
Capítulo 140
Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.
Varia estava tomada pelo medo.
Porque seus pertences estavam cuidadosamente colocados sob o tronco de uma árvore próxima.
Não tinha como aquilo acontecer a não ser que sua bolsa e seu casaco tivessem ganhado pernas e andado até lá sozinhos.
‘Não pode ser...!’
Alguém da sua casa também a seguiu até aqui?
Por um momento, a única imagem na cabeça de Varia era de si mesma sendo arrastada de volta para casa.
Seu sangue congelou.
‘Não. De jeito nenhum!’
Saindo do estado de choque, Varia se apressou para se abaixar e se enfiar na toca. A prova escondida nas suas costas sacudiu-se quando ela se moveu. Ela não podia perder aquilo. Não agora.
“Você realmente é impressionante.”
Varia quase levou um susto ao quase enfiar a cabeça na toca.
“-Filho do Lorde Pardus?”
Ela se virou na esperança de estar enganada. Mas não, lá estava ele—filho do Lorde Pardus, bem ali.
Ela não acreditava no que via.
O homem irritante que tinha acabado de expulsá-la do Tesouro agora estava bem diante dela.
O filho do Lorde Pardus olhava com uma curiosidade divertida enquanto Varia se deitava no chão, tentando enfiar-se por um buraco sob o muro.
A visão era tão ridícula que ele mordeu o lábio discretamente, tentando segurar o riso.
A face de Varia ficou vermelha como uma beterraba de vergonha.
Mas, mais forte que a vergonha, uma onda de medo tomou conta do seu peito.
“-Você estava passeando...?”
Ela forçou um tom calmo ao perguntar o que ele fazia ali.
“Claro que eu estava esperando por você.”
Ele respondeu com uma voz carregada de diversão, acrescentando que não esperava vê-la novamente naquele estado.
O riso dele agora parecia mais sincero do que o sorriso de escárnio que usara no Tesouro.
Mas Varia não se importava com isso.
“... Será que foi meu pai?”
Ela perguntou tremendo.
“Seu pai te enviou?”
“Você realmente está perguntando isso?”
Havia um tom de irritação na voz dele ao devolver a pergunta.
“Nem ao menor esforço quero insultar sua família,”
continuou ele, de modo educado.
“Mas como alguém como Erbanu ousaria mandar alguém desafiar um Pardus?”
O sorriso no rosto do filho do Lorde Pardus desapareceu completamente.
“Nem na sua imaginação isso é possível.”
“Então... foi Olor?”
“Você realmente é péssimo em fazer piadas, né?”
Ele não disse mais nada após isso.
Um silêncio estranho preencheu o espaço entre eles.
Varia cuidadosamente fechou as mãos. Sua mão direita, escondida sob a esquerda, estava cerrada em um punho firme.
Na pior das hipóteses.
Ela se preparava para dar um soco nele e fugir.
“Bem, então.”
O filho do Lorde Pardus mudou um pouco de posição, cobrindo novamente o rosto com um sorriso amigável.
“Vamos?”
Mas Varia não se moveu. Ela apenas apertou ainda mais o punho escondido, pronta para atacar a qualquer momento.
“-Para onde?”
“Para minha casa.”
“...O quê?”
Os olhos de Varia se arregalaram.
“Por quê...por quê?”
Ela não fazia ideia do que aquilo significava.
“Ou prefere voltar para sua própria casa?”
“Não!”
Ela respondeu imediatamente, sem pensar duas vezes.
O filho do Lorde Pardus levantou as sobrancelhas numa expressão de “vê?” e deu um ligeiro aceno, como se dissesse para ela segui-lo.
A direção para a qual ele virou não era em direção à praça, mas mais profunda na floresta, por uma trilha estreita.
“Vamos te vestir primeiro.”
Ele entregou o casaco de Varia.
“-Por que está me ajudando?”
Ela perguntou, pegando o casaco dele.
“Desconfiança é um ótimo instinto.”
Disse ele, levantando a bolsa dela com as próprias mãos.
Varia, agora de casaco, tentou pegar a bolsa de volta, mas ele balançou a cabeça e começou a caminhar.
“Você não precisa—”
“Não há motivo.”
Ele interrompeu com as mesmas palavras que ela ia dizer.
“Exato, por agora, continue desconfiando de mim.”
A cabeça de Varia começou a doer.
Ele falava com enigmas tão irritantes.
Ela observava-o com suspeita e atenção, mas assim que viu a carruagem esperando por eles na floresta, sua hostilidade se desfez.
“Já parou de duvidar de mim?”
Ele sorriu fracamente ao subir na carruagem.
“-Mas isso é...”
Varia passou o dedo pela placa do emblema entalhado na porta da carruagem.
Leopardo escuro com manchas — o símbolo da Casa Pardus.
Ele tinha vindo até ali na carruagem da própria família.
Essa carruagem chamaria atenção onde quer que fosse, especialmente na capital.
Isso significava que as chances dele machucá-la eram quase zero.
“Então, vamos lá.”
Ele estendeu a mão. Varia a agarrou e entrou na carruagem.
A carruagem saiu da floresta e desapareceu na praça, como se nada tivesse acontecido.
“Você fez a escolha certa ao sair por esse caminho.”
O filho do Lorde Pardus sorriu, olhando pela janela. Uma carruagem surgia vindo na direção do palácio.
Uma lebre cor-de-rosa estava entalhada na porta dela—era do Conde Erbanu, vindo buscar a filha.
A respiração de Varia ficou presa na garganta.
Ela só suspeitava, mas não acreditava de verdade que seu pai interviria na sua punição.
Se ela tivesse saído pelos portões do palácio, certamente teria sido pega.
“Que pai amoroso.”
“Você também não é lá muito boa em fazer piadas, meu senhor.”
Que besteira.
Varia forçou um sorriso torto.
O filho do Lorde Pardus soltou uma risada pequena, atingido por suas próprias palavras.
Quando ela viu pela primeira vez a infame “Fera do Tesouro,” percebeu mais uma vez que nunca se deve julgar alguém pela aparência.
Com uma expressão que parecia pronta a chorar só de olhar, ela era conhecida como a pessoa mais assustadora do Tesouro.
Até um lampejo de seu cabelo rosa-desbotado já fazia os funcionários tremerem e escaparem.
Um homem que nunca se curvava diante da injustiça.
‘...O Conde Erbanu vai passar por muita coisa.’
Como um monstro como ele poderia nascer de uma família de coelhinhos tão delicados?
O filho do Lorde Pardus achou tudo aquilo divertido de algum modo.
Nunca gostou daquele conde-coelho, que se pavoneava pelo mundo após se casar com a família Olor.
“Gosto de você, Lady Varia.”
“Desculpe, mas não me interesso por homens casados.”
“Você realmente achou que era isso que eu quis dizer?”
Ele suspirou dramaticamente, dizendo que tinha uma esposa maravilhosa e um filho adorável.
“Chega de brincadeiras. Agora me diga.”
Já dentro da carruagem, Varia precisava saber.
“Por que você está me ajudando?”
Ela começou a apertar o punho direito, fechado sob a mão esquerda.
Ele realmente gostava de ver que ela ainda não baixou a guarda.
“O Duque de Voreoti virá à capital em breve.”
Então, até lá...
“Por favor, fique confortável na minha casa.”
Claro.
Os olhos de Varia quase saíram da órbita, como se seu pai tivesse acabado de aparecer na sua frente.
O filho do Lorde Pardus sorriu levemente.
***
BANG!
“Aquela garota ingrata!”
O Conde Erbanu bateu o punho na mesa com força.
Alguns fios de cabelo bem penteados caíram sobre a testa dele.
Apesar de algumas mechas brancas começarem a aparecer, seu cabelo rosa vibrante ainda era uma marca registrada da família Erbanu.
“Depois de tudo que eu fiz por ela!”
Enquanto ajeitava os fios que caíam, seus ombros estremeceram de raiva.
Sua filha mais velha, rebelde, já tinha dado uma dor de cabeça, e justamente quando conseguiu arrastá-la de volta para casa, ela escapou daquele jeito.
E agora, ela estava completamente desaparecida.
Ainda assim, como pai benevolente que acreditava ser, ele tinha trazido pessoalmente uma carruagem até o palácio para levar a filha ingrata de volta.
Mas Varia não voltou, mesmo após horas.
Quando entrou em contato com o Tesouro, disseram que ela tinha empacotado suas coisas e saído do dormitório há mais tempo.