
Capítulo 147
Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.
A sala de estar estava silenciosa.
Varia tinha colocado todas as suas cartas na mesa, e Ferio, pensativo após ouvir tudo o que ela apresentou, permaneceu em silêncio.
‘......’
Leonia também estava ocupada, querendo lembrar qual era a história original.
‘A estrutura principal não mudou.’
Leonia mais uma vez se pegou pensando que o destino era uma coisa estranha.
Ela mesma era uma prova viva de que o destino podia ser mudado.
O fato de Ferio e Varia terem se encontrado muito antes do que na história original provavelmente se devia ao fato de ela ter perturbado o fluxo da narrativa.
Por outro lado, Varia era um símbolo de um destino predeterminado.
Mesmo com a grande variável que era Leonia, Varia ainda acabou conhecendo Ferio e oferecendo um acordo.
‘Mas, mesmo assim, esse foi um destino que ela mudou por esforço próprio.’
Pensando assim, parecia errado simplesmente chamar o fluxo atual dos acontecimentos de “destino”. Seria injusto com Varia, que trabalhou tanto para chegar até aqui.
‘De qualquer forma, ela é impressionante.’
Deixando de lado tudo o mais—
Leonia ficou genuinamente impressionada com a preparação e habilidade dedutiva de Varia.
Um ano inteiro antes de entrar na Academia—ou seja, no máximo, aos quatorze anos—Varia já tinha começado a preparar tudo isso por conta própria.
Só de imaginar a dor que ela enfrentou sozinha, Leonia sentia uma mistura de admiração e tristeza.
“......De fato.”
Ferio finalmente mexeu os lábios.
“Você é impressionante.”
A evidência que Varia tinha apresentado era realmente notável.
Ela ter investigado e deduzido tudo isso sozinha fazia com que ele quisesse elogiá-la.
Mas, infelizmente—
Ferio olhou para Varia.
A jovem de cabelos rosas estava claramente esperando uma resposta positiva à sua proposta, e aquilo o deixou com um leve peso de pena.
Porque tudo o que ela havia mencionado já era de conhecimento de Ferio.
Desde que descobriu que Remus Olor era o pai biológico de Leonia, ele vinha mantendo um olho atento à Família Imperial, aos Olors e a todo o Sul.
De seu lado, tinha Pardus—uma pessoa favorecida pela Família Imperial—que atuava como informante, e havia pessoas infiltradas nos escritórios administrativos da capital.
Resumindo, não havia razão para Ferio aceitar aquele negócio.
Poderia expulsar Varia daquele lugar agora mesmo.
Mas não fez isso.
“Só tem uma coisa.”
Algo ainda o incomodava.
“Posso te fazer uma pergunta.”
Ferio apontou para uma das evidências que havia se destacado.
Era o documento mais desgastado, e no instante em que ele indicou, a mão de Varia—que repousava no joelho—se fechou rapidamente em um punho.
A mão cerrada tremeu levemente pela força de seus dedos.
“Varia-unni……”
Leonia observava com uma expressão dolorida.
Ferio fingiu não ver.
“Este documento também inclui má conduta do seu clã, senhora Varia.”
O documento ao qual Ferio apontava dizia respeito a uma organização de apoio a artistas fundada por nobres pró-Imperador, incluindo a Casa Erbanu.
Em nome de apoiar artistas desconhecidos, eles arrecadaram pequenas quantias de dinheiro—que acabaram virando fundos secretos para o Imperador.
Era uma evidência de desvio de dinheiro e sonegação de impostos.
“Vai ficar tudo bem com isso?”
Ferio perguntou.
Se essa verdade viesse à tona, a Família Imperial, os Olors, e todos ligados a eles nunca terminariam em paz.
“Eu……!”
Varia tentou responder, mas congelou.
Ela mal conseguiu segurar as lágrimas ameaçando escapar.
“......Se, quero dizer.”
Então ela falou novamente.
“Se esse acordo for aceito, tenho um pedido.”
“Um pedido?”
“Não deve significar muito para o duque.”
Varia sorriu de forma fraca e desajeitada.
“Por favor, me permita morar no Norte.”
Era um pedido simples.
Mas, para Varia, era tudo.
“Quero deixar a capital.”
A Varia, que tinha sido assassinada aos quatorze anos, havia retornado ao passado.
Aquele retorno foi tanto uma fagulha de esperança para mudar seu futuro—quanto um inferno vivo que a obrigou a suportar sua família novamente.
Seu clã, que permitiria sua morte, até mesmo entregou a espada que a mataria.
Varia queria romper todos os laços com eles.
Mesmo após se mudar para um dormitório longe de casa, a Casa Erbanu ainda pairava à sua sombra.
E esse incidente disciplinar recente a lembrou disso tudo mais uma vez.
Enquanto permanecesse na capital, nunca escaparia da sombra da sua família.
“Pai.”
Leonia olhou para Ferio.
A desesperança de Varia não era algo que ela pudesse simplesmente assistir e ignorar.
Além disso, Leonia conhecia bem as circunstâncias de Varia—graças à história original.
“......Você realmente tem certeza disso?”
Ferio perguntou novamente.
“Sem arrependimentos?”
“Se for pra falar de arrependimentos……”
“Qualquer coisa.”
Abandonar sua família, jogar fora sua cidade natal.
Ferio precisava ter certeza.
“Se...”
Varia abriu a boca lentamente.
“Se eu fosse acreditar na minha família mais uma vez e lhes desse outra chance.”
A luz verde cintilante em seus olhos se obscureceu instantaneamente.
“Então, eu estaria basicamente colocando a corda no meu próprio pescoço.”
Ferio fechou um olho.
Algo definitivamente tinha acontecido com sua família, mas ele não conseguiu perguntar.
Ele apenas a olhou em silêncio por um longo momento.
“O que você fará se eu rejeitar o acordo?”
“De qualquer forma, vou fugir para o Norte.”
“Você gosta tanto do Norte assim?”
Ferio perguntou com curiosidade genuína.
Varia deu um sorriso cansado.
“Acho que sim.”
Na sua primeira vida, Varia tentou fugir para o Norte—mas fracassou e foi morta.
Talvez por isso, ao voltar, ela continuava ansiosa por aquilo.
Mais do que a casa onde nasceu e foi criada, o Norte—um lugar onde ela nunca tinha estado—parecia valioso para ela.
“Bem, se você gosta tanto assim.”
Ferio lançou um olhar para Leonia, os cantos dos lábios formando um sorriso leve.
Leonia, que vinha observando nervosamente, começou a esboçar um sorriso mais brilhante.
“Já está na hora de precisarmos de um tutor para o Leo de qualquer jeito.”
As tarefas que Ardea deixou antes de sair de viagem não eram suficientes para manter os estudos de Leonia — ela estava ficando atrasada.
Varia tinha entrado na Academia como oradora da turma e se formou como a melhor aluna.
E, para completar, conseguiu um emprego no Departamento de Finanças, conhecido por sua alta competitividade.
“A condição é que você deixe o Departamento de Finanças e venha trabalhar como nossa tutora de estudos.”
“.......”
“Garanto que o salário aqui será maior—então, não se preocupe.”
“......Com licença?”
Varia perguntou, em estado de choque, sua cabeça girando por causa da mudança abrupta na situação.
“Unni!”
Naquele momento, Leonia apareceu na frente dela.
A garota segurou firmemente a mão de Varia.
“Está tudo resolvido agora!”
“Tudo...... feito...?”
“Meu pai aceitou seu acordo!”
Ao ouvir isso, Varia se levantou de um salto. Mas a tensão que carregava se desfez instantaneamente, e suas pernas fraquejaram.
Leonia, ao lado dela, correu para segurá-la, e Ferio instinctivamente estendeu a mão também.
“......”
De trás dos cabelos cor de rosa, um silêncio de soluço escapou.
O pai e a filha bestiais hesitaram.
“Obrigada......!”
Varia mal conseguiu falar, ofegante.
“Muito, muito obrigada......!”
Sua voz tremia de esforço, até que ela chorou em prantos.
“Pai.”
Leonia apontou para a Varia choramingando, com o queixo.
A sobrancelha de Ferio contraiu-se. Sua expressão parecia dizer: “E o que exatamente você quer que eu faça a respeito?”
Ele ficou completamente surpreso ao ver a mulher adulta chorando copiosamente bem na frente dele.
Conforte-a.
Leonia fez um gesto silencioso.
Ferio fechou um olho.
Não era como se ela estivesse chorando por algo que ele tivesse feito—será que realmente era necessário?
Vamos logo, hein?
Leonia rosnou.
Justo quando Ferio, agora moderadamente irritado, ia soltar a mão de Varia—
“Duque......”
Varia ergueu a cabeça e olhou diretamente para Ferio. Seus olhos se encontraram, e Ferio ficou surpreso com o olhar inesperado.
Uma adulta, chorando com o soro escorrendo pelo seu rosto—era no mínimo estranho.
Mas ele ainda assim não soltou seu lenço.
O lenço no bolso de Ferio era estritamente reservado para limpar as mãos depois de cuidar de Leonia.
“Obrigada. De verdade.”
Varia lhe deu um sorriso trêmulo e constrangido, através do rosto manchado.
“Pare de chorar.”
É feio.
Ferio disse de modo cortante.
Pela estranha razão, a perna onde guardava o lenço começou a doer.
Mesmo assim, ele não o puxou, e Varia acabou secando as lágrimas com o que Leonia lhe entregou.
Ferio tinha uma sensação muito ruim.
Ele tinha certeza—um dia, vai se arrepender profundamente por esse momento, com todos os ossos do corpo.
***
Na manhã seguinte.
Eu devo estar louca, de verdade!
Varia estava segurando a maçaneta da porta há trinta minutos.
Só de lembrar da humilhação de ontem, seu rosto queima. Sua visão fica turva, como se estivesse com febre.
Ao invés de um dia, ela chorou os olhos ontem, vomitando toda a dor que suportou sozinha por tanto tempo.
Como é que vou encarar eles agora?
De todos os lugares, ela chorou como uma criança na frente do duque Voreoti e sua filha.
Se agora eles a tratassem como uma louca, ela nem conseguiria protestar.
Especialmente o duque...
Varia se lembrou do olhar que Ferio lhe deu ontem.
Como se estivesse pensando: “Que tipo de lunático é essa?”
Ela queria se enfiar em um buraco e desaparecer.
Honestamente, mostrar ao filho do Marquês de Pardus como ela conseguiu passar por um buraco de cachorro no palácio teria sido menos humilhante.
Se recompor.
Sossegue, respire fundo.
Só depois de vários respirações profundas, Varia conseguiu finalmente sair do quarto.
O sol ainda nem tinha nascido. Nos corredores silenciosos, onde nem os criados já se moviam, ela passeava sob o pretexto de uma caminhada matinal.
“Então é aqui, Voreoti……”
Ela tocou suavemente a parede com as pontas dos dedos.
Parecia um sonho.
Mesmo que a textura da pedra lembrasse que ela realmente estava dentro da propriedade Voreoti, ainda assim parecia irreal.
Ela tirou os sapatos e meias e pisou descalça no tapete do corredor.
As fibras macias coçaram seus pés como o pelo de um filhote de cachorro recém-nascido.
Varia balançou as pernas delicadamente. O tecido fofinho fez cócegas nas solas dos pés.
Ela tremeu.
“Realmente é Voreoti...!”
Só então ela assimilou completamente. Começou a saltitar no lugar, batendo os pés com barulho e entusiasmo.
Quando o acordo foi aceito ontem, um sentimento de alívio a atingiu como uma onda gigantesca. Ela chorou antes mesmo de sentir felicidade.
Mas agora, esse alívio era como uma maré calma e suave.
Como o tapete que roçava em seus pés—preenchia-a por completo.
“Eu adoro isso tanto!”
Ela levantou os punhos e os balançou enfaticamente no ar.
“......Pai.”
Leonia, que tinha acordado cedo para seu treino habitual, abaixou a voz.
“Não seria melhor interrompê-la?”
“Deixa ela."
Ela só está feliz.
Ferio impediu Leonia antes que pudesse interferir.
Então, era aquele barulho estranho que tinham ouvido ao amanhecer—Varia estava na passagem gritando “Voreoti” em voz alta, fazendo uma dança de comemoração estranha.
“Suspiro. Crianças de hoje……”
Leonia olhou com pena. A menina de doze anos não conseguiu deixar de se sentir comovida.
“Você finalmente entende como seu velho se sente.”
Ferio gargalhou, observando Varia continuar pulando de alegria, sem perceber que estavam observando.
“Ela parece um potro galopando na neve.”
“Você sempre usa as expressões mais bakana.”
“Qual o problema com potros?”
“Se vai usar um animal, melhor usar filhote de cachorro.”
“Você tem algo contra potros?”
Mas logo cedeu e trocou “potro” por “filhote”, como a criança queria.
“......Uma cadela pequena?”
“Pai. O que foi que eu te disse?”
Não mude as palavras.
“Então foi de propósito.”
Leonia lançou um olhar de lado para o pai, que tinha mais de trinta anos e ainda não tinha crescido, com uma exasperação gentil, cheia de compreensão.