
Capítulo 85
Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.
“Fui fazer uma relógio de pulso.”
Leonia respondeu como se fosse algo comum, e enquanto falava, deslizou para fora do sofá como água correndo por um riacho.
“Pedi para fazerem uma pulseira para um relógio que eu pudesse usar no pulso. Achei que seria melhor pedir discretamente para a Lady Hieina do que lidar diretamente com o Conde.”
“Faz sentido.”
Ferio concordou com a cabeça.
A ideia de usar um relógio no pulso era inteligente — e também tinha valor comercial.
Escolher não entregar algo tão precioso a pessoas como o Conde e a Condessa de Hieina tinha sido a decisão certa.
A Lady Hieina, considerada uma stalker e tudo mais, ainda era a opção mais segura. Pelo menos ela não ia espalhar fofoca, pois já tinha coisas pelas quais responder.
“Eu não gosto dessas pessoas.”
Leonia mexia nos dedos de Ferio enquanto falava.
“Chamar sua própria filha de inútil é uma coisa terrível.”
“Foi isso que disseram?”
Ferio sentou-se ereto, com os olhos arregalados de surpresa.
“Eles brincam de favoritismo o tempo todo.”
Aproveitando o momento, Leonia despejou tudo que sabia.
“...Estão completamente loucos.”
Depois de ouvir tudo, Ferio murmurou uma frase única, carregada de nojo:
O favoritismo descarado da casa de Hieina para com o filho mais novo era bem conhecido na sociedade nobre.
Como esse filho era amigo do Ufikla, até Carnis tinha contado algumas coisas.
Os condes e condessas estavam sempre elogiando o quão inteligente e gentil seu filho era.
Mas nunca mencionavam a filha deles.
Ferio tinha pensado que eles simplesmente ficavam calados por vergonha, já que ela tinha sido pega em um episódio de stalker.
Mas, pelo que Leonia contou, eles já a maltratavam muito antes disso.
“Acho que a causa de ela ser assim tem muito a ver com os pais.”
Leonia resmungou.
“Pais não deviam fazer isso, né, pai?”
“Claro que não.”
Ferio respondeu suavemente, puxando os cabelos dela para trás.
Ele passou os dedos firmemente pelas franjinhas dela, da testa até o topo da cabeça, e Leonia caiu de costas com um impacto.
Depois veio uma risada — kihihi!
O tapete macio impediu que a queda machucasse ela.
...Na cabeça de Ferio, havia espaço para alguma indulgência.
Ele ainda não perdoava o comportamento dela no passado, mas se ela pedisse desculpas sinceras agora,consideraria mostrar alguma misericórdia.
Se ela errasse novamente depois disso, tudo estaria acabado.
“Então, acha que vai dar tudo certo?”
Ele se referia ao relógio.
“Que pergunta é essa?”
Leonia sorriu.
“Esperem até ver.”
***
O relógio acabado chegou no dia anterior ao banquete.
“Jovenzinha.”
Tra bateu na porta de Leonia.
Ela estava conferindo o vestido e os acessórios que usaria no Palácio Imperial no dia seguinte, e olhou para Connie. Com sota, ela entendeu o sinal, e Connie rapidamente abriu a porta.
“É da Academia.”
Tra segurava uma pequena caixinha de veludo na mão.
“Está pronto!”
Leonia soltou um suspiro de alívio, aceitando a caixa com um sorriso radiante.
Estava por pouco, mas parecia que haviam terminado bem na hora.
Ela abriu levemente a caixa para conferir.
“Nossa! Que coisa mais linda!”
Ao ver o relógio completo, Leonia sorriu fazendo um biquinho, beijou a lateral da boca dele e pigarreou de alegria — uma prova de que ela estava absolutamente encantada.
Depois fechou rapidamente a caixa de novo.
“É esse mesmo?”
Tra perguntou. Leonia deu um sorriso satisfeito.
“Sim, parece que ficou perfeito.”
“Fico feliz.”
“Vou entregá-lo ao papai agora.”
“O mestre vai gostar.”
“Espero que sim...”
Leonia balançou o corpo alegremente. Os ajudantes a olharam com sorrisos carinhosos.
“E o mestre também pediu para te ver.”
“O papai quis?”
Leonia achou que o momento era perfeito — ela tinha um presente para entregar de qualquer jeito.
“Por favor, segure isso para mim.”
Ela entregou a caixa para Tra. Era algo muito importante para arriscar cair se ela tropeçasse enquanto caminhava.
Tra assentiu e guardou a caixa bem fundo no bolso interno.
O bebê-bestia caminhava mais leve do que nunca pelo corredor.
Mesmo sabendo que ia ao Palácio Imperial no dia seguinte, ela se sentia bem.
Finalmente, o banquete era amanhã.
Ela não gostava que o Imperador a tivesse chamado de propósito.
Mas ela já tinha um plano para humilhá-lo de volta — e tinha a permissão de Ferio.
Além disso, o relógio que preparou como presente tinha chegado.
Não havia motivo para ficar de mau humor.
“Seus passos estão bem leves hoje.”
Tra comentou com um sorriso, seguindo ela.
Ver como ela tinha ficado cada vez mais parecida com uma criança feliz aquecia o coração dele.
“É porque estou contente.”
“Até sua mensagem de bostea fica boa.”
“Então, vou até cantar uma musiquinha pra você.”
Em clima de bom humor, Leonia decidiu fazer um poema improvisado.
“Homem não é só músculo! Um peito estufado não faz o homem, não pra mim!”
Eu também gosto de aparência.
Hack! Tosse!
Tra ficou tão assustado que engoliu ar e começou a tossir sem parar.
A música era tão escancaradamente sem filtro e cheia de desejo que o chocou e o fez ter uma crise de tosse.
“S-Sen...
Ele tentou pará-la, dizendo que ela realmente não deveria cantar mais.
Mas era inútil.
Leonia, já mergulhada na própria letra, nem o ouviu.
Ao contrário, sua voz inocente soou mais alta do que antes.
“Sentando — coxas que oscilam! Quando ele fica de pé, vejo suas costas e meu nariz sangra!”
Eu adoro músculos.
Seus passos saltitantes acompanhavam perfeitamente a música.
... Mestre, pensou Tra. Boa sorte.
Este texto é propriedade intelectual da Novelight.
Tra sentiu uma onda de solidariedade por Ferio. Criar uma criança realmente não é tarefa fácil.
E, ao mesmo tempo, passou a admirar mais sua própria mãe, Kara.
Então, a música atingiu seu clímax.
Leonia parou seus passos saltitantes, enrugou toda a face para o centro, e gritou:
“Adivinha quem é o meu pai!”
Como ele conseguiu aqueles músculos?
Naquele momento, Tra viu uma visão se sobrepor atrás de Leonia — uma gorila usando calças translúcidas.
Ele não sabia por que esse animal em particular veio à mente, mas, de alguma forma, se parecia estranhamente com a jovem.
“...Tch, foi perfeito.”
Leonia, envergonhada, passou o dedo sob o nariz. Para uma apresentação improvisada, tinha uma produção surpreendentemente alta. Ela pensou que poderia anotar isso no diário mais tarde.
“Tra, como foi?”
“S-Sen...?
“Foi ruim?”
“Na verdade, foi... incrível.”
A melodia e o ritmo estavam tão caóticos que pareciam revolucionários.
Mas esse não era o problema.
Tra não teve escolha a não ser agarrar Leonia e girá-la.
Ali estava Ferio.
E dois convidados que vieram com ele.
“Droga!”
Leonia gritou.
“Você cantou tudo!”
Ferio olhou para ela com uma expressão além das palavras.
Era um olhar semelhante ao que se daria a um inimigo mortal — uma exaustão quase espiritual emanava dele.
O suspiro que soltou pesou no chão como um peso.
Os convidados cobrirem a boca com as mãos e leques, voltando a virar as cabeças rapidamente.
Mas os ombros tremendo deles mostravam que estavam segurando o riso.
“Papai, sério!”
Leonia inflou as bochechas.
“Você me assustou!”
Reclamou que ele deveria ter feito barulho ao entrar.
“Cantando assim, só deve fazer sozinho no seu quarto. É constrangedor na frente das pessoas.”
“De jeito nenhum! Tenho orgulho!”
Leonia abriu o peito como uma pomba gordinha e se vangloriou.
Ferio só pôde suspirar.
Com certeza, mais ninguém no mundo estava sofrendo tanto com a paternidade.
“Tenha um pouco de vergonha na cara, vai.”
Ele amava a filha mais que tudo — mas, hoje, parecia que amá-la poderia até causar dor física.
“Condessa Bosgruni!”
Ignorando as queixas do pai, Leonia finalmente percebeu os convidados.
“Faz tempo que não vejo vocês.”
A senhora idosa quase não conseguiu conter a risada e esclareceu a garganta.
Depois, fingindo que nada tinha acontecido, cumprimentou Leonia com formalidade cortês.
Não precisava perguntar como ela estava — ela estava mais alta, mais saudável e mais cheia do que antes.
Adeus à garota frágil que ela tinha visto no inverno anterior. Leonia agora parecia uma criança de sua idade.
A casa de Voreoti tinha claramente cuidado bem dela.
Condessa Bosgruni ficou genuinamente satisfeita. Um sorriso suave apareceu em seus lábios.
“Você é realmente corajosa.”
Enquanto Leonia e a Condessa Bosgruni compartilhavam um momento caloroso, uma voz profunda e retumbante veio de cima.
Leonia precisou erguer o pescoço até o topo para enxergar o rosto do falante.
Um senhor idoso grande, imponente como as Montanhas do Norte, inclinou-se para frente com uma reverência.
“Leo, este é o Conde Urmariti.”
Ferio o apresentou.
“Meu nome é Artique.”
O Conde Urmariti estendeu a mão, tão grande que pudesse cobrir o rosto inteiro de Leonia.
Ela colocou sua mãozinha minúscula na palma dele. Parecia uma pequena folha de bordo grudada em uma rocha.
“Oi, eu sou a Leonia.”
“Prazer em conhecê-la, jovem senhora.”
E também, por ouvir sua música agora, o Conde Urmariti riu de coração.
“Músculos são uma coisa maravilhosa.”
O velho nobre claramente tinha gostado da música dela.
O Conde Urmariti também tinha músculos tão firmes que pareciam rasgar suas roupas.
Leonia sorriu radiante. Quem appreciava a genialidade de sua música certamente era uma pessoa boa.
Especialmente se tivesse músculos.
Nessa lógica, o Conde Urmariti era uma pessoa muito boa.
“Então, por que vocês dois estão aqui na propriedade?”
Leonia finalmente perguntou por que os convidados tinham vindo.
Ela não esperava encontrar dois dos nobres mais enraizados da capital.
“Também vamos ao banquete imperial amanhã. Vim para prestar minhas respeitos com antecedência,” disse a Condessa Bosgruni.
“Aparentemente, todos os nobres principais do Norte foram convidados para esse evento.”
Ferio não achou isso bom.
Ele não gostava que o Imperador agisse como se pudesse convocar a nobreza do Norte à vontade.
“Então, o Visconde Kerata também? O Flo veio?”
Os olhos de Leonia brilham com o brilho do brilho do Novelight. Fazia um tempo que ela não via o Flomus, e sentia saudades dele.
“Sim.”
“Então, por que o Visconde não veio também?”
“Porque eu não o convidei.”
Ferio só convidou a Condessa Bosgruni e o Conde Urmariti para a mansão.
Disse que tinha assuntos a discutir, e deixou por isso mesmo — e Leonia, percebendo a nuance, deixou o assunto de lado.
“Então, vou me despedir.”
A Condessa Bosgruni saiu primeiro da mansão.
“Você recebeu o relógio, não recebeu?”
Ferio perguntou. Os olhos de Leonia se arregalaram.
“Como você soube?”
“Não há nada que eu não saiba.”
“Você não sabe quantos pelos no meu nariz eu tenho.”
“Você nunca para, hein?”
Ferio teve que puxar as orelhas dela antes que ela finalmente se calasse.
“Jovenzinha, você é realmente adorável!”
O Conde Urmariti riu alto, como um herói de lenda.
***
A cerimônia de entrega do relógio foi realizada no escritório de Ferio.
“Mas por que o Conde está aqui?”
Leonia inclinou a cabeça, confusa.
Ela entendia a presença de Lupe e Tra, mas não compreendia por que o Conde Urmariti estava nesse momento.
“Porque o Conde vai vender os relógios.”
Ferio completou,
“Se eu usar esse relógio no banquete amanhã, o que acha que vai acontecer?”
“Ahh!”
Essa frase safada foi suficiente — Leonia imediatamente entendeu o que ele quis dizer.