Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.

Capítulo 135

Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.


“Não.”


Varia empurrou os papéis de volta para o oficial suplicante com um movimento firme de cabeça.


“Não vou gastar dinheiro público com uma proposta cheia de buracos. Você acha que o orçamento nacional é brincadeira? Vai precisar de um plano mais detalhado, junto com—”


Ela listou calmamente, mas com firmeza, todas as razões pelas quais estava rejeitando a proposta, até que o homem parecia prestes a chorar.


“E mais uma coisa.”


Varia respirou lentamente, levantando as sobrancelhas ao olhar para ele.


“Diga ao seu superior, aquele maldito que te entregou essa porcaria, para ir se enforcar com ela.”


Depois, ela se acomodou na cadeira e voltou a focar no trabalho.


Quando o oficial se virou para sair, seus olhos estavam vidrados de lágrimas não derramadas.


“...Caramba, ela é uma fera mesmo.”


Seus colegas, que assistiam de perto, fizeram um estalo de língua em descrença.


“Ela praticamente o destruiu.”


“Isso foi realmente necessário?”


“Ela parece tão calma e fofa, assim…”


“Nunca se engane com essa cara.”


Alguém cutucou quem tinha falado, advertindo para tomar cuidado com as palavras.


“Sabe, quando a Varia tinha acabado de chegar aqui—”


Havia uma história, uma lenda, que circulava pelo Departamento de Finanças.


Quando Varia foi inicialmente designada para esse setor, ela rejeitou uma proposta como hoje—uma que estava mal feita e incompleta. O oficial que a trouxe decidiu se intrometer e insultá-la.


Ele desmaiou ali mesmo.


Porque a Varia deu um soco nele.


“...Sério?”


O recém-chegado, que tinha entrado no ano anterior, olhou para Varia com olhos arregalados e céticos.


Sabia que ela tinha fama de ser rígida, mas achava que não era tão extrema assim.

“Ela é mais forte do que parece,” riu Les.

“Ela parece um cachorrinho dócil, né?”

Mas o temperamento dela era uma fera pura.

“Ela nunca desiste. E, olha só, ela treina todo dia, não importa o quão ocupada esteja.”

Les uma vez perguntou a ela por quê.

Os dois começaram a trabalhar no Departamento de Finanças ao mesmo tempo, e apesar de ser o órgão administrativo mais poderoso do governo—pois controlava as finanças do país—Varia ainda assim se esforçava sem parar.

‘Por que você trabalha tanto?’

Ela não precisava. Tinha conseguido uma das posições mais cobiçadas. Mas Varia sempre foi sua própria crítica mais severa.

‘...Porque eu não quero ser a pessoa que pisa nos outros.’

Desde aquele dia, Les e Varia tornaram-se próximos.

“Você realmente gosta desse trabalho, né?”

“Gosto.”

Les bufou, se exibindo para o novato. “As pessoas do Norte são naturalmente agressivas.”

Nesse momento—

“Cadê a Varia?!”

Uma voz forte veio de trás da porta.

Ela se abriu com um estrondo, como se fosse sair das dobradiças, e um homem grande entrou furioso no Departamento de Finanças.

Seu rosto tinha uma cor vermelha e roxa, como se estivesse bêbado e pronto para brigar.


“Sabia que ela ia aparecer...” murmurou Les, tampando os ouvidos.


Enquanto o restante da equipe evitava contato visual e se afastava, Varia permaneceu calma, enrolando um lenço em volta da mão.

“Barão Onokenta.”

Ela o chamou com uma voz firme e indiferente.

“O que você quer comigo?”

“Você é a Varia?”

O Barão Onokenta, que tinha ficado furioso há um segundo, vacilou.

Quando ouviu falar na “Fera Varia,” assumiu que era um homem. Mas agora, diante dela, havia uma mulher—uma que não se encaixava em suas expectativas de jeito nenhum.

Ela era bonita.

“Hm.”

Ele tossiu, forçando uma falsa dignidade.

“Escute aqui, moça.”

Ele olhou para ela lentamente, de cima a baixo, com uma expressão nojenta.

“Você é bonita, vou te conceder.”

“...”

“Mas qual é a graça se você é tão tensa, hein?”

Varia não respondeu. Apenas continuou, silenciosamente, apertando ainda mais o lenço ao redor da mão.

“A mulher deve ser mais macia, não acha?”

“É mesmo?”

Varia sorriu docemente.

“Quer experimentar um pouco?”

“Heh, aí sim—ah!”

Antes que pudesse terminar, o punho de Varia atirou direto para dentro da boca dele.

Ao mesmo tempo, ela chutou a canela dele, fazendo-o cair de joelhos.

“Ah!”

“Varia!”

Seus colegas, que assistiam de mãos dadas na respiração, gritavam chocados.

“Sim! Era exatamente nisso que eu estava pensando!” comemorou Les, levantando o punho, avisando a todos para não pensarem em interferir.

Nem que quisessem, poderiam detê-la.

“Parece que na sua cabeça só tem ar.”

Varia pisou na coxa dele, segurando seu maxilar com força.

“Sabe por que sua proposta foi rejeitada?”

Ela não esperou resposta.

“Primeiro, seus dados são uma porcaria.”

A proposta estava cheia de bobagens.

“Você pede uma quantia enorme, mas onde estão as evidências? Pelo menos cite suas fontes.”

Ela não poderia aprovar um orçamento baseado em dados vagos e não verificáveis.

“E pare de distorcer os fatos.”

As poucas fontes que ele tinha incluído eram manipuladas na cara dura.

“Por que seu relatório está dizendo o oposto do que eu li no jornal ontem?”

A voz de Varia estava fria.

Mas não foi o punho em sua boca ou o aperto no maxilar que silenciaram o barão. Foi seus olhos.

Olhos que pareciam prestes a rasgá-lo ali mesmo.

“E, por fim.”

Ela trouxe à tona o ponto principal da proposta.

“No ano passado.”

Toda palavra que falava era afiada como uma lâmina, e o barão até tinha um tremor a cada uma delas.

“No ano passado, já pavimentamos a região do Portão.”

Então, ela perguntou, por que ele estava propondo outra rodada de obras ali—e pedindo ainda mais dinheiro desta vez?

“Bem?”

Ela puxou a mão de sua boca.

“Toss! Gahh...!”

Onokenta respirou arfando e tossiu com dificuldade.

“Vai montar um fundo secreto ou algo assim?”

O sorriso de Varia se alargou.

Mas seus olhos, que a observavam de cima, estavam frios como gelo.


***


“Ei, Varia...”


O som de água correndo preenchia o banheiro enquanto a voz preocupada de Les ecoava.


Varia estava na pia, lavando as mãos repetidamente. Ainda podia sentir a fedentina na boca do barão através do lenço.


Ela jogou o lenço no lixo assim que o desfez.

“Você não está preocupado de alguém da sua família te chamar por causa disso?”

“Podem me chamar se quiserem.”

Depois de lavar as mãos cinco vezes, Varia as secou.

“Faz anos que cortei laços com eles.”

“Seu pai não pensa assim.”

Les entregou-lhe um lenço limpo, que ela aceitou agradecida.

“Que ele pense o que quiser.”

A reflexão de Varia no espelho mostrava-se completamente esgotada.

“...Você passou por muita coisa.”

Les deu uma palmada nas costas, tentando animá-la. Varia respondeu com um sorriso cansado.

No Departamento de Finanças, o clima era de tensão. Todo mundo, seja quem trabalhasse lá ou estivesse só de passagem de outros setores, mantinha a cabeça baixa e a boca fechada.

Ninguém queria se envolver no que acabara de testemunhar.

“Varia.”

Um colega se aproximou com cautela.

“Não posso dizer que foi a coisa certa a fazer, mas, honestamente, deu uma sensação ótima.”

Eles riram.

“Você viu a cara daquele padre? Nunca me senti tão aliviado.”

“Ele piorou nos últimos tempos, né?”

O barão Onokenta, que já era conhecido por ser um cabeça dura, tinha ficado ainda mais arrogante recentemente.

“Sério mesmo.”

“Tá no cio ou algo assim?”

Uma das mulheres, que já tinha sido assediada por ele antes, cuspiu palavrões.

“Ele virou um perigo em todo lugar, honestamente.”


“Espera, vocês não sabem?”


Um colega mais antigo se inclinou para revelar a verdade.

“Visconde Olor está apoiando ele.”

Ao que parecia, era de conhecimento geral em certos círculos.

“Todos esses projetos que ele continua apresentando? Olor também mexe as mãos neles.”

Por isso, mesmo com tudo, o Onokenta ainda não tinha sido demitido.

A velha conhecida nojo com a corrupção, ela balançou a cabeça, revoltada com a podridão que tudo se tornara.

“Então é melhor vocês tomarem cuidado, Varia.”

Ela demonstrava preocupação séria.

“Se Olor aparecer aqui por causa disso, você pode acabar em uma enrascada séria. Dizem que até o marquês de Pardus está se aproximando dele.”

Varia sorriu.

“Obrigado pelo aviso.”

Uma peça do quebra-cabeça finalmente encaixou.


***

Varia foi direto para o alojamento assim que terminou o serviço.

Os dormitórios administrativos ficavam fora do palácio, mas ainda sob controle imperial—somente oficiais podiam entrar.

Por isso, ela pediu para morar lá e cortar os laços com a família.

Não foi só agora.

Até na época da Academia, ela morava nos dormitórios e evitava ir pra casa, a menos que fosse estritamente necessário.

A última vez que foi lá foi para o casamento da sua irmã mais nova.

Ela só se lembrava de estar ao lado da irmã menor, tentando manter a compostura enquanto um homem na faixa dos trinta atuava como um nobre cavalheiro.

Ela não estava lá para realmente parabenizá-la.

“Barão Onokenta...”

Lavada e arrumada, Varia sentou-se à escrivaninha. O pequeno aquecedor que ela ligara antes aquecera bem o quarto.

‘Claro que ele está ligado a Olor.’

Sequesando o cabelo molhado, ela abriu uma gaveta.

Pressionou o canto interno, e com um clique suave, a base falsa revelou um compartimento secreto.

Varia pegou uma pilha de documentos.

Provas que coletara às escondidas enquanto trabalhava no Departamento de Finanças—comprovação dos esquemas da família imperial e de Olor.

Ela acrescentou a proposta do barão ao monte.

‘Já reuni bastante coisa...’

Talvez fosse finalmente suficiente.

Mas seus olhos verdes afiados escanearam os documentos novamente, desesperados por uma falha.

‘Não posso cometer um único erro.’

Ela mordeu o lábio.

Na última vez, morreu sem poder fazer nada. Mas, agora, que voltou, não ia deixar que aquilo se repetisse.

Ela trabalhou por isso.

Primeira de sua turma na Academia, tanto na entrada quanto na formatura, conseguiu um emprego no departamento mais exclusivo do palácio.

E, a partir daí, foi descobrindo a verdade, peça por peça.

Já faz cinco anos.

‘Se ao menos eu pudesse encontrar o duque de Voreoti...’

Finalmente, Varia sentiu esperança.

Com tantas provas, o duque—a Besta Negra, o mais forte da história de Voreoti—acan would trust her. Ele iria detê-los.

‘Mas...’

Seus olhos, que momentos atrás estavam cheios de esperança, oscilavam ligeiramente.

‘Quem será aquela garota?’

Ela pensou em Leonia Voreoti—um nome que ela nunca tinha ouvido falar na vida anterior.

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