
Capítulo 159
Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.
Assim que a tarefa foi concluída, ele garantiu que voltaria — mas até hoje, no dia anterior ao banquete, Ferio ainda não tinha chegado. Lá fora, a escuridão já tinha caído como tinta.
“O mais importante é que ele volte em segurança.”
Varia tranquilizava Leônia, dizendo que tudo ficaria bem.
Ela vinha fazendo cara de quem tava se esforçando para parecer forte, mas, na verdade, Leônia sentia falta de Ferio todos os dias.
Percebendo sua solidão, Varia passava toda noite no quarto dela, permanecendo ao seu lado até que pegasse no sono.
“Irmã, dorme comigo de novo hoje à noite.”
Leônia se aproximou discretamente e segurou os dedos de Varia.
“Sim, claro.”
Varia concordou prontamente.
Dividir a cama com Leônia era algo que ela realmente gostava.
O que mais agradava Varia era a cama enorme.
Era a maior e mais macia que ela já tinha visto — grande o suficiente para acomodar pelo menos quatro adultos de verdade, com espaço sobrando.
Leônia um dia lhe contou que a cama no quarto de Ferio era ainda maior.
“Quando eu era pequena, dormia com o papai o tempo todo.”
Debaixo das cobertas, as duas conversavam sobre tudo e sobre nada, até que o sono chegasse.
“Mas agora que cresci, ele não dorme mais comigo.”
A garota admitiu que ficava um pouco chateada por o pai não dormir mais ao lado dela.
“O Duque está sempre pensando em você, senhorita.”
Varia acariciou suavemente a cabeça de Leônia, que sorriu pacificamente sob sua palma.
“Você cresceu tanto. O Duque só está sendo cuidadoso — preocupado que você possa se sentir desconfortável.”
“Sei... mas ainda assim, dá uma leve tristeza.”
“Tenho certeza de que ele sente a mesma coisa.”
Quanto mais Varia ouvia, mais clara ficava a paixão que Ferio tinha por Leônia.
Ela começou a se perguntar se ele realmente era o mesmo “Bicho-Peixe Negro do Norte” que todos diziam ser tão assustador.
“......Tenho inveja de você.”
A voz de Varia começou a ficar mais suave, enquanto o sono se aproximava.
À medida que sua mente se misturava com os sonhos, ela começou a falar sobre sua própria família.
“Eu odeio minha família......”
“Você odeia eles bastante?”
Leônia, que estivera ouvindo quieta, se aproximou de Varia.
Varia acenou silenciosamente com a cabeça. O movimento fez o cobertor balançar.
“Por que eles te trataram assim?”
“O que você quer dizer?”
“Meus pais disseram que a cor do meu cabelo estava errada.”
“Mas é tão bonito.”
“Disseram que tava errado.”
Seu cabelo rosa vibrante era um símbolo da Casa Erbanu. Seu pai, o Conde de Erbanu, e sua irmã mais nova, Lota, tinham tons de rosa bonitos e claros.
Mas não Varia. O dela era turvo e escuro — como se cinzas ou fuligem tivessem sido também misturados à cor.
“Sempre fui a deficiente.”
Mesmo quase dormindo, ela soltou uma risadinha curta, achando absurda aquela justificativa para a discriminação.
Que importância tinha a cor do cabelo, para eles criarem uma distinção entre ela e a irmã?
Às vezes, as pessoas se tornam cegamente obcecadas por padrões mais estranhos.
Essa cegueira pode limitar o potencial de alguém — ou até destruí-lo completamente.
Foi isso que aconteceu com Varia.
Foi assim que Varia morreu.
“Pensando nisso agora, fico até envergonhada.”
“Por quê?”
“Quando nos conhecemos, mostrei um lado tão patético para você.”
Varia ainda se sentia envergonhada pela briga com Lota, que Leônia tinha visto.
“A sua irmã realmente era outra coisa.”
Ela era muito mais mordaz do que Leônia lembrava da história original, e isso realmente a surpreendeu.
Se ela tivesse usado aquela energia toda para algo produtivo, talvez o mundo fosse um lugar melhor.
“Ela realmente é alguma coisa.”
Sem conseguir resistir ao sono, Varia finalmente fechou os olhos.
Leônia puxou o cobertor até os ombros de Varia e deu-lhe uma dose de afeto com um tapinha suave nas costas.
Batidas ritmadas enviaram Varia para um sono mais profundo.
“Ela queria meu adorno de cabelo... mas eu não dei pra ela...”
Logo antes de dormir completamente, Varia murmurou suavemente.
“Então ela me empurrou dentro de um lago...”
Logo, Varia estava profundamente adormecida.
“...... Você passou por coisas difíceis, irmã.”
Leônia olhou para o rosto sonolento de Varia com uma expressão complicada, e então se aconchegou ao lado dela, fechando seus olhos também.
Quando viu Lota no banquete, achou que talvez fosse melhor arrancar o couro da cabeça da garota.
'Ainda sou uma criança.'
A esperta menina de doze anos adormeceu imaginando ela mesma puxando os cabelos de Lota.
O dia do banquete trouxe um clima ameno.
“Graças a Deus, não está chovendo.”
Ao menos, ela esperava que o tempo permanecesse calmo até que Ferio retornasse à capital.
“Hoje é o dia perfeito para fazer bagunça no banquete!”
“Senhorita......”
Varia a repreendeu suavemente.
Antes de partir, Ferio tinha deixado claro: Sem confusões no banquete. Mas o pequeno filhote de fera ignorou a bronca do pai sem pingo de vergonha.
“Não vou morder o Imperador de novo com meus dentes nem nada assim.”
“Você mordeu o Imperador?”
“Ele levantou logo em seguida.”
Leônia assobiou inocentemente, fingindo que nada tinha acontecido, o que só a deixou mais irritante.
O banquete de aniversário do Primeiro Príncipe começou no final da tarde, assim que o sol começou a se pôr.
Leônia e Varia tinham tomado um almoço nutritivo e digerido tudo antes de começarem a se preparar para o evento.
“A jovem senhorita vai ficar bem?”
Varia perguntou enquanto as criadas ajudavam-na a vestir o vestido.
“O banquete é bem tarde... ela pode ficar com sono ou cansada...”
“Ela vai ficar ótima.”
Uma das criadas sorriu calorosamente.
“Ela participou de um banquete há cinco anos, sem problemas.”
Leônia já tinha experiência em participar de banquetes noturnos.
A pequena e sapeca garota de sete anos tinha tirado uma longa soneca naquele dia só para jogar fezes no Imperador.
Felizmente, ela não precisou ir tão longe hoje.
Aquele banquete tinha sido lá pelo meio da noite, mas o de hoje começaria somente no final da tarde.
Aliás, agora que ela tinha doze anos, ficar acordada até tarde já não era tão difícil como antes.
“Senhorita Varia!”
Foi então que Leônia apareceu.
“Posso entrar no aposento da senhora?”
Batido na porta. A garota imitou um tom cavalheiresco enquanto esbarrava na maçaneta. Varia e as criadas dentro do cômodo tentaram segurar o riso.
“Claro.”
“Então, com licença pela minha grosseria.”
Quando Leônia entrou, seus olhos pretos se arregalaram de surpresa.
“Uau! Irmã, você está maravilhosa!”
Ela se levantou na ponta dos pés, genuinamente impressionada.
“Oh, minha nossa, jovem senhorita.”
Varia também ficou surpresa.
“Hehe, não parece que estou linda?”
Leônia rodopiou no lugar, toda vestida de forma impecável.
Com um terno formal preto, ela parecia uma miniatura de Ferio.
“Este é o único traje chique que eu tinha para o banquete.”
Ela puxou de lado o tecido de forma desajeitada. Detalhes de bordado brilhavam suavemente na roupa.
Os únicos toques de cor que contrastavam com o preto eram a gravata branca bem alinhada e o broche no pescoço.
“Você fica ainda mais estilosa que o Duque!”
Varia falou de coração.
“Só por hoje, sou a melhor!”
Leônia encolheu o ombro com orgulho, fazendo sua trança baixa balançar atrás de si. Assim, elaacabava parecendo um pouco mais madura do que o de costume.
“Claro que você também é linda, irmã!”
Ela correu até Varia, sorrindo de orelha a orelha.
“Você é tão bonita que nem quero que o papai te veja.”
A garota olhou para as joias espalhadas sobre a mesa — todas escolhidas pessoalmente por Ferio antes de partir.
Entre elas, Leônia pegou um par de brincos.
Eram em formato de lágrima — o primeiro par que Ferio tinha escolhido.
“Sério, o gosto do pai é......”
Incrivelmente bom.
Os brincos que ele escolheu combinavam tão bem com Varia que quase davam medo.
Até Varia tinha que admitir — esses brincos ficariam ainda melhor nela do que qualquer outro.
“Desculpe, ◈ Novelight ◈ (Continue lendo) ao Príncipe Primeiro, mas...”
Leônia esticou a mão.
“Hoje, a protagonista é a senhorita Varia.”
“Esse tom parece estranho.”
Varia sorriu e colocou a mão na de Leônia.
“Tava imitando um pouco o papai.”
Para Leônia, nenhum cavalheiro do mundo era tão elegante ou impressionante quanto Ferio.
O banquete de aniversário do Primeiro Príncipe foi realizado em grande estilo.
Era uma demonstração do favoritismo autoritário do Imperador — e isso encorajava a facção do Imperador, os nobres que apoiavam o Primeiro Príncipe.
Eles desfilavam pelo salão central como se fossem os donos do lugar, entregues a todos os prazeres.
No entanto, o próprio aniversariante — o Primeiro Príncipe — e o restante da família imperial ainda não tinham aparecido.
E assim, a facção do Imperador agia como se fosse a verdadeira autoridade do recinto.
Já os outros nobres, ao redor, se agrupavam às margens, murmurando discretamente sobre o favoritismo escancarado do Imperador, enquanto bebiam suas bebidas. Para eles, o evento não passava de algo pouco agradável.
No meio de tudo isso...
“O Duque de Voreoti ainda não chegou?”
O jovem herdeiro do Marquês de Pardus e do Conde Urmariti estavam escondidos numa varanda isolada, conversando em voz baixa.
O herdeiro do Marquês espiou através da janela de vidro, observando o salão do banquete.
Um grupo particular chamava atenção — surpreendentemente, uma cabeça vermelha brilhante estava bem no centro dele.
Parecia que Remus Olor estava falando alto e se gabando de novo.
A ideia de ter que correr atrás daquele idiota mais tarde o dava vontade de sair daquela festa ali mesmo.
“Mandamos alguém para o palácio mais cedo, e até agora ele não chegou,” informou o Conde Urmariti.
“Viajar entre o Norte e a capital realmente leva tempo.”
“Todos estão passando aperto, aqui ou acolá.”
“Parece que os danos foram menores do que o esperado.”
“Pois é, isso é uma boa notícia.”
O jovem herdeiro virou a cabeça praticamente de leve, ainda esperançoso de que seus irmãos mais novos, que ficaram no Norte, não estivessem passando dificuldades tão grandes.
Ele imaginou a expressão de Lupe — o homem tava empolgado com o fato de estar feliz por estar casado — e isso deu uma animada nele.
Porém, assim que viu Olor continuar se exibindo como se fosse dono do lugar, aquele sentimento caloroso se congelou.
Especialmente com aquela porquinha de pelúcia rosa grudada nele, tagarelando sem parar.
“Ela realmente ficou bastante convencida ultimamente.”
“Erbanu?”
“Principalmente na última reunião.”
Ela nem tinha sido oficialmente registrada, mas Erbanu teve a coragem de exigir publicamente que Voreoti levasse sua filha.
Esse comportamento era totalmente inaceitável.
Ficar perto dos Cisnes Vermelhos devia ter ensinado maus hábitos para ela.
Ou talvez ela fosse só naturalmente inconsciente do próprio lugar.
'Provavelmente a segunda hipótese.'
Por que mais ela tentaria casar sua filha menor com um homem na faixa dos trinta anos?
Outros pensamentos de repúdio vieram à cabeça dele ao perceber a cena.