Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.

Capítulo 106

Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.

Ferio deu um sorriso gentil para Leonia—que acabara de pedir que ele dingasse a bunda dela.


“Leonia.”


E então ele disse,


“É exatamente por isso que tenho que tomar cuidado com você.”


Só de ouvir ela falar isso, Ferio sentiu como se estivesse sendo importunado.


Seria ele quem daria a palmada, e sua mão ainda nem tinha tocado nela, mas já sentia um calafrio percorrendo a espinha.


“Que chatice, sério...”


Leonia balançou a bunda uma vez antes de endireitar a postura.


“Terminei minha lição de casa.”


Só então ela trouxe à tona o motivo de ter vindo até aqui originalmente.


“Escrevi tudo sobre como organizei a festa do chá e o que aprendi com isso.”


“E o que você aprendeu?”


Ferio perguntou enquanto puxava uma das tranças presas ao lado da cabeça dela.


“Dinheiro.”


Leonia respondeu de forma direta.


“Pode ser mais específico?”


“Foi muito chato ter que pedir sua permissão para cada despesa.”


Quando ela preparava a festa do chá—


Ferio tinha exigido que ela apresentasse uma explicação por escrito e uma lista detalhada de tudo que precisava antes de aprovar o orçamento.


Além disso, o orçamento era limitado.


Na prática, o valor que ele tinha dado era mais do que suficiente para fazer a festa e ainda sobrava um pouco.


Mas conseguir esse dinheiro era a parte difícil.


“Foi cansativo.”


Leonia ainda sentia dor de cabeça só de pensar nisso.


“Tenho só sete anos.”


Ela reclamou da tolice de alguém da idade dela estar fazendo esse tipo de trabalho mental.


“Se você realmente fosse uma criança de verdade, eu não teria pedido pra você fazer isso.”


Essa frase fez Leonia recuar rapidamente.


Ferio mesmo tinha dito isso sem muito pensar.


Na verdade, ele não pretendia forçar Leonia a treinamentos para herdeira tão cedo.


Mas ela era tão inteligente e madura que começou a atribuir pequenas responsabilidades para testá-la.


E ela tinha superado as expectativas—muito além do esperado.


Isso deixou Ferio curioso para ver até onde ela poderia chegar.


“...Não devia ter me esforçado tanto.”


Leonia resmungou, reclinando-se no sofá com uma carranca no rosto.


“Desde que viemos para a Capital, só estudo!”


“É mesmo?”


“‘É mesmo?’—é só isso que você tem pra falar?!”


Ui! A Pequena Bicho-Fera agitava os punhos em alto e em bom som, fazendo bico de birra.


“Eu quero brincar! Meu sonho é ficar sem fazer nada!”


“Esse sonho acabou no dia que você virou minha filha.”


“Então, basta se casar de novo e ter outro filho!”


Se fosse demais, ela até aceitaria que ele colocasse um bebê em casa sem precisar se casar — só trazer a criança mesmo.


“Você já não me falou uma coisa assim uma vez?”


Que ele não cavaria o casamento dela, mas que poderia deixar ela ter um bebê.


“...Nossa. Eu era um lixo mesmo.”


“Tudo bem. Eu já sabia.”


Leonia sabia bem que, na história original, Ferio era loucamente popular.


Era de conhecimento geral que ele não impedia as mulheres de partir ou agarrar aquelas que ficavam.


O rosto de Ferio escureceu.


“Ainda assim, você não era um completo lixo.”


Ferio só se relacionava com mulheres que estavam na mesma sintonia dele.


Nunca tinha feito nada ilegal ou imoral.


De modo rigoroso, ele não era de jeito nenhum lixo.


‘Agora, esses sim eram os verdadeiros descaçados.’


Leonia se lembrou dos dois personagens da história original que estavam sempre competindo pelo título de “mais nojento”.


Imperador Subiteo e o herdeiro do Visconde Olor.


Esses dois cometeram crimes inimagináveis como se fosse um passatempo—coisas tão repulsivas que precisavam ser implícitas em vez de explicitadas, até em um romance que se dizia adequado para todas as idades.


Em comparação, Ferio era completamente inocente.


Na verdade, desde que começou a criar Leonia, parecia que ele tinha entrado num estado quase monástico—não teve uma única relação que pudesse ser mal interpretada.


“Tudo bem, papai!”


Leonia o incentivou com entusiasmo.


“Você é bem decente mesmo!”


Ela até deu um grande joinha para ele.


“......”


Porém, quem recebeu aquele incentivo ficou completamente devastado.


Achava que tinha levado uma vida bem limpa... mas ouvir da própria filha que ele era “não total lixo” fez com que se sentisse completamente nojento.


A mão que estava acariciando sua cabeça se retraiu silenciosamente.


“Vai pro seu quarto.”


“Huh? Mas e o jantar?”


Leonia perguntou, piscando com seus grandes olhos pretos—tão pura, tão inocente, que o senso de culpa de Ferio gritou dentro dele.


Ele não tinha o direito de zombar da obsessão de Leonia por músculos como se fosse uma perversão.


Se fosse pensar bem, era ele quem parecia um total desqualificado, que não merecia ser um modelo para uma criança.


Será que eu tenho mesmo o direito de ser o pai dessa criança...?


Ferio começou a se questionar seriamente. Tinha medo de que seu passado de namoro “limpo” pudesse influenciar negativamente sua filha.


“Daaaddy.”


Sem perceber a crise interna do pai—


“Vamos jantar juntos.”


Leonia segurou sua mão com um sorriso radiante.


“Perguntei pra Connie mais cedo sobre salsichas, porque tava com vontade, e—ah! Ia dividir uma com você... ”


Mas antes que pudesse terminar, sua cabeça de repente caiu até o chão.


“H-Huh?! Papai?”


Leonia tropeçou, confusa.


Ferio a levantou e a carregou pra fora da sala. Depois, fechou a porta.


“...O quê?”


Agora expulsa, Leonia ficou ali, piscando assombrada.


Ela não conseguia entender o que tinha acabado de acontecer.


Só sobrava a sensação vívida de sua testa sendo pressionada contra as costas de Ferio.


“Leonia.”


A voz de Ferio veio vindo de trás da porta.


E, por alguma razão... soava mais quieta do que o normal. Mais cuidadosa.


“Papai? Por que você não vem sair?”


“Não tô com fome agora...”


“Por quê? Tá com dor de barriga?”


Banheiro?


Leonia bateu na porta e perguntou.


Mas não houve resposta.


“Daaaadde!”


Leonia continuou batendo, chamando, por um bom tempo, até finalmente espiar pelo olho mágico.


Mas tudo que ela viu foi escuridão.


“Papai!”


Bate-bate-bate!


Depois, começou a cantar:


“Você quer fazer um boneco de neve?”


Uma frase de uma desenho animado que ela lembrava de outro mundo.


“Vamos, sai logo!”


“Agora é verão.”


“Não dá pra você pelo menos deixar uma sombra no meu rosto?”


Leonia bateu de novo na porta, irritada.


“Depois a gente faz boneco de neve no Norte! Não vai morar na Capital pra sempre, né? Ainda vai precisar caçar monstros neste inverno, de qualquer jeito!”


A caça aos monstros era missão do clã Voreoti, os senhores do Norte.


E Leonia percebia que estava quase na hora deles voltarem à sua terra.


Ela só tinha se acostumado com a vida na Capital... a ideia de deixar Tra e os demais funcionários a deixava um pouco triste.


“Mas quando é que vamos ao Norte?”


Ela perguntou, encostando na porta.


“Daqui a dois dias.”


Ferio respondeu.


Leonia ficou tão surpresa que escorregou, caindo de bunda no chão.


“...Você devia ter me contado essa coisa importante na minha frente!”


Furiosa, começou a chutar a porta com força.


“Sai logo, seu otário de pai!”


Deixar uma notícia tão importante só dois dias antes, não dava. E a Pequena Bicho-Fera ficou gritando e batendo na porta do escritório por um bom tempo, como uma tempestade em miniatura.


Este é um conteúdo de propriedade intelectual da Novelight.


***


Quatro meses.


Foi o tempo que Leonia ficou afastada do Norte, permanecendo no Oeste e na Capital.


‘ACHAVA QUE a gente ficaria só um pouco por aqui e depois voltaria direto ao Norte.’


Ela ajustou levemente a roupa enquanto se olhava no espelho, perdida em pensamentos.


Quando saiu do Norte, estava de pijama, e era primavera—logo antes de as flores começarem a florescer.


Agora, era o auge do verão, escaldante.


O vestido leve e os shorts que usava mostravam claramente isso.


‘Na real, ficamos bastante tempo na Capital.’


Já tinham passado mais de quatro meses desde que tinham deixado o Norte, e mais de três desses meses tinham sido totalmente na Capital.


Ou seja, ela tinha passado um quarto de ano inteiro por lá.


“Moça, quer usar chapéu? O sol está forte hoje.”


“Vamos entrar na carruagem de qualquer jeito.”


“Mesmo assim.”


“Tch...”


Leonia bufou, mas obedientemente colocou o chapéu ✧ NovoLuz ✧ (fonte original). Era aquele tipo redondo e fininho, típico dos meninos que vendiam jornais nas ruas.


“Que maneiro!”


Assim que colocou, ela tremeu. Uma brisa refrescante correu pelo topo da cabeça dela.


“O duque escolheu ele pessoalmente.”


“Papal volta?”


“É um chapéu mágico encantado.”


Ao que parece, as crianças da nobreza usavam chapéus assim durante os meses quentes de verão—encantados com magia de ventilação.[1]


Claro, isso era algo que apenas crianças nobres da alta classe podiam se dar o luxo de usar.


“Uau...”


Leonia mexia no chapéu, admirada.


Connie observava com um sorriso caloroso. Parecia que a Jovem Senhora ficou realmente tocada pela preocupação do pai.


Até uma criada humilde como ela sentia uma sensação de aconchego pelo carinho do duque por sua filha.


“...Ele está colecionando itens mágicos ou algo assim?”


Por que ele compra tantos desses?


Leonia murmurou baixinho.


Mas Connie apenas sorriu. Agora ela entendia exatamente o que Leonia quis dizer, mesmo reclamando assim.


Ela tinha cuidado dela tão de perto por tanto tempo que podia entender a menina como um livro aberto.


‘A Jovem Senhora está feliz.’


Seus lábios levemente curvados e o modo como suas mãos não se afastavam do chapéu eram provas disso.


“Ainda assim, se íamos sair, ele devia ter me avisado antes.”


Leonia bufou com ar indignado e virou-se para Connie, fazendo uma pequena carranca de queixa.


“Você tá mesmo grudada no Capital, né?”


Connie respondeu com um sorriso suave, conhecendo a resposta.


“…Um pouco, talvez?”


Na verdade, era bem mais do que um pouco.


Leonia se encostou na perna de Connie e bateu de leve com o pé no chão de cabeça vazia.


“Acho que vou sentir saudades do Tra. E das outras criadas também.”


“Eu também.”


“E dos cozinheiros. E dos jardineiros.”


Todos foram tão gentis com Leonia. Mesmo que não fosse uma despedida definitiva, ela já se sentia um pouco triste.


“Eles ficariam muito felizes se você mandasse cartas para eles.”


Connie sugeriu gentilmente.


“Para todo mundo?”


“E se escrevesse só uma pro mordomo Tra, pedindo pra ele enviar seus cumprimentos aos demais?”


“Eles não vão se sentir excluídos?”


“De jeito nenhum!”


Não há uma pessoa nesta casa que se sentiria assim, afirmou Connie com convicção.


Ao ouvir isso, Leonia finalmente sorriu aliviada.


“Vamos descer?”


“Vamos.”


Antes de sair, as duas deram uma última olhada ao cômodo.


“Esse é meu quarto também.”


Leonia passou a mão suavemente na mesa e na cadeira onde frequentemente se sentava para ler.


“Vou voltar aqui.”


Depois, abraçou tudo como se fosse um amigo querido.


Connie a observava com olhos quentes e carinhosos.


Quando saíram do quarto e desceram até o hall principal, todos os funcionários da mansão já estavam alinhados, aguardando.


Leonia pisou em falso de surpresa, apressando-se a descer os degraus, degrau por degrau.


Atrás dela, Connie estendeu a mão, preocupada, pronta para segurá-la caso escorregasse.


“Moça.”


No final da escada, Tra deu sua mão.


“Você está tão forte e brilhante quanto no dia que saiu.”


“Só estou surpresa por todo mundo estar aqui.”


“Bem, hoje é o dia da nossa senhora e do mestre deixarem a mansão da Capital.”


Tra respondeu com um sorriso doce-yet-melancólico.


“Todos estão especialmente tristes por ver a jovem senhora partir.”


“E o papai? Não está triste?”


“Isso é segredo.”


Tra sussurrou, cobrindo a boca com a mão como se fosse algo muito confidencial.


Leonia deu uma risada alta.


E, naquele momento—algo aconteceu.

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