Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.

Capítulo 76

Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.


Neste mundo real onde as pessoas vivem e respiram, o que a história original mostrou foi apenas um fragmento bem pequeno.


Sempre havia uma grande chance de que este mundo seguisse um curso diferente do original.


E Leonia mesma era a prova disso.


Ela era o exemplo vivo de que o avanço da história poderia ser completamente revertido.


“Estou tão envergonhada.”


Leonia enterrou o rosto entre as mãos.


Pensar em ter piedade de Varia na situação atual dela, baseado numa compreensão tão superficial... Era uma enorme falta de respeito com a outra pessoa.


“Não há com que se envergonhar.”


Ferio acariciou suavemente sua cabeça. Sua voz era mais calma e firme do que o habitual, transmitindo conforto.


Senti-se envergonhada, Leonia mexeu no copo envolto em um lenço.


O lenço que Ferio sempre carregava era um que ela mesma escolhera para ele.


“Você é diferente de mim. Você realmente pensa nas outras pessoas.”


“Mas você disse que esse tipo de coisa não é necessário.”


Leonia inclinou a cabeça.


Ela se lembrou de quando discutiam sobre contratar um tutor. Ferio tinha dito que alguém da família Voreoti, que tinha de se sobressair perante todos, não precisava se preocupar com a situação dos outros.


“Isso ainda é verdade.”


Ferio não mudou sua opinião.


“Mas, Leonia, você se preocupou com ela.”


“Não, eu apenas fui rude com ela...”


“Não se degrade tanto assim.”

Ferio fez uma pausa, refletindo silenciosamente.


Enquanto lentamente organizava seus pensamentos, ele gentilmente brincava com a pontinha dos dedos de Leonia.


Ele se lembrou de quando a conheceu na Orfanato.


Suas unhas eram irregulares, por cortar e sem cuidado, com sujeira acumulada por baixo delas.


A parte de trás das mãos dela estava seca e rachada, branquinha de tão áspera, com calos grossos, e nenhum dedo escapava de unhas encravadas.


Agora, parecia que aqueles dias nunca tinham existido — suas mãos estavam fofas, macias e saudáveis. As unhas, levemente rosadas, eram lisas e brilhantes.


“...Cuidar de alguém, sentir simpatia, não é coisa ruim.”


Até pouco tempo — até conhecê-la — Ferio não acreditava nisso.


Ele tinha visto inúmeras crianças em orfanatos e, nunca uma vez, pensou: Coitadinhos.


Sempre considerou aquilo apenas uma questão de circunstância — algo a observar, não a sentir.


Mas, após conviver com Leonia, ele passou a se preocupar com ela o tempo todo.


Por que ela tinha vivido uma vida tão difícil?


Por que nenhum adulto a ajudou?


Mesmo agora, quando ela estava tão saudável e bonita, ele não conseguia parar de se preocupar.


“Se você não se importa com alguém, nem sentiria essas coisas.”


“...“


“Então, não, você não é uma pessoa má.”


O rosto de Leonia se iluminou visivelmente.


Ferio finalmente sentiu uma onda de alívio.


Sempre que a criança ficava desanimada, ela ficava como se fosse cair de um penhasco — era preciso uma energia enorme para lidar com aquilo.


Mas, felizmente, ela parecia ter se recuperado novamente.

“Então, papai, você também se preocupa com as pessoas?”


“Primeiro de tudo — comigo.”


“Hehe…!”


Na resposta imediata, a pequena besta se remexeu de felicidade.


Debaixo da mesa, suas perninhas davam chutes animadas.


“E mais quem?”


“Bem…”

Ferio pensou por um momento.


“A família Rinne. Abipher e as crianças também.”


“E mais?”


“Os cavaleiros de Gladiago. Kara também.”


“E depois?”


“O professor Strige.”


“E o tio Lupe?”


“Pois é… deveria incluir aquele safado também?”


Ao responder de brincadeira, Leonia sorriu radiantes.


“Papai, você é muito mais gente do que eu pensei!”


Ferio não conseguiu segurar a gargalhada. Uma risada tranquila, desarmada, escapou, durando um bom tempo.


“E mais fofo!”


“Isso não é verdade de jeito nenhum.”


“É verdade!”


Declarando que nunca mentia, Leonia bateu no peito com orgulho.


“De verdade…”

Ferio sentiu algo estranho e desconhecido surgir dentro dele.


Seu coração se encheu de uma sensação suave e quente, que ele nunca tinha experimentado antes. Era como se estivesse flutuando, leve como uma pena em uma nuvem de verão.


Ser chamado de gentil e fofo…


“Seu garotinho atrevido.”


Disfarçadamente, tentando minimizar, Ferio deu um gole na bebida.


Leonia riu baixinho consigo mesma, observando as orelhas do pai — um pouco mais vermelhas que o habitual.


Era um daqueles dias de começo de verão excepcionalmente claros.


***

Depois de conversar com Ferio sobre seus pensamentos, Leonia decidiu parar de se obsessivar com Varia.


‘Se for para cruzar com ela de novo, acontecerá.’


Ela deixou de sentir pena de Varia por ela ter enfrentado tudo sozinha.


Ao invés disso, ela realmente rezou para que nada muito doloroso acontecesse com ela até que se reencontrassem.


E, se esse dia chegasse, prometeu a si mesma que seria alguém que poderia realmente ajudar.


Já que suas preocupações estavam sanadas, convidados importantes chegaram para visitar.


A família Rinne tinha acabado de chegar à capital vindo do Oeste e passou na mansão Voreoti para prestar homenagens.


“Leonia onnie!”


“Nooonaaa!”


Ufikla e Pinu, os energéticos irmãos cachorros, correram em direção a ela.


“Vocês twozinhos!”


Correndo o risco de serem derrubados, Leonia abriu os braços bem abertos.


Ela firmou os pés, fortalecendo as pernas que tinha treinado duro enquanto corria pelo campo de treinamento.


“Guh!”


Mas ela ainda não conseguiu vencer Ufikla maior e Pinu, que estava além de energético, e foi derrubada de costas.


Felizmente, Meleis, que tinha observado de trás, segurou ela, evitando que se machucasse.


Leonia piscou para o céu, deitada de costas.

“Vocês, sério…”


Abipher as repreendeu gentilmente, puxando Ufikla e Pinu, um de cada vez, para longe de Leonia.


“Desculpe, moça. Está tudo bem?”


“Estou bem.”


“Que bom saber que você está bem.”


Enquanto arrumava a roupa desarrumada de Leonia, Abipher sorriu calorosamente. Leonia retribuiu com um sorriso tímido.


“Huh, ela cresceu mesmo.”


Carnis, que tinha vindo atrás, agachou-se para medir sua altura.


“Na última vez que vimos ela na fazenda do Oeste, ela tinha mais ou menos essa altura.”


“Parece que ela também ganhou peso.”


“Ah, parem com isso, vocês dois.”


Ao ouvir os comentários, Leonia fingiu modéstia — mas seu sorriso era tão grande que parecia que suas bochechas iam levantar todo o rosto.


“Recentemente, troquei todas as roupas dela.”


Tra, que tinha vindo receber os convidados, sorriu orgulhoso ao ver a expressão tímida de Leonia.


“O mestre até providenciou pedras preciosas das minas do norte para decorar as roupas novas dela.”


“Nossa!”


Abipher riu, claramente divertida. Parecia que o temido Deus Negro do Norte ficava mais mole quando se tratava de seu filho.


“Onnie, este é o nosso cachorrinho!”


“Uau, o Woofie!”


Ufikla e Pinu puxaram Leonia, insistindo que ela fosse ver o animal que trouxeram do estate na capital.


Relutante, Leonia acabou deixando-se puxar, sendo apresentada aos bichinhos de estimação da família Rinne.


Três pequenos cães fofos estavam aglomerados dentro de uma grande cesta.


“Tão fofos!”


Essa tradução é de propriedade intelectual da Novelight.


Leonia colocou as bochechas coradas nas mãos.

“Este é Fufu, aquele é Sese, e aquele é Tete.”


Ufikla apresentou os filhotes um por um, nomeando-os na ordem de nascimento.


Cada cachorro, chamado pelo nome, usava uma coleira no pescoço.


Pinu de repente pegou Sese — que tinha uma coleira azul — no colo.


“Amei o Sese!”


Aparentemente, Sese gostava tanto de Pinu que passou a língua vermelha brilhante por toda a bochecha de Pinu.


O rabinho fofo, eriçado como o rosto de Pinu, balançava freneticamente, quase como se estivesse agitando o ar.

“Uivinho! Choramingo!”


De repente, contudo, os filhotes se encolheram de medo. Seus rabos baixaram tanto que roçaram as barrigas, eles choramingaram nervosamente, sem conseguirem ficar quietos.


“Noona, o filhote machucou?”


“Não sei? Huh? Você machucou?”


Assustados, Ufikla e Pinu apertaram os cães com preocupação.


“Ah, eles estão bem.”


Leonia, a única tranquila, acalmou-os, passando a mão sobre os ombros deles.


“Meu pai está aqui.”


Ela apontou na direção das escadas.


Ferio, que tinha acabado de terminar seu trabalho, se aproximava das crianças.


Os filhotes choramingaram mais alto.

“É por causa do papai!”


Leonia se levantou, dá uma risadinha e apontou um dedo para ele.


Ferio, sem palavras, baixou seu dedo com força o suficiente para fazer Leonia chiar.


Enquanto isso, Ferio foi cumprimentar Ufikla e Pinu, recebendo-os com entusiasmo.


“Duca! Estes são nossos filhotes!”


“Nossos uau uau!”


As crianças mostraram orgulhosamente seus cães.


Mas, assustados, os filhotes tinham se escondido no fundo da cesta, cobrindo os rostos com as patas dianteiras enquanto tremiam.


De repente, um deles fez xixi.

“O Sese fez xixi!”


Pinu gritou alto.


***


Para acalmar os filhotes, as crianças foram brincar no quarto de Leonia.


Só assim os cães pareceram se acalmar, saindo da cesta e explorando curiosamente o cômodo.


Enquanto isso, os adultos se reuniram na sala do primeiro andar para colocar a conversa em dia rapidamente.


“Por que trouxeram os cachorros?”


Ferio, ainda irritado com o ocorrido mais cedo, lançou um olhar sério para Carnis.


“As crianças queriam mostrá-los à moça.”


Carnis rapidamente se distanciou da decisão, deixando claro que não tinha sido ideia dele.


Também, Abipher comentou que tinha sugerido deixar os cães lá, mas as crianças insistiram, dizendo que queriam que ela os visse.


“Continuando assim, hein.”


“Acho que ele melhorou um pouco, não acha?”


“Pois é…”


Carnis assentiu às palavras de Abipher, dando uma risadinha.


Quando Ferio visitou a fazenda Rinne, na primeira vez, assim que os cães sentiam sua presença, eles fugiam imediatamente.


“Cães, gatos, qualquer animal pequenininho… eles fogem de você assim que te veem.”


“Acontece só às vezes.”


“Como assim ‘às vezes’?”

Era sempre assim, e Carnis mal conseguiu segurar a risada.


Por alguma razão, animais como cães e gatos tendiam a fugir quando viam Ferio — assim como as crianças que choravam ao vê-lo de cara.


Porém, desta vez, os cães não correram, o que foi uma grande melhora.

“É por causa dos Fangs.”


“Não, é o seu rosto.”

Ferio tentou explicar, mas Carnis respondeu na hora.

“Ele é bonito.”

Mais do que você, Abipher acrescentou, brincando suavemente com Carnis.

Ferio deu um pequeno encolhimento, como se tivesse acabado de ouvir a coisa mais óbvia do mundo.

Carnis, irritado, retrucou.

“Mas ele parece assustador.”

“Isso… não é…”

Abipher tentou apoiá-lo, mas hesitou.

Na verdade, até ela mesma, às vezes, achava a presença dele opressiva — sua beleza era ofuscada por uma pressão terrível.

Mesmo agora, era assim.

“Desculpe, Sua Graça.”

“Tudo bem.”

Ferio estava acostumado a ouvir isso. Não o incomodava nem um pouco.

“Ouvi dizer que há um banquete se aproximando.”

Para mudar de assunto, Abipher trouxe um tema novo.


Justamente, sobre a mesa dele, havia um envelope amarelo ainda fechado, sobre a escrivaninha de Ferio.

Era um convite da Família Imperial.


“Vamos abrir pelo menos.”

Carnis repreendeu, apontando para o envelope lacrado.

“Você já leu o seu.”

Como todos os convites tinham o mesmo conteúdo, Ferio, de forma preguiçosa, pediu a Carnis que transmitisse os detalhes.

“Não sou seu criado, sabia?”

Reclamando, Carnis resmungou, mas mesmo assim informou a data e o horário do banquete.

E, ao mesmo tempo, ele mesmo rasgou o convite de Ferio, de forma audaciosa.

“Próximo mês, às oito da noite. Um pouco tarde.”

“Será por volta do pôr-do-sol. Banquetes de verão sempre acontecem tarde.”

“Não será ao ar livre. Nobreza odeia insetos.”

“Você também é nobre.”

Abipher brincou, rindo do tom dele.

“Não vou.”

Ferio deu um gole no chá já quase frio.

Seu jeito e postura ao beber eram perfeitamente refinados.


“Lá vem você novamente.”

Carnis tentou convencê-lo.

Este seria o primeiro banquete após a morte do imperador passado. Mesmo que ele não gostasse do novo imperador, comparecer facilitaria as coisas politicamente.

“Você tem a Leonia.”

“E o quê? Nós não temos filhos?”

Ferio tentou usar a criança como desculpa, mas Carnis logo cortou o papo.

“Temos uma governanta na nossa propriedade. Quando chegar a hora, a jovem poderia —”

Abipher entrou na conversa, pronta para fechar qualquer rota de fuga.

“…Você está louco?”

Carnis rosnou, com a voz carregada de raiva.

Assustada, Abipher perguntou o que tinha acontecido. Carnis silenciosamente entregou o convite para ela ler.

Quando Abipher leu, seus olhos se arregalaram de choque.

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