
Capítulo 149
Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.
Leonia freou a mão que mexia rapidamente.
— Isso não está certo... —
Algo em tudo isso parecia muito estranho.
“Varia-oni.”
— Agora é professora.
“... Professora.”
— Sim, senhorita, — disse Varia, ajeitando uma mecha de cabelo cinza-rosada atrás da orelha. Ela tinha o cabelo preso de forma limpa em um coque único.
Desde que assinou o contrato de trabalho, Varia passou a chamar Leonia de senhorita durante as aulas.
Leonia, por sua vez, concordou em chamá-la apenas de professora durante o horário de aula.
Hoje foi a primeira aula oficial delas.
Varia revisou o currículo de Leonia com antecedência e passou a noite toda preparando exercícios práticos.
O nível acadêmico de Leonia já era equivalente aos alunos de uma academia de elite. Se ela fizesse a prova de admissão agora, poderia facilmente ficar em primeiro lugar.
— Isso não parece estranho para você?
Porém, a garota parecia totalmente desinteressada nos estudos.
— Tem algo errado?
Varia fingiu ignorância enquanto passava pelos problemas. Felizmente, nada parecia fora do lugar.
— Todo esse negócio parece estranho.
Leonia finalmente colocou a caneta sobre a mesa e murmurou com seriedade:
— Por que está tão calmo assim?
— É porque você ainda não começou a resolver nada.
— Meu pai é bonito, né?
— Se você fizer seus exercícios, ele vai ficar ainda mais bonito.
— Então, vou resolver só este aqui... —
A filha sempre dedicada pegou a caneta novamente.
— Não posso deixar o papai virar um sapo feio.
Enquanto trabalhava nos problemas, Leonia se achava uma filha perfeita, dando tapinhas na própria costas.
Varia a observava fascinada.
Ela não tinha muitas relações próximas, mas nunca tinha conhecido uma criança tão estranha e divertida quanto Leonia.
E, para ser sincera, uma tão pervertida.
— O que o penteado bonito do seu pai tem a ver com tudo estar tranquilo?
Varia perguntou assim que Leonia terminou.
Ela já tinha imagino a resposta só de observá-la de lado — e, de fato, cada problema que Leonia resolveu estava correto.
Ela era assustadoramente perspicaz. Tudo que Varia ensinava, ela absorvia na hora.
— Posso ser honesta?
Leonia fez uma careta séria, apoiando o rosto com as mãos.
— Empregadora e tutora.
Ela assentiu, admirada.
— Que combinação empolgante!
Leonia sorriu maliciosamente.
— Senhorita.
Varia estendeu a mão e segurou suavemente a dela, falando com a gentilza de um santo.
— Se falar essas coisas na rua, as pessoas vão achar que você é pervertida e chamá-la de bandida.
Seu olhar, enquanto acariciava a mão da criança, transbordava compaixão.
— Pode dar um susto no duque, hein.
—... Sério?
Leonia estreitou os olhos.
— Não.
Varia rapidamente mudou sua resposta.
Não havia como o poderoso Ferio ser derrubado pelos truques distorcidos da filha.
— Ainda assim, vejo assim.
Leonia reforçou seu ponto de vista.
— Um empregador e uma tutora em um encontro secreto. Não é emocionante?
— Nada a ver comigo.
Varia respondeu como se fosse algo alheio à dela.
A curva para cima nos lábios dela claramente significava: Nem pensar nisso, seu louco.
— O melhor é a simplicidade.
Ela nem queria se casar.
Todo lar que Varia conheceu foi longe de ser feliz.
Até os pais que antigamente diziam amá-la mudaram de ideia — e ficaram ao seu lado quando ela foi condenada à morte.
E quanto à irmã mais nova? Nem vale a pena falar.
Talvez um dia ela se apaixonasse, mas, por enquanto, Varia nem conseguia imaginar construir uma família de verdade.
Romance, por si só, simplesmente não lhe atraía.
— Você não acha que é um pouco jovem demais para desistir da aventura?
Leonia, de 12 anos, fez uma expressão de bico.
Varia segurou para não rir.
Ela ainda não estava acostumada a ouvir Leonia falando como uma senhora rabugenta.
— Ai, isso está me matando.
Leonia bateu no peito com força.
‘Finalmente estão juntos!’
Sob o mesmo teto, os protagonistas da história original estavam juntos. Os dois que se apaixonaram à primeira vista agora estavam na Casa Voreoti.
Então, por que Deus estava tão calmo assim?
Leonia não gostava de como sua relação era tão civilizada.
‘Dessa vez, tem que ser do jeito original.’
Já se passaram cinco anos desde que ela resolveu ignorar a história original e viver do seu jeito.
E aquela promessa ainda era forte.
Mas desta vez... desta vez, Leonia desesperadamente queria que a força do original entrasse em ação.
‘Você é para ser minha mãe.’
Ela soube no instante que a viu.
Ferio era a combinação dele—Varia.
A mulher ali, na sua frente, era, sem dúvida, sua futura madrasta.
Como mais ela teria chamado instintivamente de “mãe” ao encontrá-la pela primeira vez?
‘Vou fazer de você minha mãe.’
Os olhos negros de Leonia ardiam enquanto ela olhava para Varia.
‘Então por que meu pai está ali, imóvel como uma pedra?!’
Eles não tinham tempo a perder — e, ainda assim, Ferio era tão infantilmente inocente.
Leonia não aceitava um pai que só pensava em criar a filha.
‘... Não me diga que ele é impotente de verdade?’
A filha desobediente tremeu ao pensar nisso de forma tão perturbadora.
— Bem, vamos encerrar por hoje?
Depois de algum tempo, Varia sugeriu terminar a aula.
Como era a primeira vez que ambos ensinavam e aprendiam juntos, o objetivo era apenas se acostumar.
— Oni, oni.
Leonia chamou-a apressadamente assim que a aula terminou.
Ela tinha decidido: se não interviesse e empurrasse essas duas a sentirem algo, nada aconteceria.
Senão, a Besta do Norte seria marcada como impotente, e isso ela, como filha dele, tinha que impedir.
— Meu pai... —
Ela se inclinou e sussurrou alguma coisa importante.
— Ele tem dez desses.
Leonia apontou para seu estômago.
Varia seguiu o gesto com o olhar. Leonia, vestida com um vestido amarelo pálido, tinha uma barriga completamente lisa.
O que ela poderia ter dez ali dentro? Varia pensou, com a expressão lentamente congelando.
— Os abdominais dele?
Varia ficou horrorizada ao entender.
— Meu Deus! O duque tem dez umbigos?!
— Oni, você está brincando comigo agora?
Na hora, Leonia ficou apavorada.
***
Depois da aula, Varia foi até o escritório de Ferio.
Leonia queria ir junto, mas ela já tinha planos de visitar a propriedade Rinne.
Ela fez um gesto de despedida para Varia, com expressão frustrada.
— Vou trazer algo gostoso!
Depois de se despedir dela, Varia subiu até o escritório.
— Duque.
Ela bateu suavemente na porta. Uma voz do interior pediu que ela entrasse.
Quando entrou, Ferio estava recostado na cadeira, folheando documentos com uma expressão preguiçosa.
Ele aparentava tédio, mas sua postura permanecia precisa e disciplinada.
Estava atolado de trabalho.
Ele precisava concluir tudo cedo se quisesse participar do próximo banquete de aniversário do Primeiro Príncipe.
— Seus pertences chegaram.
Ferio nem levantou o olhar, apenas indicou o sofá.
Estava tudo que Varia não conseguiu trazer do dormitório.
A caixa aberta estava cheia de suas coisas do Departamento de Finanças. Inclusive uma caneta que ela tinha emprestado a um colega e esquecido meses atrás.
— Nada faltando?
Varia olhou por cima dos itens e balançou a cabeça.
Ela ainda não verificara as sacolas, mas tinha certeza de que tudo estava lá.
— Muito obrigada, de verdade.
Ela não sabia bem o que fazer com todo cuidado que Voreoti lhe mostrara.
Mesmo que tudo tivesse sido acertado, ela tinha consciência de sua posição.
De muitas maneiras, era uma baita dor de cabeça.
Mesmo se cortasse relações, ainda era alguém da Casa Erbanu.
E, no entanto, eles a tratavam com cuidado. Isso por si só significava muito.
— Você está se adaptando bem?
Ferio perguntou, sem olhar muito para ela, voltando ao trabalho.
Porém, ambos os ouvidos estavam atentos à resposta dela.
— Perfeitamente!
Varia respondeu com entusiasmo.
— O quarto que o senhor me deu é mais do que eu podia imaginar.
No primeiro dia, ela tinha ficado em um pequeno quarto de hóspedes. Mas, no dia seguinte, Ferio a mudou para um quarto bem maior.
Ele achava que sua tutora não deveria dormir em um armário de vassouras.
— Ah, na aula de hoje...
Varia começou a relatar a aula.
— Eu realmente achei que valia a pena ensinar ela.
Ela elogiou a inteligência de Leonia e disse que queria aumentar a dificuldade dos desafios.
No começo, ela só planejava fazer seu trabalho direito. Mas depois de ensinar Leonia hoje, ela realmente quis continuar ensinando mais.
O que significava que ela precisava estudar de novo também.
— Será que posso pegar alguns livros?
— Diga ao Tra mais tarde.
Ferio concordou facilmente.
— ...Aliás.
Quando ela estava quase terminando, prestes a se levantar, Varia murmurou sozinha:
— O que é retus abdominal?
Ferio, quase de pé, parou e franziu a testa.
— Onde você ouviu isso?
Seu rosto de travessura passou pela cabeça dele — ele quase pôde ouvir sua risadinha convencida.
— Ah, não é nada!
Varia fez gestos frenéticos, nervosa.
— É alguma coisa?
Depois, ela mudou de ideia.
— Na verdade, depois da aula, a senhorita...
Ela contou a ele o que Leonia tinha dito. A única razão de ela ter coragem de falar aquilo foi porque Ferio não a assustava tanto quanto ela esperava.
Seu rosto parecia intimidante, claro, mas não o suficiente para fazer seu joelho tremer.
Ferio suspirou e sacudiu a cabeça.
— As pessoas não têm dez umbigos.
Ele olhou com um pouco de pena para Varia.
— Você é mais crédula do que eu imaginava.
— Cr.... crédula?!
Seu rosto ficou vermelho.
— Como você não sabe o que é o reto abdominal?
— Não é que eu saiba tudo...!
Ela fez bico, vestindo a cara de injustiçada.
— ...
Ferio de repente tinha uma dor de cabeça insuportável.
— É assim que a normalidade se apresenta...
Varia tinha razão.
Até cavaleiros treinados frequentemente não conheciam termos como “reto abdominal.”
Ele só sabia porque estudou anatomia para acompanhar o interesse obsessivo da filha por músculos.
Depois de anos criando uma freak obsessiva por músculos, sua percepção de normalidade ficou distorcida.
— Senhorita Varia.
Ferio se levantou e se aproximou dela.
— O reto abdominal fica aqui.
Apontou diretamente para seu próprio estômago.
— Então ele realmente tem dez umbigos?
Varia ficou de boca aberta, levando a mão ao rosto, horrorizada.
Ela olhava para o tecido esticado sobre os músculos, como se não pudesse acreditar no que via.
— Meu Deus! Acabei de descobrir o maior segredo do duque!
— Que droga...
Ferio quase soltou um “Que louco é você?”, mas segurou a própria língua na hora certa.
— O título de “Fera” vai chorar com isso...
No Departamento de Finanças, Varia era chamada de “a Fera”—uma oficial severa e assustadora.
Porém, agora, na frente de Ferio, ela parecia mais um cachorrinho desorientado.
Claro, desconfiada — mas sempre tropeçando em mal-entendidos esquisitos.
Ferio a olhou fixamente, enquanto ela continuava aflita com seus supostos dez umbigos.
Nunca ninguém tinha virado ela do avesso assim desde Leonia.
— Mão.
Inc fica sem ver até o fim, Ferio estendeu sua própria mão.
— Me mostra sua mão.