrédulo com o incidente, murmurava de vez em quando.


Seu tom de irritação podia ser ouvido até fora da carruagem, e o clima no grupo Voreoti estava mais pesado que o habitual.


‘É natural que o pai esteja preocupado.’


Assim, desta vez, Leonia não conseguiu realmente apoiar os cavaleiros.


Se a mãe urso tivesse ficado agitada após perder seu filhote, as coisas poderiam ter saído do controle seriamente.


Especialmente causando um incidente fora do Norte—isso seria um problemão.


“Então os ursos também vivem no Sul, hein.”


E perto da costa, nada menos.


O que surpreendeu Leonia não foi o fato deles terem trazido um filhote de urso—mas o fato de que ursos viviam aqui no Sul ao todo.


Logo fora da vila, havia o mar, e mesmo agora, a caminho do Portão, ela podia ver o oceano pela janela da carruagem.


“Sinceramente, parecia mesmo um filhotinho.”


“Exatamente?”


Varia entrou na conversa discretamente.


“Foi um erro bem fácil de cometer.”


Varia ainda estava bastante envergonhada para olhar para Ferio—nem tinha conseguido distinguir um cachorro de um urso.


Quando as cavaleiras foram chamadas à atenção, ela sentiu como se também tivesse sido admoestada.


“...Unni, isso é pior pra você.”


Leonia a olhou com cara de boboca. Como alguém do Sul podia se confundir daquele jeito?


“Leonia, ninguém sabe de tudo.”


Ferio a repreendeu suavemente.


“Todo mundo erra.”


“Você é incrível, pai. Você agia totalmente diferente antes.”


Ele havia escorraçado as cavaleiras por não reconhecerem um animal tão simples.


Agora, com Varia, de repente, ele era o homem mais gentil e compreensivo do mundo.


Leonia tinha certeza de que se Ferio tivesse mostrado apenas uma fração daquela generosidade com as cavaleiras, o clima na Voreoti estaria muito mais leve agora.


Porém, Ferio, sem vergonha, não se deixou abalar com sua provocação.


“Quando voltarmos à fazenda, vou te ensinar direitinho sobre os animais do Norte.”


Ele fez até uma promessa orgulhosa.

‘Esse homem não sabe flertar?’


Leonia balançou a cabeça.

‘Ele devia estar exibindo esses músculos!’


Embora não fosse sua intenção original, Varia ficou obcecada por músculos por causa de Leonia.

Era sério o suficiente para ela fazer os treinos que Leonia lhe ensinou diariamente e registrar tudo.

Depois, enquanto tomava chá com Leonia, conversavam a fundo sobre músculos.

<Os peitorais do Vossa Graça parecem maiores que os meus.>

<Se o Vossa Graça apertar alguém com os antebraços, essa pessoa morre na hora, né?>

<Recentemente, os glúteos dele estão...>

Apesar de estar tão fascinada pelos músculos de Ferio, ela não fazia uso disso.

<Ele só usa aquele cérebro esperto dele para se livrar de gente inútil.>

Era ok ser descuidada ao lidar com o imperador ou as criaturas do Sul.

Mas, neste momento—agora mesmo—ela desejava que ele pensasse um pouco mais em como se exibir para a mulher que amava.

Ela se lembrou daquele romance ardente, onde só se cruzar de olhares já levava os personagens a transar na cama. Era um potencial desperdiçado.

<Vou ajudá-lo depois.>

Ridiculamente puro.

Leonia soltou um suspiro profundo.

<Juro que ele ficaria perdido sem mim.>

Pensando isso, um sorriso presunçoso cruzou os lábios de Leonia.

“Ela parece estar de bom humor.”

“Leonia às vezes sorri sozinha assim.”

“Que fofa.”

“Ainda é uma criança.”


Enquanto isso, Ferio e Varia trocavam uma conversa serena, sem perceber o que Leonia estava pensando, e sorriam suavemente juntos.


“Estamos quase chegando.”


Ferio, de bom humor, olhou para fora e comentou.


O mar tinha desaparecido.


A carruagem passou pelo Portão num instante.


***


Kara não conseguiu falar.


As taças apoiadas no nariz do mordomo refinado escorregaram visivelmente.


Ele achava que deviam ter escorregado demais, dificultando a visão adequada da cena à sua frente.


Então ele ajustou as lentes.


Para garantir, até tirou um lenço e as limpou cuidadosamente.


Porém, na carruagem preta que simbolizava a Casa Voreoti, o número de pessoas que saíam permaneceu em três.

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