Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.

Capítulo 84

Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.

Leonia não pensou muito ao encontrar Lady Hieina.


Claro, ela sabia que tinha deixado seu pai irritado.


Mas achava que era algo banal — algo que poderiam rir e minimizar com algumas piadas, como sempre faziam.


Quanto à severidade da bronca, afinal, ela era só uma criança fofa. Provavelmente ele ia passar a mão na cabeça dela como sempre fazia.


Ferio sempre recuava na hora de ficar brabo. Mesmo na bronca, a pior coisa que ele fazia era beliscar seu nariz.


Essa foi sua grande fatalidade.


Como pai novato, Ferio sempre tentou controlar sua fúria, com medo de assustar a filha. Ela era preciosa demais para ele.


Mas desta vez, Ferio havia decidido de verdade que iria discipliná-la.


Ela tinha se encontrado com uma pessoa perigosa e ainda montado a cavalo sozinha, mesmo sem acostumar-se com isso.


A preocupação de Ferio tinha ultrapassado todos os seus limites de paciência.


Seu rosto contorcido de raiva parecia sofrido.

Leonia sentiu o coração apertar.


Sentiu pena. E medo.


Depois, como uma cobra deslizando pela espinha, uma sensação de desconforto começou a rastejar.


E se ele estiver realmente decepcionado comigo?


E se ficar bravo pra sempre?


Ser odiada pelo pai era a coisa mais triste que ela podia imaginar. Ele era a única pessoa no mundo que a fazia se sentir segura, que lhe dava um lugar onde pertencer.


Até a ideia de perder isso fazia o coração de Leonia afundar, como se o chão tivesse se aberto sob seus pés.


Então ela se agarrou ainda mais forte.


“Qualquer castigo, só não diga que me odeia!


Mesmo Leonia se surpreendeu com o quão infantil ela soava.


Sem ouvir isso saindo da boca de Ferio, ela sentia que ia enlouquecer de ansiedade.


Ela realmente se sentia como uma criança.


Enquanto Leonia choramingava, como um cachorrinho que precisava fazer xixi—


“O que é que...”


Ferio, prestes a repreendê-la por sua tolice, hesitou.


Ele estava bravo porque se preocupava — não porque a odiasse ou ressentisse dela.


Mas e se ela não enxergasse assim?


E se a bronca, feita por puro zelo, atingisse uma ferida tão profunda quanto o trauma que ela sofreu na orphanage[1], na irmãos?


O pensamento fez suas costas gelarem.


Se aquela criança precoce — que nunca recuou diante de seu rosto assustador — sentisse medo verdadeiro da sua aparência agora, seria devastador.


Parecia que alguém tivesse cravado uma faca de gelo na nuca dele — sua visão ficou turva.

Squeeze, squeeze.


“......”


Mas, felizmente—


Squeeze, squeeze.


Sua única e amada filha não deixou espaço para brincadeiras ou distrações.


“Leo.”


Ferio chamou-a em voz baixa. Sua voz suavizou e usou seu apelido carinhosamente.


As mãozinhas que tinham ficado tateando sua coxa pararam.


“Já te falei antes — você é teimosa demais.”


Mesmo enquanto era repreendida, ela continuava a explorar seus músculos. Se aquilo não fosse dedicação, o que mais poderia ser? Uma perversidade digna de arte.


Porém, o medo que havia ali há pouco desapareceu como poeira ao vento.


Pela primeira vez, a conduta inadequada de Leonia acabou ajudando.


“Eu-não estava... apalpando...”


“Então, o que foi que eu senti?”


“Estava só tirando um pózinho!”


Leonia gaguejou, tentando inventar uma desculpa. Não era seu comportamento habitual de provocações atrevidas.


“Você tem muita coragem...”

Ferio bufou com uma risada desdenhosa.

Ele não achava que seus medos tinham desaparecido como poeira?

E agora Leonia usava a mesma palavra. Estranhamente, fazia sentido.


A atmosfera tensa se desfez.


“...Hehe.”


Um pequeno sorriso se espalhou pelo rosto de Leonia.


“Por que está sorrindo? Você acha isso engraçado?”


“Hehe, você não está mais brava, né?”


“Não.”


Ferio respondeu de imediato, e Leonia fez uma carinha emburrada.


“Mão dura.”


“Parece que ainda não levou bronca suficiente.”


Seu grande mão bateu delicadamente no nariz dela. Leonia imediatamente cobriu com as mãos.


“Não, já fui bastante repreendida!”

“Você não parece nem um pouco arrependida.”


“Como é que você sabe!”

“Pela forma como fica tateando minha coxa?”


Ferio balançou a cabeça, culpando-se por ter criado uma filha que agia assim.


“Exatamente. É tudo culpa sua.”

Leonia deu uma palmada na coxa dele, como quem tenta confortar.


“Sabe o que dizem — nunca aceite uma fera de cabelo preto. Você semeou o que plantou.”


“Isso é mesmo coisa que se diga em voz alta?”


Ferio lançou um olhar sério para ela.

Ela não era de ficar calada, né?

E onde ela tinha ouvido aquela expressão? Uma voretana negando seu próprio sangue, como aqueles velhos que falam bobagem por aí?


Talvez, se batesse na cabeça dela, ia se sentir melhor. Mas toda vez que ela olhava pra ele com aqueles olhos redondos e brilhantes, parecia que nada importava.


“...Você voltou. Já tá bom.”


Ela voltou em segurança.


Isso já era suficiente.


O perdedor nesta briga pai e filha era Ferio.


Era sempre assim, como sempre foi. E o futuro seria igual.


“Vem cá.”


Ferio se abaixou e abriu os braços. Leonia sorriu radiantenhamente e se jogou nos braços dele.


Ele a levantou bem alto, e ela rapidamente enlaçou o pescoço dele com os braços.

“Pai, eu te amo.”

Ela falou com uma voz infantil e cheia de ternura enquanto se aninhava no abraço.


“Você está se sentindo culpado, né?”

Por isso está tão grudada, Ferio comentou, tocando delicadamente seus lábios com o dedo.


“Ainda vai vir sermão.”

“Resumido, por favor.”

“E castigo também.”

“Vamos lá, o sermão já não é castigo suficiente?”

“Que nada.”

Ferio deu uma risada debochada dela.


“Estudei um pouco.”

Seu sorriso virou algo sinistro, como se planejasse algo.


“...E mais.”

Ferio olhou para a grade do segundo andar.

“Vocês duas — corte na mesada.”

Vocês têm coragem de fazer aposta de bebida por minha filha?

Os olhos do Fera Negra brilharam com uma luz gelada.


“...Tio Lupe está chorando.”

Leonia apontou para a grade, onde se ouvia o som de soluços abafados.


Este conteúdo é de propriedade intelectual da Novelight.


***


O sermão após o jantar acabou rapidinho.


Ela foi avisada para nunca mais encontrar pessoas perigosas de forma leviana. E, se fosse realmente necessário, deveria estar acompanhada de um cavaleiro de escolta.


E foi proibida de montar cavalo sem a permissão do pai.


“Se fizer de novo, vou te banir de admirar músculos, de qualquer jeito.”


“Aaaaagh!”


Leonia gritou.


Era simplesmente demais de assustar.


Mas Ferio não parou por aí.


“Vou redecorar seu quarto com papel de parede cor-de-rosa cheio de flores.”


“Nãooo! Isso é o pior!”


“Vou fazer uma pintura do conto da Anjo e do Caçador na sua parede.”


Se ela quisesse um quarto decorado com um livro que glorificasse abuso sexual, podia continuar se comportando mal, avisou Ferio.


Leonia caiu no chão, sem forças.


“Só me bate! Só me dá um soco ao invés disso!”


Ferio sorriu enquanto dava uma palmada no ombro da filha.

Seu semblante estaria mais tranquilo do que nunca — mas, de fato, parecia absolutamente malfeito.


“Isso tudo é por amor de pai.”

Ferio se orgulhava de sua bronca ter dado resultado. Afinal, castigo não é tudo.


Logo, a verdadeira punição foi aplicada.


O único material necessário era uma pequena cadeira infantil.


Ferio a colocou pessoalmente num canto da sala.

“Você tá pensando o que quero que pense, né?”


Leonia tremeu na voz.

“Não, é exatamente isso que estou pensando.”

Ferio apontou para a cadeira, que significava “Sente-se”.

Leonia se deixou cair nela, bem na frente de uma parede que ela geralmente nem notava.

Foi uma sensação verdadeiramente miserável.


“E isso também.”

Depois, uma corda foi colocada ao redor do pescoço dela, presa a um cartaz grande.

Leonia leu lentamente as palavras escritas nele.

“Não... escutei... o papai...!”

Seu rosto ficou vermelho, no meio da frase.

[Não escutei o papai.]


“Isso é humilhante! O que é isso?”

“Pois é, é o seu castigo.”

“Vocês não podem fazer os dois! Escolha um.”

Ser colocada na cadeira de reflexão e usar o colar da vergonha? Isso era puro crueldade.

“Se vai me castigar, pelo menos faz no meu quarto!”

E ainda tinha vários criados se movendo ao redor da sala.

Nos fundos da cadeira de Leonia, uma mesa de bebida foi instalada.

Leonia agarrou a nuca.

“É na pedra!”

Whisky e gelo estavam dispostos com elegância na mesa. Sem petiscos.

“Pai.”

Leonia chutou os pés da cadeira.

“Whisky combina com peixe. Experimente um peixe bem leve, empanado e frito. Mas, nesse caso, deixe de colocar gelo no copo!”

A felicidade de dar uma mordida num peixe grelhado com pouco óleo e selvagens, seguida de um gole de whisky—

Leonia engoliu em seco.

Sua expressão ficou tão empolgada, parecia que ela mesma estava bebendo o álcool.

Seus olhos semicerrados lembravam qualquer velho bêbado.

“De onde aprendeu isso?”

Ferio lançou um olhar cortante. Essa mocinha tinha um talento para falar de álcool sempre que podia—estava ficando sério.

Ela até tentou subornar cavaleiros no Norte, só para roubar um gole a mais uma ou duas vezes.

Claro, ela sempre falhava.

“...Na orphanage?”

Leonia ofereceu, de maneira fraca.

“Por que parece uma pergunta?”

“Aprendi muita coisa lá, tá?”


recognize que ela realmente aprendeu bastante na orphanage — desde maldade até força, de sujeira a crueldade.


“Tudo isso e mais um pouco...”

Ferio murmurou algo baixinho. Embora não fosse claro, ficou evidente que ele estava amaldiçoando os professores da orphanage.


Quem estivesse apodrecendo na masmorra do Norte agora estaria em risco maior ainda.


“Bom, chega de conversa fiada.”

Depois de ouvir a sua reclamação por um tempo, Ferio virou a ampulheta na mesa dele.

Até o último grão de areia passar, ela deveria sentar, de costas contra a parede, refletindo. Essa seria sua punição de hoje.

“Que vida difícil.”

Leonia meio que desanimou.

“Por que tenho que fazer isso na minha idade?”

“Porque você tem sete anos, é por isso.”

Ferio resmungou enquanto revisava alguns papéis com uma bebida na mão.

“Reflexão adequada sobre o que fez de errado hoje.”

“Tá bom, tá bom...”

Ela pensou: vou fazer. Ficar ali na esquina, como uma delinquente.

Seus lábios estavam teimosamente empinados.

Encostando as costas na cadeira, começou a contar as padronagens do papel de parede para passar o tempo.

Pelo menos por um breve tempo.


“...Leo.”

Ferio soltou uma mão do sofá ao lado.

“Eu te disse para ficar quieta, né?”

Seus dedos puxaram uma bochecha macia e a esticaram.

De alguma forma, Leonia tinha se arrastado até o sofá onde Ferio estava deitado.

A corrente de vergonha tinha sido jogada na cadeira.

“Ai ai ai.”

Leonia resmungou enquanto sua bochecha era puxada. Mas Ferio ajustou a força — não doía muito.

Era mais pra jogar charme mesmo.

“Não aguentou nem isso?”

“Foi chato!”

“A vida é assim.”

Ele a repreendeu, dizendo que se ela não conseguisse suportar isso, como ia lidar com qualquer coisa no futuro?

Mas Ferio não podia ser mais severo que aquilo.

Sempre foi gentil com a filha.

Até fechou os olhos enquanto Leonia se jogava de barriga para baixo, sobre seu estômago.

Seu peso, crescendo a cada dia, era uma mudança bem-vinda para Ferio.

“Você refletiu, pelo menos?”

Ferio olhou de relance para a ampulheta. Menos da metade do tempo tinha passado.

“...Um pouquinho?”

Leonia juntou os dedos, fazendo um gesto de pouco esforço.

“Sua filha sem-vergonha e danadinha.”

Era claro que ela não tinha refletido nada.

Ele pôs um olhar cheio de dúvida, e Leonia rapidamente desviou o olhar.

“Mas é assim que as crianças crescem. Pais também precisam passar por um tiquinho de dor — faz parte da alegria de criá-las.”

“Você não pode dizer isso.”

Ferio suspirou, sinceramente sem saber como criar essa filha tão antiga na alma.

Ele respirou fundo.

“Haha! Que engraçado!”

Leonia riu, balançando com as risadas do pai, que pairavam como uma onda de ar.

Ferio deu uma palmada nas costas dela, incomodado com o barulho.

“Pai, você já não está mais bravo?”

Ela cutucou o peito dele com o dedo enquanto perguntava.

“...Sim.”

Ferio segurou o dedinho dela e prendeu com a mão.

Ele já tinha passado desse sentimento de raiva.

Na verdade, ele só estava mais emotivo do que o habitual por estar preocupado.

“Então, por que saiu, afinal?”

Ferio finalmente perguntou sobre o passeio anterior de Leonia.

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