
Capítulo 143
Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.
O comentário de Lonia de forma despretensiosa provocou uma onda de choque no ar.
“...Do que diabos você está falando?”
Lota virou-se para Varia, com a voz cortante.
Os vasos sanguíneos ao redor de seus olhos verdes saltaram vermelhos de tanta fúria.
Se Leonia e Meleis, armada de espada, não estivessem ali, Lota provavelmente teria ido direto para a garganta de Varia, com as garras a postos.
“Por que cargas d’água ◆ Noite de Novas◆ (apenas na Noite de Novas) a garota Voreoti acabou chamando você de mãe?”
“Eu—Eu também não sei!”
Varia estava igualmente perplexa. Na verdade, ela estava mais chocada do que Lota.
Na sua primeira vida, onde tudo o que ela mais quis foi a aprovação da família, e nesta segunda, movida puramente por vingança—ela nunca, em momento algum, teve qualquer envolvimento romântico.
Neste aspecto, ela era completamente limpa.
Além disso, havia muitos rumores de que o Duque de Voreoti era apaixonadamente louco por uma mulher rústica que lhe deu uma filha, e que ele sequer olhava para mais ninguém.
Mas Lota não acreditava nisso.
Será que ela está envolvida com Voreoti?
Ela de fato começava a suspeitar que sua irmã, de alguma forma, estivesse envolvida com o Duque.
Por que mais ela chamaria ela de “mamãe”?
Se fosse verdade...!
Por mais poderosa que a família Olor fosse, Voreoti estava em outro nível completamente diferente.
Existiam apenas cinco linhagens sanguíneas mais antigas que a própria história do Império—e Voreoti era uma delas.
Cada uma delas tinha um poder inimaginável.
Leonia só começou a sentir o peso opressor das bestas negras do Norte após se casar com a família Olor.
Se a irmã dela estivesse envolvida com elas...
Se ela realmente se casasse com o Duque...
Se ela se tornasse duquesa...
De jeito nenhum!
Lota rangeu os dentes.
“Ah, desculpe por isso.”
De repente, Leonia se desculpou pelo deslize. Enquanto Varia e Lota estavam ambas completamente dominadas por motivos bem diferentes, ela permaneceu completamente impassível.
“Varia, hum... posso te chamar assim?”
“Q-que? Ah, claro, sem problema.”
Varia, ainda em choque, assentiu sem pensar. Leonia sorriu com inocência radiante.
“Embora seja a primeira vez que nos encontramos, não sei... Você me lembrou da minha mãe...”
Ao dizer isso, Varia sorriu suavemente, com uma empatia crescendo dentro dela.
Ouvir Leonia mencionar sua mãe falecida despertou algo profundo.
“Fui inconveniente, não foi? Me desculpe.”
“Não, de jeito nenhum! Está tudo bem!”
Leonia fez uma reverência de pedido de desculpas, e Varia rapidamente gesticulou com as mãos, pedindo que ela não se preocupasse.
Lota, por outro lado, permaneceu silenciosa, com a mente fixada no insulto de “bastardo” que havia soltado mais cedo.
Ela não sentia exatamente pena—era mais irritada por ter sido pega.
Observando tudo aquilo, Meleis ficou silenciosamente impressionada com a mentira impecável de Leonia.
Que enganadora...
Ela realmente estava se tornando mais parecida com o pai a cada dia—sem-vergonha e audaciosa.
Quase ninguém na Casa Voreoti sabia que Leonia não tinha memórias antes dos cinco anos de idade.
Meleis era uma das poucas.
Mesmo assim, ela não fazia ideia do motivo pelo qual Leonia de repente tinha chamado Varia de “mãe”.
Pela sua postura habitual, parecia apenas uma brincadeira inocente.
De qualquer forma, a mentira funcionou.
Varia acabou sorrindo para Leonia, oferecendo um conforto suave, enquanto Lota lançava olhares discretos para ela, claramente aliviada.
...Elas realmente são irmãs, hein?
Meleis franziu um pouco a testa.
Eram ambas com cabelos rosados e delicados, com uma aura semelhante de suavidade.
Mas, apesar das tantas semelhanças, era chocante como eram diferentes realmente.
“De qualquer forma, prazer em te conhecer.”
Leonia cumprimentou novamente, de forma mais formal desta vez.
“Sou Leonia Voreoti. É um prazer.”
Finalmente, ao conhecer de fato a protagonista da história original, Leonia disse cada palavra com sinceridade.
Varia respondeu rapidamente.
“Sou Varia. É um prazer—”
Então ela parou de repente.
...Como ela sabe meu nome?
Eram estranhas uma para a outra.
Claro, Varia havia estudado bastante sobre Leonia às escondidas—ela sabia seu nome, seus pratos favoritos, seus gostos, até as cores que mais lhe caiam bem.
Mas, de repente, Leonia sabia dela?
Isso não devia acontecer.
“Você é tão bonita quanto ouvi dizer.”
“Você me conhece?”
Varia perguntou, de olhos arregalados.
“Quem não conhece?”
Leonia deu de ombros.
“Meu tutor é o Professor Ardea. Ouvi falar bastante de você por ele.”
Os olhos de Varia se arregalaram.
“Como está ele?”
“Puro vigor, para ser honesta. Está de férias, viajando pelo País.”
“Sério?”
Varia respirou aliviada.
Na sua última vida, ele morreu prematuramente. Era um grande alívio saber que ele estava vivo e em boas condições para viajar nesta agora.
E, agora, ela compreendia como Leonia a conhecia.
Hmph...
Leonia a observava de perto.
Ela realmente é linda.
Ela tinha visto muitas belezas, mas sempre acreditou que o pai, Ferio, fosse o mais bonito de todos.
Agora, não tinha tanta certeza.
Varia era de tirar o fôlego.
A pele pálida, as feições perfeitas e o rosto bem equilibrado a tornavam quase surreal.
E aquele cabelo...
O cabelo ondulado rosa de Varia, com um toque esfumaçado, tornava sua beleza já impressionante ainda mais vívida.
A luz do sol que entrava no beco fazia aquele rosa opaco brilhar.
Porém, seus olhos eram os mais belos.
Olhos verdes eram comuns no Império, mas nenhum assim. Brilhavam como pedras preciosas na água cristalina.
Na história original, Ferio frequentemente sussurrava para Varia que não conseguia parar de olhar para seus olhos.
...Ugh.
Leonia se encolheu de vergonha.
Ela tinha acabado de imaginar Ferio dizendo aquilo, e aquilo quase a fazia vomitar.
Por mais que fosse um protagonista perfeito, para Leonia ele era apenas seu pai.
Ela não o via de outra forma. Gostar dele? Impossível. Seria como se apaixonar por um peixe bonitinho pulando por aí.
Ele é longe demais para ela, sinceramente.
Varia era muito melhor do que ficar com alguém que já tinha um filho.
Embora, para ser justa, meu pai ainda seja o melhor homem do mundo!
E a filha dele também é super fofa!
Leonia sorriu orgulhosa para si mesma.
“Vamos?”
Terminando sua pequena avaliação mental, Leonia estendeu a mão.
Ela queria conversar mais com Varia, mas isso poderia esperar até concluir a tarefa do pai.
“...”
Varia olhou para a mão dela.
Era isso que ela precisava entender.
Agora ela sabia.
A saída repentina com o filho do Marquês, ele desaparecendo, Leonia aparecendo como se fosse tudo planejado—era tudo isso.
Estava tudo perfeitamente ensaiado.
Um esforço conjunto entre Voreoti e Pardus.
Varia sentiu uma tontura.
Mesmo assim, sua mão começou a se mover sozinha.
“Irmã!”
Lota voltou a interromper, segurando a mão de Varia no ar.
“Para onde acha que vai?!”
Ela soou como se estivesse repreendendo.
Leonia bufou, irritada, jogando um pouco o cabelo na testa.
Ela não se incomodou em esconder seu aborrecimento. Com uma perna apoiada, encarou Lota.
“Lota.”
O nome saiu dos lábios de Leonia.
“Lota Olor.”
E, para ter certeza de que sabia exatamente com quem estava lidando, Leonia pronunciou claramente.
“Esposa do herdeiro do Visconde Olor, Lota Olor.”
A irmã mais nova do protagonista.
Esposa de Remus Olor.
A esposa de um mero herdeiro, sem nem mesmo ser Visconde completo ainda.
“Quem exatamente você acha que está impedindo agora?”
“...”
“Você realmente acha que está acima de mim?”
“N-Não, eu—”
Lota tentou argumentar, mas fechou a boca. Sua mão tremia atrás da saia.
Varia sentiu uma pontinha de pena por ela.
Mas não ajudou em nada.
Seu aviso para que ela tomasse cuidado com a boca foi suficiente.
Leonia, por sua vez, não sentia nenhuma coisa por Lota. Nem mesmo diversão.
Pensando bem...
Ao observar as duas irmãs, Leonia percebeu algo insano sobre as três que estavam ali.
Lota tinha se casado com o pai biológico de Leonia. Varia, na história original, tinha se casado com o pai adotivo dela.
Mesmo agora, Varia era a maior candidata a se tornar madrasta dela.
Ou seja, tecnicamente, ambas eram suas “mães.”
Que confusão sem tamanho.
Nem um buraco de apostas ia dar um jeito nessa confusão toda.
Até Leonia já estava cansada disso tudo. Ela queria era sair daqui logo.
Especialmente porque só de olhar para Lota já vinha à cabeça todos os palavrões que ela queria soltar, uma sequência de maldições na ponta da língua.
Plof.
Nesse momento, Varia agarrou o pulso de Leonia e, de repente, puxou-a para perto.
“...Ah, não.”
Varia sorriu de forma desajeitada.
“Você ficou com alguma coisa em mim.”
O sorvete de Leonia tinha espalhado todo na roupa dela.
Sangrou e amassou na camisa branca, deixando uma meleca pegajosa.
“...Haha!”
Leonia deu risada.
Essa menina, hein?
Na história original, Varia tinha abandonado suas incertezas e se tornado ousada após sua regressão.
Mas ela não esperava que ela fosse insistir tanto assim.
Varia parecia tensa que só ela.
Porém, aquele sorriso teimoso era mais divertido ainda.
Conhecer Varia pessoalmente—ela era bem mais do tipo que Leonia gostava do que ela imaginava.
“Meu sorvete estragou sua camisa.”
Então eu vou assumir a responsabilidade.
Leonia agarrou a desculpa que Varia lhe deu.
Quem diria que eles dariam tão bem desde o começo?
Toda aquela irritação que Lota tinha causado derreteu como nuvens após a tempestade.
“Meleis.”
“Vamos?”
Meleis tirou o casaco e jogou por cima do top grudado de Varia, cobrindo-o com elegância.
Com um movimento rápido, parecia um xale delicado.
“Irmã!”
Lota chamou Varia, que já se virava para partir.
Mas Varia apenas olhou para trás e continuou andando.
“Tsc, lá vamos nós de novo.”
Leonia permaneceu.
“...O que você pensa que está fazendo?”
Lota perguntou, desesperada.
“O que você acha?”
Leonia sorriu amplamente, genuinamente divertida. Sentiu que podia aguentar qualquer coisa que Lota tentasse fazer com ela agora.
Mas, só para reforçar—
“Como filha da besta negra, é melhor você se preparar.”
Antes de partir, achou adequado deixar um aviso.
Leonia achava que estava sendo generosa, até misericordiosa.
“Veja do que essa filha de cachorro é capaz.”
A filha bastardizada de Voreoti, aquela que Lota tinha zombado de forma tão leviana, revelou um vislumbre de suas presas de ouro.
A preciosa nora da família Olor caiu ali mesmo.
Seu corpo tremeu sob o peso do medo, frio e afiado como a própria morte.
“Vamos evitar um ao outro, o máximo possível.”
Depois de ensinar pessoalmente Lota a tratar com o próximo Duque, Leonia finalmente se afastou.