Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.

Capítulo 139

Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.


Todos no Tesouro ficaram surpresos com a suspensão de Varia.


Claro que todos mais ou menos imaginavam o motivo.


Conforme a aviso claramente indicava, a razão da suspensão de Varia foi por agressão. Deve ter chegado às altas esferas a notícia sobre o que aconteceu ontem—especificamente, sobre ela ter acabado de dar um soco na boca do Barão Onokenta.


De certa forma, era uma justificativa compreensível para a suspensão.


Mas o verdadeiro choque para os funcionários não foi só a suspensão.


“Por que diabos ela também tem que deixar o dormitório?!”


Les estava furioso.


Era uma punição injusta, simples assim.


Se a administração tivesse feito o seu trabalho direito desde o começo, o Barão Onokenta já teria sido punido há tempos por assediar e insultar funcionários.


Claro, Varia talvez tenha exagerado um pouco, mas foi na legítima defesa. Totalmente justificável.


Ignorando todas essas circunstâncias e aplicando uma punição tão severa apenas sobre ela—qualquer um via que aquilo era discriminação pura.


“É inverno agora! Se ela for expulsa neste frio de rachar, vai morrer lá fora!”


Les era praticamente rangendo os dentes, parecendo pronto para invadir os escritórios superiores e exigir respostas.


“Esquece isso.”


Mas Varia o impediu.


‘Então eles finalmente me expulsaram, hein?’


Claro que tinham que fazer isso, se quisessem aprovar aquele projeto ridículo.


O apelido de Varia, a Fera do Tesouro, veio de duas coisas.


Primeiro, por sua frieza e precisão ao lidar com trabalhos.


E segundo, porque ela sempre bloqueava projetos obscuros e perigosos de passar—ela era a consciência do Tesouro, a última linha de defesa.


Agora que Varia estava suspensa e fora de circulação, o Tesouro iria aprovar o estranho projeto de manutenção do Portal do Barão Onokenta.


“...Haa.”


Varia tentava manter a calma ao máximo.


Claro que ela estava irritada com toda a situação.


Ela podia aceitar a suspensão, sim—mas ser expulsa do dormitório? Isso era um absurdo.


‘Talvez tenha sido meu pai...’


Surgiram várias ideias na cabeça dela.


A mais provável: seu pai, o Conde Erbanu, tinha feito uma manobra para obrigá-la a sair.


Ela fazia tempo que não ia para casa, e só tinha atrapalhado os “grandes sonhos” da família. Como filha mais velha, devia ser uma dor de cabeça para ele.


Talvez tudo fosse uma estratégia pra trazê-la de volta ao lar.


No pior cenário, a carruagem da família já poderia estar esperando à porta do palácio imperial.

‘...Não vou voltar lá. Nem morta.’

Varia fechou os punhos discretamente.

‘Prefiro dormir na rua mesmo.’

De jeito nenhum ela ia voltar para aquela casa.

No melhor das hipóteses, ficaria presa. No pior, forçariam ela a se casar com algum outro nobre ligado aos Olors.

‘E quanto às provas que recolhi?’

Agora a questão era—onde diabos ela poderia esconder aquilo?

Ela passou mais de dez anos coletando tudo. Não podia perder tudo assim, de uma hora para a outra.

“Varia...”

Les a olhava com preocupação desesperada.

Os outros colegas também estavam do mesmo jeito. Nenhum conseguiu dizer algo reconfortante.

Não tinham o que fazer.

“Estou bem.”

Varia tentou, por sua vez, acalmar todos, dizendo para se preocuparem menos.

Mas qualquer um dava para perceber—o rosto de Varia era o mais sério de todos. Por mais que fingisse o contrário, essa situação era grave.

“Hmm, ninguém está trabalhando?”


Então, de repente.


“Por que todo mundo fica parado assim?”


Uma voz estranha fez todos se virarem.


Era um homem, com um sorriso amigável, que parecia bastante simpático.


“O-filho do Marquês de Pardus!”


Um dos funcionários de alto escalão do Tesouro suou frio. Só então os outros perceberam quem era o homem—o filho do Marquês de Pardus.


“Que raio ele está fazendo aqui...”

Les comentou, com uma expressão de irritação se formando.


“Fui ver Sua Majestade e decidi dar uma passada aqui. Afinal, esta é a repartição mais elite do Império, não é?”

O filho do Marquês sorriu como se estivesse ali só para impressionar.


“Oh, mas...”

Ele olhou para o aviso no quadro com uma expressão triste.

“Parece que aconteceu algo desafortunado.”

Depois, seus olhos imediatamente encontraram Varia.

‘Que...?’

Como ele soube quem ela era?

Apesar do nervosismo, Varia ficou completamente boquiaberta.

O filho do Marquês geralmente ficava no Norte. Mesmo sendo ambos de famílias nobres aliadas ao Imperador, eles nunca tinham se conhecido.

Mas ele a tinha achado na hora.

“Por que deu um soco nas pessoas?”

De repente, ele estava bem na frente dela, falando num tom de repreensão.

“Embora o Barão Onokenta não seja exatamente um exemplar, ainda assim, dava para se controlar. Por que usou aquelas mãos delicadas para fazer isso?”

“...O quê?”

“No final das contas, quem acaba perdendo somos nós, né?”

Apesar da bronca, algo parecia... estranho.

Ele certamente a estava criticando por ter batido no Barão—mas, se ouvisse com um pouco mais de atenção, quase parecia que ele estava zombando do próprio Onokenta.

Como se ele nem valesse a pena de ser socado.

“E o que você está fazendo agora?”

“Eu?!”

“Quem mais eu estaria falando?”

Você é a única aqui, não é?

O filho do Marquês sorriu com arrogância.

Varia começou a ficar realmente irritada com o tom dele.

Era pura, descarada zombaria.

“Eu, uh, vim trabalhar...”

“Para trabalhar.”

Ele apontou para o aviso no quadro.

“Você está suspensa.”

“...”

“E foi expulsa do dormitório.”

“...”

“Então, volte para casa.”

Você não pertence mais aqui.

Se fosse para ser tão gentil—ele ainda a lembrou cruelmente da dura realidade com aquele sorriso amistoso.

‘Já que estou suspensa...’

Talvez eu devesse causar uma confusão de novo?

Varia considerou seriamente essa possibilidade.


***


“Aff, isso é um saco, meu Deus, que irritação!”


Les bateu na cama, frustrado.


Graças à ordem gentil do filho do Marquês de Pardus para ela sair, Varia acabou voltando aos dormitórios e começou a arrumar suas coisas.


E, por ela achar que seria difícil demais para ela sozinha, ele generosamente designou Les para ajudar.


“Quem ele acha que é, achando que é o nosso chefe?!”

“Na verdade, ele até parece...”

A voz de Varia estava exausta, claramente cansada.

Suas mãos se moviam devagar enquanto empurrava roupas para dentro da mala.

“É Pardus...”

A família do Marquês de Pardus era uma das mais bem relacionadas com a família imperial.

Qualquer coisa que dissesse era como uma ordem imperial, e até o grande Duque Voreoti olhava com cautela para eles.

Nem o chanceler do Império tinha coragem de se opor ao Marquês.

Então, não era surpresa que nenhum funcionário do Tesouro ousasse contraria-lo.


“Mas o que vai fazer agora?”

Les hesitou por um momento, então perguntou se ela gostaria de se esconder no quarto dele por um tempo. Mas Varia balançou a cabeça.

“Se eles te descobrirem, você será despedido.”

Ela não podia colocar seu amigo nesse risco por ela.

‘Talvez...’

Varia mudou de ideia.

Talvez fosse uma boa oportunidade, afinal.

‘Vou para o Norte.’

Se ela conseguisse sair da capital em segurança, com o dinheiro que tinha, não seria tão difícil chegar lá.

Ela não tinha vínculo emocional com o emprego—não ia morrer se saísse de lá.

Ela não ia mais esperar pelo Duque Voreoti. Ia até ele pessoalmente.

‘Isso talvez funcione mesmo.’

Essa ideia precipitada logo virou convicção.

“...Les.”

Varia se voltou para sua única esperança.

“Você não saiu escondido com alguns outros para um tavernas antes?”

“Que porra você está falando agora?”

Les deu um pulo, surpreso com a pergunta aleatória. Varia tinha chegado mais perto, com uma expressão séria. Les recuou.

“Você saiu na calada da noite para uma taverna—!”

“Shh! Silêncio!”

Les rapidamente colocou uma mão na boca dela, preocupado que alguém pudesse ouvir.

Varia tirou a mão dele e continuou.

“Como você saiu?”

As residências para funcionários administrativos ficavam dentro do palácio. Por segurança, ninguém podia sair após o toque de recolher.

Mas ✧ NoitevÉrnia ✧ (Origem) Les havia conseguido.

Seus olhos brilharam.

Ao saírem pela porta dos fundos dos dormitórios, Les sussurrou.

“Tem um buraco na parede.”

Ambos seguraram firmemente a mala de Varia.

A prova que ela passou anos reunindo estava dentro de um envelope, preso às costas, debaixo da roupa.

Ela até o embrulhara com bandagens para que não escapasse. Les assistiu, horrorizado, chamando ela de louca, mas para Varia, era o único jeito.

Ela protegeria aquilo, a qualquer custo.

“Aí está.”

Depois de se esgueirar e seguir uma rota tortuosa, finalmente chegaram a uma parede.

No começo, parecia discreta, escondida atrás de alguns arbustos perto de um canto. Mas, ao empurrá-los de lado, lá estava—a abertura suficiente para uma pessoa rastejar por ela.

“Nunca vi um buraco no muro do palácio...?”

Varia ficou chocada.

Este era o palácio imperial, onde moravam o Imperador e sua família—e tinha um buraco?

“Fiquei estarrecido na primeira vez também.”

Les concordou.

Não fazia sentido ninguém consertar aquilo.

Especialmente porque ele mesmo tinha aprovado o orçamento de manutenção do palácio—não tinha lógica nenhuma.

Mas pelo menos agora tinham uma saída, e por isso, Varia agradecia.

“O que tem lá fora?”

Varia perguntou.

“Uma floresta, um pouco além da praça.”

“Uma floresta...”

Ela repetiu a palavra, sorrindo discretamente.

Uma floresta significava que não havia ninguém por perto.

“Depressa, os cavaleiros estão passando pelas patrulhas.”

Les encorajou.

Varia rapidamente passou suas duas bolsas pelo buraco. Elas deslizaram facilmente.

“Este é meu endereço.”

Les entregou uma pequena nota.

“Se perder tudo, vá até o território Voreoti. Diga meu nome—alguém vai te levar até minha casa.”

“Les...”

Os olhos de Varia se encheram de lágrimas.

Ela se sentia grata, e ao mesmo tempo culpada, pelo amigo estar fazendo tanto por ela.

“Não chore. Vá logo.”

Não era um adeus para sempre—por que ela estava agindo como uma dramática? Les a empurrou suavemente, na hora certa, realmente era hora de partir.

“Muito obrigada, de verdade.”

Varia enxugou os olhos úmidos com a manga.

“Vou te avisar quando chegar lá.”

“Cuide-se.”

“Vou sim...!”

Varia tirou o casaco grosso e o passou pelo buraco. Amarrara o cabelo longo para que não atrapalhasse.

A brisa gelada bateu em seu pescoço exposto e nas roupas finas, mas ela estava tão tensa que nem sentiu o frio.

Ela se agachou.

‘Huh, esse buraco é...’

Ao rastejar por ele, Varia ficou surpresa.

O buraco era maior do que ela imaginava.

Quando chegou na metade, olhou para trás.

De dentro, parecia pouco—mas agora que saiu, percebeu que era enorme. Até um cavaleiro bem feito conseguiria passar com um pouco de esforço.

Varia ficou boquiaberta.

‘Para que serve afinal o orçamento do Império...?’

Estava pensando como uma oficial do Tesouro de novo.

“Varia, você está bem?”

Les chamou do outro lado.


“Y-yeah!”

Varia acabou de passar o restante do corpo pelo buraco e finalmente se levantou.

Ela mal tinha saído do palácio, mas parecia que tinha passado por um obstáculo enorme. Seu corpo relaxou, aliviada.

Porém, seu coração batia mais forte do que nunca.

“Já saí. Está tudo bem agora.”

“Então vá! Cuidado.”

“Les, muito obrigada...”

Varia colocou a mão na parede.

Mas ela saiu do transe, olhou ao redor procurando suas bolsas.

Agora que tinha passado do primeiro obstáculo, o frio a atingiu como uma martelada.

Porém, suas bolsas tinham desaparecido.

A jaqueta que ela havia passado pelo buraco separadamente—também tinha sumido.

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