Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.

Capítulo 163

Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.


‘Se eu pudesse evitar...’


Ela não queria encarar ele.


Gostaria que pudesse passar a vida toda sem conhecê-lo.


Mas as coisas nunca eram tão simples. Agora, a força da história original era a mais forte — havia mares gigantes de destino que nem Leonia podia bloquear.


Isso era verdade para Varia.


E para Remus.


“Hum, Duque Interino?”


Remus forçou um sorriso constrangido. A olhada descarada de Leonia o deixou desconfortável, e ele lutou para manter o olhar dela.


Mas Leonia não respondeu. Ela apenas continuou encarando.

A ladrã que se infiltrou pelo Norte e seduziu uma menor.

A escumalha absolta que sussurrou falsas palavras de amor, tocou uma menor, e depois saiu como se fosse coisa pouca.

E então, como se nada tivesse acontecido, ficou noivada com outra menor e viveu sua vida sem o menor sinal de vergonha.


‘Doador de esperma.’


A garota nem queria chamá-lo de pai biológico.


Leonia lançou uma longa olhada para o doador de cabelos vermelhos, que tinha contribuído apenas o suficiente para ajudar na divisão celular de seu corpo.


Estranhamente, seu coração se acalmou. Ela achava que ia arrancar a cara dele assim que o visse — mas, ao invés disso, sentiu... indiferença.


‘Tanto faz. Ele vai morrer de qualquer jeito.’


Ferio alguma vez disse que ia partir Remus ao meio e alimentá-lo aos monstros, e ele não estava brincando.


‘Descanse em pedaços.’

Leonia fez uma oração antecipada pela alma dele. Mesmo um réquiem teria sido desperdício para aquele desprezível.


“Senhorita Varia.”


De qualquer forma, sem querer continuar olhando para ele, Leonia de repente virou o olhar e chamou por Varia.


“O que você vai fazer?”


Leonia decidiu deixar a decisão totalmente com Varia. Para ela, não era necessariamente uma má ideia que as duas conversassem.


Ela mesma tinha uma pendência com Lota, mas, por Varia, poderia deixar isso de lado por agora.


“...Então, só um instante.”


Varia pediu permissão a Leonia, que descontraidamente gesticulou para o casal Visconde Olor e recuou.


“I-Inha..."


Lota finalmente conseguiu gaguejar suas palavras, lançando um olhar hesitante para Varia.


“Hum, eu... só queria...”


“Só diga o que veio dizer.”


Varia interrompeu Lota com uma expressão fria, já percebendo desde o início a tentativa de manipular uma simpatia.


“Resuma e vá direto ao ponto.”

“......”


“Ou eu vou embora.”


“...Você não está sendo dura demais?”


Lágrimas começaram a rolar pelo rosto de Lota, enquanto ela se debatia com a frieza da irmã.


“Só queria pedir desculpas...!”

Ela cobriu o rosto com as mãos e soluçou, com os ombros tremendo. Naturalmente, os nobres ao redor começaram a encará-la.


‘Olha essa vadia.’


Leonia percebeu instantaneamente qual era o objetivo de Lota.

Ela estava reproduzindo exatamente o mesmo movimento que Leonia usara antes para pressionar o Conde Erbanu.

‘Ela não falou uma palavra enquanto seu pai tinha sua imagem destruída.’

Nem uma risadinha seca escapou de Leonia.


“Somos família!”


“Lota, para de chorar...”


“Remus...”


“Varia vai entender tudo, cedo ou tarde.”


Remus colocou um braço no ombro de Lota para consolá-la. Ver um marido consolando sua esposa chorando era uma cena de empatia perfeita.


“O que está acontecendo?”


“Parece uma briga de família.”


“Aquela é a filha do Conde Erbanu, né?”


“Nossa, aquela irmã é fria...

Ela chora daquele jeito e nem consegue perdoar?”

Alguém comentou de forma crítica.


“Pois é? Nem me diga que ela virou as costas pro duque e abandonou a família.”


“Disseram que ela foi até para divisão financeira também...”

“Sem coração, hein?”


“Até falou grosso com o pai mais cedo...”

Naturalmente, as críticas logo se voltaram para Varia.


Por trás das mãos, Lota sorriu de canto.

‘Inacreditável. Essa psicopata.’


Leonia tremeu. Fazia um tempinho que ela não sentia arrepios assim.

Disseram que o mundo era grande, e cheio de loucos — mas essa tinha bem na frente dela.

Era quase a loucura de Saura — parecia que ela tava de rosto da Connie.


“Lota.”


No meio do murmúrio—

“Por que eu tenho que me desculpar?”

Varia perguntou.


“Mas... você foi dura demais, inha!”

“Você não veio aqui pra me fazer sentir culpada. Disse que queria pedir desculpas, né?”

“S-Sim, mas ainda assim...”

Lota vacilou.


“Então por que eu sou quem está sendo ‘dura demais’?”

Na verdade, Varia não tinha feito nada de errado.

Ela só não queria prolongar a conversa, por isso pediu para ela ir direto ao ponto.

Claro, ela não tinha sentimentos calorosos por Lota, então talvez soasse um pouco fria — mas isso não era pecado.

Se fosse, quem merecia realmente pedir desculpas era ela mesma.

‘...Que mentirosa.’

Chamando ela de “família” enquanto usava manipulação emocional barata para pintar Varia de vilã?

‘Você nem é da família...!’

Aquela palavra — aquela afirmação — deixou Varia ainda mais irritada.

Elas não tinham direito de usar essa palavra.


“...Então e eu?”

Foi aí que Leonia interveio.

Ela não tinha planejado, mas parecia que Varia estava mais abalado do que o esperado. Percebendo isso com rapidez, Leonia virou-se para Lota e perguntou:

“Você não vai se desculpar comigo?”

“A-Aduquesa...”

Surpresa com a intervenção inesperada, Lota deu um passo para trás. Tudo que Leonia fez foi fazer uma pergunta, mas Lota recuou como se estivesse aterrorizada.

“Aduquesa.”

Remus entrou na conversa. Como se fosse algo totalmente natural, puxou sua esposa trêmula para os braços dele.

Graças a isso, a atmosfera mudou justamente como planejaram. Agora, a multidão via Leonia junto de Varia.

Ela não era mais tão culpada — afinal, ainda era “apenas uma criança...”

‘Que idade de novo...’

Leonia ficou irritada.

Se somasse a idade que tinha vivido, ela era mais velha que Ferio. Mas, por causa daquele corpo pequenininho, até o título de “Duquesa Interina” parecia uma piada.


“Desculpe, mas isso é uma questão familiar.”


Remus falou firme, mas com um tom que fingia ser arrependido. Leonia soltou uma risada seca.


Ele acabara de dizer: “Cuide da sua vida e desapareça.”


“...Sério, que piada.”

Ela respirou fundo, com uma raiva ardendo no peito.


“Tem uma xícara de chá aí perto?”

Se tivesse, ela serviria na forma que a Condessa Bosgruni ensinou — direto na cabeça deles.


“Varia.”

Enquanto Leonia procurava por uma xícara, ferrou se voltou para Varia.

O olhar gentil e a voz dele faziam a pele de Varia arrepiar.

“Não importa o quê, isso não está certo.”

“......”

“Por mais que você nos odeie, somos família ainda.”

Os olhos vermelhos úmidos de Remus se curvaram suavemente.

Varia apertou o punho sem perceber. Queria socar aquela boca nojenta que cuspia besteiras.

Não. Isso também seria uma perda de tempo.

Ela queria arrancar aqueles olhos que estavam fitando ela.

“Se algo está te incomodando, diga.”

Varia ficou sem fala.

“Se abrir seu coração e falar, todos vão entender e perdoar.”

Quando ela abriu seu coração, seu pai deu um tapa nela. Ao invés de perdão, quase a matou.

“Somos família.”

E era exatamente isso que a matou — aquelas palavras de Remus.

“Inha...”

Naquele momento, Lota chamou Varia com uma voz trêmula.

A situação estava caminhando contra Varia.

Os nobres que assistiam descartaram como uma questão trivial de família — uma com a irmã mais nova chorando e a mais velha sendo rebelde.

Todo esse caos virou entretenimento para o banquete.

“O que aconteceu com você?”

Lota apertou a mão de Varia com força. Varia se estremeceu. Parecia que um inseto com cem patas rastejava na sua pele.

Ela violentamente afastou a mão de Lota.

O desgosto nos olhos dos espectadores aumentou.

“Apenas volte pra casa.”

Considerando que conseguiu exatamente o que queria, Lota acrescentou ao fim, deixando outra lágrima cair.

“Vou pedir desculpas!”

“...!”

Justo quando a raiva de Varia atingia o limite e sua mão começava a se levantar—

“...Seu filho da puta insano.”

A voz de Leonia cortou o ar, e a sala do banquete ficou silenciosa de repente.


“Lota Olor.”

O pequeno animal tentou ao máximo seguir a etiqueta que aprendera com a Condessa Bosgruni — mas não mais agora.

Ela liberou a fúria que vinha segurando.

Leonia baixou cuidadosamente o punho de Varia e encarou Lota com um olhar sério.

“Eu te avisei, não foi?”

Elas tinham feito uma promessa.

‘Aguarde só.’

‘Veja o que essa criança fera faz em seguida.’

A tensão congelada no salão não se quebrou.

Só então Lota percebeu que algo estava errado. A empatia que ela e Remus haviam criado não retornava — mesmo com ela atuando.


“Vou mostrar agora.”

Uma pressão cruel e sufocante avançou.

“Vocês pensam que eu sou fácil, então estou me segurando.”

Aterrorizada, a expressão de Leonia não era mais a mesma de antes. Era um medo primal, visceral, que cavava fundo os ossos.

“Na próxima, vou arrancar seu couro eu mesmo.”

Com um sorriso cheio de expectativa distorcida, as palavras de Leonia fizeram as pupilas de Lota tremerem.


E não só por causa de Leonia.

“... Meu Deus.”

Uma voz baixa, cansada — mas carinhosa — ecoou pelo salão.

Ao mesmo tempo, um braço forte envolveu a cintura de Varia.

Arrastada por aquele braço forte, Varia foi de repente abraçada.

O coração batendo forte no ouvido e o odor masculino que lhe invadiu a narina a deixou tonta.

“Por que é que, sempre que eu não estou, minhas mulheres dão um escândalo?”

Ferio comentou silenciosamente, fazendo um leve olhar para ela.


***


“Papaiiiiiii!”


Leonia grudou no braço de Ferio, fazendo biquinho adorável.

‘Vocês estão mortos agora.’


Heh heh heh.

As maneiras de um duque de fachada tinham desaparecido. Leonia sorriu maliciosamente.

A pequena besta selvagem tinha acabado de passar o bastão para o predador mais forte e brutal do império — seu pai.

E ela fez uma promessa.

Um dia, ela se tornaria uma fera de verdade — e revidaria toda a zombaria sutil que levasse.

“D-Duque...”


Enquanto isso, Varia piscou, incrédula, ao ver a aparição repentina de Ferio.

“Como é que você conseguiu aparecer aqui?”

“Corri como se o diabo me perseguisse.”

Ferio a avalizou, dizendo que tinha chegado todo desarrumado por causa disso.

Apesar disso, ele brilhava mais que qualquer um no banquete.

Seu traje formal era diferente daquele que usava na mansão.

E, pelo nó frouxo e o cabelo bagunçado, era claro — ele realmente veio correndo até ali.

Sua expressão composta traía uma respiração cansada.

O batimento acelerado que Varia ouviu ✪ Nоvеlіgһt ✪ (versão oficial) através do peito dele provava isso.

“Estar ao seu lado me faz sentir culpada.”

“Perdão?”

“Quer dizer, você é tão linda.”

Linda demais pra mostrar pra outras pessoas.

Com um olhar gentil, Ferio encarou Varia — mas, no instante em que piscou, sua expressão mudou, assumindo a de uma fera mortal.

De novo, sua admiração inesperada e palavras gentis fizeram Varia recobrar a cabeça.

‘I-i-isso tudo é um ato!’

Isto era uma caçada — um ataque coordenado ao inimigo comum.

Como esperado, Lota e Remus congelaram assim que Ferio apareceu.


A pressão bruta da presença de Ferio os deixou tão intimidado que mal puderam abrir a boca.


“Não sei do que tudo isso se trata,”

disse Ferio, olhando para o salão rígido.

“Mas estragar o banquete de aniversário do Primeiro Príncipe assim...”

Ele colocou toda a culpa em Remus e Lota. Os rostos deles se contorceram de vergonha tardia.


“Se é questão de família, resolvam entre vocês.”

Ele perguntou por que eles tinham que fazer tanta confusão num dia tão bom.

“...Isso é verdade.”

O Conde Urmariti, na plateia, acrescentou sua voz.

“Por que trazer confusão familiar no aniversário do príncipe?”

Com aquele conselho silencioso, o Visconde Kerata também comentou gentilmente de perto:

“Não sejam severos demais. Deve ter parecido uma coisa importante, pra eles esquecerem o ambiente.”

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