
Capítulo 144
Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.
Leônia, que tinha entrado na carruagem primeiro, estendeu a mão.
“......Você parece animada.”
Varia hesitou antes de responder.
“ Eu estou sempre animada, sabia?”
Leônia respondeu com um sorriso radiante.
O encontro inesperado e acelerado pelo coração logo se transformou numa expectativa borbulhante de presenciar uma cena digna de um romance.
Se eu tiver sorte, posso até ver meu pai fazendo um acordo com ela!
A garota animada piscou suas sobrancelhas, incentivando Varia a pegar sua mão e embarcar.
Varia não era tão fraca assim que precisasse da ajuda de uma garota de doze anos para entrar numa carruagem.
Se ao menos, era ela quem deveria estar oferecendo a mão.
Mas, como não tinha uma razão real para recusar, Varia pegou na mão de Leônia e entrou na carruagem.
“Sua mão.......”
Varia, uma vez acomodada, recordou a sensação da palma de Leônia há poucos momentos atrás.
Ela tinha visto aquilo no beco também, mas agora que tocara diretamente, a aspereza das calosidades na palma de Leônia era inconfundível.
“Tenho me esforçado na esgrima.”
Leônia disse, mostrando a palma diretamente, sentindo o olhar de Varia.
As calosidades espessas e endurecidas eram tão evidentes que era difícil acreditar que pertenciam a uma menina de doze anos.
“Ainda não consigo vencer o papai, embora.”
“—Você—treina com o Duque?”
Varia ficou completamente atônita.
Treinar com o homem considerado impossível de igualar mesmo para Mestres de Espada experientes?
Ao ver a expressão de espanto no rosto de Varia, Leônia sorriu orgulhosa.
“Antes de vir para a capital, eu até participei de uma caçada a monstros, sabia?”
“Uau!”
“Eu capturei seis sozinha!”
Leônia, radiante de entusiasmo, começou a contar suas histórias da caçada aos monstros.
Como os cavaleiros a conduziam até ela para que pudesse dar o golpe final com a espada, como seu pai a aquecia com ensopado durante acampamentos, e como ela havia reclamado por não conseguir se lavar direito e acabou escorregando, caindo com uma grande chuva de água.
“Você é muito querida, minha senhora.”
Varia disse, olhando para ela com inveja após ouvir as histórias.
“Isso é algo muito maravilhoso.”
“Ah.......”
Leônia percebeu que tinha cometido um erro.
Varia não tinha uma boa relação com a família dela.
Na superfície, pareciam uma família normal, mas por dentro, eram podres até a alma.
Ela tinha acabado de testemunhar uma parte desse conflito há pouco tempo, não tinha?
Na sua empolgação, ela não considerou os sentimentos de Varia.
“Ei, hum.”
Leônia falou, hesitante.
“Se não se incomodar... posso te chamar de ‘irmã mais velha’?”
Os olhos de Varia se arregalaram de choque com o pedido inesperado. Parecia uma coelha assustadinha, dando um pulo e olhando ao redor confusa.
“Acho que podemos nos tornar verdadeiras melhores amigas.”
Leônia esperava por Varia há muito tempo.
“......Será que isso realmente pode ser possível?”
Mas Varia não conseguiu aceitar facilmente a proposta.
“Não é fácil pra mim dizer isso, mas eu sou da família Erbanu.”
“Sei.”
“Não importa o quanto eu a odeie, Lota ainda é minha irmã mais nova. E ela se casou com a família Olor.”
Sua voz ficou carregada de peso.
Por mais que olhasse, só traria problemas para a Casa Voreoti. Se ela se envolvesse, a própria família de origem e da família em lei poderiam explorar isso.
Elas com certeza fariam isso.
Isso a deixava absolutamente miserable.
“Então, o que importa?”
Mas Leônia desprezou essas preocupações sem hesitação.
“Qualquer um que ouvisse você falar, pensaria que você vai se casar com meu pai mesmo.”
Ela até chamou Varia carinhosamente de “irmã mais velha”.
“Eu estou olhando só pra você, irmã mais velha.”
A menina jovem entendia o coração de Varia melhor do que ninguém.
Ela também, uma vez, achou que sua linhagem tinha ficado suja ao descobrir quem era seu pai biológico.
Ela acreditava que seu valor tinha despencado, que tinha envergonhado o nome Voreoti, e até pediu desculpas por ter manchado a família.
Porém, Ferio rejeitou esse pedido.
Ele disse que ela era só ela mesma e que não deveria se deixar levar pelos outros.
Ele a salvou, dizendo que só deveria acreditar no próprio valor que ela determinou.
“Então, não se preocupe demais.”
Leônia não tinha certeza se poderia oferecer a Varia esse mesmo tipo de salvação.
Mas, ao vê-la agora, {N•o•v•e•l•i•g•h•t}, ela sentiu uma onda de confiança, achando que talvez pudesse.
“Meu pai também verá você por quem você é, Varia.”
“.......”
“Então, tudo bem ter um pouco de esperança.”
“......Está bem.”
Varia respondeu com muita dificuldade.
Ela apertou as mãos na saia, quase sem conseguir segurar as lágrimas que ameaçavam escorrer de seus olhos quentes e ardentes.
***
Ao chegar à fazenda Voreoti, Varia foi imediatamente levada à sala de recepção.
Graças às instruções prévias de Ferio, Tra conseguiu lidar perfeitamente com a visita inesperada de Varia.
Ao ver isso, Leônia fez biquinho.
“Então, o papai sabia, afinal de contas.”
“Não há nada que nosso mestre não saiba.”
“Espero que ele seja apunhalado pelas costas algum dia.”
“De fato.”
Leônia e Tra cochicharam conspirando, zombando de Ferio.
Varia ficou surpresa com a convivência casual entre os dois. Mas achou aquilo bastante comovente.
Porém, aquela paz durou pouco.
Logo, a realidade de que ela realmente havia chegado à fazenda Voreoti a atingiu, e seu corpo foi ficando lentamente tenso de nervosismo.
Ela não conseguiu fechar a boca diante do esplendor deslumbrante da propriedade.
A mansão Pardus, que ela admirava até hoje, já parecia coisa do passado.
“É aconchegante e bonito, não é?”
“C-cozy?”
Varia achou que tinha ouvido errado.
Mas Leônia parecia realmente pensar que essa mansão imensa e grandiosa era pequena.
“A mansão do Norte é até maior. Quando vim aqui pela primeira vez, achei tão pitoresca que me surpreendi. É claro, este lugar também é valioso.”
“Q-quaint.......”
A boca de Varia secou.
Mesmo entre nobres, há limites para riqueza.
E Varia, que trabalhava diretamente com as finanças do governo, conhecia bem a realidade por trás de tudo isso.
Normalmente, não importava o quanto um nobre se vangloriava de sua fortuna, ela só zombava disso.
Até a mansão do Marquês de Pardus tinha impressionado, mas nada mais do que isso.
Porém, naquele lugar.......
A Voreoti era uma liga completamente diferente.
Ela tinha visto só um vislumbre — o jardim e parte da entrada.
Mas até esse “vislumbre” superava o próprio Palácio Imperial.
Nada ali era desperdiçado.
Desde as enormes portas que se abriam para receber visitantes inesperados, até o grande saguão que conectava todas as áreas da propriedade, o lustre suntuoso pendurado no teto.
O jovem mordomo, com suas maneiras impecáveis, a levou até a sala de recepção, o tapete de vermelho profundo estendido pelos corredores, as pinturas antigas nas paredes, e a porcelana exótica disposta por toda parte.
Tudo era perfeito.
Estava limpo, sem parecer frio; magnífico, porém digno.
Varia sentou-se tranquilamente no sofá de recepção.
Tra lhe ofereceu um chá floral perfumado.
Cheiro de lavanda.......
Era chá de lavanda, conhecido por acalmar os nervos. Varia realmente se sentiu grata pela consideração de Tra.
Tra também trouxe lanchinhos para acompanhar o chá.
Leônia imediatamente se jogou na cadeira ao lado dela.
“Isso é realmente bom.”
Ela ofereceu uma bomba de creme para Varia, jactando que era sua favorita.
“Vou ficar aqui até o papai chegar.”
“Obrigada.”
Apesar da ansiedade, Varia realmente apreciou a gentileza de Leônia.
Ela pegou a bomba de creme e saboreou. O sabor limpo e doce derreteu seus olhos verdes numa felicidade atônita.
“Está delicioso!”
“Você gosta de doces?”
“Adoro!”
Varia respondeu com sinceridade.
“Mas não tinha muita oportunidade de comer.”
No lar da família Erbanu, ela não encontrava conforto algum.
E, após tornar-se funcionária do governo, morando em dormitórios, precisava economizar cada centavo.
“Eu também adoro doces!”
Leônia sorriu brilhantemente, as bochechas redondas inchando sob os olhos.
Varia sorriu junto.
De algum modo, estar com essa criança fazia seu coração ficar leve.
Não sabia bem o motivo, mas Leônia era uma fonte incrível de conforto.
Os olhos negros dela pareciam transbordar de afeto e confiança ilimitados.
Era uma emoção profunda que Varia nunca tinha sentido até mesmo com sua própria família.
“Então, você gosta de achocolatado de morango?”
Leônia puxou um bala da bolsa.
“I-isso......!”
Varia se assustou.
Era o bala de achocolatado de morango — Ferio Voreoti tinha assinado um contrato exclusivo para fornecê-lo para sua filha. Uma única peça custava tanto quanto um bolo inteiro.
Varia chegou a usar o dinheiro da sua despesas do mês tentando comprar algumas para fazer pesquisa sobre Leônia.
“Vou te dar uma.”
Varia aceitou a bala com as duas mãos, como se estivesse recebendo um tesouro inestimável.
Ela cuidadosamente desembrulhou e levou à boca.
Cobriu o rosto com as mãos.
É muito delicioso......!
A bala de achocolatado de morango não era só doce.
A vivacidade da morango combinava perfeitamente com a riqueza cremosa do leite, criando um sabor totalmente viciante.
Era um gosto que você nunca cansaria, que dava vontade de comer só mais uma.
Lembrou-se das palavras do confeiteiro, que disse que eles usavam ingredientes sem poupar gastos.
“Está gostoso?”
A voz animada de Leônia chegou aos ouvidos de Varia, mesmo ela ainda escondendo o rosto com as mãos.
“Está ótimo demais......”
Tão bom que dava pra chorar.
“Sério? Papai, você ouviu isso?”
Leônia sorriu radiante e virou-se.
“......Mas não é tudo isso, não.”
Como ela podia ficar tão feliz com um pedaço de bala?
No meio de sua mordida congelada, Varia percebeu de repente.
Além dela e de Leônia, havia alguém mais na sala de recepção agora.
“Desculpe a demora.”
A voz que pediu desculpas de forma breve era a mais sem emoção que Varia já tinha ouvido.
E, mesmo assim, era tão doce e agradável que ela quis ouvi-la de novo.
Varia lentamente ergueu a cabeça.
“Prazer em conhecê-lo.”
Nesse instante, lágrimas começaram a subir aos olhos dela.
A pessoa que ela desejava conhecer, mesmo arriscando sua vida, agora estava diante dela.
“Meu nome é Ferio Voreoti.”
O Demônio Preto estava bem ali, na sua frente.
“N-nice to meet you.”
Varia forçou um sorriso trêmulo, contendo com esforço as lágrimas.
“Varia.......”
Finalmente, depois de centenas, milhares de vezes ensaiando na cabeça, ela falou as palavras.
“Meu nome é Varia Erbanu.”