
Capítulo 132
Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.
Leonia estava cheia de expectativa. Ela ia ouvir algo que nunca tinha conhecido antes — algo que nem sequer tinha sido mencionado na história original: a infância de Ferio.
Porém, ela foi rapidamente frustrada.
A infância dele tinha sido miserável.
O antigo Duque e a Duquesa nunca demonstraram afeto por seu filho. Em vez de calor ou amor, eles lhe davam disciplina rígida, estudos exaustivos e treinamentos incessantes.
Era pior do que criar gado.
“Por que... por que eles fariam isso?”
Leonia perguntou, com uma expressão de pena no rosto.
“Quem sabe.”
Até mesmo Ferio, lembrando daquele tempo com uma atitude indiferente, não conseguia entender seus pais.
A partir do momento em que decidiu acolher Leonia como sua filha — realmente marcado em seu coração que ela era sua filha — ele sentiu uma fonte inesgotável de carinho por ela.
Porém, parecia que seus pais nunca tiveram o mesmo sentimento.
Para o antigo Duque e a antiga Duquesa, o jovem Ferio não passava de um perfeito Voreoti próximo.
Essa era a única coisa de que se orgulhavam em seu filho.
“Isso é insano!”
Leonia ficou furiosa.
“Apesar disso, o papai é tão legal!”
Ela não conseguia entender como eles podiam tratar um filho tão incrível assim.
Se fosse ela, ela iria dedicar seu amor e carinho ao Ferio sem parar.
“Se fosse eu, estaria dando um beliscão no traseiro do papai todo santo dia!”
“Isso eu também odiaria...”
Ferio levantou uma sobrancelha de leve, mas logo explodiu numa risada.
Parecia que a solidão e o sentimento de alienação da sua infância estavam desaparecendo.
“Mas eles trataram bem a Regina.”
E assim, de uma forma totalmente fora do seu habitual, Ferio contou uma fofoca.
“Estavam fora de suas cabeças!”
Como esperado, Leonia ficou muito irritada, como se fosse algo pessoal.
Especialmente ao ouvir que o antigo Duque e a antiga Duquesa tinham levado Regina para um piquenique e deixado Ferio sozinho, ela agitava os braços e as pernas no ar.
Ferio se sentiu mal ao vê-la tão zangada, mas ao mesmo tempo, ficou profundamente consolado.
“Não estou tentando desrespeitar minha mãe biológica ou coisa assim, mas, papai, você é muito melhor que a Regina.”
Leonia cruzou os braços, rosnando de raiva.
Ignorar seu próprio filho enquanto festejava uma sobrinha que trouxeram para casa?
Ela já estava farta do imbecil favoritismo deles.
Eles eram idiotas.
“Provavelmente estão batendo na testa e se arrependendo na eternidade!”
Leonia tinha certeza disso.
Eles tinham que estar se segurando de choque ao ver o estrago que Regina tinha feito, e agora, ao ver Ferio cuidando de sua filha com tanto carinho, se sentiriam orgulhosos.
Mas e daí?
Agora, aquele filho precioso pertencia só a Leonia, e a ela sozinha.
“E você, papai, também tem que fazer uma festa de aniversário, hein.”
Ela o olhava com força, como se fosse uma ordem mesmo.
“Vou fazer tudo ficar perfeito pra você.”
“Por que você sempre tenta fazer tudo perfeito?”
Ferio ficou contente, mas também um pouco preocupado com as palavras dela.
“Tenho bastante guardado, lembra!”
Ferio tinha reservado uma quantia considerável de dinheiro em nome de Leonia, chamando de “mesada”.
Além disso, uma vez que o negócio do relógio de pulso decolasse, entraria uma quantia enorme de dinheiro.
Leonia orgulhosamente anunciou que faria a maior festa de aniversário que o mundo já tinha visto.
“Vou até fazer você usar um chapéu de festa pontudo e assoprar velas de um bolo!”
“Prefiro não, obrigado.”
Ferio rejeitou de imediato.
Numa idade como a dele, usar um chapéu de festa infantil e assoprar velas no bolo já parecia demais.
Em vez disso, ele fez um único pedido.
“Gostei da cartinha e do desenho.”
Ele se inclinou, puxando o rosto bem perto, com um sorriso agradável nos lábios.
Para Leonia, ele parecia um daqueles grandes leões de juba negra do brasão da família Voreoti — um gato gigante.
Ela quase podia ouvir ele ronronando de contentamento.
“Me dá aquilo de presente da próxima vez também.”
“Ugh, só uma cartinha?”
Leonia sorriu radiante, dizendo que poderia escrever algo assim todos os dias.
“Como eu não pudesse fazer pelo menos isso por você, papai?”
“Isso já basta.”
“Da próxima vez, até vou desenhar você nu!”
“Só... não faz isso.”
Como sempre, a animada brincadeira entre pai e filha terminava do mesmo jeito.
Nada queriam perder na discussão, indo de um lado para o outro até olharem um para o outro e sorrirem.
E assim, o oitavo aniversário de Leonia Voreoti chegou ao fim.
***
No final da noite.
Alguém chegou ao escritório, onde a luz ainda estava acesa.
“Ainda está acordado, hein?”
O visitante entrou, vestido com um casaco grosso e apertado.
Ao tirar o gorro de pele que cobria metade do rosto, surgiu um rosto enrugado.
Era Ardea.
“Ouvi dizer que viria amanhã.”
Ferio falou sem desviar o olhar dos papéis. Estava adiando tarefas que tinha deixado de lado para passar o aniversário de Leonia com ela.
“Me forcei a vir mais cedo.”
“Nada vai mudar com isso.”
“Já está na hora de retomar as lições da jovem senhorita.”
Ao ouvi-lo, Ferio finalmente olhou para cima.
Sua expressão era clara: Ardea parecia completamente exausto.
Ferio fez um gesto de cabeça em direção ao sofá. O velho comentou descaradamente ao tirar o casaco e sentar-se.
Um gemido saiu ao Ardea recostar-se na cadeira.
“Obrigado pelo esforço.”
“Agradeço.”
“Mas melhor adiar as lições por uma semana.”
Na condição dele, o mais provável era que desabasse antes de ensinar alguma coisa.
Compreensivo, Ardea acenou com a cabeça.
“Mas foi o aniversário da jovem senhorita.”
Ele se desculpou pelos dois, apesar de ter perdido.
“Você não precisa se preocupar, Leo se divertiu bastante hoje.”
Ferio murmurou, como se fosse algo bobo de se preocupar.
Como ele mesmo disse, Leonia tinha cantado de felicidade até a hora de dormir.
Ferio era igual.
Dois quadros recém-encaixados — uma carta e um desenho feitos por Leonia — agora decoravam seu quarto simples.
Sentados na mesa de cabeceira ao lado da cama grande, ainda carregavam a energia calorosa da criança.
Ferio sabia que aquele inverno seria o mais quente de todos até então.
Ardea, observando Ferio, abriu os olhos surpreso.
‘O duque... está sorrindo?’
Ele pensou que estivesse tendo alucinações de cansaço.
“Mas...”
E, como uma miragem, a expressão de Ferio voltou à sua frieza habitual.
“A coisa que te pedi para investigar?”
“Ah, só um instante.”
Rapidamente, deixando o seu estado de alerta, Ardea puxou cuidadosamente algo de seu casaco.
“Antes de tudo, quero expressar minhas sinceras condolências pela Lady Regina.”
Ele apresentou um pacote de cartas enquanto falava.
“Você também trabalhou duro.”
Ferio pegou as cartas enquanto respondia.
Ardea tinha recuperado o corpo de Regina, enterrado nos fundos do orfanato, e a identificou.
Com base no tamanho dos ossos, confirmaram que era uma mulher, e encontraram fios de cabelo preto misturados na terra.
Os cavaleiros que o acompanhavam retornaram ao norte com o Conde Urmariti, mas Ardea permaneceu atrás.
“Havia uma sala secreta na mansão.”
Ardea investigou a mansão do nobre ocidental que controlava o território onde fica o orfanato.
Lá, descobriu provas de que esse nobre havia coludido com a família Olor.
Incluso o próprio pacote de cartas que tinha acabado de entregar a Ferio.
“......”
Ferio olhou silenciosamente para as cartas, depois puxou outro conjunto de uma gaveta — idêntico ao primeiro.
Ele as tinha pegado secretamente do escritório de Ardea no Instituto de Pesquisas. Faziam ameaças veladas e ofertas de suborno dirigidas a Ardea.
“São exatamente iguais.”
Ferio comparou as cartas, alternando a visualização entre elas.
Talvez quem as enviava achasse que nunca seriam descobertos, mas ambas usavam os mesmos envelopes e selos de cera.
Ferio tinha quase certeza de que a caligrafia também combinava.
O falecido nobre ocidental tinha registrado cuidadosamente as datas de chegada de cada carta.
Guardar as cartas em vez de queimá-las era uma forma de manter uma vantagem — uma prova para se protegerem caso algo retornasse contra eles.
A mais antiga das cartas que Ardea trouxe era de vinte anos atrás.
Esta tradução é de propriedade intelectual da Novelight.
Com isso, Ferio tinha certeza.
“É do falecido Imperador.”
Tudo isso começara ainda quando o falecido Imperador ainda estava vivo.
Só agora essas coisas que pareciam estranhas começaram a fazer sentido.
Como, por exemplo, como Subiteo, na época Príncipe Herdeiro, tinha mantido publicamente a filha da família Olor ao seu lado, apesar de já ter uma Princesa Herdeira — e ninguém tinha dito nada.
Naquele tempo, os Olors sequer tinham um título.
E aquele nobre ocidental tinha trocado cartas com os Olors vinte anos atrás, mesma coisa.
‘...Seriam apenas descartados?’
Talvez os Olors fossem uma peça cuidadosamente escolhida — um “peão descartável” do falecido Imperador.
Uma ferramenta suja para fazer o trabalho sujo do Império, pequena e insignificante o bastante para ser descartada sem remorso se tudo desviasse do plano.
“O velho império realmente aprontou cada coisa...”
Ferio soltou uma risada vazia.
De verdade, parecia um abutre, voando sozinho enquanto a ninhada estava cheia de tolos.
Ele tinha um certo respeito pelo falecido Imperador, à sua maneira, e agora, vendo tudo isso ter começado por ele, não pôde deixar de sentir uma admiração pura.
De jeito nenhum algo assim teria vindo da cabeça do Imperador atual.
Pensei que o antigo Duque estivesse bem de relacionamento com o falecido Imperador — na ideia de uma história boa — mas agora parecia que tudo era uma encenação, uma espionagem contra um inimigo.
E talvez... até seu próprio pai, o antigo Duque, estivesse jogando o mesmo jogo.
Então—
Os dedos de Ferio tremeram um pouco na mesa.
‘...Quanto ele realmente sabe?’
Aquela névoa de dúvida voltou a pairar em seus olhos negros.
Ferio tinha lido todos os papéis de Ardea, aqueles que ele trouxe do capitólio.
Ardea argumentava que a origem da humanidade estava no Norte, apresentando ruínas antigas encontradas por todo o Império como evidência.
Ele também afirmava que os símbolos e padrões deixados nessas ruínas apontavam para uma região específica no Norte.
‘Pelo que tudo indica...’
O que o falecido Imperador buscava tinha que ser aquela “determinada região” no Norte que Ardea descreveu.
As Montanhas do Norte.
O dedo de Ferio, que vinha batendo na mesa, de repente parou.
‘E ele tem procurado isso há muito tempo...’
Embora Ardea estivesse estudando isso há anos, seu artigo só foi publicado há menos de um ano.
Ferio não sabia exatamente como, ou até que ponto, o falecido Imperador descobriu isso, mas uma coisa era clara: seu alvo eram as Montanhas do Norte.
Provavelmente por isso o cavaleiro imperial Remus Olor, na época, infiltrou-se no Norte.
As cartas para Ardea, a invasão em seu laboratório — tudo era sobre obter as pesquisas detalhadas.
Ferio franziu a testa.
Toda essa situação estava se tornando uma dor de cabeça.
“...Aliás...”
Ferio pôs esses pensamentos de lado por ora.
“Como você saiu daquele ataque sem ferimentos?”
O laboratório de Ardea tinha sido completamente destruído, uma coisa além do imaginável.
O fato de ele ter conseguido escapar e voltar ao Norte era impressionante.
Especialmente considerando que o ataque parecia planejado para matar.
“Meu estudante me ajudou.”
Ardea lembrou daquele dia estranho.
‘Mestre! Absolutamente não!’
Seu estudante teimava em impedir que ele fosse ao laboratório, por motivos que não tinha entendido. No final, ele cedeu a essa teimosia e não foi por alguns dias.
Foi quando aconteceu o ataque.
E ele conseguiu fugir para o Norte com segurança, graças àquele mesmo estudante.
Ferio, por outro lado, achava esse estudante suspeito.
Parecia que eles sabiam de algo.
“Quem é esse estudante?”
Ferio perguntou.
“Varia.”
O dedo de Ferio estremeceu.
“...Varia, a irmã mais velha da filha do Conde, noiva do filho do Visconde Olor?”
“Você a conhece?”
Ardea parecia confuso.
“Lembro do nome.”
Ferio respondeu de forma casual.
“Precisamos ficar de olho nela.”
“Dói no coração, parece que estou traindo minha própria estudante.”
Ardea murmurou com uma voz triste.
Por causa de Varia, ele conseguiu sobreviver. Mas, por isso mesmo, Varia agora era uma das alvos de Ferio.
“Eu não vou matá-la imediatamente.”
Ferio bateu a língua suavemente.
No entanto, não tinha dúvida de que Varia sabia de algo.
“Vamos acompanhar por enquanto.”
Varia Erbanu.
Ferio pronunciou lentamente o nome dela.
“...Vou encontrá-la, no final das contas.”
O lobo negro exibiu um sorriso preguiçoso.
<Fim da Parte 1>