Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.

Capítulo 81

Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.

Por um momento, sua consciência doeu.


Dói muito.


A lady Hieina escrevia uma média de mais de dez cartas de amor por dia para Ferio.


Os empregados de Voreoti chamavam aquelas cartas de lenha. Até Leonia as jogava fora na caixa assim que chegavam.


Mas e se aquelas ➤ Novelight ➤ (Leia mais na nossa fonte) cartas fossem sua única tábua de salvação?


E se fossem a única maneira de uma garota, constantemente diminuída pelos pais como inútil, ter reunido coragem para expressar seu coração?


‘...Ah, mas ainda não.’


O rosto de Leonia ficou sério. Isso não significava que ela estivesse prestes a perdoar comportamentos obsessivos.


Errado é errado. Miserável é miserável.


Mas se tudo isso realmente derivasse de uma carência de afeto na Lady Hieina—e se a raiz de tudo estivesse nas palavras dos pais dela—então, isso não era algo que pudesse ser ignorado com facilidade.


‘Feridas feitas por palavras não cicatrizam tão facilmente.’


Foi algo que Ardea uma vez disse ao alertá-la para ter cuidado com Kerena Mereoqa, que zombando torcia suas palavras.


E ele estava certo.


Feridas feitas por palavras não se curam assim tão facilmente.


‘É um pouco arriscado, mas...’


Leonia fechou o punho pequeno, ainda hesitando.


Por fim, decidiu seguir a ideia que lhe surgiu na cabeça.


Ela sacudiu a sineta de prata na mesa.


Era uma ferramenta mágica que Connie tinha explicado antes—uma que não precisava de cordão puxador, mas ainda assim podia chamar a equipe.


“Connie!”


Logo a porta se abriu e Connie entrou na sala.


“Você está acordada, senhorita?”


“Amarre meu cabelo.”


E prepare também uma carta.


De pé diante do espelho, a expressão de Leonia era séria, cheia de determinação.


***


Antes que percebesse, o banquete estava a apenas uma semana de distância.


Desde que virou Voreoti, Leonia nunca esteve tão ocupada.


Ela precisava se preparar para o banquete, encontrar maneiras de lançar indiretas contra a família Imperial durante o evento, acompanhar os deveres que Ardea regularmente enviava, e dar uma olhada de leve na força dos cavaleiros.


Seus estudos diários, treino físico com o pai e o treino com as Presas da Fera também ocupavam seu tempo.


Ela também visitava ocasionalmente a propriedade Rinne para brincar com Ufikla e Pinu.


Ela não podia negligenciar o Norte também.


Manter contato com Flomus e as damas do clube do chá enviando cartas e objetos de moda da capital—fazendo o possível para monitorar o estado da sociedade do norte.


E uma última coisa.


Um novo item foi acrescentado à sua agenda: treinamento para herdeira.


Por causa disso, ela esqueceu completamente de Varia e Lady Hieina.


O treinamento para herdeira acabou sendo mais fácil do que ela imaginava. Ferio chamava Leonia para seu escritório e a fazia sentar ao seu lado por uma hora por dia, lendo livros.


Ferio e Lupe escolhiam pessoalmente os livros para ela.


Eles continham conhecimentos básicos que ela precisava aprender antes de começar sua verdadeira educação como herdeira.


“Isso aqui não é nem um pouco divertido.”


Leonia resmungou, sentada à mesa que Tra tinha trazido, lendo um dos livros.


Normalmente, esse seria seu horário de assistir ao treino dos cavaleiros.


“Quem estuda por diversão?”


Ferio a repreendeu sem sequer olhar para ela. Sentado de forma correta enquanto revisava e assinava documentos, parecia uma pintura de elegância.


“Estou cansada disso...”


Leonia, por outro lado, encostou a cabeça na mesa, exausta.


O ápice da rebeldia e da afronta.

O conteúdo do livro não era divertido, era entediante, cheio de coisas que ela não entendia.


Para entender o que não conhecia, precisava vasculhar outros livros—o que a deixava louca.


‘Se ao menos eu tivesse um telefone!’


Leonia desesperadamente ansiava pelas maravilhas da civilização que conhecia em outro mundo.


“Não dá pra casar e ter outro filho?”


“Estou cansada de ver o quão podre sua personalidade é.”


“Traga uma esposa oficial de casa e tenha um filho de verdade...”


Ser a herdeira era simplesmente demais para ela.


Leonia só queria viver de modo preguiçoso, gastando parte da fortuna dos pais e não fazendo nada.


“Deixa eu viver disso um tempo. Prometo que fico calada e só gasto dinheiro em paz.”


“......”


“Pai? Hm? Não?”


“Você consegue entender agora por que nem mencionei isso antes?”


Ferio olhava para sua filha única, com olhos cheios de incredulidade.


Muito gente sofreu por ser ilegítima, mas essa aí tentava de forma descarada usar isso como vantagem.


Que filha escandalosamente infame.


Incomodado, Ferio sacou sua arma secreta.


“Termine de ler todos esses livros e tire uma nota perfeita na prova que eu te der.”


“Ughh...”


“Então, você poderá ver os cavaleiros—”


“Pai, pode calar a boca um segundo?”

Estou focada agora mesmo, interrompeu Leonia de forma ríspida.


“Você está interrompendo meus estudos.”


Depois, como se sua preguiça momentânea fosse uma mentira, ela voltou a mergulhar na leitura.


A vida voltou a seus olhos negros, antes mortos.

Sentou-se com postura perfeita, a imagem de uma estudante naturalmente dedicada.


“......”


Os lábios de Ferio hesitaram por um momento.

'Ainda não terminei aquela frase.'

‘Vou deixar ela admirar os músculos ou tocá-los?’ Ferio nunca tinha dito nada disso.

Ele só quis dizer que ela poderia experimentar o treinamento de força dos cavaleiros de perto.

Como Leonia era obcecada por músculos, achava que deixar ela tentar uma vez não faria mal.

Ela até parecia querer construir os próprios músculos.

‘Músculos são realmente tão fascinantes?’

Ferio passou a mão distraidamente sobre o peito. Pegou o músculo peitoral que Leonia tinha uma vez apalpado.


Mesmo ao toque dele, o músculo sólido, marcado, era claramente definido.


Mas só isso. Mais abaixo, teria ainda mais definição de abdominal.


Mesmo assim, Ferio não sentia nada de especial. Talvez por ser seu próprio corpo, ou por simplesmente não gostar, tudo parecia normal.


Nesse momento, ele sentiu um olhar penetrante.


“Pai, você é tão malo!”


Leonia olhava para ele com profunda decepção—e ressentimento pesado.


“Você não deixou eu tocá-los quando eu quis!”


Ela reclamava, implorando por permissão.


“Só leia seu livro.”


Ferio sequer tentou escutá-la de verdade.


Já se acostumara às traquinagens de Leonia.

Ela tinha vindo a aceitar a verdade: crianças são inimigas nata. Esses pequenos provocamentos eram agora uma forma de carinho.


Enquanto Ferio calmamente suportava e alcançava mais compreensão—


“Com licença.”


Como um salvador, Tra apareceu.


“Mestre.”


Ele olhou para Leonia, depois dirigiu-se a Ferio. Estava segurando uma carta.


“...É para mim, certo?”


Leonia, percebendo rapidamente, pulou da cadeira.


“Me dá aqui.”


“Mas, senhorita...”


“Me dá!”


Leonia, raramente elevando a voz, deu a ordem. Surpreso, Tra entregou a carta.


Ela rasgou ali mesmo, sem dar tempo para Tra oferecer uma espátula de carta.

“De quem é?”


É melhor que não seja de um garoto, Ferio perguntou a Tra com desconfiança. Tra hesitou um momento.


“É de Lady Hieina.”


“...O quê?”

Os olhos da fera se torceram em algo perigoso.


Ele já estava preocupado ao saber que a garota tinha estado assistindo Leonia secretamente—e agora, pensar que o stalker tinha mudado de alvo para sua filha?


Ferio não conseguiu se controlar e começou a se levantar da cadeira.


“Tra! Prepare o carruaje!”

Leonia entrou na corrida do escritório, enfiando a carta no bolso.


“Leonia!”

O chamado de Ferio a fez congelar. Sua voz, firme de raiva, a prendeu como uma armadilha.


“Pra onde acha que vai?”

Pela primeira vez, Ferio levantou a voz com ela. E até se assustou com isso.


No momento em que viu Leonia estremecer e olhar para trás, olhos arregalados, um arrependimento tomou conta dele.

“Por mais corajosa que você seja...”

Mesmo assim, ele não podia simplesmente deixá-la ir.

A remetente era alguém que escrevia cartas de amor para ele todos os dias e até seguia seus trajetos.


Ela até tinha sido vista assistindo Leonia recentemente.


Lady Hieina claramente era uma pessoa perigosa.

“Ela estava te espionando. Por que você iria querer encontrar alguém assim?”

Leonia olhava fixamente para Ferio, enquanto ele a repreendia.

‘Fui repreendida...’

Isso era bem diferente de levar um puxão na testa ou uma mordida no nariz.

Era como alguém ter deixado um pedaço de gelo escorregando pela espinha—todo seu corpo ficou gelado.

Quase lágrimas vieram aos olhos dela.

Mas ela rapidamente apertou os lábios, para conte-los.

‘Pai está certo.’

Não dava para negar que Ferio tinha razão.

Que tipo de pai aceitaria que sua filha encontrasse alguém perigoso?

De qualquer jeito, Lady Hieina tinha um histórico de stalking contra Ferio. Nem mesmo Leonia se sentia disposta a perdoar isso.


Após um breve silêncio, Leonia abaixou a cabeça.

“...Tudo bem.”

Depois, saiu do escritório com passos pesados e sem força.

Ferio e Tra a assistiram em silêncio.

“...Ela vai ficar bem?”

Tra perguntou com cuidado.

Ambos, a garota repreendida e o mestre que fez a repreensão, pareciam preocupados.

Ferio parecia querer bater à própria cara.

“Não posso mimá-la toda hora.”

Ele deu um curto suspiro.

Nunca tinha percebido que criar uma filha poderia ser tão difícil.

Leonia era uma alma velha, dava dores de cabeça, mas nunca tinha causado uma preocupação séria.

Ele nunca a repreendeu de forma tão severa a ponto de assustá-la.

“Fui duro demais?”

Ferio sabia que não se encaixava exatamente na categoria de pessoas normais.

Ele estava preocupado que Leonia pudesse estar muito abalada com o que viu nele.

“Acho que você fez o correto.”

Tra ofereceu conforto sincero. Nunca imaginara que um dia daria conselhos sobre criação de filhos ao seu próprio mestre.

“A senhorita Leonia é sábia. Tenho certeza de que entende por que você ficou bravo. Então, não se preocupe demais.”

Do ponto de vista de Tra, a “repreensão” de Ferio nem se qualificava como isso.

E então, aconteceu.

Justo quando a tensão no escritório começava a diminuir, um relincho alto ecoou lá fora, vindo da janela.


O som de cascos grandes se dispersou rapidamente—e Meleis entrou correndo.

“Mestre! A jovem ameaçou um cavaleiro e saiu às pressas montada em um cavalo!”

Ferio levou a mão à face e suspirou.

“...Haa.”

Seu suspiro pesado como uma derrota foi suficiente para fazer o chão tremer.

‘Leonia... verdadeiramente inacreditável...!’

Tra ficou genuinamente impressionado.

Tudo tinha sido uma mentira.

A cabeça baixa, os passos arrastados ao sair do escritório.

Cada detalhe tinha sido calculado.

Por um momento, Tra teve a impressão de ouvir a risada maligna de Leonia.

Esse talento astuto e o desempenho descarado eram exatamente o que se esperaria da próxima herdeira da Casa Voreoti.

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