
Capítulo 110
Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.
A tese de Ardea não parecia ser o tipo de coisa que ia sacudir o mundo.
Leonia ainda não tinha terminado de ler, mas teorias sobre as origens da humanidade e relatórios sobre ruínas antigas não soavam exatamente como algo de «N.o.v.e.l.i.g.h.t» que fosse provocar uma tempestade.
—Você... é de alguma forma ateia?
Leonia perguntou com cautela, quase sem acreditar.
O Império Bellius não tinha uma influência religiosa especialmente forte, mas ainda assim, duvidar da existência de um deus era considerado uma questão bastante séria.
A Casa Voreoti também não era exatamente um exemplo de piedade—não frequentavam orações no templo—mas doavam uma quantia considerável de dinheiro todo ano.
Voreoti era uma das famílias nobres mais apreciadas pelo templo.
—Não sou ateia.
Depois de tomar o último gole de café frio deixado na xícara, Ferio finalmente respondeu.
—O conteúdo é só um pouco... radical.
—Não diga que a tese insulta a Condessa Bosgruni?
Foi por isso que a Condessa, ao lê-la, lançou uma xícara de chá no professor?
Leonia lembrou do caos que presenciara quando as duas se reencontraram.
Aquela foi a primeira vez que viu o lado verdadeiro da Condessa Bosgruni, que dizem ter derrubado vários jovens nobres com uma xícara de chá.
—Você realmente gosta de assistir às confusões familiares dos outros, não é?
Ferio resmungou, fazendo a língua tocar o céu da boca.
—...Você fala, né? Considerando que quem me mostrou essa confusão foi você.
Fale por si mesma. Leonia revirou os olhos, embora sem qualquer má intenção.
Nenhum tutor que Ferio trouxe para sua filha pequena até agora tinha a cabeça completamente sã.
Um deles tinha ficado tão cheio de si que acabou incapaz de funcionar como ser humano.
—Aliás, a confusão na nossa família é ainda pior.
Leonia deu uma risadinha, como se dissesse ‘não é mesmo?’
Na verdade, Ferio e Leonia eram, tecnicamente, parentes terceiríssimos. Sua mãe biológica tinha fugido de um romance escandaloso com um cavaleiro errante de origem desconhecida.
—Se alguém escrevesse um romance sobre nossa família, faria sucesso de graça.
—Que bobagem.
Ferio sorriu de canto, com uma expressão meio cínica.
Mesmo para seus próprios ouvidos, ele tinha que admitir que a casa Voreoti era uma verdadeira comédia.
Mas, comparado com outras famílias nobres, as coisas estavam relativamente calmas e tranquilas.
Depois de confirmar que Leonia tinha terminado de escrever a carta, ele se levantou.
Pegou-a com um braço e segurou a cesta de almoço com o outro.
—Não está cansada, mamãe?
Leonia ofereceu-se para caminhar se ele estivesse esgotado.
—Isso é mais confortável.
Mas Ferio não a colocou no chão até que chegaram na próxima loja.
Era melhor do que deixá-la cair na multidão ou, pior, ela se soltar para explorar e desaparecer sozinha.
Além disso, vilas pequenas como essa costumam ter uma segurança surpreendentemente fraca.
O último destino do pai e filha foi uma padaria.
Leonia comprou uma lata de biscoitos em forma de árvore e uma especialidade local: pétalas de flores silvestres cristalizadas em açúcar.
Ela enviou os presentes junto com sua carta para a capital.
—E o restante?
Ferio apontou para as últimas latas de biscoito e potes de flores cristalizadas que ainda não tinham sido enviados.
—São para o pessoal lá do Norte, e também para as crianças e os professores do orfanato.
Leonia explicou com cuidado, abraçando um dos potes contra o peito.
Entre as flores de açúcar, tinha a forma mais bonita e a cor mais vibrante.
—Esse é para a Professora Connie.
Ela acariciou o pote como se fosse um tesouro.
—Percebi que nunca fiz nada de especial por ela.
Para Leonia, Connie era mais do que uma salvadora—era tudo.
Embora não fosse forte o bastante para lutar abertamente na instituição, a única razão de as crianças terem sobrevivido naquele lugar horrível foi por causa dela.
Ela levava comida decente para eles às escondidas, atrás das costas do diretor e dos outros professores.
Ela comprava remédios com o próprio dinheiro para tratar os doentes.
Ensinar a ler e preparar para o futuro também fazia parte do que ela fazia.
Para Leonia, que um dia acordou e se encontrou no inferno, Connie tinha sido sua única salvação.
—...Agora que você fala nisso.
Ferio murmurou enquanto pedia para o vendedor embrulhar os presentes restantes.
—Ela foi a única que me olhou com raiva quando vim te buscar.
—Ora, foi porque de repente você levou uma criança sem dar explicação.
—Você gosta da Professora Connie, hein?
—Gosto sim!
Leonia sorriu brilhante.
A expressão de Ferio vacilou um pouco.
—...Mais do que eu?
Seus sobrancelhas se mexeram enquanto ele murmurava a pergunta baixinho.
A pequena criaturinha de pelúcia piscou com olhos arredondados.
—...Eu gosto mais do papai!
Ela respondeu com força, com o sorriso mais feliz do mundo.
—Mas a Professora Connie é meio que... uma companheira? Uma quem ficou comigo naquele lugar horrível. Isso torna tudo um pouco mais emocionante.
Leonia lembrou de uma coisa que Connie tinha dito uma vez—que ela não tinha conseguido voltar para sua cidade natal há muito tempo.
Especialmente quando ela mencionou que alguém especial a esperava em casa, falando tão comovida que deixou uma impressão profunda.
Leonia tinha certeza de que, se não fosse pelos crianças do orfanato, Connie teria corrido de volta para aquela pessoa.
—Só espero que ela esteja feliz.
Leonia disse sinceramente.
—......
Ferio silenciosamente deu tapinhas nas costas da filha.
***
No caminho de volta à Porta que leva ao Norte, Leonia guardou muitas memórias felizes.
Ela gostava de caminhadas na floresta, brincava na areia da praia e fez uma verdadeira tarde de compras de nobres numa loja enorme que lembrava um centro de compras.
Por causa de tudo isso, a viagem de uma semana que planejavam inicialmente se estendeu para dez dias.
E agora, a carruagem Voreoti seguia para a Porta Norte.
—... Ainda parece um sonho.
Leonia usava um sorriso meio sonhador, quase perdido em devaneios.
—Nem acredito que realmente falei algo assim.
Na joalheria que visitaram pouco antes, Leonia, pela primeira vez na vida, disse as palavras: “De aqui para lá”.
Ela sabia, em teoria, que a Casa Voreoti era a mais rica do Império, mas era a primeira vez que experimentava isso na prática—e o pequeno bichinho de pelúcia ainda estava em choque.
—Ainda é estranho.
Este conteúdo é de propriedade intelectual da Novelight.
—Então faz isso com mais frequência.
Você vai se acostumar.
—Notei que suas mãos eram pequenas mais cedo.
—Claro! Ainda não fiz meu aniversário—tenho só sete anos.
—Não aquelas mãos.
Ele quis dizer seus hábitos de gastar dinheiro.
Na verdade, o grande pai besta reclamava que sua pequena filha era mão de vaca demais.
—Se isso já te chocou, o que você vai fazer depois?
Ferio parecia não se impressionar que tudo o que ela disse foi “de aqui pra lá”.
—Nossa, pai, sério...
Que irritante—mas também muito legal.
Leonia ficou realmente impressionada.
Talvez a aura avassaladora de Ferio não fosse apenas por sua aparência, mas pela quantidade absurda de riqueza que a Casa Voreoti possuía.
Além disso, as reclamações de Ferio não pararam por aí.
—Para essas coisas, você deveria chamar um artesão de verdade e mandar fazer sob medida.
O material também não parecia lá essas coisas.
Ferio claramente ficava incomodado com a ideia de sua filha usar acessórios feitos com esse tipo de material.
—A Connie não disse que custou o preço de duas casas?
A própria Connie trouxe a nota fiscal, tremendo ao mostrar o valor astronômico.
Ferio deu uma risada debochada.
Parecia zombar do preço—“Só isso?”
—O adorno no seu cabelo agora provavelmente vale uma mansão inteira.
—...Hã?
Leonia entrou em pânico, tremendo ao alcançar os cabelos.
Os dois prendedores de cabelo que ela mais gostava tinham forma de um buquê de três rosas cada—no total, seis flores.
—Ah, são aquelas que você me deu?
—Para o registro, cada flor vale uma casa.
—Senhor, meu Deus...
A pequena criatura resmungou.
Só de imaginar seis mansões na cabeça dela, seu pescoço doía.
—Cada rubi foi delicadamente esculpido em forma de pétala de rosa, depois montado à mão. Além disso, há uma técnica que diminui o peso da gema.
Essa explicação detalhada de Ferio mostrava que seus adornos capilares — além do valor das joias — também carregavam o custo da habilidade do artesão e da tecnologia de alta precisão. Devem valer pelo menos sete mansões.
—Puxa!
Leonia rapidamente tirou as mãos da cabeça.
—Por que tudo na nossa casa começa pelo preço de uma mansão?!
O Império tinha uma moeda de verdade—‘Penna’.
Mas Leonia ouvia “o custo de uma casa” com muito mais frequência do que unidades monetárias reais.
Um vestido custava o preço de uma mansão. Uma fita, o de uma casa.
—Espera, não me diga que!
De repente, ela se lembrou de uma conversa que teve com Ferio lá na antiga propriedade do Norte.
Ele prometeu ensiná-la xadrez e deu um conjunto com peças especiais, com uma mesa e duas cadeiras.
—Essas peças são tão bonitas. Parece jóias.
—São mesmo. Feitas em Voreoti.
—Sério? Uau!
—Cada peça vale uma casa.
Ele disse que eram feitas com gemas exclusivas de Voreoti e que o preço dependia do quanto alguém estivesse disposto a pagar. Leonia achou exagero e deixou passar como besteira.
—Cada peça de xadrez é uma casa...
Leonia fez uma conta rápida e caiu a mandíbula.
Incluindo a mesa e as duas cadeiras, só esse conjunto valia pelo menos trinta e seis mansões.
—...Quer dizer que a moeda da família Voreoti é literalmente medida em casas?
Leonia perguntou, com a expressão atordoada. Seu rosto normalmente perspicaz ficou meio vazio.
Sua cabeça acabou de fazer um curto-circuito.
—Isso me fez rir um pouco.
Ferio sorriu com um canto da boca, levemente, interpretando a frase como uma homenagem às palavras tão tolas—andadades dela, e ao mesmo tempo, tão fofas.
—Já te falei antes.
Ferio olhou para fora da janela.
O cenário familiar passava rapidamente.
Era a estrada que haviam percorrido no outono passado, quando levaram Leonia da instituição para casa.
A Porta do Norte estava logo à frente.
—Mesmo enquanto respiramos neste exato momento, a Voreoti está faturando dinheiro.
—Quanto será?
Leonia, meio atordoada, finalmente conseguiu perguntar.
Ela realmente queria saber que tipo de lucro faz tudo que ela toca ter preço de mansões.
—Mais do que posso contar.
Ferio respondeu.
—Já está listado como ‘incontável’ há bastante tempo.
Leonia queria saber se isso era até possível.
E Ferio, como se fosse algo mais natural do mundo, tocou seu nariz com o dedo.
—...Meu senhor.
Leonia ajoelhou numa perna no chão da carruagem, levando a mão de Ferio à testa.
—Essa humilde garota promete eterna lealdade filial ao meu nobre pai.
Então, reverente, beijou as costas da grande e calejada mão dele.