
Capítulo 108
Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.
“Porque parecia que você realmente queria se sentar ao meu lado.”
Hmph. Leonia resmungou como se não fosse nada, mas se apoiou suavemente contra o braço de Ferio.
“Só admitia que você queria se sentar ao meu lado.”
“Não é isso.”
Enquanto Leonia fazia a pose de quem estava maliciosa, a carruagem passou pelo portão suavemente.
Ferio tentou disfarçar que não notou como a criança se aninhou nele, visivelmente relaxada.
Aparentemente, aquela primeira crise de enjoo tinha deixado uma impressão mais forte do que ela demonstrava.
Uma mão grande começou a acariciar suavemente suas costas.
As pradarias abertas que abrigaram o posto de fronteira se transformaram em uma floresta densa num piscar de olhos.
Estava muito mais exuberante do que quando Leonia havia chegado pela primeira vez, uma vívida evidência do calor do verão.
Mas, graças ao dossel espesso de folhas, a luz solar intensa era filtrada.
Até os cavalos pareciam mais à vontade.
Em vez de continuar direto, Ferio mandou verificar a carruagem e os arredores, para garantir que a passagem pelo portão não tivesse causado algum problema.
Felizmente, ninguém se machucou.
Os cavalos estavam bem, e nada havia sido perdido ou extraviado.
O único problema foi uma rachadura leve que apareceu perto da janela da carruagem usada pelos funcionários.
Não era perigoso, então decidiram consertá-la assim que voltassem para o Norte.
“Ooh, olha só isso...”
Com a ajuda de Paavo levantando ela, Leonia examinou a janela rachada da carruagem.
“Isso, né? Aquele efeito que acontece lá dentro do portal?”
“Isso mesmo.”
Paavo explicou que aquilo era chamado de “distorção”, uma das fenômenos que podem ocorrer dentro do portal.
“Na verdade, dizer que é um ‘efeito’ é muito generoso. É mais preciso dizer que é um efeito colateral.”
“Efeito colateral?”
“Sim, porque esses são os fenômenos desagradáveis que acontecem ao passar por um portal.”
Como os princípios exatos do funcionamento dos portais ainda eram um mistério, pouco se sabia sobre as reações internas que ocorriam durante a travessia.
“Mas o que é certo é que são bastante perigosos.”
Paavo levantou três dedos.
“Distorção, estase e negação da existência.”
“Distorção é esta aqui, né?”
Leonia apontou para a janela rachada. Paavo confirmou com um aceno de cabeça.
“Um portal é—”
“—Simplificando, uma conexão espacial entre dois lugares.”
Naquele momento, Probo de repente interrompeu.
Estava ouvindo escondido de trás e entrou na conversa na hora certa.
“Ei.”
Paavo olhou para ele com expressão claramente de reprovação.
Porém, Probo, completamente despreocupado, começou a explicar animadamente como funcionava o portal.
“Os magos do Oriente têm uma fascinação especial por portais. A única razão de conseguirmos usá-los assim hoje é graças às pesquisas de todos os magos.”
“Esse idiota...”
Paavo rangeu a língua.
“Ei, você não é um mago. É um cavaleiro. Um Cavaleiro Gladiago!”
“Na verdade, sou o único mago-cavaleiro em Gladiago.”
“Bastardo louco. Não importa. Antes das Presas, somos todos insetos.”
“Ainda sou mais forte que você, porém.”
“Haha, que piada. O imperador virou santo ou algo assim?”
No fim, os dois cavaleiros ficavam rosnando um para o outro, com os olhos fixos.
“Tsk, tsk.”
Observando-os com decepção, Leonia bateu a língua e se afastou.
Perto dali, Ferio estava sentado numa pedra, lendo um livro.
Leonia inclinou a cabeça.
Ultimamente, ela vinha percebendo que ele estava lendo mais e mais.
Ele sempre foi assim tão apaixonado por livros?
Embora ela já o tivesse visto ler antes, raramente ele ficava tão absorto que não largava o livro nem por um momento.
“Papai, o que você está fazendo?”
A criaturinha rastejou até os braços do Papai Besta.
“Tô lendo. Quieto.”
Apesar de parecer incomodado, Ferio abriu levemente o braço com o livro para ela se acomodar melhor.
E, quando ela mostrou que queria ficar no colo dele, ele envolveu a cintura dela com um braço e a ergueu facilmente, sem falar uma palavra.
Leonia sorriu, encostando a cabeça no peito forte dele.
Ferio deu um leve tapinha na testa dela com o miolo do livro.
“Já brincou com o Paavo?”
“Ele e Probo olharam um para o outro do nada.”
“Eu avisei para você parar de usar expressões que podem ser mal interpretadas.”
Ferio deu um aviso suave.
Mesmo tendo saído da propriedade do Capitólio, os padrões de fala do clã Voreoti—especialmente na educação emocional de Leonia—ainda estavam totalmente em vigor.
Isso incluía controlar exatamente o tipo de expressão que ela mais gostava de usar.
“Mas, sério, olha isso aqui.”
Leonia apontou para o lugar onde estivera há poucos instantes.
Ferio finalmente olhou para cima do livro e seguiu o dedo dela.
Lá, Paavo e Probo estavam trombando um no outro e murmurando algo enquanto sorriam.
Depois, como quem ensaiava uma peça, eles sorriram, se abraçaram de forma dramática e deram tapinhas nas costas um do outro.
“Isso é comportamento normal?”
“É comportamento normal.”
Ferio os observou por um tempo, depois murmurou como se não entendesse nada do que a filha dizia.
Para ele, parecia apenas dois cavaleiros se unindo por causa dos músculos.
“Assista de novo—com a mente aberta.”
Leonia o incentivou a prestar mais atenção e apontou novamente para os cavaleiros.
Relutante, Ferio atendeu e deu mais uma olhada em Paavo e Probo.
Os dois conversavam com expressões felizes, parecendo ter uma conversa bem agradável.
“Probo, eu sempre tive inveja dos seus músculos.”
“Paavo, o sentimento é mútuo.”
Aí, as vozes deles soaram estranhas.
Estavam incomummente agudas e meigas.
Justo quando Ferio franziu a testa, Probo enlaçou o ombro de Paavo e sorriu.
“Na verdade, quero fazer parte dos seus bíceps...”
“Seu idiota! Se fizer isso, não poderemos treinar músculos juntos!”
“Mas ainda assim...”
“Não diga nada. Meu patinho pássaro.”
“Meu elefante de prata...”
E assim, os dois cavaleiros sumiram atrás da carruagem.
“......”
Tudo o que Ferio tinha acabado de ouvir não condizia com as expressões faciais ou movimentos dos dois cavaleiros.
Na verdade, até as vozes nem pareciam delas de verdade.
Porém, a voz era familiar.
Ferio olhou lentamente para o garoto no colo, com uma expressão de conflito.
Leonia, que tinha inventado toda aquela cena absurda sozinha, agora fazia biquinho, fazendo sons de beijo para completar a encenação.
Depois, virou a cabeça e sorriu de orelha a orelha.
“E aí, o que achou?”
Os olhos do filhote de animal brilhavam com esperança de validação.
“Parece que deu pra desconfiar, né?”
“Com certeza.”
Ferio passou a mão na testa dela e respondeu—
“Sinto que seus valores morais são bastante suspeitos.”
“Não, sério! Você precisa ver isso de uma perspectiva realmente aberta!”
“Leonia, quem está exagerando demais é você.”
Ferio a repreendeu, falando sobre a importância dos limites.
Nem tudo que é aberto é bom.
* * *
Assim que a carruagem do clã Voreoti saiu da floresta, ela parou na frente de uma grande mansão ✪ Nоvеlіgһt ✪ (versão oficial).
“Onde estamos?”
Leonia perguntou ao sair da carruagem.
Ela tinha cochilado durante a viagem, e a parte de trás da cabeça estava toda insistente.
Ainda cansada, piscou preguiçosamente para Ferio.
Porém, na mão, ela ainda segurava o chapéu redondo que ele tinha lhe dado.
“Uma villa.”
“Villa?”
“Propriedade do clã Voreoti.”
“Cabeça de vaca?”
Esta tradução é de propriedade intelectual da Novelight.
“Você está fazendo bife de porco cozido?”
Meio sonolenta, Leonia deu uma mordida nos lábios e murmurou, tendo entendido errado.
Ferio abriu a boca para corrigir, mas apenas a pegou no colo e a levou para dentro do prédio.
“Senhor. Estávamos esperando por você.”
“Recebemos sua mensagem e nos preparamos.”
Ao entrar na mansão, um casal de meia-idade os recebeu — eram os responsáveis pela propriedade.
“Onde fica o quarto da criança?”
Como sempre, Ferio priorizou logo as acomodações de Leonia.
“Precisamos preparar com rapidez, então usamos um dos quartos de hóspedes para a moça.”
“Minha mensagem chegou na última hora, não teve jeito.”
Ferio não se importou.
Foi ele quem deu a instrução de parar na villa no caminho de volta, na véspera da saída do Capitólio.
Depois de checar o quarto, Ferio colocou Leonia na cama com cuidado.
“Bife de porco com soju...”
Assim que ela se deitou, se jogou na cama algumas vezes, murmurou algo incoerente enquanto dormia e logo passou a dormir profundamente.
Quando teve certeza de que ela estava dormindo tranquilamente, Ferio chamou Connie e Mia.
“Não a acorde até a hora do jantar.”
Também pediu para trocarem a roupa dela, para que ela relaxasse melhor, e saiu do quarto.
Só faltando pouco para ele sentar no sofá e descansar até a hora da refeição...
“Milorde.”
Meleis se aproximou dele.
“Tem uma mensagem do vice-comandante.”
“De Mono...”
“Disseram que ele finalmente falou.”
O relatório era vago—sem assunto, quase sem detalhes.
Mas, para Ferio, aquilo já era mais do que suficiente. Mais do que suficiente para soltar um suspiro de resignação cansada.
“Peço desculpas.”
“Não. Vocês fizeram tudo certo.”
Ferio murmurou que a teimosia do outro lado havia ido além do esperado.
Tanta coisa para lidar.
Ele massageou devagar a testa com os dedos.
Rapidamente, pensou na lista de tarefas que o aguardava ao voltar para Voreoti.
Os papéis...
Ele já tinha tratado das questões mais urgentes no Capitólio, então, ao voltar, a pilha não deveria estar tão grande.
Com a temporada de caça a monstros começando no inverno, pelo menos teria uma folga até lá.
E, com uma nova funcionária eficiente na equipe, a produtividade de Lupe só melhoraria.
Resumindo, Ferio não precisaria se desgastar com papelada.
O mesmo valia para o negócio dos relógios.
Ele já tinha resolvido todas as patentes enquanto estava no Capitólio. Algo que precisava ser feito, mas sem urgência imediata.
Além disso, Leonia liderava o projeto.
Enquanto Ferio e os adultos cuidavam do marketing e da distribuição, as ideias principais—including o design dos relógios—seriam lideradas por Leonia.
Portanto, novamente, não era algo que Ferio tivesse que fazer pessoalmente agora.
A caça aos monstros era uma rotina anual, e todo o resto poderia esperar dentro do que ele esperava.
O verdadeiro problema estava em outro lugar.
“Ele finalmente falou...” hein...
Aquela mensagem que Meleis acabara de entregar—a questão silenciosa no Norte—era a que mais fazia Ferio sentir-se inquieto.
“Haa...”
Ferio de repente parou, virou-se e olhou para trás.
Para o quarto de onde acabara de sair—o quarto onde Leonia dormia, sem perceber nada.
“Sir Levipes.”
Ainda olhando na direção da porta do quarto dela, Ferio falou.
“Quanto tempo até chegarmos ao Norte?”
“Estimamos pelo menos cinco dias.”
Meleis considerou a presença de Leonia.
Ela tinha ficado mais saudável, mas ainda era uma criança pequena. Por mais confortável que fossem as carruagens do clã Voreoti, viajar por tanto tempo era difícil para ela.
Levou aproximadamente esse tempo na primeira viagem ao norte, quando a adotaram, e mais uns três ou quatro dias depois chegaram ao território Rinne.
“...Entendo.”
Ferio concordou com ela.
“Então, talvez a gente fique aqui descansando um pouco antes de seguir de volta.”
Talvez fosse uma boa ideia passar alguns dias aqui no Oeste.
Ele lembrava o quanto Leonia gostava do mar e das florestas do oeste.
Passar por lá mais uma vez antes de voltar para casa não seria má ideia.
Além disso, uma vez de volta ao Norte, não haveria muitas oportunidades de brincar. O inverno chegaria rápido, e com a primeira neve pesada, sair seria impossível.
“E quanto ao cavaleiro que entregou a mensagem?”
Enquanto pegava o livro deixado na mesa, Ferio perguntou.
“Ele ainda está aqui.”
“Então, diga para ele o seguinte.”
“Que ele não pode matar.”
Meleis fez uma reverência respeitosa e saiu.
Logo, o único som na sala tranquila era o virar lento das páginas.
Era uma cena de paz.
Como se aquela conversa recente não tivesse sido mais do que um miragem passageira.