Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.

Capítulo 111

Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.


Ferio olhou para a cabeça redonda da criança com uma expressão que transmitia estar completamente sem palavras.


“Que forma vulgar e mercenária de demonstrar o afeto filial.”


“De fato é, Pai.”


“Nem sequer pretende negar, hein.”


A imensa riqueza da Casa Voreoti tinha conseguido transformar até um pequeno filhote de besta em uma filha devotada.


“Você, ingrata.”


No final, Ferio a ergueu bem alto. Então esticou o braço e deu uma sacudida suave, fazendo-a balançar como se estivesse vibrando. Era uma brincadeira que refletia perfeitamente os sentimentos complexos de um pai, que achava o comportamento da filha tanto irritante quanto ridiculamente fofo—a ponto de não conseguir até repreendê-la.


“Uwaaah! Ooooh!”


Leonia soltou risadinhas estranhas, acompanhando o ritmo de seu corpo pulando.


Justo antes de passarem pela Porta Norte—


Este momento de tranquilidade tinha se tornado uma parte tão natural do cotidiano na Casa Voreoti. Mas, um ano atrás, ninguém poderia imaginar algo assim.


***


“Snfff...”


As pequenas narinas franziram-se—


“...Haaah.”


E abriram-se novamente.


Leonia respirou fundo, enchendo o peito até o limite, e sorriu com total satisfação.


Finalmente tinham retornado ao Norte.


Foram exatos quatro meses.


Enquanto a carruagem que passou pela Porta era inspecionada, Leonia passeava pela área com Meleis.


Eles tinham vindo por aqui no final do outono passado, mas, infelizmente, Leonia não se lembrava bem do lugar.


“Senhorita.”


Assim, Meleis ajudou-a a redescobrir suas memórias.


“Esta árvore, bem aqui.”


Ela apontou para uma árvore em particular à beira do caminho na floresta.


Leonia, que olhava para outro lado, foi rapidamente até lá.

“Essa é ela?”


“Sim, você vomitou aqui mesmo.”


Era uma lembrança bastante desagradável, mesmo soando em tom de carinho.


Leonia passou a mão sobre uma mancha leve na casca da árvore, com uma expressão nostálgica.


Esta era a árvore onde o pequeno bicho tinha vomitado logo após pisar no Norte pela primeira vez.


“...Não parece que essa árvore cresceu mais que as outras?”


“Parece. Está incomumente grande.”


“Viu? Eu a alimentei!”


“Uhm...”


Meleis achou que talvez quisessem ouvir o lado da árvore na história, mas a leal cavaleira manteve seus sentimentos verdadeiros escondidos por trás de um sorriso suave.


“Leo!”


Justamente ali, Ferio chamou por ela.


A inspeção tinha acabado, e a carruagem já estava pronta para seguir direto para o Norte.


“Papai!”


Leonia correu energicamente até Ferio, girou uma vez ao seu redor com uma pequena saltitante, e depois parou apontando de volta para a árvore que acabara de visitar.


“Aquela árvore que eu vomitei? Ela cresceu muito!”


Ela se alongou toda em direção ao céu para reforçar seu ponto.


O olhar de Ferio seguiu para a árvore.


Naquele momento—


Não apenas Ferio, mas todos se lembraram de Leonia como a tinham visto pela primeira vez naquele final de outono.


Naquela época, ela estava em um estado miserável, para dizer o mínimo.


Seu corpo estava magérrimo por desnutrição, coberto por sinais visíveis de abusos.


Ela nem tinha sido lavada direito—havia um cheiro insuportável. Quando passaram pela Porta, ela ficou tão enjoada que parecia uma planta murcha, quase morta.


Para exagerar um pouco, ela estava numa condição em que não surpreenderia se tivesse morrido ali mesmo.


Porém, agora, Leonia estava tão saudável que mal dava para reconhecê-la.


Ela parecia uma pessoa completamente diferente.


“...Ela cresceu.”


Ferio murmurou, lembrando-se do tempo que passaram juntos.


Era uma sensação estranha.

Parecia que ele tinha estado com ela desde o momento do seu nascimento—mas, na verdade, nem mesmo tinha passado um ano desde que a conheceu.


Todos sentiam o mesmo.


Assim, o impacto que Leonia causara tinha sido enorme.


Já não dava para imaginar a Casa Voreoti sem aquela pequena filhote de besta.

A vida antes da chegada de Leonia parecia mais uma mentira do que uma memória.


“Certo? Essa árvore foi a única que cresceu, viu?”


Enquanto isso, o filhote de besta, inconsciente dos sentimentos dos adultos, sorria orgulhosamente por si mesma.


“Graças a mim, ela cresceu tão bem!”


Ela se vangloriava descaradamente, até mesmo do vômito.


“...Na verdade, deveríamos ouvir a opinião da árvore sobre isso.”


Ferio, surpreendentemente, manifestou-se contra.

“Ugh, que chato... sério mesmo...”

Leonia, claramente irritada, bateu na coxa do pai com suas mãos de algodão.


“Senhor!”


Justamente nesse instante, um cavaleiro chamou Ferio. A inspeção havia terminado.


“Tudo pronto, podemos partir.”


Deixando para trás o momento sentimental, a carruagem voltou a se mover.


Ao passar por caminhos e praças familiares, uma mansão de pouca iluminação — perfeita para um mistério — surgiu à vista.


Leonia, colando o rosto na janela para olhar lá fora, sorriu.

“Estamos em casa!”


Finalmente tinham retornado à propriedade Voreoti.


***


“Oh, minha nossa... nossa jovem senhorita...”


Kara, que saiu para recebê-los, tinha os olhos marejados.


O velho mordomo acabou soluçando, tirando os óculos para enxugar as lágrimas. Era porque a criança que não via há meses tinha crescido tanto que mal conseguia reconhecê-la.


“Snff, hrrrk...!”


A senhora Felica também não conseguia falar por um momento, dominada pelas lágrimas. Limpou suas vistas molhadas com o avental e acolheu calorosamente a jovem senhorita.


“Não chore, por favor? Os dois—parem com isso...”


Leonia rapidamente foi consolá-los.

Ela sentia tanta saudade deles, e agora vi-los chorando assim ao vê-la a deixou completamente desconcertada.


Mas sabia que aquilo mostrava o quanto eles realmente se importavam com ela.


Leonia sentiu uma pontada no peito.


Era embaraçoso, mas ver as pessoas felizes de verdade com seu crescimento... dava-lhe uma felicidade imensa e irrefutável.


Ela deu uma olhada para trás e viu Ferio, que observava tudo em silêncio.

Sempre, seu olhar era gentil—tão gentil que parecia que ele podia ler seus pensamentos.

Seus olhos se encontraram, e o pai e a filha trocaram um sorriso suave.

“Você realmente virou uma moça.”

Felica, que finalmente parou de chorar, apertou as mãos de Leonia com força.

“Cresceu bastante, hein?”

Leonia torceu o corpo timidamente.

“Acho que nem consigo mais entrar em minhas roupas antigas.”

“Que ótimo!”

Kara, enxugando os olhos e ajustando os óculos, finalmente se recompos. Pediu a um servo próximo que convocasse o alfaiate do camarim. O servo saiu rapidamente.

Este é um direito intelectual da Novelight.

“Provavelmente, também vamos precisar de novos enfeites de cabelo.”

Felica, observando os longos cabelos negros e bem cuidados de Leonia, comentou.

“Tudo bem! Comprei um monte na volta!”

“Muito bem!”

“Inclusive, consegui dizer ‘De lá pra cá’ pela primeira vez!”

“Você se saiu muito bem.”

Porém, com um sorriso caloroso, Felica sugeriu que, na próxima vez, era melhor chamar um artesão ou lojista para fazer pedidos personalizados.

“Nossa jovem senhorita merece o melhor.”

“O papai disse a mesma coisa!”

Leonia ficou um pouco chocada ao ouvir o mesmo conselho de novo.

Felica, claramente divertida com a reação da garota, voltou-se para Kara.

“Precisamos ensinar a jovem senhorita a gastar o dinheiro com sabedoria.”

“Concordo totalmente. Então, eu e a aia-chefe...”

O mordomo e a aia-chefe trocaram opiniões sérias.

Leonia abriu a boca, surpresa.

“Senhorita.”

Justamente ali, Mono se aproximou com um sorriso animado.

“Senhor Mono!”

“Puxa, você cresceu tanto que quase não consegui reconhecê-la!”

Ele não estava exagerando—Mono abriu bem os olhos e examinou Leonia de cima a baixo.

“Assim, você será casada rapidinho!”

“Por que ela iria se casar?”

Ferio, que escutava como se estivesse indiferente, lançou um olhar sério para Mono.

“Um homem deve vir procurar Leonia para se casar.”

Mesmo assim, Ferio parecia completamente descontente.

Mesmo que Leonia trouxesse um homem para casa algum dia, ele não tinha nenhuma intenção de aprovar.

“Mas, papai, você disse que eu podia pular o casamento e só ter filhos?”

“Meu senhor...”

Mono olhou para Ferio com pena.

Que pai diz algo tão absurdo de forma tão casual?

“Sua arrogância atingiu um novo nível na minha ausência.”

Ferio deu uma oportunidade especial para Mono falar, como se o desafiasse a continuar.

“Foi só uma brincadeira, uma alegria de te ver de novo.”

Mono sorriu e fez uma reverência educada a Ferio e Leonia.

“Você também é uma materialista, não é ✧ NоvеIight ✧ (fonte original)?”

“De volta pra você.”

“Papai, para de arrumar confusão.”

Leonia estreitou os olhos para ele.

“Então, vou lá praquele lado.”

Ela saiu do grupo, dizendo que ia cumprimentar os demais membros da equipe.

Vendo ela conversar alegremente com as criadas que fazia algum tempo que não via, Mono comentou:

“...Ela saiu de propósito, né?”

“Ela é mais perspicaz do que parece.”

Ferio concordou.

A criança claramente notara que Mono ficou lá mesmo após cumprimentá-la e deu espaço aos adultos.

Ela tinha percebido que eles precisavam conversar.

“Então...”

Ferio apreciou sua preocupação.

“Onde está agora?”

“Na prisão subterrânea.”

“Ainda está consciente?”

“Sim, meu senhor.”

Seu silêncio continuou, apenas os dois entendiam o que passava.

Ferio fez um pequeno gesto de cabeça, e ambos se moveram silenciosamente.

“Como estão as visitas de nossa filha?”

Ferio perguntou enquanto desciam as escadas.

Quanto mais fundo iam, mais o ar se tornava frio e sinistro.

Porém, nem Ferio nem Mono reagiram. Seus rostos permaneciam calmos.

“Como de costume, eles estão bem.”

respondeu Mono.

“Mas eles têm estado bastante quietos ultimamente.”

No começo, os convidados gritavam que não sabiam de nada, lançando ameaças e insultos, dizendo que nunca os perdoariam se eles saíssem dali.

Porém, graças ao cuidado gentil dos Cavaleiros de Gladiago, eles se tornaram bastante cooperativos.

Logo, chegaram a uma sala completamente escura, sem qualquer luz.

Mono acendeu uma tocha próxima.

A cela escondida lentamente surgiu das sombras.

Assim que a luz piscou em vida, gemidos perturbadores ecoaram de dentro, vindos dos professores do Orfanato, que agora estavam sendo “cuidados” pela Casa Voreoti.

“Que bom que eles estão bem.”

Ferio olhou de forma impassível para os corpos dispersos atrás das grades de ferro.

“Ugh!”

“Aaaaah!”

“P-Por favor, nos poupe!”

Os professores do orfanato gritaram de medo, recuando como ratos.

“O que vocês procuram fica lá no final.”

Mono quase os levou até lá, ignorando seus gritos desesperados—quando—

“E-Espera!”

Uma voz apavorada chamou através das grades de ferro.

“Você...”

Ferio franziu a testa.

Por um momento, ele não conseguiu identificar o rosto. Mas logo se lembrou.

Era o diretor do orfanato—o homem que ousou chamar Leonia de ‘Nia’, dando o nome de uma prostituta de um romance sujo.

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