
Capítulo 100
Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.
A papelada sempre se acumulava e governar a região do norte não era tarefa fácil — estar ocupado não era novidade.
Mas o negócio recente de relógios de pulso tinha tornado tudo ainda mais difícil.
Até Leonia começou a ajudar, organizando documentos em ordem e fazendo esboços de mostradores e pulseiras, tentando aliviar a carga tanto quanto pudesse.
Normalmente, Ferio nunca pensaria em fazer Leonia passar por isso.
Mas isso só mostrava o quanto ele estava sobrecarregado.
"Quanto estamos de pessoas?"
Leonia perguntou.
"Aquele traidor do Lupe acabou chorando."
Parece que ele puxou a calça de Ferio, implorando para que contratasse mais uma pessoa — mesmo que fosse alguém só para fazer as tarefas de rotina.
Uma parte do problema era que tinham trazido apenas dois subordinados do Norte.
"Pobre tio..."
Leonia sentiu uma ponta de solidariedade pelo pai, que estava morrendo por dentro de novo.
"Mas não se preocupe!"
O pequeno animal pulou energicamente e declarou com orgulho,
"Hoje vou apresentar alguém que vai resolver nossa falta de pessoal!"
Essa pessoa mesmo tinha chegado ao estate naquele dia para uma entrevista.
Ferio estava a caminho da entrada principal com Leonia para receber a candidata.
"Ela é alguém confiável?"
"Quando se trata de lealdade à Casa Voreoti, eles são excelentes!"
"Não me diga..."
Uma certa imagem passou pela cabeça de Ferio, e ele franziu a testa.
E, como era de se esperar—
"Tcharam!"
Leonia apresentou a nova talentos inesperados.
"Esta é a Senhora Hieina, filha do Conde Hieina!"
***
A entrevista foi realizada na sala de estar.
"Deixa eu ver..."
Leonia ajustou os óculos sem armação no nariz e leu o currículo.
"Nome: Inseréa Hieina."
Pum! Assim que leu o nome, Leonia bateu a mão na mesa com força.
"Até o nome é bonito! Inseréa! É o nome perfeito para trabalhar na nossa mansão...!"
"Chega!"
Sem conseguir aguentar mais, Ferio pressionou a bochecha de Leonia para impedi-la de continuar falando.
A bochecha comprimida deixou seus lábios inchados como de um peixe.
"...Senhora Hieina."
"S-Sim, senhor...!"
A Senhora Hieina ficou completamente tensa. Ver o homem que ela sempre observava de longe agora bem na sua frente a deixou paralisada.
Ela nem conseguia levantar o rosto.
"Vamos deixar tudo o mais de lado por enquanto."
Ferio olhou para ela em silêncio.
Ele nunca imaginou que acabaria entrevistando alguém tão obsessivo.
Ele olhou de lado para a pessoa responsável por esse desastre.
"O quê?"
Esta pessoa só tinha um sorriso convencido, como se tivesse feito algo brilhante.
Com um suspiro profundo, Ferio falou novamente.
"Você entende qual é o cargo para o qual está sendo entrevistada?"
"A-A jovem senhora da casa me convidou para a entrevista, então eu..."
"Entrevista..."
A cabeça dele doía.
Leonia, que a convidou, e a Senhora Hieina, que apareceu de fato—
Ele queria que ambas desaparecessem só por um momento.
'...Ainda assim, não a Leo.'
Mesmo assim, ele não queria Leonia longe dele.
"O cargo que estamos contratando é de secretária."
"S-Sim!"
"Mais precisamente, é para ajudar minha secretária, o Visconde Ricoss."
Apenas o visconde — um servidor leal — poderia ajudar diretamente o Duque Voreoti.
Todos os outros funcionários tinham o papel de apoiar o visconde.
"E o requisito mínimo é ter se formado na Academia."
"Ah..."
Uma sombra passou pelo rosto da Senhora Hieina.
Debaixo da mesa, as mãos dela, descansando nos joelhos, começaram a tremer.
"Você não frequentou a Academia, não foi?"
"E-Isso é..."
"Você não atende aos requisitos."
Em outras palavras, ela não era elegível para a entrevista.
"Seu pai deâ!
Leonia gritou.
Surpreendida, a Senhora Hieina recuou de repente.
"Seu pai de cabeça fechada e engessada!"
"Não é bem assim—"
"Rejeitar alguém de fazer entrevista só porque não se formou na Academia?! Isso é demais!"
"Esse é o requisito mínimo."
Ferio empurrou a cabeça da filha para acalmá-la.
Leonia respondeu rangendo os dentes, pronta para morder se ele não tirasse a mão dela.
Apenas a Senhora Hieina piscou silenciosamente na cadeira.
"Ela tem talento incrível!"
"Desde quando você virou best friend do seu stalker?"
"A gente escreve cartas!"
"Você realmente escreve cartas com ela?"
Ferio segurou a nuca. Sua pressão arterial subia.
Essa criança destemida fazia cada arruaça possível.
"Se eu desmaiar por pressão alta, a culpa é sua, Leo."
"Então quer dizer que eu realmente sou a mais forte do mundo."
"Chega de besteiras."
Ferio estava decidido a acabar com essa situação o quanto antes.
"Então... por causa da Leo, vou perguntar."
A Senhora Hieina endireitou-se, toda atenção voltando para ela novamente.
"O que você sabe fazer?"
Ela pensou por um momento, depois olhou quietamente para Leonia.
Leonia fechou os punhos e assentiu silenciosamente, firmemente.
"...Sou boa em escrever."
Ela tirou uma caixinha do bolso e mostrou a Ferio.
Ela continha inúmeras cartas cuidadosamente guardadas.
"Estas são cópias das cartas de amor que enviei para Sua Graça."
Ferio, que tinha se inclinado para olhar, imediatamente recuou.
"Posso não ser boa em muitas coisas, mas quando o assunto é escrita, sou mais rápida que todo mundo. Copiar livros virou meu hobby desde criança."
"Olha, pai?"
Leonia pegou uma das cartas e mostrou para ele.
As páginas abertas revelavam uma caligrafia limpa e meticulosa, preenchendo toda a folha.
Era tudo elogios dirigidos a Ferio, e, impressionantemente, não havia nem um erro de digitação ou de gramática.
"Quanto tempo levou para escrever tudo isso?"
A carta de Leonia tinha cinco páginas — e havia dez cartas assim dentro da caixa.
"Nunca cronometei, mas leva pouco menos de duas horas para copiar um livro inteiro."
"Qual foi o livro que você copiou?"
Ferio perguntou sem muita esperança, mas perguntou mesmo assim.
"Foi o terceiro volume das obras do filósofo Rosophia."
"Aquele é super grosso!"
Leonia ficou espantada. O terceiro volume de Rosophia tinha a grossura igual ao antebraço de Ferio.
Ela já tentou lê-lo no colo, mas teve que desistir quando as pernas ficaram dormentes.
Copiar aquilo em menos de duas horas era realmente impressionante.
Ferio, imerso em pensamentos, alcançou a campainha na mesa.
Logo Tra entrou, e Ferio pediu que trouxesse materiais de escrita e o livro que ela tinha mencionado.
"Podemos ver você fazendo isso?"
"Ah, então preciso só de caneta e papel..."
"Você precisa do livro se for copiar."
"Já memorizeio quando copiei antes."
A Senhora Hieina murmurou timidamente.
Com isso, o pai e a filha, que eram bem atrevidos, arregalaram os olhos ao mesmo tempo.
"Como esperado da minha subordinada — não, minha irmã!"
Leonia aplaudiu alto, impressionada. Sem querer, a Senhora Hieina abaixou a cabeça com vergonha.
Na nuca e nas orelhas dela, uma cor subiu, vermelho.
'Então é por isso que ela está cuidando dela.'
Ferio finalmente entendeu por que Leonia estava tão atenta com essa stalker.
De algum jeito, ela deve ter se sentido mal por ela — e agora acreditava que era seu dever cuidar dela.
Logo, Tra voltou com os itens solicitados.
Ao trazer o livro numa bandeja, Ferio não deixou passar a tensão nos braços dele.
'Como esperado de um ex-cavaleiro!'
Mesmo que seus músculos tivessem diminuído, o antebraço visível sob as mangas ainda carregava a glória do seu passado.
A Senhora Hieina pegou a caneta, e Ferio abriu o livro.
"Você é como Han Seok-bong."
Esta tradução é de propriedade intelectual da Novelight.
Leonia murmurou baixinho.
"Que quer dizer isso agora?"
"O filho que praticava escrita na escuridão enquanto sua mãe cortava pão ao lado dele."
"E os dedos da mãe estavam bem?"
"Sim, estavam perfeitos."
"Então tudo bem."
Ferio, ainda folheando o livro, parou numa página específica.
"Página duzentos e quarenta."
Antes mesmo de terminar a frase, a Senhora Hieina começou a escrever sem parar.
"Uau...!"
Leonia assistiu maravilhada enquanto o papel rapidamente se enchia de texto. Até Ferio olhava, com os olhos um pouco mais abertos que de costume.
A afirmação dela de que memorizara o livro era completamente verdadeira.
Só pelo número da página, ela reproduziu o texto perfeitamente — numa velocidade que rivalizaria um cavalo selvagem galopando pelas planícies.
Mesmo assim, nenhuma letra estava fora do lugar.
Ferio pessoalmente verificou a página finalizada.
"Pai, que acha? Está correto?"
Leonia não conseguiu segurar a curiosidade.
"...Tudo certo."
Após conferir, Ferio deu uma leve encostada para trás. Nem um erro.
Ela até corrigiu uma falha de digitação que tinha sido impressa no livro original.
"Com essa habilidade toda, por que você não foi para a Academia?"
Nesse momento, Ferio realmente ficou curioso.
O ritmo era uma coisa, mas a capacidade de reter um livro inteiro após transcrevê-lo uma vez era notável.
"E-Isso é..."
Confusa com o elogio inesperado, Lady Hieina gaguejou.
"Eu-fico muuuito nervosa, e, hum, sou extremamente tímida..."
Resumindo, ela tinha talento excepcional, mas sua personalidade atrapalhava.
"Então você não está nervosa hoje?"
"Hoje, a senhorita está comigo..."
A Senhora Hieina respondeu timidamente.
Leonia deu a ela um sorriso suave, cheio de orgulho.
"Ela disse que eu não sou inútil, e elogiou uma das poucas coisas que consigo fazer bem. Honestamente, não tenho muitas lembranças de receber elogios."
"Tenho certeza de que seus pais ficariam orgulhosos."
"Meus pais..."
Logo que mencionaram os pais, a atmosfera mudou.
Para a Senhora Hieina, seus pais eram pessoas assustadoras.
De certa forma, ainda mais aterrorizantes que o homem sentado ali diante dela.
Ferio observou em silêncio por um momento, então deixou escapar um suspiro suave.
"A propósito..."
E então fez sua última pergunta.
"Você quer ser chamada de subordinada — ou melhor, de alguém a quem minha filha manda, de minha subalterna?"
"Isso não é permitido?"
A Senhora Hieina inclinou a cabeça, parecendo realmente confusa.
"A Senhora Voreoti é uma pessoa incrível. Nunca vi alguém tão forte e linda como ela."
De repente, ela falou com convicção, afirmando que, quando se trata da Casa Voreoti, idade é só um número.
"Admiro a Voreoti, que enfrenta tudo com firmeza!"
Toque, toque.
Ferio bateu levemente com os dedos na mesa.
E assim, a entrevista terminou.
***
"Hum, Sua Graça."
Justo antes de sair do estate—
A Senhora Hieina chamou Ferio.
"Eu—eu só queria dizer que sinto muito..."
Ela se curvou profundamente.
Ferio, que fora puxado até a entrada principal por insistência de Leonia, a olhou com expressão surpresa.