Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.

Capítulo 119

Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.


A carruagem avançava em silêncio.


Os sons dos cascos batendo, as ordens do cocheiro e o leve rodar das rodas...


Tudo aquilo bem que poderia ser uma ilusão. Dentro da carruagem, o silêncio era cortante, cortando, quase gélido.


“......”


“......”


Connie e Mia mal conseguiam abrir a boca.


Era um segredo tão grande que não podia oferecer consolo como se fosse nada. Ainda assim, amaldiçoar quem fosse responsável parecia cruel, principalmente porque as feridas de Leonia eram profundas demais.


O que as duas criadas podiam fazer era apenas observá-la.


A jovem que sempre sorria com energia contagiante—aquela que, até de forma audaciosa, fazia brincadeiras com o dono da casa—agora se encontrava tomada pelo desânimo.


E o desânimo era uma palavra que jamais deveria pertencer a uma criança.


Mas, se apenas essa palavra pudesse resumir o que Leonia estava sentindo, talvez isso fosse um alívio.


Estava muito além do desânimo.


‘Como isso pôde acontecer...’


Connie apertou os olhos, comprimindo as pálpebras.


Ela não conseguia suportar olhar para Leonia, que parecia prestes a desmoronar.


‘Não pode ser verdade...’


Era tão absurdo que ela não conseguia nem mesmo rir. O arrepio que havia percorrido sua espinha ainda não tinha desaparecido.


Connie involuntariamente passou a massagear o braço.


‘Como... como ela pôde ser ela...!’


Ela até tinha tomado chá com Conniee.


Já tinha visitado o orfanato algumas vezes com Leonia, rindo e conversando como amigas, só porque seus nomes eram parecidos.


Mas tudo isso tinha sido uma mentira.


Ela vendera exatamente as crianças que deveria proteger.


‘E quanto às pessoas na prisão subterrânea?’


Diretor do orfanato, professores, funcionários—aqueles que foram encarcerados na masmorra subterrânea da mansão por Ferio—todos apresentavam sinais de abuso contra as crianças. Cometeram crimes imperdoáveis.


E, de repente, uma ideia surgiu—e se Conniee fosse a responsável por tudo isso?


“Ugh—!”


Connie rapidamente tampou a boca, tentando esconder uma náusea crescente. Um olhar para o lado revelou Mia, fazendo uma expressão de dor semelhante.


Não era mais apenas choque—era traição.


Na verdade, era medo.


Durante todo esse tempo, Leonia ainda não tinha pronunciado uma única palavra.


Seus olhos escuros estavam secos, vazios, sem sequer uma lágrima.

Suas duas mãozinhas estavam cerradas no colo.


“...Papai...!”


Finalmente, Leonia chamou pelo único adulto em quem ainda podia confiar.


***


“Clareira!”


Um dos criados correu até Kara.


“Parece que a jovem retornou. A carruagem acabou de chegar.”


“Ela voltou pouco antes do jantar.”


“Então acho melhor mandar o chefe de cozinha colocar a água para ferver.”


Madame Felica sorriu suavemente e seguiu em direção à cozinha.


Era para preparar chá quente para Leonia, assim que ela voltasse do passeio antes do jantar.


“Você, venha comigo.”


Kara saiu com o criado para recebê-la.


Levaram-lhe o pequeno banquinho onde ela se apoiaria ao descer da carruagem e prepararam um manto mais leve para substituí-lo pelo sobretudo de passeio.


“Hoje ela se atrasou um pouco,” comentou alegre o criado, observando a carruagem se aproximando.


“Espero que não tenha petiscado demais antes do jantar.”


“Isso pode ser um problema.”


Kara sorriu de lado, um sorriso amargo.


O chefe de cozinha estava cheio de expectativa para preparar o prato favorito da jovem—frango cozido com molho cremoso.


“O chef pode até chorar.”


O criado riu baixinho.


Logo a carruagem chegou, e o criado colocou o banquinho embaixo dela.


“Jovem senhora, bem-vinda—ahh!”


Ao abrir a porta para recebê-la, uma pequena figura saiu de repente, assustando-o a ponto de fazer-lhe cair de costas.


Leonia, vestida de preto, correu direto para dentro da mansão.

“Jovenzinha, esperte!”

“Vai se machucar correndo assim!”

“Alguém, por favor, pare ela!”


Mia ajudou o criado a se levantar enquanto Connie gritava.


Kara, assustado, instintivamente se colocou à frente da entrada.

Mas Leonia passou por entre as pernas da governanta como uma sombra.

“Por favor, alguém, pare ela!”

Connie gritou, com uma veia saltando no pescoço.

Servidores próximos tentaram alcançá-la em vão.

Ela os esquivou com facilidade.

Seu ritmo era ágil—como um animal selvagem. Afinal, ela já tinha fugido de professores do orfanato uma vez e, agora, com o corpo mais forte, ninguém conseguiu detê-la.

“Papai! Papai!”

Escapando do caos de adultos, Leonia corria pelo interior da mansão chamando por Ferio.

Verificou o escritório, o salão, o study.

Mas ele não estava em lugar algum.

Checou até o quarto de Lupe, só por precaução—mas também estava vazio.

“...Papai...”

Após tanto correr, Leonia finalmente arfou por ar.

Seus pulmões ardiam. O gosto do hálito era de sangue.

Ela tinha subido e descido os andares do imenso casarão, escapando dos adultos o tempo todo. Era óbvio que estava exausta.

“Papai...!”

Ela caiu de joelhos, desesperada, chorando.

“Por favor... papai...”

“Seu travesso!”

Essa tradução é de propriedade intelectual da Novelight.

De repente, uma voz veio de cima dela.


Leonia se levantou bruscamente, assustada.


“O que está fazendo na frente do quarto do Lupe?”


Ferio estava ali, olhando para ela, ofegante.

Estava tão bem arrumado como sempre, mas uma olhada mais de perto revelou que as mangas e as calças estavam amarrotadas.

Havia um leve cheiro de mofo... e de sangue.

“Papai...”

A voz de Leonia tremeu.

“Não é verdade... né?”

Ferio franziu o cenho, endurecendo a expressão.

Ele percebeu na hora—Leonia sabia de tudo.

“C-Conniee... ela não fez... correto?”

“Leo.”

“Só diga que não é verdade!”

Ela implorou, como se estivesse cuspindo sangue, mas tudo o que recebeu em resposta foi silêncio.

Um silêncio que confirmava tudo.

Leonia desabou, a tensão que carregava desde o orfanato finalmente cedeu.

Ferio estendeu a mão e a segurou rapidamente. Sua pele estava gelada.

“Leo.”

Antes de falar, Ferio respirou fundo, controlando a voz.

Um peso de gravedad encheu o ar entre pai e filha.

Gentilmente, ele puxou a criança fria para seu abraço.

“Leo.”

E, ao invés de dizer a verdade que ainda não tinha coragem de pronunciar, repetiu suavemente seu nome, várias vezes.

Ferio hesitou.

Ele não sabia se devia contar tudo o que sabia ou se deveria protegê-la de tudo isso.

Até a decisão de adotá-la fora uma atitude impulsiva e imprudente. Ele não tinha certeza do que era o certo.

“...Papai...”

Leonia segurou o punho dele, soluçando.

A verdade a atingiu de surpresa, agarrando uma criança que começava a construir uma família feliz.

“Leo.”

Ferio tomou uma decisão.

“Minha filha.”

E falou.

“Lembre-se de uma coisa só.”

Antes de contar qualquer coisa, ele a lembrou da única verdade que ela nunca deveria esquecer.

“Não importa o que tenha acontecido com você... você é a única filha que eu, Ferio Voreoti, amo e quero cuidar.”

***

“Quero falar com ela.”

A única solicitação de Leonia a Ferio foi simples.

“Quero ouvir... tudo... saindo da boca da Senhora Conniee.”

Ela enxugou as lágrimas com a manga e falou como se nada tivesse acontecido.


“...Tudo bem.”


Com um suspiro silencioso, Ferio concordou.

“Mas você não vai até a prisão subterrânea.”

Em vez disso, disse que ela poderia encontrá-la em um anexo desativado.

O estado atual da prisão não era algo que {N•o•v•e•l•i•g•h•t} poderia permitir que Leonia visse.

“Deixarei os Cavaleiros Gladiago em patrulha dentro e fora.”

“...Os cavaleiros...”

“Mono e Meleis ficarão na escolta.”

Eram os únicos que sabiam toda a verdade sobre Leonia.

Os demais aguardariam do lado de fora.

Leonia, silenciosa, segurou a mão de Ferio.

“Quando você descobriu?”

Ela perguntou.

Parecia que Ferio sabia de tudo há muito tempo.

“Suspeitava desde o começo.”

“Por quê?”

“Por causa do preto.”

Ferio respondeu enquanto a segurava suavemente.

Leonia parecia tão pequena, frágil e dócil aos seus olhos que até dava pena.

“O preto que você carrega.”

Logo, uma pequena cabana surgiu à vista.

Difícil imaginar que fosse a mansão escura e sombria, pois este anexo parecia uma casa de tijolos saída de um conto de fadas.

“Apenas quem tem sangue Voreoti pode carregar preto.”

Era uma verdade tantas vezes ouvida que se tornara um mantra.

Assim que Ferio falou, uma lembrança veio à mente de Leonia.

O dia em que Ferio verificou as Presas da Besta dentro dela.

O dia em que ele disse que ela era sobrinha dele.

“Preto é uma característica hereditária que só existe na linhagem sanguínea Voreoti.”

As mesmas palavras ressoaram agora.

A respiração de Leonia ficou irregular.

Ferio acariciou suavemente sua bochecha e olhou fundo em seus olhos.

Parecia à beira de chorar a qualquer momento.

“Raramente, uma criança fora da linhagem Voreoti nasce com cabelo e olhos pretos.”

Um fenômeno tão raro que só foi registrado algumas vezes na história imperial.

Menos de cinco indivíduos.


E todos tinham mana poderosa ou potencial para se tornarem Mestres de Espada.

Ferio já tinha pensado que Leonia poderia ser uma delas.

“Mas é extremamente raro.”

A maioria das pessoas que via cabelo e olhos pretos presumia que a pessoa fosse da Casa Voreoti.

Era uma verdade comum—uma tradição que vinha desde antes da fundação do Império Bellius.

Assim, essas exceções raras sempre passavam por confirmação de laços sanguíneos com o atual cabeça Voreoti.

Como Ferio fez—com a ressonância das Presas.

Porque toda origem Voreoti com traços pretos também possuía as Presas da Besta.

“Então, por que...”

E essa era a questão que atormentava Ferio.

“Se aquela orfanato tinha uma criança com preto... por que nunca me procuraram?”

O significado dessas palavras silenciosas era vasto.

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