Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.

Capítulo 173

Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.

Leonia odiava livros didáticos.


Até mesmo as tarefas dadas pela Condessa Bosgruni durante a aula de etiqueta eram lidas somente com muita resistência e resmungos.


Foi nesse momento que Leonia percebeu pela primeira vez que não tinha jeito para ser uma jovem lady refinada.


Não que ela tivesse qualquer interesse em ser uma, na verdade.


No entanto, havia um padrão que ela precisava atender apenas por ser nobre.


Além disso, como futura sucessora da Casa Voreoti — o auge da nobreza — ela não podia parecer inadequada, então ela se obrigava a ler aqueles livros.


“Eu não gosto desse tipo de coisa.”


“A gente está no meio da aula, não está?”


“Não gosto disso, professora...

Leonia fez um biquinho no formato do número três. Isso significava que ela realmente odiava aquilo.


Porém, Varia não recuou.


“Tenho a responsabilidade pela sua educação, minha jovem.”


“Se você namorar e casar com meu pai, não precisará mais se preocupar com isso.”


“Muito pelo contrário, é justamente por isso que tenho que me esforçar.”

O casamento ainda estava longe, mas se Varia realmente se casasse com Ferio e se tornasse a duquesa —

Então ela se tornaria madrasta de Leonia.


“Ahhh...”


Leonia percebeu que sua lógica era falha.


‘Ser mãe tem mais prioridade do que ser tutora!’


Ugh.


Ela bateu a cabeça na mesa com um estrondo alto.


“Agora você entende, né?”


Varia gentilmente tocou a testa de Leonia com a mão, tentando evitar que ela a erguesse novamente para a mesa.


“De agora em diante, vamos ler esses livros por apenas trinta minutos por dia, para cultivar uma mentalidade saudável.”


Ela sorriu docemente enquanto batia na pilha alta de livros ao seu lado.


Porém, nos olhos de Leonia, ela parecia uma fera feroz que não recuaria, provocando arrepios por todo o corpo.


Varia logo explicou, com gentileza, o motivo de ter preparado esse plano de estudos.


“Você é realmente uma menina extraordinária, minha jovem.”


Pelá o que Varia tinha observado até então, Leonia era uma criança excepcional.


Era boa nos estudos, na pintura e até tinha uma habilidade extraordinária com espadas. Ainda cozinhava bem, fazendo biscoitos de vez em quando para os funcionários da propriedade.


Corajosa, divertida e até gentil.


Varia já valorizava muito Leonia.


Por isso, ela tinha suas preocupações.


“Porém, é preciso usar uma linguagem mais educada.”


O modo direto de falar de Leonia incomodava ela um pouco.


Na verdade, o que a preocupava eram as piadas indecentes e inadequadas que Leonia, ocasionalmente, fazia — sobretudo aquelas com vulgaridade e insinuações [1].


Sempre que uma frase muito vulgar saía da boca da garota de doze anos, o coração de Varia pulava uma batida.


Claro que ela já tinha se acostumado um pouco com isso — mas sentia que esse era justamente o problema. Não era algo com que se devia acostumar.


Ela pensou seriamente nisso, pediu a permissão de Ferio e se preparou para o dia.


“Essa irmãzinha é fofa.”


Porém, Varia tropeçou logo no começo.


“Ninguém consegue me domar.”


Leonia ergueu o queixo e fez um gesto desdenhoso, como se dissesse: ‘E daí?’


As epauletes nos ombros dela tremeram com o movimento da sobrancelha.


“Eu não olho para trás.”

Querendo dizer que ela não tinha arrependimentos pelo que tinha feito de perverso.


“Você é a mais fofa, minha jovem.”


Porém, Varia parecia ainda mais animada.


Ela até parecia acolher o desafio diante de si.


“Eu não desisto fácil.”

Leonia fez um biquinho de pena fingida e sorriu de canto.


“Até meu pai desistiu de mim cedo, e você acha que vai vencer?”


Ferio uma vez disse isto:


Resgatar a inocente infância de Leonia era mais difícil do que liderar uma rebelião completa.


“Quanto mais difícil, mais animada fico.”

Para alguém como Varia — que morreu e voltou na vida anterior — uma menina pervertida de doze anos não era nada demais.


“Vamos ver se consegue.”

A garota desprezou a determinação apaixonada de Varia com um sorriso desdenhoso.


“Já estou na sua mão. Sou eu quem te abriu os olhos para o mundo dos músculos.”


“Isso é diferente.”


“Não, é igual.”


“Se me perguntar, só abri meus olhos para os músculos do duque.”


Varia respondeu com orgulho.


“Sou fascinada por músculos de uma pessoa específica. Não assoto todos os músculos indiscriminadamente como você.”


“......Isso não é mais perigoso?”

De repente, Leonia sentiu uma pontada de pena por Ferio.


Parecia que até ele não estava seguro das obsessões de Varia por músculos.


E Varia parecia nem imaginar que tipo de futuro aquilo poderia representar para ele.


“Minha jovem, senhorita Varia.”


Naquele momento, Tra entrou e informou que Ferio tinha acabado de chegar à propriedade.


“Papai!”


Leonia correu até o hall de entrada. Graças ao retorno oportuno de Ferio, ela conseguiu escapar daquela terrível lição de etiqueta.


Na verdade, ela tinha ficado um pouco assustada com a determinação de Varia anteriormente.


Quando ele chegou, Ferio a levantou nos braços.

“Mmm, beijo.”


“O que foi isso?”


Embora parecesse estranhar por ela ter feito biquinho do nada, Ferio gentilmente ofereceu a face para um beijo.


Depois do beijo, pai e filha acenaram para Varia, vindo descendo as escadas.

“O-oi, você voltou?”


Varia se aproximou hesitante.


“Tô em casa.”


Ferio respondeu enquanto deixava Leonia no chão.

Ele rapidamente tirou o casaco e entregou a Tra, que sabiamente se afastou.

“O que vocês fizeram enquanto eu não estava?”


Ao se dirigirem à sala de estar, Ferio perguntou o que tinham feito na sua ausência.

“Tentei dar uma aula com a jovem senhora.”


“Ela quer fazer aula de etiqueta.”


“Eu tenho certeza que vou conseguir.”


“Eu aposto toda a fortuna da Voreoti que essa irmãzinha falha.”


“Ainda não é sua.”


Ferio acariciou suavemente a cabeça da criança, como se dissesse que ela pelo menos tentasse dar uma chance a Varia.


Porém, Leonia, que gostava do seu cabelo hoje, rapidamente se esquivou da mão dele.


“Mais importante, a reunião!”


Leonia segurou a mão de Ferio e perguntou:


“Como foi?”


“Foi aprovado, né?”


Varia também perguntou apressada.


A reunião do conselho nobilíssimo tinha tratado do projeto de construção da estrada imperial.


Varia se lembrou de como o Conde Erbanu e a facção de Olor tinham pressionado bastante para sua aprovação antes de sua regressão.


Ela não sabia se tinha conseguido na época — porque foi morta por Remus Olor antes de descobrir.


E isso era algo que não poderia de maneira alguma passar. Se passasse, a família imperial certamente iria mirar as Montanhas do Norte. Isso tinha que ser impedido.


Porém, a previsão de Varia estava errada.

“Foi aprovado.”


Desespero encheu os olhos verdes de Varia.


“Sabia!”

Leonia levantou o punho em comemoração, como se estivesse encantada por sua previsão ter se realizado.


Varia, magoada com a reação, perguntou com um leve indignação.


“A família imperial agora enviará pessoas para o Norte. Eles já estavam preparando tudo antes mesmo da reunião! Os que forem enviados vão destruir o Norte!”


“Não precisa ficar tão chateada.”


“Ugh, mas mesmo assim...!”

Ferio delicadamente cutucou o nariz de Varia com o dedo.


Espantada, Varia engoliu sua explosão de indignação.


Ela rapidamente cobriu o nariz com as mãos, mas não conseguiu desviar o olhar dos olhos negros e gentis de Ferio.


“Ai, papai...!”


Leonia fez uma careta, como se estivesse enojada.


“Tô aqui, sabia!”

Por favor, mantenham suas demonstrações de amor em particular, ela implorou sinceramente.


“Ver os pais se amando bem de pertinho realmente não é agradável.”


“—P-pais...!”

Varia fez um som confuso e nervoso.


Ela ficou envergonhada, mas também um pouco feliz por Leonia ter a incluído na palavra ‘pais’ de forma natural.


Ao mesmo tempo, sentiu pena por ter mostrado algo que uma criança não deveria ver.


“...Você não gosta desse tipo de coisa?”


Ferio levantou uma sobrancelha, realmente surpreso com a reação de Leonia.


O filho que ele conhecia adorava assistir aos romances dos outros e se perder em fantasias selvagens.


“Eu gosto.”


Leonia respondeu com orgulho.


“Mas percebi que não gosto quando é com meus próprios pais. Descobri isso há pouco tempo.”


Ela já achava maravilhoso presenciar o romance de Ferio e Varia de perto.


Mas, agora que isso estava acontecendo de fato, só a incomodava.


“Pobrezinha.”


Apesar das palavras, um sorriso claro surgiu no rosto de Ferio.


“Vai ver isso todo dia a partir de agora.”


“Que irritante, sério...!”


Leonia resmungou irritada.


“...Enfim, realmente passou, né?”


Enquanto o pai e a filha discutiam, Varia, ainda atordoada, finalmente conseguiu falar.


Parecia que todas as suas tentativas passadas de impedir aquilo estavam se desfazendo como bolhas e sumindo.


“Não teve jeito por causa dos números.”


A maioria dos nobres na reunião eram do Sul e da Capital — todos apoiando o Imperador.


“Provavelmente por isso Olor e Erbanu foram incluídos na lista recentemente.”


O Imperador Subiteo, intencionalmente, rompeu a neutralidade para fazer isso acontecer.


Ele era obcecado por controlar “aquilo” nas Montanhas do Norte.


“Sim, não há outro motivo para adicioná-los.”


Leonia concordou.


“Você acha que Olor também quer ‘aquilo’?”


Ela perguntou a Ferio, após refletir por um momento.


“Depende de quanto ele sabe.”


Ferio respondeu com cautela.

“Aquele bando... devem ter cérebro depassar de pássaro...”


“Não insulte os pássaros. Os verdadeiros pássaros não fizeram nada de errado.”


“Verdade.”


“Hum... “


O pai e a filha bestiais, que tinham se desviado do assunto novamente para reclamar, viraram suas cabeças.


“Posso perguntar o que exatamente há nas Montanhas do Norte?”


Varia, que vinha ouvindo em silêncio, cuidadosamente formulou a dúvida que há tempos a atormentava.


De qualquer forma, parecia improvável que a família imperial estivesse atrás das joias enterradas nas montanhas.

Era estranho que tanto eles, quanto Olor, estivessem atrás da pesquisa de Ardea — e que sim tivessem invadido o laboratório para conseguí-la.

Além disso, a obsessão por Os Portões era suspeitamente intensa.

Mas estava claro que eles tinham como alvo as Montanhas do Norte. Varia se sentia insegura, pois não entendia por quê.


“......”


“......”


Ferio e Leonia se olharam em silêncio, sem responder.

Algo claramente passou entre eles, como uma comunicação silenciosa.


“Existe uma lenda que continua no Norte.”


“Uma lenda?”

Varia piscou, surpresa com a palavra repentinamente surgida.


“Mais uma tradição que é passada oralmente.”


Ferio lançou um olhar para Leonia, como se dissesse, ‘Certamente?’ Ela acenou de leve, como quem confirma.


Ambos agiram como se fosse algo comum, sem maior importância.


“Dizem que um ‘deus’ vive além das montanhas.”


“U-um deus?”

Varia ficou cada vez mais confusa ouvindo tudo aquilo.

Se o Império fazia tudo isso acreditando em algum mito ridículo, então o futuro do império era uma completa desesperança.

Gastando dinheiro público e exercendo poder com base em boatos mal elaborados?

Varia ficou realmente aliviada por o Império Bellius ter uma estrutura federal.

A única razão de o país ainda funcionar é porque os líderes regionais têm bom senso.


“...Será que isso realmente existe?”


Porém, ela rapidamente reconsiderou sua opinião.

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