
Capítulo 164
Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.
As palavras do visconde Kerata soavam como uma discordância com o conde Urmariti, mas, na verdade, eram uma repreensão ainda mais dura.
Ele sutilmente mudou a narrativa para acusar o filho do visconde Olor e sua esposa de tratar um banquete organizado pela realeza como menos importante do que suas próprias zemzarias familiares.
‘Ooh, vai, visconde tio!’
Leonia parecia realmente surpresa.
Nunca imaginou que aquele homem gentil, de semblante semelhante a um cervo, pudesse disparar uma ofensa de alto nível, indireta, e tão afiada.
Ao que tudo indicava, para os nortistas, “etiqueta” significava apenas uma forma mais sofisticada de brigar.
“O-Oui, isso é verdade... ”
“Por que arrumar confusão num dia tão bonito?”
“Assim como fez o conde Erbanu.”
“De pai, de filha também.”
Os nobres que assistiam começaram a cochichar novamente entre si.
O clima mudou mais uma vez.
Agora, a dianteira da situação virou-se para culpar Lota e Remus por terem estragado o banquete de aniversário do Primeiro Príncipe.
E desta vez, até mesmo os nobres que apoiavam o imperador e o Primeiro Príncipe não conseguiram esconder sua insatisfação.
“Eles nem se contiveram...”
“Vergonhoso. Parece que nunca aprenderam a agir com etiqueta adequada.”
“Olhem só de onde vêm...”
Principalmente aqueles que cresceram ressentidos com a ascensão meteórica de Olor não perderam tempo em zombar.
‘Absolutamente repulsivo.’
Para Leonia, todos eram iguais. Seja aquele rapaz ou outro — todos eram lixo. Agora ela entendia completamente por que Ferio odiava banquetes.
‘Ainda assim, meu pai é incrível.’
Leonia olhava para Ferio com um renovado sentimento de admiração.
No instante em que ele entrou no salão do banquete, assumiu o controle de tudo.
Ele nem precisou fazer nada — e, mesmo assim, sua presença sozinha tinha acabado com toda a situação.
‘Ugh, que irritante...’
Leonia desejava poder comandar as pessoas do jeito que Ferio fazia.
Ela queria exibir sua dignidade como uma Voreoti — confiante e orgulhosa.
Porém, no final, ela tinha precisado da ajuda do pai.
Leonia sentia gratidão pela entrada {\N•o•v•e•l•i•g•h•t} dele, perfeitamente sincronizada... mas também inveja. A montanha que ela tinha que escalar para alcançar o nível dele parecia infinita.
‘...Só esperar.’
Mas o pequeno animal não recuou.
Se fosse o caso, ela queimava silenciosamente com a determinação de fazer melhor na próxima vez.
“Então? O que aconteceu aqui...”
Ferio bateu no ombro de Leonia. Aquele toque gentil parecia um “Bom trabalho enquanto eu não estava.” sem palavras.
“ Waaah, papai!”
Comovida, a criança esqueceu toda a sua determinação anterior e esfregou o rosto contra o antebraço de Ferio.
“O que exatamente aconteceu aqui?”
Ferio olhava entre Lota e Remus enquanto perguntava. Só então, os dois saíram do estado de espanto.
“S-Só uma questão familiar.”
Remus respondeu com um sorriso forçado, trêmulo. Seus lábios tremiam levemente.
Ao lado dele, Lota nem conseguia olhar nos olhos de ninguém. Seu rosto estava pálido como um fantasmas — parecia à beira de desmaiar.
Aquela persistência agressiva que ela tinha mostrado antes ao atacar a própria irmã tinha desaparecido há tempos.
“Minha esposa e meu sogro estavam preocupados com o fato de Varia não ter voltado pra casa...”
“Uau.”
Ferio bufou.
“Devem ter muito tempo livre.”
Ele zombou de Remus, por achar que não tinha mais o que fazer senão se meter nos assuntos da cunhada.
Remus corou de vergonha.
“...É uma questão séria para a família.”
Sua voz ficou mais dura.
“Sua filha mais velha conseguiu um bom emprego?”
Ferio perguntou como se realmente não conseguisse entender a questão.
“Qual é exatamente o problema?”
De forma pública, Varia tinha deixado o cargo de assessora financeira para assumir uma posição na propriedade Voreoti.
As condições de trabalho lá eram compatíveis com as do palácio imperial — talvez até melhores.
Na verdade, Varia tinha ficado chocada com a diferença.
Mesmo como tutora residente na propriedade, ela era tratada muito melhor do que quando trabalhava como administradora do palácio.
“Ou temer que eu faça algo indevido com ela?”
Ferio soltou uma risada pequena enquanto encostava o nariz na têmpora de Varia.
Varia quase gritou, mas Ferio sussurrou "Desculpe" no ouvido dela, na hora exata para ela calar a boca.
“Meu pai é um cavalheiro! Ele nunca faria isso!”
Ao contrário de algumas pessoas.
Leonia entrou na conversa com um olhar sério dirigido diretamente a Remus.
Remus hesitou sob o olhar intenso da jovem. Ele tinha bastante culpa.
“...Ainda assim, quem sabe...”
Ferio bagunçou o cabelo de Leonia e continuou.
“Tutora residente e seu empregador...”
Seu sorriso se curvou suavemente, mas só tinha olhos para Varia.
“Acredita que essa relação seja bem intrigante, não acha?”
***
“Você acabou de ver aquilo?!”
“Você viu a expressão que Sua Graça fez?!”
“Ele é ridiculamente bonito!”
“Seja o que for o que dizem...”,
“Meu coração ainda está pulsando forte!”
“Para, isso é constrangedor!”
Enquanto Ferio saía ao balcão com Varia e Leonia, as damas nobres sussurravam empolgadas.
Aquele sorriso inesperado de Ferio tinha atingido o coração delas.
E não era só isso.
As mangas amassadas, que mostravam que ele tinha saído correndo, o gesto de passar a mão nos cabelos caídos — cada detalhe era magnético.
O animal negro, que supostamente podia matar só com um olhar... agora encantava as pessoas de um jeito totalmente novo.
Mesmo com uma criança diante dele, ele ainda parecia o solteiro mais cobiçado do Império.
“Mas aquele momento anterior...”
Alguém ousadamente comentou.
“...Aquilo não parecia algo comum, não é?”
Todos concordaram com a cabeça.
“Aquela era a filha mais velha do conde Erbanu, não era?”
“Ela tinha aquele cabelo cor de rosa bem suave.”
“E o duque parecia completamente encantado por ela.”
“A filha dele também a adora.”
Todos pensavam a mesma coisa.
“Em breve, teremos boas notícias da Casa Voreoti.”
Eles estavam convencidos de que Varia se tornaria a nova senhora da Casa Voreoti.
Os três, juntos, pareciam uma família feliz.
“E quanto ao conde Erbanu...?”
Ao chegar neste ponto, os boatos começaram a lembrar o comportamento estranho do conde Erbanu e do casal Olor.
“Por que eles agiram assim?”
“Talvez ainda tentem agradar ao Olor, mesmo após terem se casado com eles?”
“Mas estamos falando de Voreoti.”
Por mais que Olor subisse na hierarquia, ainda não comparava-se à Casa Voreoti.
“...Na verdade, tem um segredo...”
Abipher, que ouvira silenciosamente, inclinou-se com cuidado. Nobres próximas atentaram suas orelhas.
Como alguém da Casa Rinne — estreitamente ligada à Casa Voreoti — suas palavras tinham peso.
“O conde Erbanu e sua esposa sempre elogiaram a segunda filha.”
Mas alguém aqui já ouviu algum elogio ao filho mais velho deles?
O significado oculto na fala de Abipher fez as mentes girarem.
“Não é um pouco parecido com o que aconteceu com a Casa Hieina?”
Cinco anos atrás, uma história parecida se desenrolou.
Uma “filha inútil”, cuja própria família tinha perdido a esperança nela, acabou trabalhando como secretária de Ferio.
Agora, ela era esposa do visconde Ricoss — uma das principais casas do Norte — e acabara de dar à luz.
Desde então, o conde de Hieina foi rotulado como um tolo que não reconhecia o talento de sua própria filha.
Até saiu a notícia de que ela tinha sido abusada emocionalmente, e toda a família foi humilhada publicamente.
‘Ainda assim... impressionante.’
Abipher sorriu por trás de seu leque enquanto assistia ao boato se espalhar espontaneamente. Mas uma semente de dúvida permaneceu.
‘Será que eles realmente não são nada um para o outro?’
Até onde ela sabia, Varia era apenas uma tutora de Leonia. Nada mais.
Até Carnis lhe tinha dito que Ferio próprio tinha afirmado isso.
Talvez tudo fosse só uma encenação — para demolir o orgulho de Olor e Erbanu.
‘Mas mesmo assim...’
Aquela suspeita não se dissipava.
“Abii.”
Carnis, que parecia compartilhar do mesmo pensamento, chamou silenciosamente sua esposa.
“Não acham que elas parecem... um pouco diferentes?”
Ele pelo menos não estava às vésperas de chorar desta vez — diferentemente de cinco anos atrás.
***
“Em que você estava pensando?!”
No momento em que saíram do salão do banquete, Varia atacou Ferio.
“O que acha que os nobres vão dizer do que acabaram de ver?! Eles adoram falar besteira!”
Ela ainda estava nervosa com o quão galante ele tinha sido com ela.
Só de imaginar, seu coração acelerava novamente — seu rosto ainda vermelho, sua cabeça girando.
Ela ainda podia sentir o cheiro dele bem na ponta do nariz.
“Tenho certeza de que vão falar o que quiserem.”
“Sim. Não se preocupe tanto com isso.”
O predador e sua filha pareciam nem se incomodar um pouco.
Leonia até coçou casualmente o nariz com o dedinho mindinho e depois o enxaguou na roupa de Ferio.
Ela foi pega e levou uma forte tapinha na testa.
“Quem for da Casa Voreoti tem que passar por pelo menos uma rodada de rumores.”
Leonia massageou a testa dolorida e lançou um olhar incisivo para Ferio.
“Eu passei por isso há cinco anos!”
“Deve ter sido bem chato.”
“Então, eliminei tudo com as Presas da besta.”
“Como assim?”
“Ela não matou ninguém.”
Ferio rapidamente corrigiu a bravata da filha.
“Só causou dores tão intensas que desejavam estar mortos.”
A diferença não era muita, na verdade.
Ao ouvirem aquela conversa descarada, a expressão de Varia ficou gélida.
“...Ainda assim, se te incomodou, peço desculpas.”
Ferio ofereceu um pedido sincero de desculpas. Afinal, ele a tocou sem permissão. Isso poderia facilmente ter sido interpretado de forma errada.
Mas, se ela realmente tivesse se sentido ofendida, Ferio ficaria um pouco... decepcionado.
“Não me senti ofendida.”
Varia suspirou brevemente.
“Só... fiquei surpresa. Na verdade...”
Ela quase disse tudo em voz alta — como ficou surpresa com os contornos do peito dele por causa da camisa, e como inconscientemente colocou a mão lá.
“....”
Mas se conteve a tempo.
“Aah, sua irmã gostou, foi?”
Leonia sorriu de maneira maliciosa.
“Não... exatamente ‘gostou’.”
Varia rapidamente corrigiu sua frase.
“Mas, na verdade, você gostou mesmo!”
“-Espera, isso é uma confissão?”
Ferio passou a mão no queixo, com uma expressão excessivamente séria, parecendo realmente admirar sua própria popularidade incansável.
“Mesmo com uma criança, ainda sou top de linha, huh.”
“Que pai ridículo.”
Leonia falou sério, sem rodeios.
“Não deixe que sua beleza, força, riqueza e poder suba à cabeça.”
A expressão de Varia mudou sutilmente. Honestamente, com tudo isso, um pouco de orgulho era até justo.
“De qualquer forma...”
Varia rapidamente voltou a orientar a conversa para o caminho certo antes que ela escapasse de controle.
Depois de uma respiração curta, ela reuniu seus pensamentos dispersos e se inclinou em reverência a Ferio.
“Obrigada. De verdade.”
O método de Ferio tinha sido um pouco exagerado, mas graças a ele, o conde Erbanu ficou totalmente silenciado.
Apesar de ainda se sentir estranha com o mal-entendido que a cercava, ela se sentia mais livre do que antes.
Doía um pouco ela não ter conseguido isso com suas próprias forças — mas, sem dúvida, Ferio tinha ajudado.
“Não precisa se curvar…”
Ferio segurou delicadamente sua testa e queixo com as mãos, levantando seu rosto.
Olhos verdes reluzindo sob a luz que transbordava do salão encontraram olhos mais escuros que a própria noite.
“Tudo isso começou por sua causa, Lady Varia. Eu só concordei em acompanhar.”
“Mas se eu estivesse sozinha...”
“Provavelmente, você mesma teria dado um soco no garoto Olor.”
Brincando, Ferio fez Varia corar de vergonha.