Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.

Capítulo 145

Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.


"......."


Leonia empurrou os lábios pra fora, como um pato.


"Nossa, moça."


Uma das criadas que passavam exclamou surpresa e correu até Leonia.


"Por que você está agachada na porta?"


"O pai me expulsou."


O filhote de fera, cheio de ressentimento, apontou resmungando para a porta atrás dela.


A razão era que os adultos precisavam ter uma conversa importante, e a garotinha precisava sair.


Claro, Leonia insistia que ela também deveria ficar.


Finalmente, chegou o momento crucial!


Quando Varia revelou os esquemas ocultos da família imperial e de Olor, em troca de um acordo com Ferio, essa era uma das cenas mais importantes do romance original.


Foi a hora em que os dois começaram a tomar consciência um do outro de verdade.


Ferio, no futuro, lembraria daquela manhã com Varia como um momento realmente lindo.


Ele chegou a confessar para Varia, que jazia ao seu lado, que foi naquele instante que sentiu pela primeira vez algo por ela.


Varia, por sua vez, também lembrou daquele dia como o de uma pessoa insuportável, mas inegavelmente bonita.


Aquele momento magnífico acontecia bem ali, atrás daquela porta.


Não havia como Leonia abrir mão.

"Eu também quero ver!"


Batidas fortes na porta!


Leonia bateu com força.

"Abram!"


Porém, Ferio nem tentou escutar.

"Hum, será que isso realmente está OK?"


Varia perguntou, olhando entre a porta fechada e Ferio.


Se algo desse errado entre o pai e a filha por causa dela, seria um desastre. Ela tinha medo de ser a causa de uma rixa.


"No final, ela vai se acalmar."


Ferio parecia não se preocupar nem um pouco.


Na verdade, ele sabia que Leonia encontraria uma maneira de espiar de algum jeito.


"Não me importo, mas......"


"Eu me importo."


Agora, Ferio precisava focar completamente em Varia.


Ele planejava julgá-la ali mesmo, agora.


Até agora, ele acompanhava seus movimentos com vigilância e recebia relatórios.


Ela tinha ajudado Ardea a fugir para o Norte, mas só isso não era suficiente para considerá-la uma aliada de forma cega.


Ela poderia usar essa informação como alavanca para conquistar a confiança do Norte ou roubar segredos.

Houve um incidente semelhante há cinco anos, quando três casas, incluindo Tabanus, traíram o Norte e vazaram informações para Olor.


Porém, os relatórios sobre Varia nos últimos anos eram bastante limpos.

Ela vivia quase como se não desfrutasse de alegria alguma na vida.

Ela só sabia trabalhar e fazer exercícios; sua rotina diária era tediosa de tão simples.

Até Ferio já comentou que sua vida era implacavelmente monótona.

Pra que ela vive afinal?

Até mesmo Ferio, de quem menos se esperava, achava isso estranho.

Seu próprio ritmo de vida até pouco tempo atrás era cheio de aborrecimentos e tédio, e as pessoas comentavam que ele levava uma vida seca e triste.

Nada disso estava completamente errado. Até há pouco tempo, quase todos os dias de Ferio eram assim — maçantes e irritantes.

Mas não mais.

Os últimos cinco anos vivendo com Leonia foram os mais felizes de sua vida.

E assim continuariam.

Até mesmo ele, que antes achava a vida sem graça, havia descoberto alegria.

Então, o que exatamente a tornava tão desanimada?

E por que ela se esforçava tanto para se afastar da família?

"Vamos começar a conversa."

Essa discussão responderia a todas essas perguntas.

Antes de começar, Ferio {N•o•v•e•l•i•g•h•t} recostou-se no sofá.

Varia imediatamente ficou tensa.

Os movimentos relaxados e vagarosos do Schwarze Bestia desmontaram sua compostura e tomaram controle da atmosfera.

"Você disse que tinha algo para me contar?"

"......."

"O que é?"

"Não é exatamente algo que tenho para dizer."

Varia se corrigiu.

"Quero fazer um acordo."

"Um acordo?"

Os olhos de Ferio se arregalaram um pouco mais.

Apesar da tensão evidente dela, a habilidade de falar sem desviar o olhar era impressionante.

E o fato dela ousar propor um ‘acordo’ a ninguém menos que Voreoti em pessoa.

Por isso, quando o herdeiro do Marquês de Pardus a descreveu como “corajosa”, era disso que ele quis dizer.

Aquela tentativa desajeitada de parecer relaxada era até divertida.

Especialmente aqueles olhos.......

Aqueles olhos verdes luminosos continuavam atraindo sua atenção.

"O que você quer negociar?"

Ferio perguntou, observando o chá simples e os aperitivos na mesa.

Se ele não focasse, parecia que continuaria encarando aqueles olhos para sempre.

O aroma doce que permanecia no ambiente devia vir do chá e dos lanches.

"Vou te passar a informação que mais deseja."

Os lábios de Ferio se relaxaram num leve sorriso.

"A informação que mais quero, hein...

Já consigo imaginar qual expressão a Varia deve estar fazendo sem precisar olhar."

Ficar calada e controlar os nervos — era algo fácil de imaginar.

Isso lembrou muito Leonia.

Sua filha às vezes agia assim também, quando insistia em algo, fingindo estar calma enquanto escondia suas emoções.

"Você não vai se arrepender."

Com as palavras confiantes de Varia, Ferio ergueu finalmente a cabeça novamente.

"E como você sabe disso?"

"Tenho certeza."

"Isso é comigo."

"Então, veja você mesmo."

Varia tirou a capa que tinha sobre os ombros.

A camisa por baixo estava manchada de gelato.

Era a origem do aroma doce que Ferio tinha notado antes.

"Com licença, pode esperar um momento?"

Varia pediu permissão enquanto começava a desabotoar a camisa.

Pela primeira vez, os olhos de Ferio vacilaram.

***

Leonia, que vinha encarando a porta da sala de recepção fechada, bufou com desdém.

"Você acha que vou desistir?"

Ela viveu cinco anos inteiros como filha de Ferio.


Ou seja, se ela desistisse tão facilmente, não teria direito ao nome Voreoti.


Ela se orgulhava do talento natural de fazer o pai ficar sem ar.

Por isso, imediatamente subiu as escadas.

Exatamente acima da sala de recepção!

Havia um cômodo vazio, ninguém usava.

Tinha uma cama e um guarda-roupa — provavelmente um quarto de hóspedes de reserva.

Leonia abriu a janela e olhou para baixo.

"Hehe."

Sorriso malicioso da garota que olhava de cima era realmente malévolo.

Havia uma sacada bem abaixo, onde se podia sentar e olhar o jardim — parte da área da sala de recepção.

Os tetos da mansão Voreoti eram tão altos que até um só andar parecia dois de uma construção comum.

"Perfeito."

Para um filhote de fera que cresceu forte e alto, aquilo era um trivial.

Fortalecer o corpo com as Presas da Fera seria moleza, como tomar sopa morna.

Leonia fechou os olhos.

Logo, uma névoa dourada cintilou em suas pupilas negras.

As Presas da Fera lentamente se envolveram em seu corpo. Ela soltou apenas um pouco — se usasse demais, Ferio perceberia.

A luz dourada brilhou ao longo de suas pernas e pulsos, depois penetrou na pele.

"Vamos lá."

Leonia saltou direto pela janela.

Ela pousou silenciosa e segura, e por um breve momento, se apaixonou por si mesma.

Sou incrível.

Ela era tão habilidosa em usar as Presas da Fera que dava medo.

Ficou até pensando se algum homem conseguiria atingir seu nível.

É por isso que todo mundo precisa ter pelo menos uma imperfeição.

Por isso meu pai é tão convencido.

E eu sou uma pervertida.

Leonia deu uma risadinha sozinha e espiou pela janela na direção da sala de recepção.

E então testemunhou uma cena inacreditável.

Varia estava tirando as roupas.

"I-incrível, mana Voreoti!"

Assustada, Leonia abriu a janela de uma vez e pulou lá para dentro.

"L-lady Voreoti?!"

Varia, igualmente espantada, estremeceu. A camiseta que segurava escorregou de suas mãos, e Ferio virou a cabeça rapidamente para não ver.

Era uma confusão total.

"Por que você está se despindo do nada?!"

Leonia sacudiu a cabeça freneticamente, como se dissesse que tudo aquilo estava errado.

"Meu pai é bem conservador! Ele odeia mulheres que tentam seduzí-lo se despindo!"

"Por que eu iria seduzir o duque?!"

Varia negou de tudo quanto é jeito.

"Não tenho motivo algum!"

"Isso não é verdade."

Leonia falou sério.

"Tem várias razões."

Ferio sorriu de lado, como quem diz que sabia de tudo.

"Meu pai é ridiculamente — não, inacreditavelmente bonito, musculoso, rico e poderoso, entendeu?"

"Isso é verdade, mas......."

Varia vacilou.

".....Ele não é o meu tipo."

Ferio franziu as sobrancelhas ferozmente.

Ele ainda não tinha confessado, mas já tinha sido rejeitado.

Porém, quem ficou mais bravo foi Leonia.

"Tá louca, mana? Tá doente ou algo assim?"

Leonia balançou a cabeça, como se estivesse sonhando, incrédula.

Depois, puxou dramaticamente o peito e o rosto de Ferio.

"Olha esses músculos! Esse rosto! Essa barriga!"

Ela deu ênfase especial na barriga de Ferio.

"Você está rejeitando o homem mais perfeito do Império!"

"Mas eu prefiro alguém mais gentil......."

"Meu pai é gentil! Ele criou até uma aberração como eu só com amor!"

"Mas o rosto dele......"

Varia gaguejou.

"Ele... é assustador......."

Leonia bateu forte na própria testa.

"Você realmente não entende nada."

Ela suspirou fundo.

"O valor de um homem não depende de um rosto gentil! É de ter força pra aguentar na cama todos os dias da semana......!"

"Já chega."

Ferio finalmente interveio.

Ele estendeu a mão e cobriu a boca de Leonia com o polegar grande. "Mmph!" Leonia lutou contra o aperto dele.

"Senhorita Varia."

Ferio olhou para Varia.

Mas ele não conseguiu encarar direito os olhos dela, então fixou seu olhar, constrangido, na orelha arredondada que surgia entre seus cabelos bagunçados e cor de rosa.

"Por favor, coloque suas roupas de volta."

"Mas temos que fazer o acordo!"

"Quer dizer que está se oferecendo como o próprio acordo, né?"

"Não!"

Em pânico, Varia apressou-se a tirar a camiseta.

Logo que Ferio tentou desviar o olhar—

"A informação está aqui!"

Por baixo da camiseta, tinha outra camisa mais fina.

E presa às costas, amarrada com bandagens, estava um envelope com documentos.

"Estava carregando ele preso a mim desde que saí do dormitório."

Varia suspirou ao puxar o envelope de suas costas.

Ela envolvera uma bandagem parecida com um cinto e grudara o envelope grosso lá dentro, como se fosse um bebê.

"......."

"......."

Pai e filha a encararam, surpreendidos.


"-Irmã Varia."


Leonia hesitou.

"Você, hum......."

Qual seria a forma educada de dizer isso?

Depois de algumas manobras mentais, falou:

"Você é... meio... única."

Enquanto isso, Ferio coçava o queixo pensativamente.

"Você é um pouco como a Leonia."

E então disse:

"Só um pouquinho maluca."

"Hoje eu vou te matar, pai."

Leonia rosnou.

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