
Capítulo 101
Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.
Um olhar frio atravessou a jovem Senhora da Casa Hieina.
Suas mãos, que estavam cerradas junto ao umbigo, ficaram completamente pálidas. Ela não tinha palavras a oferecer, carregada de culpa.
“O que você faria se decidíssemos não contratá-la por causa do que aconteceu naquela época?”
“Não há desculpa.”
Após uma breve hesitação, Lady Hieina confessou com sinceridade.
“Na verdade... essa entrevista foi originalmente uma sugestão de Lady Voreoti. Ela me perguntou se eu gostaria de tentar."
Ferio já tinha desconfiado disso.
Para alguém que já havia perseguido a famosa Voreoti, Lady Hieina parecia ter uma autoestima extraordinariamente baixa e duvidava de si mesma.
“Sinceramente, sei que não sou habilidosa o suficiente para passar. Mas vim aqui, engolindo o orgulho, pensando que essa seria minha última chance.”
“O que quer dizer com ‘última chance’?”
“Decidi parar de admirar você, Sua Graça.”
Quando ela lentamente levantou a cabeça, seu rosto parecia visivelmente mais leve do que antes.
“Desculpe, Sua Graça.”
Lady Hieina pediu desculpas mais uma vez.
“Vou começar a tentar—pouco a pouco—a partir de hoje.”
“O que exatamente pretende fazer?”
“Lady Leonia me disse... que eu não sou inútil.”
Então, ela decidiu que a primeira coisa que deveria fazer era deixar de se ver como inútil.
“Para os outros, ainda posso parecer insuficiente...”
“......”
“E também quero pedir desculpas à Lady Ufikla.”
“Foi uma decisão acertada.”
“Então... adeus.”
Com um sorriso tímido e uma palavra de agradecimento, Lady Hieina deixou a propriedade.
“......Leo.”
Leonia, que vinha observando silenciosamente, segurou firmemente a mão do pai.
“Sim, papai.”
“Se recebermos notícia de que Lady Hieina pediu desculpas à Ufikla...”
Ferio falou enquanto acariciava a cabeça da criança.
“Diga para ela vir de volta aqui.”
A entrevista fora um sucesso.
“Papai!”
Leonia lançou-se ao redor da perna de Ferio, num abraço alegre.
“Mas o salário dela será descontado da sua mesada.”
“......Huh?”
Leonia, que vinha comemorando como se fosse seu próprio sucesso, congelou.
“......Mas eu não tenho dinheiro?”
Leonia não recebia mesada.
Toda vez que queria algo, ela simplesmente dizia ao Ferio, e aquilo aparecia diante de seus olhos—por isso ela nunca realmente viu necessidade de dinheiro.
“E além do mais, aquela big sister foi contratada como funcionária de Voreoti.”
Obviamente, era o Duque de Voreoti quem deveria administrar o salário dela.
“Você foi quem disse, Leo.”
Que Lady Hieina era subordinada dela.
“E é função do chefe cuidar dos subordinados.”
“Mas... a Leo não tem dinheiro, pelo jeito?”
Sensibilizado pelos planos maliciosos do pai, Leonia entrou no modo emergência de fofura extrema.
Ela sacudiu o quadril de um lado para o outro, colocou um dedo nos lábios e fingiu ser o mais inocente e ingênua possível.
Ela até usou a terceira pessoa ao falar de si mesma.
Ferio sorriu com uma expressão benevolente.
“Quando começar o negócio do relógio, todo o lucro será seu.”
Ele acrescentou que, uma vez que ela se tornasse oficialmente funcionária, o salário sairia do patrimônio Voreoti por enquanto, mas, quando os lucros começassem a chegar, ela teria que devolver o valor.
O nariz de Leonia se encheu de choque.
“Basta demitir aquela big sister!”
“Você está sério?”
“...Não, contrate ela...”
Leonia puxou os lábios em uma careta.
“Sinto que me deram um golpe...”
Incomodada sem motivo aparente, ela começou a pressionar a canela do pai com os dedinhos pequeninos.
***
“......Você realmente a contratou?”
Alguns dias depois.
Assim que Lupe viu a nova funcionária—Lady Hieina—ele congelou no lugar.
E imediatamente foi procurar Ferio.
“Você ficava dizendo o quanto estava ocupado, e mesmo assim—”
Ferio, no meio de organizar documentos, olhou fixamente para a intrusa.
“Contratei a funcionária que você tanto queria. Agora, ponha-se a trabalhar.”
“Mas aquela pessoa é...!”
“Mas o que?”
Ferio parou no meio do documento, estreitou os olhos e olhou diretamente para ele.
Lupe ficou boquiaberto. Ferio estava agindo como se tivesse completamente esquecido que ele próprio, assim como sua filha, já tinha sido perseguido por essa mesma mulher.
“Ela perseguiu você e Lady Leonia!”
“Ame o pecado, não o pecador.”
Disse Ferio ao assinar o documento. Suas palavras soaram como ❀ ❀ (Não copie, leia aqui) uma citação profunda de um sábio iluminado.
“Então, você perdoaria o Imperador também?”
“Sempre há exceções.”
Ferio rapidamente mudou de postura, afirmando que há casos em que o pecado e a pessoa são a mesma coisa.
Ao pegar o próximo documento, lançou um olhar levemente irritado para Lupe.
“Dê uma oportunidade a ela.”
“Não, mas mesmo assim...!”
“Se vai falar 'mesmo assim', então devolva a Leo pra mim.”
“Para... Lady Leonia?”
Lupe parecia completamente confuso, perguntando o que ele queria dizer.
“Leonia trouxe ela, dizendo que ela seria subordinada. Ela é eficiente no trabalho, então estou pegando emprestado.”
“Sério?”
“Até certo ponto.”
Ferio acrescentou que podia garantir pessoalmente as habilidades dela.
Só então Lupe começou a se perguntar se ele estava falando sério.
Ainda assim, Lady Hieina nem tinha sido aceita na Academia, tinha um passado de perseguição ao Duque e à filha, e ainda era menor de idade.
Quando listou esses fatores de desqualificação, Ferio pressionou os lábios, frustrado.
“Lupe Ricoss, Visconde.”
E ele então disse:
“O que você espera ganhar sendo tão fechadinho e limitado?”
Repetiu as mesmas palavras que tinha ouvido de Leonia no dia anterior.
“Lady Hieina tem habilidade suficiente para te ajudar nas tarefas. Seria absurdo a Casa Voreoti rejeitar talento por algo tão trivial.”
“Trivial, você diz...”
Para Lupe, que vivia pelo bom senso, aquilo não era nada trivial.
“E, a partir de ontem, Lady Hieina virou adulta legal.”
Ela refletiu profundamente sobre suas ações passadas, então agora só restava assistir e ver como ela se sairia.
“Então, vá em frente.”
Ele estava ocupado demais para lidar com discussões inúteis.
Ao seu descarte claro, Lupe não teve escolha a não ser voltar para o escritório.
“...O que você está fazendo?”
O primeiro detalhe que notou foi que Lady Hieina ainda permanecia na mesma posição de quando ele saiu correndo mais cedo.
“Você não está sentada?”
“Ninguém me disse que podia...”
“Então você ficou de pé o tempo todo?”
Surpreso, Lupe rapidamente a colocou para se sentar. Depois, acidentalmente, preparou um pouco de chá.
Sintia-se culpado por tê-la deixado sozinha.
“Primeiro de tudo, senhora...”
“Prefiro que não me chame de ‘senhora’.”
Lady Hieina cortou rapidamente e, com coragem, expressou seu pedido.
“Na verdade, fugi de casa para vir para o castelo.”
“F... fugiu...?”
Lupe engasgou com o chá, assustado, começou a tossir. Seus lábios ficaram encharcados do líquido.
“Disse que queria recomeçar uma vida nova e saí com nada além de uma bolsa com minhas coisas.”
“Então, onde está morando?”
“No anexo onde moram os funcionários.”
Na capital e no Norte, os patrimônios Voreoti tinham anexos separados destinados à acomodação dos empregados.
Isso era diferente das áreas dos criados.
“Não está desconfortável?”
Afinal, ela vinha de uma família nobre, então não deveria ser confortável morar em alojamentos coletivos.
“É incrivelmente confortável, e isso me faz feliz.”
Porém, sua expressão não demonstrava nem um pingo de mentira.
Ao ver aquilo, Lupe não pôde deixar de lembrar do rosto do Conde e da Condessa de Hieina.
Comparado a essa casa onde ela tinha que andar sempre nas pontas dos pés, esse lugar devia parecer como paz.
“... Então, Inseréa.”
“Sim!”
Essa tradução é de propriedade intelectual da Novelight.
Lady Hieina—Inseréa—respondeu com uma expressão visivelmente tensa.
“Para ser honesta, ainda tenho dificuldades em confiar em você.”
“Sim, claro.”
Inseréa concordou, já esperando por isso.
“Mas, como tanto Sua Graça quanto a jovem senhora te recomendaram, vou observar você pelos próximos dias.”
“Farei o meu melhor!”
“Prefiro que se esforce para fazer tudo perfeitamente, e não apenas 'o seu melhor'.”
“Eu- Eu farei o meu possível, com tudo que tenho!”
Inseréa declarou sua determinação, com a voz um pouco trêmula.
“Então... vamos lá...”
Lupe começou a explicar as tarefas que a nova funcionária iria desempenhar.
***
“Como alguém com esse nível de habilidade nunca entrou na Academia?”
Naquela noite.
Lupe, agora presente na janta, fez um discurso apaixonado para Ferio, reclamando do quanto aquilo era absurdo.
“Nunca vi alguém escrever tão rápido e com tanta precisão!”
“Quem fala tanto durante o jantar?”
“Tio Lupe, por favor, cale-se.”
Ferio e Leonia fizeram cara feia, visivelmente irritados com o barulho.
E era compreensível—Lupe não tinha parado de falar a noite toda, sempre se gabando de Inseréa, a nova funcionária que trabalhava com ele.
Estavam quase ficando surdos.
Inseréa tinha mostrado suas habilidades com toda força.
Memorizou cada documento que Lupe precisava e entregou as informações na hora. Também redigia cartas e papéis para envio, com velocidade incrível.
Como ela tinha perseguido Ferio no passado, já tinha uma boa noção da rotina da casa Voreoti—significando que tinha pouco a ensinar para ela.
“Honestamente, só alguém com essa habilidade poderia perseguir Seu Grace assim.”
O elogio de Lupe não parava.
“Ela é competente, o que é ótimo.”
Ferio falou enquanto rasgava um pedaço de pão.
Tinha alguma hesitação, mas ver Lupe elogiando a ponto de parecer um lunático repetidamente deixou claro—pelo menos, suas habilidades eram reais.
“Ela é um talento que descobri!”
Leonia se gabava, mastigando um pedaço de carne.
“Vocês dois devem me agradecer!”
“Obrigada, senhorita.”
Lupe sinceramente agradeceu por ter encontrado alguém tão capaz.
Pel Aí ele sorriu de verdade, algo que não fazia há tempos.
“Da próxima vez, vou te dar um caderno de anatomia para estudos de músculos, como presente.”
“Tio Lupe...”
Leonia, tocada, parecia quase chorando.
“Seu homem superficial.”
Ferio murmurou enquanto limava a boca dela com um guardanapo, retirando o molho e as migalhas.
“Mas, mesmo assim... Eu senti pena dela.”
Lupe lembrou-se do Conde e da Condessa de Hieina, franzindo uma sobrancelha.
“Ela tem tanto talento e, mesmo assim, não recebeu reconhecimento.”
“Pais inúteis.”
“Só azar de tê-los.”
“Ai...”
Leonia deu uma mordida gigante na salada e murmurou com a boca cheia.
Mordidas de legumes fresquinhos misturadas com um molho azedinho.
“Claro que pais podem planejar ter filhos, mas filhos não escolhem os pais. Essa big sister Inseréa provavelmente passou por momentos difíceis.”
Suspiros, ela deixou uma respiração pesada.
“Esse mundo virou uma bosta...”
Chutou a língua, dizendo que pais terríveis existem por toda parte.
“Só porque a criança resente o pai, é considerado imoral? Isso também é imoral.”
Depois acrescentou amargamente que pais assim merecem ser abandonados pelos filhos.
“......”
“......”
Ferio e Lupe ficaram em silêncio, assistindo Leonia reclamar.
“É como se houvesse um vovô de setenta anos vivendo dentro de você.”
“Prometemos não brigar na hora das refeições.”
Leonia perguntou por que tinha que ser sempre um vovô.
“Porque quando você fica todo empolgado com músculos, lembra de um desses velhos pervertidos que passam seus últimos anos tentando flertar com jovens.”
“Uau. Isso só mostra que você não é meu pai biológico.”
Leonia balançou a cabeça.
“Se fôssemos parentes de sangue, jamais diria algo assim.”
“E o modo como faz comentários cruéis sem pensar em como os outros se sentem—isso também lembra um vovô.”
Ferio deu uma risadinha.
“E se alguém mais ouvisse?”
Por sorte, os criados haviam se afastado para buscar a sobremesa.
“Nunca vi alguém que se importa tão pouco com as circunstâncias do próprio nascimento.”
Realmente, uma criatura rara.
“No que devo dizer isso?”
Lupe, que conhecia todos os detalhes, só se sentia cada vez mais constrangido.
“Simplesmente aceite como é.”
“Certo. Não é a primeira vez que meu pai e eu conversamos assim.”
“Então vamos mudar de assunto.”
Era um tema pesado demais para uma conversa na janta.
“Hmm, então...”
Leonia mergulhou seu pão no molho residual do prato e perguntou:
“Por que o Príncipe Seu Alteza está usando vestido se ele é homem?”