
Capítulo 80
Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.
—Parem de brincar, aroooound!
Leonia interrompeu, claramente irritada. Ela ressentia por seu pai por não acompanhar seu raciocínio.
Só então Ferio finalmente soltou uma risadinha leve e deu a resposta que ela esperava ansiosamente.
—Você iria tirar seu relógio.
—Mas relógios de pulso não precisam de tudo isso!
Leonia subiu de quatro até o colo de Ferio.
Sentada no joelho do pai, o filhote de criatura orgulhosamente estendeu uma caneta-tinteiro.
Ela imitava Ferio enquanto ele trabalhava.
—Então, você trabalha assim, e de repente se pergunta que horas são. Então, faz assim!
Leonia olhou sutilmente para seu pulso esquerdo. Não havia nada na sua pele macia, rechonchuda e branca.
Mas ela agia como se tivesse um relógio ali.
—Hmm, três e meia.
Ela abaixou a voz, imitando o tom de Ferio.
—É hora do lanchinho para a adorável e linda Léozinha. Pensando bem, talvez eu deva passar um pouco da minha riqueza para minha filha.
Meleis e Lupe sacudiram de brincadeira, contidos, rindo da imitação desajeitada.
—Será que eu realmente tenho essa atitude superficial?
Ferio, por sua vez, só achava sua filha ridícula. Mas, como ela era fofa, decidiu deixar passar.
—E essa pose aqui.
Leonia torceu o pulso de Ferio e suspirou admirada.
—Quando um homem bonito como papai move o pulso assim, todo mundo fica com o nariz sangrando e vira de cabeça para baixo por ele. Um relógio secreto escondido em um pulso delicadamente veinado! É mais provocativo que roupa íntima!
—Vamos deixar de lado seu gosto pervertido por um momento.
Ferio ignorou as besteiras dela desde o meio em diante.
Mas era uma ideia realmente interessante.
Ferio batucou levemente os dedos na mesa, pensativo.
Havia algo que ele vinha considerando seriamente há algum tempo.
Era uma questão que tinha adiado porque Leonia ainda era jovem.
Ela tinha acabado de ficar saudável — queria deixá-la aproveitar mais um pouco.
Mas agora, vendo ela assim, percebeu... talvez não fosse necessário adiar mais.
—Devemos começar o treinamento de herdeira mais cedo?
A idade média para nobres iniciarem a educação de herdeiro era doze anos.
Mesmo Ferio começou oficialmente aos dez, e as pessoas achavam isso extremamente cedo.
—...Huh?
Sorriso alegre no rosto de Leonia se desfez como vidro quebrado.
—Você não tinha planejado começar isso anos depois?
Lupe falou, interrompendo a conversa.
Ele já tinha conhecimento há algum tempo dos planos de Ferio de iniciar a educação de herdeira de Leonia. Eles já tinham conversado sobre isso antes.
—Dado como ela está agora, acho que não precisamos mais adiar.
Ela já possuía uma inteligência quase de adulta. Não faria mal começar a aprender mais cedo.
Não que ele estivesse planejando algo muito sério.
Mais do que isso, um começo suave, como molhar os pés antes de mergulhar na água — uma iniciação leve.
—Uuhh...
Leonia recuou constrangida, sentido que as coisas estavam tomando um rumo estranho.
‘Como passamos de um relógio para o treinamento de herdeira? Será que eu estou realmente fazendo isso?’
Só isso?
—E a minha juventude então?
Ela perguntou com voz trágica, usando #Novelight# como se fosse uma heroína dramática.
—Você ainda é um pouco jovem para falar de juventude.
Era tão absurdo que Ferio mal conseguiu rir.
Ele deu uma leve batida na cabeça da filha de sete anos, que acabara de declarar que estava perdendo a juventude. Leonia reclamou e se afastou.
—Não posso só fazer um relógio?
—Se for fazer, que seja algo grandioso.
—Não. Dá muito trabalho.
—Se odeia esforço, então pare de respirar também.
Ferio pegou novamente o esboço que estava nas mãos de Leonia.
—E se transformarmos isso em um negócio?
—Acho uma boa ideia.
—Vamos tentar monopolizar o design da pulseira...
Sem dar chance para alguém interromper, Ferio e Lupe começaram a trocar ideias rapidamente.
A conversa deles ficava cada vez mais concreta.
Decidiram, inicialmente, fabricar o produto conforme o desenho no rascunho, e se a resposta fosse boa, considerariam lançar um negócio de verdade.
—Ou quem sabe, ela já pode ser a primeira missão de treinamento de herdeira da Leo?
Ferio sorriu maliciosamente.
Em contraste com o entusiasmo dos adultos, Leonia se afundou numa desesperança.
O que começou como um gesto gentil — desejar dar um relógio ao pai — agora se desenrolava numa coisa tão terrível quanto um treinamento de herdeiro.
Incapaz de conter sua dor, Leonia jogou-se sobre a mesa, na chaise.
Ela enterrou o rosto nos braços e soltou um choramingo alto.
—Dei um passo além do que devia!
Dizem que problemas aparecem quando você age fora do seu caráter.
A garotinha de sete anos soluçou e soluçou copiosamente.
Foi tudo culpa dela mesma.
***
—Estou realmente envergonhada.
A Condessa Hieina abaixou a cabeça profundamente.
—Nossa filha cometeu uma grande falta. Nós a avisamos várias vezes para que não agisse assim e até a repreendemos duramente, mas no final, isso aconteceu. Sentimos muito.
Os dois – condessa e marido – se desculparam repetidamente, insistindo que estavam sinceramente arrependidos.
Até Leonia quase sentia pena deles.
—Não estamos aqui só para receber desculpas.
Leonia levantou a mão para interrompê-los, dizendo que já era suficiente.
Na verdade, ela queria uma desculpa também, mas não esperava que viessem tão humilhados.
‘E agora?’ Com esse pensamento, ela olhou para Lupe, que a acompanhava.
Lupe, designado como seu guarda-costas por Ferio, sorriu de leve e balançou a cabeça.
‘Se é assim, só resta suportar.’
Leonia assentiu suavemente.
—Será que eles são assim devido a quem eu sou?
Por eu ser uma Voreoti?
Mas quanto mais ela olhava, mais parecia que aquilo não era tudo.
O Conde e a Condessa estavam com expressões profundamente preocupadas.
Parece que estavam realmente lutando por causa da filha.
Essa tradução é de propriedade intelectual da Novelight.
Leonia lembrou como a jovem Lady Hieina tinha observado ela secretamente.
“...”
Ela conseguiu compreender, pelo menos um pouco, o Conde e a Condessa.
Embora já tivessem se acalmado, continuavam lançando olhares nervosos para Leonia.
‘Eu também não vim aqui com intenção puramente altruísta,’ pensou ela.
Depois de tudo, ela esperava usar o comportamento da jovem como justificativa para conseguir uma pulseira de relógio.
Mas as coisas não estavam saindo tão facilmente quanto esperava, e ela começou a se sentir meio constrangida.
O clima não estava se acalmando tão facilmente quanto queria. Com Leonia só com um sorriso rígido, o Conde e a Condessa ficavam ainda mais inseguros.
—Humm...
Assim que Leonia ia encaminhar a conversa para o tópico principal—
—Nossa filha sempre foi um pouco atrasada.
O Conde Hieina, com os ombros curvados como um homem culpado, voltou a criticar sua própria filha.
—Ela sempre foi mais lenta e mais lerda que as outras crianças.
—Ela também não tem talentos excepcionais...
As sobrancelhas de Leonia tremeram levemente.
—‘...Por que estou ficando irritada?’
Não era para ela ficar chateada.
Mas, inexplicavelmente, Leonia se sentia incomodada.
É natural que pais repreendam um filho que fez algo errado. Mas a forma como esses dois estavam agindo parecia fundamentalmente errada.
Claro, pais excessivamente protetores eram um problema — mas isso parecia o extremo oposto.
Era... cruel.
—Será que sou só eu que vejo assim?
Ela olhou para Lupe, buscando confirmação.
A expressão dele era indecifrável. O que significava—
Ele também não gostava disso.
—Isso é manipulação emocional?
—Tudo isso faz parte de um plano? Tentando provocar pena, fazendo a filha parecer triste, para justificar tudo o que aconteceu?
—Ela sempre faz as coisas mais lamentáveis, né?
O Conde suspirou pesadamente, como se estivesse se queixando.
—Lembro que... antes, ela ria de mim.
De repente, as palavras de Ufikla ecoaram na cabeça de Leonia.
Quando a jovem Ufikla tinha uma queda por Ferio, a senhora Hieina, bem mais velha, riia dela.
—Ela disse que eu era patética.
A expressão de Leonia ficou pálida.
—Não me diga que...
Com o semblante cheio de descrença, ela perguntou ao Conde e à Condessa:
—...Vocês realmente disseram isso para a filha de vocês? Que ela era ‘patética’?
Justo naquele momento, Leonia ouviu passos urgentes.
Ninguém mais percebeu, mas graças aos sentidos aguçados concedidos pela Presença dos Fangs (Dentes) da Besta, ela percebeu claramente.
E por um breve momento, viu com seus próprios olhos.
Uma fagulha de cabelo prateado banhado em sombras.
Assim como na última vez, a jovem Lady Hieina estivera escondida em sua própria casa, ouvindo tudo secretamente.
E, quando Leonia repreendeu os pais, ela desapareceu, como se estivesse fugindo.
***
—Ughh...
De volta à estância, Leonia colapsou de bruços na cama.
A exaustão a dominou como uma onda.
E ela desmaiou.
Quando abriu os olhos novamente, usava uma roupa bem mais confortável do que a de antes.
O cabelo solto, o corpo limpo e revigorado.
Provavelmente, as criadas tinham trocado e arrumado ela enquanto ela dormia.
Normalmente, ela agradeceria às criadas, mas hoje não tinha energia nem para isso.
Mesmo após uma soneca, ela ainda não se sentia inteira.
O dia ainda estava claro lá fora.
Mas o relógio na escrivaninha mostrava que o ponteiro das horas já tinha dado duas voltas completas.
—Suspiro...
Leonia lentamente se levantou, espreguiçando-se.
Depois voltou a se deitar na cama.
Acima dela, a cúpula exibía seus padrões intricados com orgulho.
Foi uma visita frustrante.
‘Na verdade... se fosse só uma visita inútil, tudo bem.’
Mas foi a pior possível.
A família Hieina era muito mais miserável do que ela imaginava.
Os pais culpavam tudo pela filha, agindo como se nada nela estivesse certo.
Era tão repugnante quanto pais que acreditam que seus filhos nunca fazem nada de errado.
‘Eles sequer percebem o que fizeram de errado.’
Não conseguia esquecer as expressões que fizeram quando ela perguntou se tinham chamado a filha de “patética”.
Pareciam nem perceber o que estava errado.
Isso dava um nojo enorme no estômago dela.
—Mas Ufikla costumava passar tempo com o irmão deles.
Se ele era amigo da Ufikla, devia ser um cara decente — provavelmente, o filho “bom” dessa família, ao contrário da filha.
O que atendia às expectativas.
E aquele que não atendia.
—Porra, droga.
Leonia se levantou bruscamente, irritada. Rasgou os cabelos soltos, deixando-os todos embaraçados.
Detestava quando adultos usavam de violência contra crianças.
Especialmente porque ela mesma tinha sofrido abuso verbal e físico por parte de adultos no orfanato durante dois anos inteiros.
Só de lembrar, tremia toda.
Mesmo agora, vivendo tranquilamente com Ferio, ela não esquecia daqueles dias. Ou talvez nunca esquecesse.
A violência injusta de adultos poderosos deixa cicatrizes para a vida toda em crianças indefesas.
Agora que viu a verdadeira face da casa do Conde, Leonia não podia mais ignorar.
São pais que abusam da própria filha.
‘Talvez o motivo de Lady Hieina agir como uma stalker seja...’
Falta de afeto. Essa ideia lhe ocorreu de repente.