
Capítulo 167
Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.
Chegaram dois convites para o chá.
Um era dirigido a Leonia.
O outro, a Varia.
“Faz tanto tempo... estou mesmo nervosa.”
Sentada na carruagem, Varia respirava fundo repetidamente, tentando se acalmar.
Quando era mais jovem, costumava participar de chá com meninas da sua idade. Mas desde que entrou na Academia e assumiu um cargo no Tesouro, não tinha ido a nenhum.
“Não precisa ficar assim tão nervosa.”
Ferio, sentado do lado oposto, falou calmamente.
“Só vá lá e aproveite.”
“Mas não é um chá comum.”
Varia soltou outra respiração longa, claramente incapaz de relaxar.
Ela olhou para o convite no colo.
Um envelope amarelo, da cor do ouro, e dentro dele, uma carta selada com o emblema de uma águia dourada.
Era um convite da Imperatriz Tigria.
O que significava que não se tratava de um chá qualquer.
'A segunda pessoa mais poderosa do Império.'
Suas mãos, descansando nos joelhos, cerraram-se sem querer. Varia ia adentrar no círculo social da capital.
Se ela desse uma pisada na bola, tudo poderia se transformar em desastre. Desde o último banquete do Neocycle, as pessoas começaram a tratar Varia como se ela já fosse praticamente a Duquesa de Voreoti.
Varia se culpava. Ela só tentou se afastar da família, e de alguma forma acabou envolvida numa avalanche de boatos descontrolados.
E se ela trouxesse problemas à Casa Voreoti?
'Especialmente—'
Varia olhou de lado.
Bem ao seu lado, Ferio estava com um braço apoiado na janela, olhando para fora. Sentindo seu olhar, ele lentamente virou a cabeça em sua direção.
Seus olhos se encontraram por um instante, antes que Varia rapidamente desviou o olhar.
'Ai, meu Deus...'
Tudo o que levou foi aquele olhar fugaz, e seu coração disparou como louco. Sua face começou a corar.
Desde aquele dia...
Varia não conseguiu mais olhar para Ferio do mesmo jeito.
A versão confiante e justa de si mesma, que um dia declarou com orgulho que sabia separar negócios de emoções, agora parecia uma zombaria.
“Eu— vou tomar cuidado para não envergonhar a Casa Voreoti.”
Ela se forçou a falar com tom calmo.
Ao mesmo tempo, passou a mão atrás da queimar as bochechas, tentando se refrescar.
“Você não é alguém que envergonha a Casa Voreoti.”
Ferio estendeu a mão e abaixou a dela. Seu rosto avermelhado agora ficava totalmente exposto.
“...A partir de agora, você deveria deixar o cabelo solto.”
E, de repente, veio a bronca.
“...O quê?”
Varia arregalou os olhos, surpresa com o comentário aleatório.
“Quando estiver ventando ou cheio de frio, prender o cabelo assim e deixar as orelhas e o pescoço expostos não é bom para a saúde.”
“Hum... mas é verão?”
Do lado de fora, as folhas verdes exuberantes balançavam com a aragem do meio do verão.
“...No Norte, mesmo no verão, faz frio.”
Ferio mudou de raciocínio com desenvoltura.
“Ah, faz sentido.”
Varia assentiu, aceitando sem desconfiar.
“...Vocês dois estão malucos?”
E então—
“Que diabos vocês estão fazendo?!”
Leonia, apertada entre os dois adultos, com mal espaço para mover os ombros, explodiu de frustração.
“Vocês estão me deixando louca!”
A carruagem dos Voreoti era espaçosa e confortável.
Mas, com dois adultos espremendo uma menina de doze anos no meio, a que sofriam claramente era Leonia.
“Vocês podem se mexer um pouco?!”
Como uma galinha que bate as asas na penúria do quintal, ela se debateu para escapar.
Só então Ferio e Varia recuaram um pouco, dando espaço para ela respirar.
Mas nem isso durou muito.
“Quer dizer que se mover? Claro que não.”
“Exatamente! Você ainda é uma criança, senhorita.”
Justo quando Leonia tentou se deslocar para o assento da frente, Ferio e Varia se apressaram para impedi-la.
“Crianças ficam ao lado dos adultos.”
“E se a carruagem capotar?”
Ferio até respirou fundo com força antes de repreendê-la. Varia rapidamente entrou na conversa também.
“Vamos proteger você e manter você segura, não se preocupe.”
“Vou te proteger com minha vida, senhorita!”
Não era só proteção—era uma declaração de que morreriam por ela num desastre.
“Tá rolando alguma droga absurda na capital agora?”
Leonia estreitou os olhos.
“Vocês dois estão loucos?”
Não havia outra explicação para essa loucura sincronizada dos adultos.
E, mesmo irritada e reclamando, Leonia não conseguiu se separar deles de jeito algum.
Para piorar, os dois adultos entrelaçaram os braços no dela como se fosse um acordo tácito, basicamente a aprisionando.
“—Espera, braço dado?”
Seu pai?
O fato de Ferio, de todo mundo, ter entrelaçado os braços com ela deixou Leonia completamente pasma.
Neste momento, ela não estava apenas irritada—estava realmente preocupada, achando que Ferio tinha enlouquecido.
Porém, a expressão de Ferio permanecia tão séria e apática como sempre.
'Que diabos está acontecendo.'
Leonia olhava de um para o outro, entre Ferio e Varia, que ainda não soltaram seus braços.
'Chá, círculo social—que se dane tudo.'
Se (pudesse escapar dessa carona constrangedora e sufocante), ela estaria até disposta a entregar seu prezado caderno de esboços de músculos ao pai de bom grado.
Mas a carruagem, completamente alheia à aflição do filhote de besta, seguia firme rumo ao seu destino.
***Como o chá era organizado pela Imperatriz, a carruagem negra chegou pontualmente ao Palácio Imperial.
Dentro dos portões do palácio, várias outras carruagens de famílias nobres já tinham chegado.
Quando viram a carruagem preta dos Voreoti, imediatamente pararam e abriram passagem.
Mas quem saiu primeiro não foi Leonia, nem Varia, a futura Duquesa de quem se falava.
Foi Ferio.
Ferio desceu e estendeu a mão para a carruagem. Leonia a pegou sem hesitar e desceu.
Um instante depois, Varia hesitou, mas também saiu enquanto segurava na mão dele.
“Devem estar mesmo pensando em se casar.”
“Você viu a expressão do Duque?”
“Até a Besta Negra consegue sorrir assim, né?”
As damas nobres presentes começaram a cochichar animadamente.
“Ai meu Deus!”
“Olha ali!”
Ferio puxou Leonia e Varia para um abraço apertado. Os três se entrelaçaram como se tivessem medo de se separar.
Para quem estivesse assistindo, pareciam ser uma família calorosa e cheia de amor.
Enquanto isso—
“Papai.”
Leonia falou em voz baixa.
“Por que estamos fazendo isso?”
Ela olhou de soslaio para o braço de Ferio, apoiado em seus ombros.
“Não podemos criar mal-entendidos. De agora em diante, precisaremos mostrar esse tipo de afeto na frente de todo mundo de vez em quando.”
“Será que precisamos ir tão longe?”
Para Leonia, só de ver Ferio estender a mão para ajudar ela e Varia a tirar da carruagem já era suficiente.
Porém, Ferio era perfeccionista.
“Ninguém deve desconfiar de nada. Você não escutou isso de mim antes, né?”
“Aquela suspeita idiota de novo...”
Leonia fez biquinho, resmungando baixinho.
'Se ficarmos ainda mais cautelosos, vou passar mal de tanto prender a respiração.'
Por conta dessa paranoia toda, Ferio ainda não tinha feito qualquer movimento contra a família imperial ou a Casa Olor após cinco anos.
Claro, ele não podia agir até que eles firstassem algo primeiro—mas mesmo assim, Leonia não se convencia completamente com sua justificativa.
“Não é isso, senhorita Varia?”
“O-Obviamente! Só estamos fingindo, isso é tudo!”
Varia respondeu com uma rigidez que parecia uma boneca de mola quebrada.
“...Vocês dois brigaram ou algo assim?”
Leonia franziu o cenho, preocupada com o tom estranho entre eles.
“Não.”
“Nem pensar.”
Felizmente, as duas respostas vieram sem hesitar, e ela ficou um pouco aliviada.
Porém, ainda desconfiava.
“Bem, vou indo então.”
Ferio, finalmente cansado do teatro, entrou de volta na carruagem.
Disse que voltaria para buscá-las assim que o chá terminasse, deu um último abraço em Leonia e Varia.
Ele deu um abraço leve e um beijo na bochecha de Leonia.
Varia recebeu um abraço tortuoso, um gesto estranho de afeto, e um beijo de agradecimento na mão.
“Varia-nti.”
Leonia observou a carruagem se afastar, com olhos cerrados.
“Tem certeza de que nada aconteceu entre você e meu pai?”
“N-Nada...”
Varia respondeu com uma voz fraca.
O que só aumentou a desconfiança de Leonia.
Ela era alguém que sempre olhava nos olhos durante as conversas—agora, evitava o contato visual, com a voz quase sussurrada.
“Sério mesmo?”
Leonia tentou mais uma vez, desta vez com uma expressão séria.
Porém, Varia só baixou a cabeça, como se fosse culpada de algo enorme.
'Ugh, parece que estou comendo batata seca...'
Carregando essa sensação de que ela tinha um segredo gigante, Leonia pensava que era como uma protagonista feminina típica, sofrendo silenciosamente por um mal-entendido monumental.
“Será que meu pai confessou alguma coisa pra você ou algo assim?”
Leonia perguntou de brincadeira.
'Nem pensar. Seria rápido demais.'
Mesmo assim, ela perguntou, só pra garantir. Apesar das flores que floresceram no banquete, os dois ainda eram perigosamente profissionais na postura.
“Foi só uma brincadeira.”
Leonia tentou rir da situação.
Mas então—
“U-Um... bom, na verdade...!”
Varia gaguejou, com o rosto completamente vermelho.
E Leonia teve o que parecia ser um acesso de espanto.
***Aquele dia parecia comum como qualquer outro.
Um final de primavera quente, bem antes do calor do verão.
Enquanto Leonia, cansada de ver pouco progresso entre Ferio e Varia, voltava ao seu quarto para tirar uma soneca—
Aquele dia comum tomou um rumo totalmente diferente para Ferio e Varia.
Ferio apareceu sem aviso, vindo procurá-la. Varia, que tinha acabado de falar sobre ele com Leonia, ficou surpresa.
E ainda mais quando ele abriu a boca—
'O mundo é vasto e cheio de bestas.'
'No Norte, não importamos vestidos orientais.'
'Vestam-se em camadas e mantenham-se aquecidas.'
'Deveriam beber chá medicinal regularmente...'
No instante em que a viu, Ferio começou a repreender—a conversa se estendeu por um bom tempo.
Varia ficou atônita.
O Ferio que ela conhecia quase não falava e só dizia o necessário. A única vez que a viu conversando de verdade foi quando estava com Leonia.
Então, vê-lo tagarelar assim era novidade—e, sinceramente, um pouco assustador.
'Hum... aconteceu alguma coisa?'
Não parecia que ele tinha vindo só para dar palestra.
Varia tentou perguntar de forma natural, enquanto discretamente escondia o caderno de desenhos de músculos que estava lendo com Leonia.
Porém, então, Ferio ficou em silêncio.
Ele realmente veio aqui só para repreendê-la?
Varia ficou com insegurança, prestes a ficar ansiosa, quando—
'Varia.'
Os olhos negros de Ferio de repente se aproximaram, invadindo seu espaço.