Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.

Capítulo 102

Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.

Toc, toc.

O som de uma colher caindo contra o prato ecoou na sala.

“M-Mãe—!”

Lupe pulou da cadeira, assustado, prestes a gritar — mas Ferio jogou um pedaço de pão diretamente na boca dele, acertando em cheio.

Acertado pelo pão, Lupe desmoronou para trás com um grito mudo.

“Ah? Tio Lupe não sabia—”

“Leo.”

Shhh. Ferio pressionou delicadamente um dedo nos lábios da criança, sinalizando que ela fosse quieta. Naquele instante, os criados retornaram trazendo a sobremesa.

“Durante as refeições, é preciso ficar quieto.”

Ferio, como se nada tivesse acontecido, calmamente saboreou o restante do vinho no copo.

Ele nem tinha condições de dar lições aos outros depois de tanta conversa fiada mais cedo.

No entanto, era claro que o clima tinha mudado — era hora de ficar quieto.

Leonia asentiu silenciosamente e virou sua atenção para a sobremesa à sua frente.

A sobremesa de hoje à noite era um queijo redondo embebido em mel.

***

A conversa não concluída no jantar continuou na sala de estar.

Devido à natureza do assunto, Ferio ordenou aos criados que permanecessem fora.

Leonia sentou-se entre os dois adultos, abraçando um pelúcia de leão negra no colo.

“Parece que tenho dois papais.”

A pequena leo made uma brincadeira irreverente.

No entanto, nenhuma reação veio.

Normalmente, Ferio e Lupe resmungariam e pediriam para ela parar de falar tanta bobagem assustadora, mas naquela noite, nenhum dos dois disse uma palavra.

Lupe, em particular, parecia ainda atordoado — sua mente parecia ter viajado horas atrás, na sala de jantar.

Estava longe daquele homem que, pouco tempo atrás, vibrava de alegria ao receber um novo ajudante competente.

“……É verdade mesmo?”

Finalmente, retornando à razão, Lupe questionou com tremor na voz.

“Que Sua Alteza a Princesa é uma— quer dizer, não uma mulher, mas alguém como eu—”

“Quer dizer se ele tem uma ou não?”

Incapaz de suportar mais, o pequeno filhote forneceu exatamente as palavras que Lupe vinha procurando.

“S-sim...”

Lupe assentiu relutante.

Haviam maneiras mais polidas de dizer aquilo, mas a forma direta e literal da jovem deixava-o sem saber onde olhar.

“Como você descobriu?” Ferio perguntou.

Ele também ficou surpreso ao perceber que Leonia tinha descoberto a verdade.

“Quer dizer, a estrutura óssea. Com um simples olhar, dá pra perceber que é um menino.”

Leonia gesticulou de forma vã em direção ao seu próprio corpo, indicando que a estrutura da Princesa Scandia claramente diferia da dela.

“Você consegue perceber só por isso?”

“Eu tenho talento pra essas coisas, sabia!”

“Isso não é motivo de orgulho.”

Até mesmo Ferio rangeu a língua dessa vez.

“Leo, você finalmente...”

“Finalmente o quê?”

“…Alcançou a iluminação.”

Ferio fez um tipo de elogio indireto, como um puxão de orelha.

Ele não pôde deixar de se sentir com uma dor de cabeça ao pensar que sua filha tinha atingido um nível degenerado de maestria — sendo capaz de determinar o gênero de alguém só pela aparência.

Na verdade, o segredo da princesa importava menos para Ferio do que esse desenvolvimento em si.

“O pai tem brigado comigo desde o jantar.”

Leonia se levantou e balançou o braço direito de forma descontrolada.

Era uma ameaça — ou talvez um aviso para ela não pisar na bola — mas, para Ferio e Lupe, parecia apenas uma brincadeira de uma menininha que se comportava como uma encrenqueira.

“A Sua Graça sabia disso?” Lupe perguntou, surpreso por Ferio conhecer esse segredo tão importante.

“Eu sabia.”

Ferio respondeu de forma direta.

Mas não explicou como havia descoberto.

Nem quando soube, nem se a Imperatriz sabia, ou como era a relação deles desde então. ◈ Novelight ◈ (Continue a leitura) Nada mais.

Lupe queria perguntar mais, mas julgou que não era da sua conta insistir.

“Vou me machucar se descobrir?” Leonia perguntou ao invés disso.

“Não, mas vai ser chato.”

“Ugh, então esquece.”

Leonia dispensou a conversa. Ela odiava confusão demais.

E assim, o assunto terminou.

Lupe voltou para seu escritório para mais uma noite de trabalho extra, enquanto Ferio levou Leonia até seu quarto. O pai e a filha caminharam lentamente pelo corredor, de mãos dadas.

“Você cresceu mais alta, né?”

“Sério?”

Leonia sorriu feliz.

Ferio percebeu que a altura dele ao segurar sua mão havia diminuído. Agora, podia caminhar ao seu lado com as costas quase retas.

“……”.

Uma mistura estranha de emoções agitou-se dentro dele.

Ele estava feliz — mas também um pouco nostálgico.

Era bom que ela estivesse crescendo saudável e forte.

Só de lembrar de como ela parecia magra e frágil no começo, tinha vontade de arrancar os membros daqueles safados do orfanato, que estavam apodrecendo na prisão subterrânea.

Mas agora ela vinha crescendo rápido demais — e isso doía um pouco.

Chegava a desejar que ela permanecesse pequena por mais um tempo.

“Se não, meus roupas de inverno não vão mais caber!”

Leonia, alheia às emoções tumultuadas do pai, riu feliz ao imaginar sua própria evolução.

Uma leve sonrisa surgiu nos lábios de Ferio.

“Vamos precisar mandar fazer tudo de novo.”

Ver ela tão feliz fazia todas as suas preocupações derreterem.

Desde que ela estivesse saudável e segura, já bastava.

Ferio decidiu que, antes de retornarem ao Norte, chamaria o Barão Theon para encomendar alguns trajes de inverno novos.

Os invernos no Norte eram mais rigorosos do que em qualquer outro lugar — era sempre melhor mandar fazer sob medida lá mesmo.

“Mas por que não podemos contar ao tio Lupe?”

Deitada na cama, Leonia colocou seu pelúcia de leão ao lado e perguntou. Um pote de vidro com balas de milkshake de morango estava na cabeceira.

“Não há vantagem nenhuma nisso.”

Ferio puxou o cobertor até o queixo dela.

“Está quente.”

Leonia protestou e puxou o cobertor, que escorregou deixando só as pernas descobertas.

“Se cubra.”

Ferio puxou o cobertor de volta, resmungando como um pai de verdade, dizendo que resfriados de verão eram os piores.

“Papai, já estou saudável. Não fico doente tão fácil.”

“Nunca se sabe.”

“Ugh, para de encher o saco.”

Leonia baixou o cobertor até o peito em silêncio. Os dois concordaram, sem palavras, que aquela era a melhor solução.

“Papai... boa noite...”

Leonia bocejou suavemente e piscou sonolenta.

Essa tradução é de propriedade intelectual da Novelight.

“Durma bem, Leo.”

“Sonhos docinhos. Você sabe qual quero sonhar, né?”

“Já te contei antes, não foi?”

Vamos descansar também em nossos sonhos.

Ferio sorriu suavemente e beijou sua bochecha. Leonia riu e deu um beijo na bochecha do pai em troca.

Era uma espécie de rotina na hora de dormir que encerrava o dia com delicadeza.

Após acariciá-la suavemente algumas vezes e dar um abraço caloroso enquanto ela deitava na cama, Ferio finalmente saiu do quarto.

Mas, como se algo ainda o puxasse, ele continuou olhando para trás para Leonia mesmo com a porta se fechando.

“Papai, vá logo.”

Para o pai, que ainda não tinha se mexido, Leonia acenou com a pata do pelúcia, despedindo-se.

“Até amanhã. Tchau-tchau.”

“Durma bem.”

“Você também, papai.”

Como sinal de carinho, Leonia pressionou os lábios na própria palma da mão e soprou em direção a ele, com um beijinho bem audível.

Ferio soltou uma risada silenciosa, balançando os ombros, com incredulidade.

Depois, a porta se fechou.

A escuridão total envolveu Leonia. Ela virou de costas, deitada de bruços, acariciou suavemente seu pelúcia e olhou para cima.

Embora não pudesse ver agora na penumbra, o teto ornamentado e reluzente de sua cama estaria bem acima dela quando as luzes estivessem acesas.

'A princesa é na verdade um rapaz...'

Leonia pensou na Princesa Scandia, que tinha conhecido brevemente naquele dia.

Depois fechou os olhos.

Ela não tinha descoberto a verdade sobre o gênero da Princesa Scandia só pela aparência.

'Por mais que eu seja afiada, não sou tão boa assim.'

A sua habilidade de interpretar estruturas ósseas havia se desenvolvido graças aos olhares para os cavaleiros bem definidos, mas ela ainda não atingira esse nível de expertise.

Na verdade, ela simplesmente se lembrou da história original. Sua pergunta foi meio que uma suposição — ela só queria confirmar o que já desconfiava.

Claro que ela também sabia por que a Imperatriz Tigria disfarçava seu segundo filho de filha.

Mas esse motivo não importava tanto agora.

'Não há vantagem em saber, ele disse.'

Leonia se considerava uma filha dedicada. Desde que seu pai disse que não havia benefício em ficar pensando nisso, ela não viu motivo para complicar a cabeça agora.

'Que menina comportada que sou!'

Ela elogiou a si mesma, convencida de que não haveria criança mais comportada no mundo.

Essa questão nem chegaria a ser importante até cinco anos depois, quando a história original começasse oficialmente.

Até lá—

'Será que ele vai ser alguém mesmo?'

No conto original, a Princesa Scandia cresceu tornando-se um belo homem de cabelo prateado e musculoso.

'Hehehe, já adoro essa ideia!'

Leonia sorriu, com um sorriso astuto, enquanto fantasiava sua futura aparência.

'Tenho que ficar perto da princesa.'

Com o coração satisfeito, a pequena filhote de fera caiu no sono.

***

Uma forte chuva caiu sobre a capital.

Começara a estação das monções.

“Depois que passar a temporada de chuvas, o calor verdadeiro vai começar.”

Tra falou, apoiado na parede ao lado de Leonia, que observava a chuva de dentro de casa.

Ela estava sentada em um sofá sob a janela saliente, assistindo à chuva com calma.

“Vai fazer muito calor? Assim, quão quente?”

“Mais quente que no Norte.”

“Nunca passei verão lá, então não sei.”

Leonia conheceu Ferio no final do outono do ano anterior. Quando viu o Norte com ele pela primeira vez, já estava coberto de neve.

“Então, precisa se preparar.”

Tra deu um alerta suave.

“No Norte, faz calor no verão, mas comparado à capital, ainda é mais frio.”

“Uau...”

“A luz do sol é forte. Você vai precisar de chapéu e guarda-sol se for sair.”

“Tem muitos insetos?”

Leonia perguntou, a voz carregada de preocupação.

O único verão que ela conhecia na Imprensa era aquele que vivenciara no orfanato.

O calor era difícil — mas o ambiente tornava a sobrevivência uma batalha diária.

O próprio orfanato era uma construção antiga de madeira, com partes apodrecidas, cheio de mofo e um cheiro nauseante.

Uma das janelas havia sido quebrada há anos, deixando entrar enxames de insetos todos os dias.

Até isso já era um pesadelo.

Mas os “professores” do orfanato gastaram todo o dinheiro de manutenção em suas próprias diversões.

O que significava que as crianças — inocentes, que nada tinham feito de errado — eram as que sofriam.

Mosquitos e moscas eram constantes; a comida estragava rápido e frequentemente elas tinham dores de barriga.

O que Leonia podia fazer era tentar ficar o mais limpa possível e matar qualquer inseto ao encontrá-lo.

Naquele calor infernal, ela acendia uma fogueira para ferver a água potável e furtava, secretamente, a comida de melhor qualidade que os monitores acumulavam para dividir com as outras crianças.

E, quando eram apanhadas... levavam umas bofetadas toda vez.

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