
Capítulo 138
Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.
A Varia da Besta Negra.
Era uma história que mostrava apenas um vislumbre deste mundo, e por alguma razão, Leonia acabou entrando nela como filha adotiva do protagonista masculino, Ferio.
E, a partir daquele momento, viveu como bem quis, ignorando o enredo original.
Ela percebeu, graças ao seu pai, que o que estava escrito no romance era apenas uma pequena parte deste mundo.
Mas, mesmo assim, nem por um instante Leonia esqueceu quem era o protagonista da história original.
‘Varia...!’
Um sorriso surgiu nos lábios da garota.
‘Finalmente vou encontrá-la!’
Coração de Leonia pulsava forte.
‘O que está acontecendo comigo agora?’
Ela se sentia como uma criança ansiosa para abrir um presente, toda empolgada.
Aquela curiosidade que há muito ela não sentia começou a aflorar novamente. Ela se perguntava como Varia realmente era, que tipo de pessoa ela era.
Se ela fosse exatamente como o romance descrevia, ou totalmente diferente, seria fascinante de qualquer jeito.
‘Varia, depois que virou o tempo atrás, ficou um pouco assustadora, sim.’
Originalmente, Varia era uma pacifista.
Ela tinha uma alma gentil, acreditando que, sem brigas ou conflitos, as pessoas poderiam se entender e conviver pacificamente apenas com palavras.
Mas essa crença acabou sendo traída pela sua família, que morrera por causa dela.
Quando voltou ao passado, Varia abandonou esses ideais suaves.
“... Oh, Leo.”
“...Huh? Huh?”
Justo enquanto ela se perdia em pensamentos sobre a Varia original, Leonia levantou a cabeça de repente.
Ferio olhava para sua filha com uma expressão de poucas palavras.
“Você está tão feliz assim?”
“Sobre o que?”
“Naquele negócio aí.”
Ferio apontou para o convite. Só então Leonia percebeu que estava agarrada firmemente à encomenda amarela com ambas as mãos.
“Ugh...!”
Assustada, Leonia rapidamente afastou o envelope e enxugou as mãos na saia.
“Não é bem assim.”
Ela tentou explicar que tinha pensado em outra coisa.
“No que você estava pensando para não ouvir eu te chamando?”
“Ah, é que estou meio empolgada pra ver o Tra e todo mundo na propriedade do castelo, sabe.”
“Que coisa boba.”
Ferio alisou levemente a franja da filha e se acomodou ao lado dela.
“Mas, pai, você está bem?”
Leonia perguntou, ajeitando a franja com as mãos.
“Você está ocupado agora, né?”
“Quem sabe...”
Ferio tentou ficar mais relaxado, mas, na verdade, estava numa situação delicada.
Ele tinha acabado de voltar de caçar monstros logo após uma tempestade de neve, mal tinha conseguido colocar em dia a pilha de trabalho que se acumulou, e agora de repente, essa viagem ao castelo?
“Que piada.”
Ferio finalmente soltou uma curses alta.
“Pai, o que você fez quando teve que ficar três anos na capital?”
Leonia lembrou como Ferio ficou na capital por três anos após a morte do antigo imperador.
“Naquela época, levavam todas as questões urgentes pra mim.”
“Então dessa vez também...”
Justo quando ela ia perguntar se poderiam fazer o mesmo, Leonia congelou.
“Presença obrigatória...!”
Naquela época, só os membros do conselho nobre estavam reunidos. Mas esse banquete requeria que todos os nobres que recebiam convite comparecessem.
Todos os antigos nobres do Norte eram mais antigos que o próprio Império, linhagens nobres com raízes profundas.
Ou seja, eles também estariam indo à capital nesta ocasião.
Não podia ser como na última vez.
“Se for demais, posso ir sozinha até a capital?”
Leonia perguntou, um pouco preocupada.
“Como assim, te mandar sozinha?”
Ferio murmurou, como se não tivesse escolha.
“Vou ter que deixar a Lupe pra trás.”
“Ai, coitada da Lupe...”
Leonia sentiu pena da Lupe, que ia acabar sendo puxada pra tudo de novo.
***
Fazia tempo que o pai e a filha Voreoti não eram convidados para um banquete imperial.
Desde que Leonia causou aquela cena enorme quando era criança, o Imperador ficou tão enfurecido que nem se deu ao trabalho de mandar convites.
“Que criatura mesquinha.”
Leonia tentou esconder a irritação.
Finalmente, chegou o dia de partir para a capital.
Leonia bocejou suavemente enquanto observava os servos inspecionando as carruagens e fazendo os preparativos finais.
O castelo virou uma correria nos dias anteriores, tentando cumprir o cronograma apertado.
“Um suposto imperador, né? Huh? Guardando rancor por uma bobagem que um garotinho de sete anos reclamou? Que patético.”
Claramente, eles enviaram o convite com atraso de propósito.
Envolta em um longo manto branco de neve, Leonia clicou a língua.
“Certo, vovó Kara?”
Ela abraçou o braço de Kara e perguntou com voz de boneca.
Kara achou ela uma fofura só e assentiu.
“Nossa jovem acabou de voltar e já está partindo de novo.”
“Exatamente.”
Queria ficar com a vovó. Kara apenas sorriu com ternura para aquele mimimi infantil.
Por mais que ela tivesse crescido, aos olhos de Kara, ela ainda era só uma garotinha.
“Tá doendo no meu coração.”
“Devo nem ir?”
“Tem que ir.”
Kara já sabia bem que Leonia queria ir à capital.
Leonia não insistiu mais. Só deixou a mão de Kara lentamente e deu uma pontadinha no chão com o pé.
“Queria que você pudesse vir comigo, vovó Kara.”
“Fufu, manda meus cumprimentos ao Tra quando chegar lá.”
“Você também quer ver o Tra?”
“Nada como uma boa notícia, querida.”
Kara falou com a calma da experiência, confiante de que Tra ficaria bem, sem motivo para preocupação.
“Leo.”
Naquele instante, Ferio chamou Leonia.
Vestido com uma capa negra como breu, Ferio estava sozinho na neve branca. Uma leve respiração saía de seus lábios enquanto chamava pelo nome da filha.
“Meu lindo pai!”
Leonia sorriu e correu para os braços dele.
Ela se aninhou sob a capa preta como se fosse uma cortina, só deixando a cabeça de fora. A figura imensa de Ferio parecia ainda maior com ela ali dentro.
“Seu lábio às vezes cansa?”
“O que?”
“Você só fala o óbvio.”
“Você realmente não leva elogios na esportiva.”
Leonia fez cara de zanga, como se estivesse de saco cheio.
Ele era cheio de si o tempo todo.
“Você cresceu bastante.”
Ferio murmurou, apoiando o queixo na cabeça da filha.
“Ontem mesmo, você parecia uma ratinha miúda.”
“Eu era maior que isso.”
“Você costumava se agarrar na minha perna o tempo todo, como um pervertidozinho...”
A voz dele tinha uma nostalgia ao lembrar da infância de Leonia.
Aquela garotinha tão pequenina tinha crescido tanto que agora alcançava o centro do peito dele.
“Fazia isso a cada três ou quatro dias.”
“Mais que isso, umas dezesseis vezes toda semana.”
Mas por dentro, ela ainda era uma encrenqueira.
“Quando é que você vai crescer de verdade?”
“Nunca.”
Leonia sorriu de lado e escapuliu do manto dele. Sem motivo algum, aquela pequena besta ficou toda animada, rodando ao redor do seu pai gigante.
Ferio, estranhamente, ficou aliviado por ela ainda agir como criança.
Se ela crescesse rápido demais e virasse adulta, até que seria meio triste.
“Então, vamos lá.”
O pai e a filha entraram na carruagem.
“Ducado, jovem senhora.”
Lupe veio cumprimentá-los.
“Boa viagem.”
Enquanto Ferio estivesse fora do Norte, Lupe ficaria para servir como substituto do Duque.
Ferio tinha organizado para Inseréa e Lupi ficarem na propriedade ajudando Lupe.
“Entrarei em contato assim que chegarmos.”
“Cuide bem de você, senhor Lupe.”
“Com certeza.”
O rosto de Lupe iluminou-se com um sorriso enorme.
Apesar de ter que ficar para trás e fazer todo o trabalho, ele estava mais do que feliz por não precisar ir à capital. Estar com a família ❀❀ (não copiar, apenas leia) o deixava ainda mais feliz.
“...Que chato.”
Olhe só, sorrindo sozinho daquele jeito.
Leonia se sentiu irritada.
“Devo cortar o salário dele?”
Ao bocejo de Ferio, a expressão de Lupe virou uma feição de desgosto.
“Pai, a culpa é sua que ele virou assim.”
Leonia não pôde deixar de admirar Lupe por sobreviver sob o chefe mais terrível de todos.
Finalmente, a carruagem partiu.
Ferio logo começou a consultar os papéis que trouxe. Uma grande pilha ao seu lado, contendo questões urgentes que precisava resolver.
Leonia observou, depois estendeu a mão.
“Quer que eu ajude?”
Ferio olhou para sua mão por um momento antes de entregar alguns papéis.
“Pergunte se não entender algum.”
“Ok.”
“Quando for assinar, use meu nome e... assim...”
“‘Leonia Voreoti’ precisa assinar como procuradora.”
Certo?
Leonia o interrompeu.
Ela tinha ouvido aquilo mil vezes.
Já havia feito papéis simples como herdeira substituta, como parte do treinamento de sucessão.
Ferio tinha visto ela fazer tudo sem erros e, às vezes, confiava tarefas mais sérias a ela.
Nesse momento, percebeu o quanto ela tinha crescido.
Ela já tinha idade suficiente para ajudar numa tarefa real.
A carruagem voltou ao silêncio.
Somente o som ocasional de papel se mexendo e o sussurrar de canetas preenchiam o ambiente.
“...Huh?”
De repente, Leonia fez um som estranho enquanto revisava um documento.
“Estão fazendo isso de novo?”
“O que foi?”
Leonia entregou um papel para Ferio. Ele franziu a testa levemente ao lê-lo.
Era um aviso de manutenção nas zonas do Portão em todo o Império.
“Fizeram isso no ano passado também.”
Leonia se lembrou claramente. Eles vieram verificar a segurança do Portão, arrumar as estradas e ficaram se achando numa missão grandiosa.
Os oficiais reais desfilavam dizendo que estavam fazendo trabalho nacional sob ordens imperiais.
E Ferio os apresentou à estalagem mais barata do Norte.
Esses oficiais ficaram tão chocados que imaginaram que ficariam na propriedade dos Voreoti. Leonia riu até chorar ao ver as caras deles.
Mas eles se ajustaram, levando até pulgas de estimação pra casa.
Porém, esse não era o ponto principal.
“Por que estão fazendo isso de novo?”
Dessa vez, os líderes de cada região tiveram que pagar do próprio bolso.
Os fundos do Império cobriam apenas uma parte como subsídio.
No ano passado, fazia sentido por causa das verificações de segurança do Portão, mas refazer tudo agora era só desperdício.
“O Imperador finalmente perdeu a cabeça?”
Leonia comentou, indignada.
Não havia outro jeito dele dar uma ordem tão absurda.
“Não é estranho?”
“Não é a primeira vez.”
Ferio tentou disfarçar, mas também não gostou nada disso.
Leonia pensou a mesma coisa.
Elas voltaram a revisar os demais documentos. O suspeito foi deixado de lado.
A carruagem ficou silenciosa novamente.
Porém, ambos pensaram ao mesmo tempo:
‘A verdadeira história está prestes a começar.’
‘A Família Imperial está se movendo.’
Pensamentos diferentes, mas idênticos.
***
Em outro lugar, antes deles.
‘Está se movendo.’
Varia, na capital, pensou.
Ela ia ao Escritório do Tesouro como de costume, mas a forma como as pessoas olhavam para ela parecia estranha.
Então Les, que aguardava por ela, correu até ela desesperado e a puxou pelo braço.
Uma nova aviso foi publicado no quadro de avisos.
Os funcionários presentes imediatamente se afastaram ao ver Varia.
Por causa disso, Varia e Les chegaram bem na frente.
“Olha só aquilo!”
Les gritou frustrado, como se fosse algo que aconteceu com ele.
[Suspensão]
Os olhos de Varia se arregalaram ao ler o aviso.
“Você foi suspensa!”