Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.

Capítulo 166

Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.


Leonia tinha certeza absoluta — jurando pelos seus gostos pervertidos.


Aqueles dois não gostavam mais apenas um do outro como pessoas. Estavam começando a se enxergar como homem e mulher.


‘Então por que diabos eles não percebem isso?!’


Os únicos que estavam alheios a esse desenvolvimento crucial eram justamente os dois envolvidos.


‘Pare de agir como se fosse os protagonistas de um maldito romance!’


A trama original já tinha saído completamente do controle, então por que esses clichês românticos tinham que surgir justamente no momento mais importante?


‘Dane-se aquele Duque do Norte...!’


Ferio claramente tinha consciência de Varia. Mas ele próprio não percebia isso.


Ser emocionalmente ignorante em relação a alguém que gostava era o estereótipo clássico do Duque do Norte.


E Varia não era diferente.


Auto-depreciativa de forma desnecessária, tentando demais ignorar seus sentimentos — ela era uma personagem feminina padrão.


É verdade que parecia que Varia ainda não tinha percebido seus próprios sentimentos.


Talvez ela ainda só visse Ferio não como um homem, mas como um monte de músculos.


‘Não deveria ter ensinado ela sobre músculos!’


Leonia realmente se arrependia disso.


“Senhorita, está tudo bem?”


Varia perguntou, preocupada. Leonia parecia irritada, como se algo tivesse dado errado e ela estivesse ansiosa por isso.


De qualquer forma, ela parecia... estranha.


“...Vou para o meu quarto.”


Depois de causar uma confusão sozinha, Leonia de repente anunciou.


“Estou cansada. Preciso dormir.”


Ela realmente estava exausta.


“Ah, então eu te acompanho—”


“Não. Fica aqui mesmo.”


Leonia interrompeu e abraçou Varia com força.


“Até logo.”


“Se cuide bem.”


“Não moro tão longe assim.”


De qualquer forma, ambas estavam na mesma casa. Leonia deu uma risadinha e saiu do quarto.


Uma tranquilidade silenciosa tomou conta do cômodo que, pouco tempo atrás, tinha sido uma tempestade de emoções.


Sozinha, Varia encarou a porta fechada por alguns segundos e depois voltou à sua cadeira.


Na mesa, estavam o chá que ela tinha compartilhado com Leonia e o caderno de esboços dos músculos de Ferio. Ainda aberto, com um desenho dele à mostra.


O momento de alegria tinha sido congelado no tempo.


E, de alguma forma, aquilo deixou Varia um pouco triste.


‘Ela deixou isso para trás.’


Ela olhou para o caderno de esboços.

Seu cabelo rosa apagado inclinava-se levemente para a esquerda.


“...Foi um aviso?”


Ela ainda tentava entender a montanha-russa emocional de Leonia de antes.


Mas conseguia intuir a mensagem geral.

‘Provavelmente queria dizer que eu não deveria me aproximar demais do duque.’



Ela tinha ficado completamente encantada por Ferio naquela noite.


Para alguém como Varia, que era absolutamente fraca com relação aos homens, esse nível de atração era praticamente um golpe direto.


A vigia do tesouro, normalmente fria, tinha se transformado em um cachorrinho babando diante de um bife suculento.


‘Não dá para culpá-la por estar decepcionada.’


Varia achava que Leonia devia ter se sentido frustrada também.


Sim, ela brincava às vezes chamando Varia de “Mãe”, mas era só uma forma infantil de expressar saudade de uma figura materna.


Ela provavelmente nunca quis dizer seriamente que queria que ela fosse sua madrasta.


‘De qualquer forma, ela é uma garota boa.’


Varia ficou tocada ao perceber que Leonia ainda a tratava do jeito de sempre.


E assim, Varia caiu de cabeça numa das maiores armadilhas da personagem feminina principal: entender tudo errado, completamente confusa.


Toc-toc


De repente, alguém bateu na porta.


“Senhorita?”


Saindo do seu auto-repúdio, Varia levantou a cabeça. Provavelmente era Leonia, voltando para pegar o caderno de esboços que tinha deixado para trás.


“É só entrar.”


Varia sorriu amargamente.

Leonia tinha uma maneira de ser ao mesmo tempo casual e educada — como agora, batendo na porta mesmo tendo permissão para entrar livremente.


“Você deixou o seu caderno de esboços—”


A frase foi se apagando aos poucos enquanto os olhos de Varia se arregalavam a cada segundo.


Sob uma sombra alta, seu olhar verde pálido ficou aterrorizado.

Ferio franziu um olho.


“Você realmente devia abrir a porta tão despreocupadamente?”

Reckless. Desatenta.

Ferio a repreendeu imediatamente.


***


“Tchau, tchau!”


Leonia soltou o despedida familiar de infância ao se virar.

“......”

Os olhos fechados de Ferio mexeram sutilmente do sofá onde jazia.

Algo não estava certo.


Eventualmente, Ferio se sentou.

Ele ainda não tinha descoberto o nome da estranha emoção que pululava no peito dele.

Mas, no fundo, ele já sabia.

‘...Não sou mais uma criança.’

Era difícil admitir isso.

Ferio sabia que sentia algo por Varia — um sentimento que ia além de uma afeição comum.

Ele não era tão ingênuo ou estúpido a ponto de negar isso.

Por outro lado, esses sentimentos eram diferentes, estranhos.

Só de ouvir o nome de Varia vindo da boca de Leonia, seu coração acelerava. Uma quentura estranha invadia seu interior.

Era algo que só um garoto apaixonado deveria estar lidando.

Ferio se achava patético.

Ele já tinha mais de trinta anos. Ainda tinha uma filha de doze.

Qualquer um diria que ele devia ser um adulto maduro, respeitável. E, ainda assim, as emoções que tinha dentro de si eram absurdas — insuportavelmente absurdas.

“Haaah...”

Ele deixou a cabeça cair na mão, limpando a boca com a palma.

Tudo voltou à sua mente.

Naquele momento do ★ 𝐍𝐨𝐯𝐞𝐥𝐢𝐠𝐡𝐭 ★ ao entrar na sala de banquetes, seus olhos buscaram por Varia.

Seu cabelo rosa apagado, sempre tão fácil de notar, tinha atraído seu olhar através da multidão.

E ao vê-la de perto... ele perdeu todos os sentidos.

Ficou impressionado com sua elegância — tanto que parecia que tinha levado um impacto na cabeça.

‘Achava que cores quentes e vibrantes combinaram com ela...’

Colocando o queixo na mão, Ferio se pegou lembrando-se dela de vestido preto, repetidamente.

Nunca tinha achado o preto tão sedutor antes.

“......”


Depois de um longo período de hesitação, Ferio se levantou.

E foi até o quarto de Varia.

‘Talvez eu esteja apenas imaginando coisas.’

Ferio decidiu ser cauteloso com seus sentimentos. Era possível que ele tivesse sido simplesmente hipnotizado por uma faceta diferente de Varia por um momento.

‘Tenho a Leonia.’

Sua filha, sua única e verdadeira razão de viver.

Ele não precisava que mais ninguém mexesse no seu mundo como ela fazia.

Porém, mesmo assim — ele caminhava mais rápido que o normal.

Antes que pudesse concluir o pensamento, já estava na porta dela.

Toc-toc

Com uma postura mais composta do que antes, Ferio bateu na porta.

‘Talvez seja coisa de nada.’

Aquela calma momentânea fez ele recuar novamente.

Talvez tivesse sido só uma rápida distração. Ver ela de sempre, simples, acalmaria seus nervos.

Ele tinha certeza disso.

“Senhorita?”

A voz de Varia veio pela porta.

‘...Ah.’

Um pressentimento ruim se instalou nele.

Ferio deu um passo para trás instintivamente ao ver a maçaneta começar a girar.

Se ela abrisse a porta agora, tinha uma sensação de que tudo mudaria — novamente.

“Pode entrar.”

Esta mulher é louca? Quem manda as pessoas entrarem sem ao menos saber quem é?

Ferio fechou a testa.

Por um momento, esqueceu que aquela era sua própria casa.

“Você deixou seu caderno de esboços—”

No instante em que a porta se abriu, uma voz suave passou por seu ouvido como uma pena.

Aqueles cabelos rosa apagado apareceram na sua frente, fluindo soltos ao redor dos ombros dela.

Ferio entreabriu um olho.

“Você realmente devia abrir a porta de forma tão despreocupada?”

No mesmo instante, a repreensão saiu dele sem pensar.

“Tão descuidada...”

“...Huh?”

Varia, pega de surpresa pela aparição repentina de Ferio, inclinou a cabeça confusa.

“Mas... essa é a sua casa, não é?”

“......”

“Então... do que eu tenho que tomar cuidado...?”

“De tudo, cuidado com tudo.”

O mundo é um lugar perigoso.

Ferio mordeu a língua por si mesmo, admirando a sua própria reação impulsiva.

‘Perdi completamente o controle.’

Ele admitiu — sua intuição era certa.

E ele não podia mais fugir da verdade: esse tremor no peito, esse calor no estômago.

Ele tinha se apaixonado por Varia.

A repreensão de agora era prova suficiente. Para Ferio, toda aquela cobrança era uma forma de demonstrar afeto.


Ele sempre fizera isso com Leonia.


E agora, iria começar a fazer com Varia também.


Mais uma vez, o universo de Ferio mudou — profundo e irreversivelmente.


***


Recentemente, Leonia vinha achando a atmosfera da mansão estranha.


“Connie, você também acha que está diferente?”


Era o final da primavera, e o calor do verão já começava a se aproximar.


Leonia estava em frente ao espelho, conferindo seu visual.

Usava um vestido de tecido leve azul claro, com um broche sob a gola — o mesmo com o emblema Voreoti, uma fera negra.


“Como eu estou?”


Ela perguntou a Connie, que a observava ao seu lado.

“Seu rosto é quem faz toda a diferença.”


Connie respondeu sério.

“Então o vestido não presta.”


Leonia tirou o vestido e trocou por uma blusa branca de manga curta e shorts vermelhos escuros, que estavam ao lado.


Só então, o rosto de Connie finalmente se iluminou.

“Calça te cai melhor, senhorita.”


“Sim, mas saia é melhor quando faz calor.”


Nada superava uma saia para ventilar o ar — Leonia já parecia cansada do calor que viria.


“Então, o que você quis dizer mais cedo com 'atmosfera'?”


Connie perguntou enquanto penteava o cabelo de Leonia.


“Não sei, só tenho a impressão de que a mansão tá meio estranha esses dias.”


“Não reparei em nada...”


“Sério? Não estão fofocando sobre alguma coisa os empregados?”


Leonia perguntou enquanto Connie prendia os cabelos com uma pontinha de cabelo do lado em um rabo de cavalo lateral.


“Nem um pouco.”


“Huh...”

Depois de prender o cabelo, Leonia prendeu o mesmo broche de antes na camisa, no lugar da gravata. Depois colocou sua capa curta habitual e um chapéu redondo.


O chapéu era um antigo de Ferio, encantado com magia de fluxo de ar.


“Tem algo te incomodando?”

Connie perguntou suavemente.


“Hum, não exatamente.”


Enquanto não tivesse nada, tudo bem — Leonia calçou as meias e trocou por sapatos vermelhos discretos.


Assim que terminou, Mia chegou.

“Nossa, como a jovem está deslumbrante hoje!”


Mia veio dizer que a carruagem estava pronta. Leonia deu um sorriso orgulhoso em resposta ao elogio.


“Então, estou indo!”


“Tenha uma viagem segura!”


“Vamos preparar o banho pra você!”


As empregadas se despediram alegremente, e Leonia foi direto ao hall de entrada.


Ela cumprimentou com um sorriso cada empregado que passou, e até parou na cozinha para pedir algo bem apimentado para o jantar.


Na verdade, sua rotina era bem simples.


Calma e tranquila, como sempre.


“Você está linda nesse vestido.”


“A-Obrigada. Foi minha jovem quem escolheu.”


“Mas… não acha que está mostrando demais o ombro?”


“Isso aqui tá normal!”


“...Na Casa Voreoti, isso é proibido.”


“Huh? Sério? Não sabia!”


“Vai ser agora. Daqui pra frente.”


Exceto por esses dois idiotas aí, tendo uma conversa de cabeça vazia — Ferio e Varia.

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