
Capítulo 136
Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.
Há cinco anos.
Quando surgiu a filha ilegítima do Duque de Voreoti.
Não exagero dizer que todo o império virou os olhos para o Norte.
Principalmente os aristocratas, que, mesmo sussurrando rumores maldosos e calúnias sobre a criança, ficavam de olhos bem atentos à filha bastarda do duque.
Porém, tudo isso desapareceu quase imediatamente após o pai e a filha debutarem na capital.
O Duque de Voreoti amava a criança além de palavras. Testemunhas afirmaram que ele nunca perdia de vista a menina.
O carinho paterno do jovem duque era lendário, tanto que se cochichava que a verdadeira força por trás da Casa Voreoti era aquela garota.
Varia também ficou surpresa com a súbita aparição de Leonia.
Por um motivo bem diferente, é claro.
Varia considerava a jovem senhora de Voreoti profundamente suspeita — porque ela nunca tinha existido na sua vida anterior.
‘Ela não devia existir...’
Por mais que pensasse nisso, nas ❖ Novélight ❖ (Exclusivo no Novélight), a garota nunca tinha sido mencionada em sua vida passada.
E, mesmo assim, agora ela era uma das figuras mais comentadas do império.
‘Leonia’ tinha se tornada um ícone.
Com os mesmos cabelos negros e olhos marcantes do duque, sua beleza já era evidente, mesmo aos doze anos.
Quando visitava a capital, nobres jovens tolos se aglomeravam ao redor de cafés e livrarias frequentados por ela, na esperança de ver seu rosto.
E as fofocas sobre ela serem uma prodígio eram incessantes.
Acadêmicos? Esgrima? Ela se destacava nos dois.
Havia até boatos de que um professor que chocou o império com um escândalo a estava ensinando pessoalmente.
Além disso, aos apenas sete anos, ela idealizou o conceito de relógio de pulso — e transformou isso em um negócio gigante.
Relógios de pulso não eram mais modinha — eles praticamente substituíram os de bolso.
No capital, era tendência comprar um relógio feito em Voreoti como presente de casamento.
E os relógios que Leonia teria supostamente desenhado? Vendiam-se por mais do que muitas joias, custando facilmente o preço de três ou quatro casas.
A cada dia, o status de Leonia Voreoti como a próxima duquesa parecia mais inevitável.
Porém, Varia se sentia desconcertada.
Na verdade, ela ficava apavorada com a rápida ascensão de Leonia.
“... Será que é por minha causa?”
Varia murmurou.
Porque ela fora assassinada e jogada de volta ao passado — porque tomou decisões que mudaram o futuro — algo mudou.
É o que ela acreditava.
E, assim, Varia manteve os olhos na jovem senhora.
Ela precisava se aproximar do duque, mostrar as evidências que havia reunido, conversar com ele — mas, mais do que o próprio duque, ela observava a filha dele.
Porque tinha medo dela.
Aquela garota era a variável desconhecida na equação, a peça que não existia em suas memórias.
Por isso, se esforçava ao máximo para aprender sobre ela.
Talvez fosse até mais fácil, pensou, se aproximar da jovem senhora do que do próprio duque.
Então, Varia estudava.
Sempre que via um artigo sobre Leonia nos jornais, cortava e guardava. Se ouvia falar de um livro que ela gostava, comprava e lesse.
Ela gastava suas últimas economias para experimentar o caro doce de morango com sabor de leite que a menina supostamente amava.
Até procurava acessórios que combinassem com o cabelo preto.
E poupava para comprar um dos relógios de pulso desenhados por Leonia.
A metade do seu salário ia para sua “pesquisa”.
“Variaaa.”
Alguém bateu na porta. Les estava lá, de roupa casual.
“Tem uma notícia nova sobre a jovem senhora de Voreoti na imprensa de hoje.”
“A-espere só um instantinho!”
Varia, desesperadamente, escondia as provas, cobria, fechava a gaveta e abria a porta.
Les estava lá, com o jornal na mão e rosto animado.
“Ela está aqui dentro.”
“Muito obrigada, de verdade!”
Varia cuidadosamente pegou o jornal.
Ela então recortou o artigo com cuidado e colou no seu caderno, enquanto Les a observava fascinada.
Por causa dessa rotina constante —
“Você é obcecada.”
Varia ficou conhecida entre seus colegas de trabalho como uma fã ferrenha da jovem senhora de Voreoti.
***
“Minha casa!”
Alguns dias depois.
Depois de voltar do topo da montanha, Leonia finalmente chegou ao castelo.
“Minha casa, meu lar...”
A propriedade que herdaria um dia.
Ela beijou repetidamente a porta da frente, alegre demais para se importar.
Nunca amou tanto a fachada sombria. Parecia que o céu sempre tinha estado ali, bem ao alcance.
“Você realmente pirou, hein?”
“Tudo isso é culpa sua, pai.”
“Claro que tudo é minha culpa.”
Ferio deu uma leve empurrada nas costas dela e disse para ela se arrumar.
“Você voltou, senhorita!”
“Sua banho já está preparada.”
“Connie, Mia!”
Leonia correu para as duas funcionárias que a cumprimentaram — mas parou.
Ela ainda vestia a armadura manchada de sangue.
Enquanto elas adicionavam sais de banho e espalhavam pétalas de flores na banheira, Leonia tirou a armadura sozinha.
Ela enxaguou-se com água morna e, então, entrou na banheira.
“Aaaah...”
A água aromática e quente derretia seus músculos, seu rosto se contorceu de prazer.
“Isso é um paraíso!”
Pela primeira vez em dias, Leonia sentiu-se humana de novo.
“Você deve estar exausta.”
Connie colocou mais água quente na banheira.
“Ainda só tem doze anos, será que não é cedo demais para fazer tudo isso?”
Mia acrescentou mais sais de banho, com preocupação no rosto.
“Seu pai foi quando tinha onze.”
“Isso é muito cedo, demais...”
“Eu quis ir, então está tudo bem.”
Leonia encheu as mãos de água e jogou no rosto.
Na verdade, Ferio não tinha planejado levá-la para caçar monstros logo assim.
Ele tinha pensado que ela só iria acompanhar depois de se formar na Academia, aos vinte anos.
‘Eu também quero caçar monstros!’
Mas Leonia insistiu, e, eventualmente, ele cedeu.
Ela tinha uma única razão para insistir tanto.
Queria ficar mais forte.
Quando assumisse o lugar de Ferio como duquesa de Voreoti, queria ser capaz de manter seu legado. Queria treinar o quanto antes.
‘... Eu mudei bastante.’
Não era assim antes.
Leonia virou um sorriso torto nos lábios.
Apesar de a água estar turva, escondendo seu reflexo, ela se lembrava claramente de quanto tinha crescido.
Não era só aparência. Sua personalidade também tinha mudado.
A antiga ela não se incomodaria com a complicação de ser herdeira. Preferiria viver de forma preguiçosa e despreocupada.
Mas agora, ela sonhava em se tornar a mais forte de Voreoti.
De alguma forma, adotara a mesma mentalidade de sua família e do Norte.
E essa mudança a deixava um pouco feliz.
“Então, vou contar como perdi... ”
Encorajada, Leonia começou a se gabar de suas façanhas.
Connie e Mia apenas sorriram e assentiram orgulhosamente, ouvindo com carinho.
“E, senhorita...”
Depois do banho, Connie veio dizer que ela tinha uma visitante.
Leonia nem precisou perguntar quem era.
O rosto de Connie brilhava, quase incapaz de conter sua alegria.
Leonia saiu apressada.
“Inseréa!”
Como esperado.
Inseréa aguardava na sala de estar, onde uma lareira ardia. Ao lado dela, uma grande cesta e uma mulher de meia-idade.
“Senhorita!”
“Ahhh, irmã!”
“Você voltou em segurança.”
Inseréa sorriu aliviada, claramente preocupada.
Seus cabelos cinza-azulados estavam cortados curto, e ela tinha se preenchido desde a primeira vez que se encontraram.
Ela parecia mais em paz, mais contente do que nunca.
Leonia cumprimentou a mulher que veio com ela.
“Então, onde está nosso pequeno lobo?”
“Ele acabou de acordar.”
Inseréa olhou com carinho para a cesta, enquanto a mulher de meia-idade cuidadosamente pegava algo de dentro dela.
“Wah... wahhh...”
Era um bebê.
Com cabelos cinza-azulados, ele balbuciava e se agitava suavemente, sorrindo ao ver Inseréa.
Leonia cambaleou.
“Ele é muito fofo...!”
“Ele acabou de te vencer, senhorita.”
“Vou perder pra ele cem vezes... ”
Leonia conseguiu se sentar e estendeu os braços.
“Preparada para segurá-lo!”
Inseréa riu e acenou para a cuidadora.
“Entregue o Lupe à jovem senhorita.”
“Sim, senhora.”
“Nosso pequeno lobinho.”
Leonia pegou o bebê com cuidado. Ele não chorou nem fez manha, apenas se acalmou quietinho em seus braços.
“Ó céus...”
Ela tinha que agradecer aos céus por terem criado essa vida calorosa, lambuzada de leite, fofinha e adorável.
“Mas, sabe, pequeno Lupe...”
Leonia sorriu tristemente ao olhar para ele.
“Você se parece exatamente com seu vovô.”
“Né?”
Inseréa concordou de coração.
“Fiquei chocada quando o vi.”
“Se ele herdar também o jeitinho, vai ser problema.”
“Mas ele puxou mais a mim — ele é gentil.”
Inseréa sorriu, dizendo para ela não se preocupar.
Leonia achava aquilo um pouco arriscado, mas não falou nada.
“Nosso pequeno lobinho.”
Leonia sussurrou suavemente.
“Lupe Ricoss.”
E, do fundo do coração, fez uma oração.
“Por favor, não cresça para ser um pervertido safado como seu vovô, tá bom?”
Um homem como o Marquês de Pardus já era mais do que suficiente neste mundo.
***
Lupe e Inseréa se casaram há três anos.
O caminho até o casamento não foi fácil.
Lupe se apaixonou por ela desde cedo, mas conquistar uma ex-perseguidora que virou workaholic e era obcecada por Voreoti não foi uma tarefa simples.
Então, Lupe fez a maior aposta da vida dele.
‘Se você casar comigo, nossa filha vai virar secretária da jovem senhora um dia!’