
Capítulo 95
Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.
“Você não ia se comportar direitinho?”
Marquês Ortio estreitou os olhos.
“Ainda assim, estou sendo bem comportada?”
“Hum. Não é essa a impressão que tenho de você, jovem senhora.”
O marquês lembrou-se daquela vez no escritório da residência do Norte, quando esperava por Ferio e viu Leônia do lado de fora da porta, encarando-o de frente numa disputa de olhar com o jovem mestre da Casa Tabanus.
“Você não é exatamente o tipo delicado.”
Seu tom ousado e espírito desafiador deixaram uma impressão forte.
Quando o marquês acertou na mosca, Leônia deu-lhe um sorriso um pouco constrangido.
“Mas você realmente está sozinha?”
Ele perguntava por que ela estava perambulando sem o Duque ou o Visconde Ricoss.
Marquês Ortio levantou a cabeça, procurando por Ferio.
O homem ainda estava profundamente envolvido na conversa com outros nobres, completamente alheio ao fato de sua filha ter se afastado.
‘...Não, isso não é verdade.’
Ferio, que tinha tanto zelo por sua filha, jamais a deixaria solta num lugar como este sozinha.
Ele deve ter mandado ela sair sozinha de propósito.
E, de fato—
Como se fosse ler seus pensamentos, Leônia se inclinou e sussurrou confidencialmente.
“Eu, na verdade, estou caçando.”
“Caçando?”
“Sim. O papai me ensinou.”
A parte mais importante de uma caçada era fazer a presa baixar a guarda.
“Estou me passando por alguém que está sozinha pra parecer assim.”
A confissão inesperada deixou o Marquês Ortio com os olhos bem abertos, surpreso.
Ele quase deixou cair a taça de champagne.
“Logo ela vai cair na armadilha.”
Leônia olhou para o local onde seu alvo provavelmente estava.
‘...Ah.’
Um calafrio percorreu a espinha do Marquês Ortio.
Leônia fixava o olhar na bandeira do águia dourada pendurada. Aquilo, por si só, transmitia uma onda de pressão opressora, forte o suficiente para perfurar a pele.
“Então é isso, Marquês, até mais.”
Leônia entregou uma bala a ele e virou-se, indo embora.
Deixado sozinho, o Marquês Ortio ficou parado por um tempo, depois brincou com a bala na mão.
‘Papel?’
Um pedaço de papel estava envolto na bala.
Um leve aroma de milkshake de morango impregnava o papel. Uma breve nota estava escrita nele.
“......”
O Marquês Ortio silenciosamente incinerou a nota usando magia.
Depois, foi até onde seu esposo estava, conversando com os outros nobres.
“Querido, podemos dar uma fugida para a sacada?”
“O-Oh...”
O rosto do marido dele ficou levemente corado.
“M-Mas já estamos do lado de fora...”
Ele murmurou, envergonhado com a sugestão.
Marquês Ortio pegou seu sempre adorável marido pela mão e o conduziu até a sacada.
***
A caça era um instinto de fera.
‘Tenho que conduzi-la com cuidado.’
O pai fera ajudava feliz a pequena fera na sua primeira caçada.
‘Não posso agir de forma suspeita.’
Desde que entrou no salão do banquete, Leônia agia como uma criança tímida que não se sairia bem em situações sociais.
Ela se agarrava a Ferio como se não pudesse suportar ficar longe dele.
‘Reduzir a vigilância deles.’
Depois que Ferio começou a conversar com os demais, ela silenciosamente se afastou para explorar o salão sozinha.
Ela queria parecer uma garotinha entediada, explorando o salão sem propósito.
‘Eliminar obstáculos.’
Por isso, distribuiu balas com notas [N O V E L I G H T] para certas pessoas.
Provavelmente, até agora, os nobres mais ferrenhos do Norte e o Marquês Ortio estavam protegendo seus protegidos.
‘Tio Lupe está com papai, então já está coberto.’
Leônia tocou nas balas escondidas sob sua capa. Achava que sobravam umas quatro.
Ela ignorou os olhares que a acompanhavam.
Era desconfortável, mas tinha que se controlar.
Seu pai sempre dizia: Não deixe pequenas coisas quebrarem seu foco.
‘Quem sobra...?’
Marquês de Hesperi e Conde Rinne com sua esposa.
Por sorte, os três estavam juntos, conversando.
Quando Leônia avistou seu próximo alvo e foi se preparando para correr na direção deles—
“Olha só quem está aí!”
“M-Marquês de Pardus...”
Leônia conseguiu parar suas pernas justo a tempo.
‘Não senti a aproximação dele!’
Que velho estranho é esse?!
Assustada, ela ficou encarando o marquês pasma.
Ele surgiu silenciosamente atrás dela, com seu sorriso afável de sempre.
Segundo Ferio, era aquele sorriso irritante de velho chato.
“Marquês de Pardus, ao seu dispor.”
“... Eu sou Leônia.”
Ela assoprou o lábio inferior, cumprimentando de forma educada.
‘Como se já não nos conhecêssemos.’
O jeito que ele se aproximou como fosse uma coincidência era tão sorrateiramente convincente que irritava.
Mesmo assim, diante de outros, as famílias Voreotis e Pardus tinham que fingir que não tinham boas relações.
Leônia fez uma encenação, fingindo desconfiança, meio brincando, meio realmente incomodada.
‘Ah, a bala.’
De qualquer forma, aquele velho era um aliado importante, tecnicamente.
Estava cumprindo com afinco o papel de espião duplo pelo seu pai.
Leônia vasculhou o bolso da capa.
“Aqui.”
Ela entregou uma bala, fingindo que estava sendo generosa.
O Marquês de Pardus relaxou o sorriso até ficar bem sincero, diferente daquele falso costumeiro, que era como uma máscara.
Pela primeira vez, Leônia sentiu uma pontinha de afeição por ele.
“Este é um presente especial.”
“Como poderei expressar minha gratidão?”
“Então pare de incomodar o papai.”
“Mas essa é a única alegria que me resta na vida.”
Ele respondeu com um sorriso maroto, como se perguntasse como poderia abrir mão disso.
“Aff...”
Leônia sentiu um calafrio.
Não admira que o papai não gostasse desse velho.
Ela percebeu que a personalidade intrínseca daquele marquês idoso superava até suas próprias tendências pervertidas.
Qualquer afeto que sentira há momentos foi instantaneamente substituído por irritação.
“Hmph. Só come a bala.”
Essa tradução é de propriedade intelectual da Novelight.
Reclamando, Leônia seguiu em frente.
O marquês de Pardus a acompanhou sem hesitação. Mesmo quando ela lhe lançou um olhar de reprovação, ele não recuou.
Enquanto caminhavam, o marquês meteu a bala na boca.
“......”
Depois, leu o que estava escrito no papel enrolado nela.
“Deve ser bem doce.”
“Você não vai levar mais!”
“Somos ambos do Norte—que tal a gente se dar bem?”
Ao invés de responder, Leônia caminhou ainda mais rápido.
De trás, a risada do marquês a acompanhou. Ele tava claramente zoando com ela de propósito.
No entanto, graças a ele, os olhares atentos que a acompanhavam diminuíram significativamente.
Enquanto ele a seguia de trás, o Marquês de Pardus observava ao redor com calma.
Não fazia mais do que sorrir e olhar ao redor.
No entanto, os outros nobres logo desviaram o olhar.
Embora Ferio o tratasse com desdém, a Casa Pardus era uma família histórica que esteve ao lado do Império desde sua fundação.
Em influência, Pardus tinha mais prestígio na capital do que a família Voreotis.
‘Agora, isso sim ficou melhor.’
Depois de garantir a área, o Marquês de Pardus olhou para Leônia à sua frente com afeto.
‘Que jovem encantadora e corajosa.’
Quem diria que encontraria uma Voreoti tão adorável na vida.
Quando a conheceu no Norte, ela era tão magra e pequena. Agora, suas bochechas fofas até saltavam acima do cabelo amarrado.
‘Nem é de admirar que Sua Graça não pare de abraçá-la.’
O marquês tinha ordens de Ferio para seguir Leônia.
Ele devia observar tudo e relatar qualquer coisa suspeita.
Foi instruído a não interferir nas ações dela.
Embora fosse uma ordem estranha, ele não tinha babado de questionar.
‘Comportamento suspeito, hein...’
De fato, havia algo suspeito.
Onde quer que a garota fosse, olhos atentos a acompanhavam.
Pouco tempo atrás, quando ela sinalizou discretamente para que as pessoas se calassem, ele percebeu tudo perfeitamente.
Entre os serviçais do banquete, havia claramente alguns escolhidos pelo Imperador.
Sabendo do panorama geral, o Marquês de Pardus comentou baixinho, com a língua torta.
Esse passarinho idiota nem percebia que tinha caído numa armadilha.
Patético.
Enquanto isso, Leônia chegou ao grupo onde estava o Marquês de Hesperi.
Ele parecia feliz com sua presença, mas também preocupado por ela estar sozinha.
“Mas eu não estou sozinha.”
O Marquês de Pardus interveio tranquilamente.
“Saudações ao Senhor do Oeste. Como tem passado?”
“Faz algum tempo, Marquês.”
Os dois marquês trocavam cumprimentos sem tensão aparente. A atmosfera entre os nobres também estava relativamente relaxada.
Carnis e Abipher até riram de leve e trocaram algumas piadas com o Marquês de Pardus.
Leônia observava os adultos com curiosidade.
‘...Bom.’
Não era algo tão estranho assim.
Mesmo que Pardus fosse conhecido por apoiar o Imperador, isso não significava que ele precisasse cortar relações com os do Norte.
“Ainda assim, por que será que o marquês está acompanhando nossa jovem?”
Carnis discretamente se colocou na frente de Leônia, atento ao Marquês de Pardus.
‘Ooooh, tio!’
Leônia olhou para as costas de Carnis com admiração afetiva.
Se ele não fosse casado, seria sua prioridade número um para pai novo. Que desperdício de talento.
“Você está bem?”
Abipher perguntou suavemente, preocupada se algo desagradável tivesse acontecido.
Leônia assentiu e entregou uma bala de dentro da sua capa.
Abipher abriu o embrulho silenciosamente, com os olhos estreitando-se desconfiados.
“......!”
Ela olhou para Leônia com choque.
Leônia apenas pressionou um dedo nos lábios.
Abipher, quase sem conseguir segurar um suspiro, deu um sinal silencioso de aprovação.
“Vovô Marquês.”
Leônia chamou o Marquês de Hesperi. Ele a recebeu com um sorriso radiante.
Quando ela estendeu as mãos pedindo um abraço, seu sorriso floresceu como uma flor.
“O que te traz aqui tão longe?”
“Fui visitar o vovô Marquês.”
“Que jovem tão amigável.”
O marquês elogiou com entusiasmo, tratando-a como uma neta adorada.
Embora tivesse seus próprios netos, como príncipe e princesa, eles raramente eram vistos, devido ao status deles.
Isso tornava a demonstração de afeto de Leônia ainda mais preciosa para ele.
“Se ao menos ela gostasse de mim assim...”
O Marquês de Pardus comentou baixinho, com uma ponta de ciúmes na voz.
Carnis olhou para ele com uma expressão de quem tinha acabado de ouvir a coisa mais absurda do mundo.
‘Sem sinal do Lorde Ibex...’
Agora mais alto por ter sido levantada, Leônia olhou ao redor do salão.
Ibex, o velho amor da Imperatriz, não estava presente.
Ao olhar ao redor, achou que fazia sentido.
De que adiantaria procurá-lo?
Só iria reabrir velhas feridas.
Na novel “Varia da Fera Negra”, essa era a história de amor mais triste de todas.
Leonia apertou o peito, sentindo uma pontada de dor.
‘Velho malvado.’
De forma sutil, beliscou a orelha do Marquês de Hesperi.
Ele winçou, claramente sentindo dor, mas Leônia não soltou.
Essa dorzinha insignificante não se comparava ao sofrimento que esses dois tinham passado.
Depois de descarregar sua frustração como leitora, entregou-lhe uma bala.
Ela ainda estava irritada, mas, como ele não tinha feito nada de errado com ela pessoalmente, decidiu deixar pra lá.
‘Só mais uma sózinha agora.’
Ela distribuiu três das quatro balas restantes—para o Marquês de Pardus, Abipher e agora o Marquês de Hesperi.
Sobrava apenas uma bala na capa dela.
‘Para quem devo dar?’