
Capítulo 90
Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.
“Ainda faz frio à noite.”
Ferio pessoalmente ajustou o delicado manto de seda ao redor dos ombros dela, deixando-o cair até o peito.
Era um capa de seda feita para combinar com o vestido.
Ao contrário de sua superfície lisa do lado de fora, o forro era feito de algodão macio, quente e gentil até mesmo contra a pele nua.
Com mãos habilidosas, Ferio amarrou as fitas—terminadas com pompons fofinhos—em uma fita bastante arrumada.
“Você ser bonitinha não é novidade.”
Um sorriso satisfeito se espalhou pelos lábios dele.
O tom do elogio soava tão natural e absoluto quanto afirmar que o sol nasce no leste e se põe no oeste.
“Falar isso em voz alta é desperdício de ar.”
Seus dedos alongados suavemente alisaram os fios soltos de seus cabelos de bebê.
“Você está perfeita assim.”
Aquele sorriso suave e o elogio sincero purificaram a alma podre de Leonia.
“......”
Leonia quietamente cobriu o rosto com as mãos. Então, ela confessou.
“Eu sou um lixo.”
A autodepreciação repentina assustou tanto Ferio quanto Lupe.
“Sou uma criança ingrata.”
Pensar que ela contou uma piada tão brega para um pai que a estimava e cuidava tanto assim.
Leonia chegou a uma verdadeira constatação de que era uma pessoa completamente amaldiçoada.
Foi um pouco tarde demais para perceber isso.
“E provavelmente nunca vou mudar...”
A criança-mãe sabia muito bem o quão degenerada ela se tornara.
O que só a fazia se sentir ainda mais mal.
Leonia partiu para o Palácio Imperial na hora usual de dormir.
Se não fosse pela lua brilhante e pelas estrelas dispersas no céu, ela não conseguiria enxergar nem um passo à frente.
Mas a escuridão não era algo estranho. Leonia só se preocupava se a carruagem viajaria suavemente.
Felizmente, a carruagem estava equipada com um dispositivo mágico que permitia visão na calada da noite.
Quando o cocheiro acionou o dispositivo montado acima da carruagem, um clique suave soou, e uma luz branca iluminou a estrada escura à frente.
Dentro da carruagem, uma pequena lâmpada emitia um brilho suave.
“Estão me chamando a essa hora?”
Leonia fez biquinho, com os lábios empinados.
A parte dela que tinha se arrependido mais cedo na propriedade—que se chamava de lixo—não estava mais presente.
Agora, o bebê-máquina completamente mimado carregava-se com a confiança de quem não olhava para trás mesmo.
“Se ficar com sono, avise.”
Sentando ao lado dela, Ferio tocou levemente uma de suas bochechas cheias.
Um leve som de assopro escapou enquanto o ar escapava de seus lábios empinados.
Seus lábios voltaram à forma habitual.
“Certo.”
Leonia concordou, embora, graças ao cochilo anterior, ainda não estivesse tão sonolenta.
“Mesmo assim, que convite mal-educado.”
Lupe comentou enquanto olhava para a escuridão da noite.
Até o imperador sabia que Leonia era uma criança.
E mesmo assim ela foi convidada para um banquete tão tarde? Era absurdo e ofensivo.
E tudo isso porque uma mera consorte imperial insistiu para vê-la.
Até pensar nisso de novo era ridículo.
“Tudo bem, senhor.”
Leonia tentou passar uma aparência corajosa, dizendo para ele não se preocupar demais.
“Vou fazer tanto escândalo que nunca mais vão ter coragem de me convidar de novo!”
“Por favor, mantenha-se dentro dos limites da lei.”
Lupe não tinha desejo de ver a Casa Voreoti criar um traidor em sua vida.
Ele já estava atarefado demais com os assuntos da família. A última coisa que precisava era arriscar sua vida protegendo um rebelde.
<Mas no fundo... eu provavelmente faria isso.>
No íntimo, Lupe já sabia—se fosse o caso, ajudaria ela com tudo o que tivesse.
E se Leonia se tornasse uma traidora, Ferio a seguiria sem hesitação.
Neste momento, prever as ações da duquesa fanática por sua filha ficou bem mais fácil.
“...Você está tendo pensamentos bastante arrogantes, não é?”
Ferio, percebendo uma irritação estranha no ar, olhou de canto para Lupe.
Lupe sorriu educadamente e negou, afirmando que estava apenas renovando sua lealdade à Voreoti.
“O senhor Lupe agora é um nobre de verdade! O papai deve confiar em você.”
“A confiança precisa ser conquistada primeiro.”
“Não basta tudo que já fiz até agora?”
Lupe se sentiu injustiçado. Ele tinha lidado com inúmeras responsabilidades sob Ferio.
Na verdade, Ferio não quis dizer aquilo sério agora.
Entre os possíveis sucessores ao título de nobre, não havia ninguém mais ideal que Lupe.
Sua competência e lealdade à Voreoti eram incomparáveis.
E com o influente Marquês de Pardus como família, tudo estava em seu lugar.
Mas, por ser filho do marquês, a família imperial e alguns nobres viam sua sucessão como conde Ricoss com suspeitas.
Na última visita ao palácio, ele conseguiu contornar a situação ao confrontar audaciosamente o imperador durante o caso de tráfico de monstros.
Porém, desta vez, muitos indivíduos sombrios provavelmente tentariam tumultuar por causa de sua sucessão.
<Que lugar desagradável.>
Qualquer lugar lotado de pessoas sempre tinha cheiro de hostilidade e maldade.
Reunidos em grupos, eles encontrariam toda razão para se destruírem—Lupe sempre achou essa tendência humana feia e desconfortável.
Por isso, desde sempre odiou lugares lotados.
“Papa.”
Justamente então, Leonia apontou para fora da janela.
“Não consigo enxergar nada.”
Como só tinha saído durante o dia, um passeio noturno assim parecia novo.
A atmosfera agitada do ✧ Noiveight ✧ (fonte original) do dia agora parecia mentira. Apenas escuridão e silêncio preenchiam o mundo.
Até o som das rodas da carruagem ecoava mais alto do que o normal.
Ela achou as ruas sombrias bastante atraentes.
Além da luz do dispositivo mágico que guiava o caminho, as únicas outras fontes eram postes de iluminação ocasionais.
Leonia aprendeu lá no Norte que essas coisas parecidas com lâmpadas também eram ferramentas mágicas.
Nesse mundo, magia era quase como ciência, do jeito que ela conhecia.
“A escuridão lá fora é igual ao futuro do imperador.”
Leonia falou, deixando o pensamento escapar de sua boca.
“Pequena inteligente.”
Ferio sorriu calorosamente.
“Sempre soube que você tinha talento pra literatura, mas não imaginei que fosse me emocionar assim.”
“Sério? Você ficou comovido?”
“Muito mesmo.”
Ele prometeu a ela uma sacola cheia de balas de morango de leite depois que voltassem para casa.
E não só isso—também deixaria ela visitar o campo de treinamento dos cavaleiros durante os treinos.
“Sim!”
O bebê-máquina rugiu.
Ela tinha mostrado tanto interesse por músculos que Ferio proibiu que ela visitasse o campo de treinos sem sua supervisão.
Até durante o treinamento com caninos, ele mandava os cavaleiros esvaziarem a área—então Leonia raramente tinha chance de ver aqueles músculos gloriosos.
Ou seja, aquilo era um presente enorme.
“Papai, eu te amo...!”
Seus olhos se encheram de emoção sincera.
“Posso?”
Lupe perguntou com cautela.
“Os cavaleiros podem ficar assustados.”
“Não sou eu com quem eles estão lidando, então que se dane.”
“Como pode falar assim como um espectador...”
“Você está exagerando.”
Ferio começou a ficar irritado.
“Não é como se a Leonia estivesse passando a mão neles. Ela só dá olhadas e baba um pouco. Qual o problema?”
“Esse é o problema!”
“Se for para se detalhar, eu sou mais assediado do que eles.”
Ferio respondeu com ousadia.
Ele realmente era a maior vítima das preferências estranhas da filha.
“Sabe porque ela fica grudada na minha perna?”
Ferio levou o dedo levemente à testa de Leonia.
“Porque ela te ama, óbvio.”
Uma pequena filha pendurada no seu grande papai—Lupe achava a cena encantadora.
Porém, Ferio balançou lentamente a cabeça.
“Por assédio na coxa.”
Toda vez que ela se agarrava a ele, cinco em cada dez vezes ela atacava seus quadríceps com força.
E não era só isso.
Quando ele a segurava, ela colocava o rosto no seu tórax com um sorriso bobo, e depois do banho, ela sorri como um velho pervertido e fazia joinha.
Horrorizado, Lupe virou-se para Leonia com uma expressão de incredulidade.
“Ehehe!”
Leonia piscou de maneira constrangedora, saiu a língua e apoiou o queixo com as mãos pequenas.
“Senhorita, por favor...!”
Lupe suplicou sinceramente.
Este texto é de propriedade intelectual da Novelight.
E, ainda assim, não havia um pervertido mais adorável no mundo.
“Se continuar assim, vai acabar sendo preso de verdade.”
“Sou criança, eles não vão me prender.”
“Você é bem esperto demais...”
“Aliás, tenho meus limites.”
Leonia respondeu sem vergonha.
Ela começou a listar suas regras uma a uma, dobrando os dedos enquanto falava.
“Só olho músculo. Se quero tocar, peço. E se não gostar, não toco...”
Lupe finalmente gemeu e passou a mão pela cabeça.
Observando-o, Leonia se inclinou e cochichou para Ferio:
“Por que o senhor Lupe é assim? Está constipado?”
“Ele só se preocupa com você do jeito dele.”
“Ele devia mesmo é desistir.”
A bebê-máquina não tinha intenção de mudar.
“De qualquer forma, gosto de não parecer uma viagem chata! Está divertido!”
“Tente sentir pelo menos um pouco de pena.”
Ferio deu umas tapinhas leves na testa dela, a responsável por toda confusão.
Mas, como Leonia tinha dito, a viagem não foi um instante sequer entediante.
Faziam apenas três anos que ele tinha percorrido esse mesmo caminho várias vezes, mas a carruagem sempre foi um lugar frio e sufocante—onde só se trocavam palavras essenciais.
Para Ferio, a jornada ao Palácio Imperial sempre foi um teste a suportar.
Porém, agora, ele não sentia qualquer desconforto.
“Senhor Lupe, quer cantar ‘Galáxia do Céu Azul’ comigo?”
“O que é isso?”
“Você tem que segurar minha mão assim...'
Leonia e Lupe estavam literalmente cantando juntos enquanto seguravam as mãos.
Ferio se recostou na moldura da janela e os observou calmamente.
“Não... é tão ruim assim.”
A esse comentário casual, Leonia parou de repente.
“...Então o senhor Lupe vai ser meu novo pai?”
Ela perguntou, completamente sério.
“......”
“......”
Ferio e Lupe ficaram ambos em silêncio ao mesmo tempo.
Depois, evitavam desesperadamente o olhar um do outro.
Se eles olhassem um para o outro agora, dariam ainda mais margem para a interpretarem mal, a filhinha pervertida.
“Você precisa se casar logo.”
Ferio enfim explodiu.
“É porque você é solteiro e mora sozinho que ela fica toda confusa assim.”
“Então se case! Trouxe uma madame!”
“Tô ocupado criando uma criança.”
“Tô ocupado trabalhando!”
“Rala, casalzinho brigando!
E bem no meio, a bebê-máquina sorria inocentemente.
No final, Ferio deu leves tapinhas na boca da filha algumas vezes para fazê-la calar.
Justamente então, a escuridão lá fora começou a se dissipar lentamente.
A carruagem começou a desacelerar.
“Senhorita, acho que chegamos.”
Lupe apontou para fora da janela. Nunca a visão do Palácio Imperial tinha sido tão bem-vinda.
Ao ouvir isso, Leonia abriu a janela e espiou para fora.
Ferio, só por garantia, esticou o braço atrás dela para protegê-la.
“Woooow...”
Um suspiro inocente escapou de seus lábios.
“Eles realmente investiram uma fortuna aqui.”