Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.

Capítulo 75

Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.


‘Como era de se esperar... a protagonista feminina...!’


Já fazia vários dias desde que voltaram da turnê pela Academia.


Porém, Leonia ainda não conseguia ignorar os vestígios que Varia havia deixado para trás.


Enquanto se contorcia na cama, de repente, sentou-se ereta de vez.


A cabeça dela ainda estava uma confusão só.


‘Não esperava passar por ela assim, tão de repente.’


Leonia sempre teve certeza de que Ferio acabaria encontrando Varia algum dia.


Já que, na história original, eles eram canonicamente um casal.


Das descrições do romance, que diziam que eles se cruzavam, trocavam olhares e acabavam se exercitando na cama — isso não seria à toa.


Mas—


‘Não imaginei que ela tivesse regredido.’


Em determinado momento, Leonia havia tido uma leve dúvida: será que a Varia dessa linha do tempo tinha regredido ou não?


Porém, ela não insistiu na dúvida — apenas tentou ignorá-la rapidamente.


Talvez por isso essa questão estivesse a afetando tão profundamente agora.


‘Não, mesmo assim...’


Sinceramente, ela realmente não tinha esperado por isso. De verdade.

Com os cabelos eriçados, Leonia começou a caminhar inquieta ao redor do quarto.


As coisas tinham saído bem além do que ela previa.


Eventualmente, ela se sentou na escrivaninha, pegou uma folha de papel em branco e uma pena de pena preta.


Depois, começou a anotar tudo o que conseguia lembrar da história original.


‘Mal me lembro de quase nada mais.’


Quanto mais ela escrevia, mais insegura ficava. Essa parte está certa? Aconteceu mesmo assim?


O que ela realmente precisava eram as páginas que havia escondido no quarto da propriedade ao norte — anotações que ela tinha feito sobre o enredo original.


Depois de fazer um rascunho do esboço, ela revisou o que tinha escrito.


‘...Que mulher idiota.’


A primeira vida de Varia havia sido verdadeiramente trágica e cheia de infortúnios.


Leonia pigarreou, lembrando-se disso com tristeza.


Mesmo ao ler o livro, ela tinha se sentido mal. Mas reler como alguém que faz parte da história tornava tudo muito pior — até mesmo patético.


Sentimentos de pena e empatia surgiram forte.


Leonia se recomposiu e se concentrou novamente.


Depois de se tornar administradora do palácio, Varia acabou descobrindo um documento confidencial na biblioteca imperial.


Ele revelava o plano do imperador de conquistar e consolidar totalmente as quatro regiões principais.


Teoricamente, não era incomum que um monarca tentasse centralizar o poder regional.


O verdadeiro problema era o método do imperador Subiteo.


Ele planejava aniquilar as casas nobres que governavam cada região e substituí-las por seus próprios aliados.


Até a família Erbanu, de Varia, tinha concordado com esse esquema.


Quando Varia implorou aos pais que se opusessem, eles a repreenderam duramente, disseram para ela parar de falar besteira — e até a Bateram com força.


Então, Varia saiu de casa na calada da noite, com a intenção de procurar o maior de todos os senhores regionais — a Casa Voreoti.


“Haa...”


Leonia suspirou fundo.


Aquela fuga foi a última notícia que tiveram dela.


Ela foi oficialmente considerada fugitiva.

A família não fez esforço algum para procurá-la. Aos poucos, o mundo esqueceu que ela existia.


Porém, na realidade, ela foi assassinada — pela irmã mais nova e pelo noivo dela.

E os pais, cientes disso tudo, fizeram de conta que não haviam visto nada.


‘E então ela regrediu.’


Um ano antes de entrar na Academia.


“...Ela deve estar cheia de raiva.”


Leonia compreendia. Ela também tinha resistido à corrupção e aos abusos do orfanato.


Sobreviveu com a força e a fúria de alguém desesperado por escapar e se vingar do mundo.


Sentindo-se um pouco pesada demais, saiu para o jardim.


O sol já estava alto — era o meio-dia de um calor escaldante. Um calor de verão grosso e pegajoso.


“Posso te trazer alguma coisa para beber?”


Connie, que a acompanhou até o quiosque sombreado ao lado da fonte, perguntou educadamente. Leonia hesitou, sorriu e assentiu com a cabeça.


Mas no instante em que Connie virou-se para buscar as bebidas, o sorriso de Leonia desapareceu.

‘Ela provavelmente ainda está aguentando tudo sozinha, né?’


Varia parecia estar sempre em sua mente.


Na história original, Varia morava sozinha na residência administrativa antes de conhecer Ferio.


Ela não conseguia esquecer a traição de sua primeira vida.

E nem tentava. Ainda assim, não conseguia deixar de pensar nisso.


‘Eu... entendo.’


Leonia continuava se lembrando de seus dias no orfanato.

Só de imaginar alguém que ela conhecia vivendo daquele jeito, sentia-se horrível.


“Ugh...”


Indignada consigo mesma, Leonia se jogou de bruços na mesa.


Ela não queria se sentir próxima de algo tão sombrio e pegajoso.


Então, uma sombra grande caiu sobre ela.


“...Papai?”


Sem sequer olhar, Leonia falou com a figura que se sentou ao seu lado com peso.


Já era natural reconhecer a presença de Ferio naquele momento.

Uma mão fria repousava na testa dela.

“Leonia, você está com febre?”


“Não estou doente...”


“Então, o que aconteceu?”


“...”

A cada vez que aquela voz preocupada soava perto do seu ouvido, Leonia se aproximava mais.


“Só...”

Antes que percebesse, ela já estava encostada bem pertinho de Ferio.

Ela realmente não queria olhar para ele agora.


Seu humor estava tão desanimado que mostrar o rosto parecia desagradável.


Felizmente, Ferio não tentou forçá-la a olhar para ele.


“A mão do pai é fria.”


“Você só está com febre.”


Fios longos começaram a torcer preguiçosamente a franja sobre sua testa.


“O que te deixou tão pensativa?”


“...”


“É assim que você acaba esquentando o cérebro, né?”


“Está querendo brigar de novo...”

Leonia remexeu a bunda em protesto, cutucando Ferio.


“Às vezes, as meninas só precisam refletir assim mesmo.”


“Só diga que está com sono.”


Esta tradução é de propriedade intelectual da Novelight.


“Falou sério.”


Ela fez bico, depois lançou um olhar disfarçado para ele.


Ferio vestia uma camisa rosa-pálido de manga curta, com o colarinho aberto o suficiente para mostrar sua clavícula.


Até a Fera Negra ainda tinha a aparência humana — claramente, ele não lidava bem com o calor.


E, sendo um nortista acostumado a invernos longos, o verão atacava ele com mais força que a maior parte.


“Ei.”


Leonia ajustou sua postura e começou a mexer no antebraço dele.


Suas pontas dos dedos estavam frias, mas o braço dele aquecido — muito mais quente que seu corpo.

‘Ele tem extremidades frias?’


Seus dedos, ainda brincando com o braço dele, começaram a pressionar mais firmemente, como numa massagem.


“Vamos imaginar...


Ela falou suavemente.

“Quer dizer, bem hipoteticamente, ok?”


“Hipoteticamente?”


“Sim. Bem hipoteticamente mesmo.”


Ela enfatizou várias vezes essa expressão.

Ferio, já cansado da insistência, deu uma leve tapinha na testa dela. Leonia ficou balançando e encarou-o com raiva.


Na mesma hora, Connie voltou com as bebidas.


Provavelmente ela tinha encontrado Ferio pelo caminho, porque apareceram dois copos.


Ferio escolheu o menor e enrolou seu lenço ao redor dele.


“Aqui.”


Ele colocou o copo na mão de Leonia, assim a condensação não molharia suas mãos.


“...E se alguém...”


Leonia bebeu o gole frio e doce e finalmente conseguiu falar.


“...estivesse escondendo um segredo gigante e suportando tudo sozinha...”


Ao dizer isso, ela deu uma espiada de relance para o pai, do canto do olho. Sua expressão permanecia igual.


Mas, ela sabia que ele ouvia tudo.


“...E se essa pessoa estivesse tão sofrendo ao manter tudo escondido — o que ela deveria fazer?”


Agora, sabendo que Varia havia regredido, Leonia se sentia tão mal, profundamente arrependida por ela.


Ela até quis ir buscá-la imediatamente e forçar ajuda a ela.


De modo estranho, ela continuava vendo-se no passado de Varia.


Sua própria dor na infância no orfanato. A traição e negligência da família de Varia.


Não eram exatamente iguais — mas algo ressoava nela.


E agora, Varia estava ali, na capital. Se quisesse, poderia encontrá-la.


Ela queria fazer alguma coisa.


‘Não tinha dito que não me importava com a história original?’


Ela mesma ficou confusa com seus próprios pensamentos.


“Leonia.”


Então, aconteceu.


Um baque. Algo frio pressionou sua testa.


Ela olhou para cima. Era o copo, limpo de umidade, cuidadosamente apoiado contra sua pele.


Por trás do líquido leitoso, a mão grande de Ferio era visível.


“A pessoa disse que se sentia tão triste?”


Ferio perguntou.


“Disseram que estavam lutando sozinhos? Que pareciam estar morrendo de dor?”


“...Huh?”

Leonia hesitou na pergunta inesperada.


Ferio olhou para ela com olhar calmo.

Seu olhar era afiado, como se pudesse ver através de tudo, e Leonia hesitou. Depois de alguns segundos, finalmente respondeu:


“Não, ela não disse isso.”


Varia tinha voltado ao passado após morrer na sua primeira vida — carregando dor e traição.

‘Mas ela nunca desistiu.’

Ela trabalhou duro.

Desistiu completamente de tentar conquistar a aprovação da família.

Pelo contrário, viveu por si mesma e direcionou seus esforços para vingar-se daqueles que a mataram.

Fez amigos confiáveis. Encontrou colegas que respeitavam suas habilidades — ◆ Nolevight ◆ (Somente na Nolevight).


“Então, o que fez você sentir pena dela?”


Ferio perguntou novamente.


Seu tom não era de condenação — mas Leonia não conseguiu responder.


Seu tom gentil e o olhar relaxado pareciam, pela primeira vez, perigosamente afiados.


Porém, Ferio não a criticava nem a pressionava.


Não tinha intenção de repreender a filha.


Tudo o que ele fez foi responder sinceramente ao “e se” que ela havia perguntado — e incentivá-la a pensar um pouco mais fundo.


“Será que é só porque ela tinha aquela aparência na superfície?”


Seria esse motivo suficiente para sentir pena de alguém?


Fazer empatia só por ela parecer tão triste — estaria certo?


Era uma pergunta pesada para uma criança prestes a fazer oito anos.


Mas Ferio conhecia bem sua filha.


Ele acreditava que ela entenderia.


E, mais uma vez, Ferio estava certo.


“Uuugh!”


O rosto de Leonia ficou vermelho. Então, como se uma ideia a atingisse de repente, ela gritou.


‘Estava pensando tudo errado!’


Ferio a fez perceber um grande equívoco — algo que ela nem sequer sabia que tinha.


‘Eu não sei de tudo.’


Sim, ela conhecia a “história original”. Sabia o que deveria acontecer anos depois.


Mas isso era só uma pequena parte desse mundo imenso.


Seu rosto queimava de vergonha. Só de conhecer a trama, ela já se tornara arrogante, irresponsável e egoísta.


A história original, na melhor hipótese, era apenas um vislumbre passageiro.

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