Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.

Capítulo 83

Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.


Antes de partir do café—


“Lembre-se do que eu disse.”


Leonia repetiu isso pela última vez.


Na mão de Lady Hieina, que segurava uma expressão nervosa enquanto ficava do outro lado dela, estava o papel que Leonia tinha entregue mais cedo.


“Essa é sua chance de ser perdoada por ter espionado mim.”


Ela deixou claro que aquilo não contava como perdão por tudo que tinha feito a Ferio.


“E, se a oportunidade surgir, peça desculpas também para Ufikla.”


“...Sim.”


“Então, se cuida.”


“-E-Espere!”


Justo quando Leonia estava para ser colocada no cavalo por Probo, Lady Hieina chamou-a com urgência.


“U-Um...”


Lady Hieina lutava para encontrar as palavras.


“Posso, talvez, te enviar uma carta...?”


“...


“Seria possível que eu te enviasse uma carta, minha senhora?”


“Para mim?”


Ela assentiu, balançando a cabeça. Seu cabelo azul-prateado fraco balançava. Até ela parecia perceber o quão estranha era a pergunta.


Lady Hieina não conseguiu olhar nos olhos de Leonia.


“Hum...”


Leonia pensou por um momento, depois respondeu prontamente.


“Se for uma carta normal, tudo bem.”


Ela não se importava desde que fosse apenas uma troca de uma ou duas cartas.


Leonia gostava de escrever cartas. A ideia de ter um amigo por correspondência era, na verdade, bem-vinda.


A expressão de Lady Hieina se iluminou.


Leonia tinha a sensação de que tinha acabado de achar um filhote abandonado.


Lady Hieina saiu primeiro e Leonia voltou para a residência com Probo.


Embora tivesse saído às pressas a cavalo, ela ainda não se sentia confiante na equitação, então eles alugaram uma carruagem para o caminho de volta.


O cavalo com o qual tinham vindo foi levado por Probo, que acompanhou a carruagem ao lado.


No caminho de volta, Probo abriu a janela da carruagem.


“Você foi incrível, jovem senhora.”


Ele finalmente soltou o que vinha segurando há um tempo.


“Se fosse comigo, eu nem conversaria com alguém assim.”


Probo ainda não aprovava Lady Hieina.


“Ela não parecia uma pessoa tão má quando conversamos com ela.”


Leonia permanecia indiferente, até mesmo desinteressada. Não havia um pingo de medo nela.


“Você é mesmo ousada.”


Probo fez tictac com a língua.


Ele há muito tempo já tinha percebido que os Voreotis não eram “normais” de jeito nenhum.


Mas ainda assim—não esperava que ela fosse tão perdoadora com alguém que a havia perseguido.

“Não te incomoda?”


O que preocupava Probo era a possibilidade de Lady Hieina fazer algo contra a família do nosso mestre.


Especialmente se ela alguma vez traísse a jovem senhora—Leonia ficaria profundamente magoada.

“Por que você está preocupado?”


Por outro lado, Leonia parecia sinceramente confusa.

“Se ela fizer de novo, provavelmente vai acabar morta.”

Falou com uma voz inocente.


“Quer dizer, fui eu quem deu a ela uma chance e me enganei, então não posso reclamar muito.”


“Muito?”


“Mas duvido que meu pai pense da mesma forma.”

O pai mais forte do mundo era obsessivo quando se tratava da filha. Ele não perdoaria nem daria segundas chances—nem mesmo em sonhos.

A Fera Negra não ofereceria nada além de retribuição implacável e arrependimento.

Probo concordou silenciosamente.

“Mas, ainda assim...”

Havia um detalhe importante que Leonia tinha ignorado.

“Dessa vez, não será você quem vai levar bronca do Duque?”

Probo já estava apreensivo.

Quanto mais perto chegavam do palácio, mais o ar parecia ficar feroz.

“...Calma aí!”

De repente, o cocheiro gritou alarmado.

“Os cavalos estavam andando bem até aqui, o que será que houve?”

Os cavalos, que estavam galopando tranquilamente, de repente desaceleraram abruptamente.

E, como se estivessem assustados, relincharam e começaram a tremer ansiosos.

“Senhor, me desculpe. Os cavalos… —”

“Tudo bem.”

Probo impediu o cocheiro de se desculpar.

Porque tinha visto o que tinha acontecido.

O Bicho Negro estava bem na porta do palácio, esperando para receber a filha.

Mais tarde, Probo descreveria o que sentiu naquele momento para seus companheiros cavaleiros assim: “O inferno estava bem na minha frente.”


***

Ferio sempre chamava Leonia de “Leo.”

Era uma prova de que os dois realmente tinham se tornado família, além de indicar que Ferio reservava seu afeto só por ela.

Na verdade, ela era a única pessoa a quem ele tinha dado um apelido.

E Leonia gostava disso.

Ela adorava que o pai mais forte e assustador do mundo usasse um apelido carinhoso só para ela.

Às vezes, até insistia para ele falar seu nome, justamente por gostar de ouvi-lo.

Quando ele chamava seu nome naquele tom profundo e suave, parecia uma canção de ninar.

“Leonia.”

Mas, desta vez, não.

“Leonia Voreoti.”

Seu voz saiu carregada de raiva, soletrando o nome completo, sílaba por sílaba.

De pé, diante do gigante Ferio, tão imponente quanto as Montanhas do Norte, Leonia se encolheu como uma-armadilha.

Ouvir seu nome completo assim, escrito na cara dele, nunca era um bom sinal.

“Pai...”

Leonia olhou para cima, tentando captar seu humor.

Seus olhos estavam mais frios do que nunca—totalmente implacáveis.

“...Hehe.”

Ela tentou rir, testar o limite.

“Me atrapalhei.”

Ela torceu os membros de forma desajeitada e falou numa voz infantil. Normalmente, isso teria acabado com uma espada apontada para ela.

Mas agora, era uma tentativa desesperada de sobreviver.

“Daaaad.”

Ela agarrou lentamente a perna de Ferio.

“Não vou fazer de novo...”


Ela choramingou, grudada nele, com os ombros tremendo em uma tentativa forçada de parecer adorable.

“...Que cena.”

“Não acha?”

Das grades do segundo andar, Lupe e Tra sussurraram, observando a cena.

Um bebê-monstro implorando por misericórdia para o próprio Bicho Negro, com toda a fofura do mundo—

Não havia espetáculo maior no Império.

“Se o Duque perdoar ela aqui, eu aposto um drinque.”

“Eu ia justamente fazer a mesma aposta.”

“Quem chegar primeiro ganha.”

Essa tradução é de propriedade intelectual da Novelight.


Justo enquanto a aposta secreta começava—

“Leonia Voreoti.”

Ferio agarrou Leonia e a puxou da sua perna.

“Ah...”

A pequena criatura piscou confusa, de repente arrancada de perto.

Ela ainda não tinha compreendido totalmente o que tinha acabado de acontecer com ela.

O mesmo aconteceu com Lupe e Tra, queAssistiam de cima.

“Não é hora de brincadeiras.”

A voz fria dele encheu o hall de entrada.

Até os empregados escondidos por perto prenderam a respiração.

“Acham mesmo que sou uma piada, né?”

Leonia rapidamente balançou a cabeça.

Ela quase falou algo sobre como ele parecia sempre fácil de provocar.

“Eu avisei que era perigoso. Que você não podia.”

“Pai...”

“E mesmo assim, saiu sem minha permissão?”

“...”

“E ainda montou num cavalo que não conhece bem?”

Ninguém esperava por isso.

Ferio sempre foi tão gentil com Leonia, a ponto de as pessoas chamá-lo de tolo por causa da filha dele.

Isso virou fato conhecido em todo o Império.

Todo mundo achava que ele a perdoaria relutantemente.

Mesmo sendo jovem, Leonia tinha as Presas da Fera.

E, embora ainda fossem cruas, ela era mais forte do que a maioria dos cavaleiros.

As pessoas não achavam que ela tinha feito algo tão perigoso.

Isso incluía Probo, que estava com ela.

Ele estava mais preocupado com Lady Hieina traindo a confiança de Leonia.

Ela nunca passou pela cabeça dele de que a garota poderia se machucar fisicamente.

Então, todos pensavam que Ferio iria repreendê-la de forma leve, como sempre.

Leonia também pensava assim.

“Quando você falou que ia ver Lady Hieina...”


Mas Ferio não fez isso.

“Você realmente acha que eu senti algo quando a vi assim?”

Ele estava furioso—profundamente furioso.

Mas não era uma raiva dirigida a uma criança desobediente.

Seus olhos negros, fixos nela, tinham uma mistura de emoções.

Choque. Confusão. Preocupação. Alívio.

Todo esse sentimento era amor—por Leonia.

Ferio entrou em pânico no instante em que descobriu que sua filha preciosa tinha ido encontrar alguém perigoso.

Não importava o quão forte ela fosse.

A raiva dele era de pai, simples assim.

“Mas você...!”

Sua voz aumentou—e então se interrompeu.

Ferio ficou totalmente dominado.

Sua filha, essa criança precoce, tratava sua preocupação como se fosse nada, brincando de maneira fofa.

Claro, ele estava fervendo de raiva.

Até que Leonia voltasse, Ferio era como uma barquinha de papel.

Arremessada num mar bravio, sem saber quando a tempestade iria cessar.

“...Hic.”

Leonia fez um soluço. Seus olhos arregalados estavam cheios de surpresa.

“Você estava preocupado?”

Ela conseguiu parar de soluçar e perguntou.

“Claro que estava.”

Ferio bufou. Não conseguia acreditar que ela tinha perguntado aquilo.

“Você é minha filha. É claro que eu me preocupo.”

“...”

“Só de pensar nisso agora, já me dá...”,

Ele parou de repente.

Se fosse continuar, iria gritar. Era a única coisa que ele prometeu nunca fazer.

Ferio não tinha esquecido os horrores que Leonia sofreu na Orfanato.

Ele tinha jurado nunca gritar ou ameaçar ela—nunca.

Mas suas emoções estavam tão intensas agora que ele quase perdeu o controle da voz.

“Haa...”

Deixando escapar um suspiro pesado, Ferio virou-se de costas.

“Fique no seu quarto até o jantar.”

Na esperança de que estivesse mais calmo, achava que poderia falar novamente depois.

Naquele estado, não confiava em si mesmo para falar com clareza.

Até ele mesmo achava estranho o quanto estava abalado.

Quando virou-se para sair—

“...Pai!”

Leonia de repente correu até ele e se lançou na sua frente, envolvendo suas pernas com força.

E gritou:

“Diz que me ama!”


Gargalhada horrível vindo da grade acima—era Lupe.

“...O quê?”

Ferio franziu a testa.

“Está brincando comigo agora?”

“Eu não!”


Leonia se apertou ainda mais, o corpo todo tenso.

Ela não tinha intenção de soltar.

Ferio fez uma careta, sentindo a pressão. Na verdade, deu até uma dorzinha.

Graças ao seu treino físico constante.

Claro que não era assim que ele queria medir seu progresso.

“Não vou dizer de novo. Solta.”

“Diga que me ama.”

“Leonia. Você está encrencada agora.”

“Exatamente! Então, diga!”

A voz dela, cheia de desafio, soou clara e alta.

“Se vou levar bronca, quero que seja com a cabeça tranquila—primeiro, me diga que me ama!”

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