
Capítulo 66
Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.
Lupe encolheu os ombros.
"Sempre fui bom em fazer o papel do odiado, não foi? Desde garoto."
"Agora é diferente."
Passos ecoaram de além da porta.
"...Aquele sobrenome que te deram—‘Ricoss’."
Ferio, raramente falando com tanta sinceridade, deu um aviso solene.
"Não será algo que o Imperador possa ignorar."
Lupe gravou aquelas palavras bem Fundo no peito.
"Mesmo assim, contudo..."
Antes de as portas se abrirem, Lupe sussurrou rapidamente:
"Há algo satisfatório em ver a expressão dele quando fica ofendido."
"Isso é verdade."
"Tome cuidado também, Sua Graça. Não importa o quão desesperado ele seja..."
"...Vai me dizer para manter a cortesia mínima?"
Ferio respirou brevemente e ajustou sua expressão.
"Acho que sim."
O sorriso astuto que brincara em seus lábios desapareceu, substituído por uma máscara neutra, impassível.
Talvez por Lupe estar acostumado com o Ferio que sorria com mais frequência ao redor de Leonia, ao ver essa face novamente, ele sentiu um medo quase frio.
Isso—isso era o verdadeiro Ferio.
O animal arrogante que zombava de tudo.
"Sua Majestade, o Imperador, ordena sua entrada."
O servo ergueu o queixo rigidamente ao entregar a convocação imperial.
Mas no momento em que seus olhos encontraram os de Ferio, ele rapidamente abaixou a cabeça.
Sua voz tremeu sob a pressão sufocante que emanava da presença de Ferio.
Nem Ferio nem Lupe deram atenção ao servo enquanto passavam por ele.
"Duque Voreoti."
O homem, sentado sozinho no sofá, os cumprimentou.
Olhos dourados, traço herdado da linhagem imperial, estavam fixos em Ferio.
Seu cabelo castanho claro bem cuidado, olhos dourados, e porte robusto—
Alguns poderiam chamá-lo de símbolo radiante do Império glorioso, movidos por admiração e reverência.
Mas para a Fera Negra do Norte, nada disso impressionava.
Na verdade, a energia dourada que brilhava quando Leonia ativava suas Presas da Fera era bem mais deslumbrante.
"Sua Majestade."
Ferio engoliu sua escárnio e cumprimentou com respeito.
"Voreoti, do Norte, cumprimenta o Mestre do Império."
Vamos ver como será divertido brincar com você.
Dessa forma, quando voltasse para casa, teria uma boa história para contar a Leonia.
***
O conflito entre a Família Imperial e o Norte é profundo.
Desde a fundação do Império, essa animosidade é tão antiga que as pessoas a tratam como algo do conhecimento geral.
Mas, raramente—
Quase como um broto em meio à seca—existiram momentos em que a tensão entre as duas facções se aliviava.
O exemplo mais recente foi o falecido Imperador e o ex-Duque Voreoti, que havia falecido pouco antes.
Eles eram uma exceção rara—lo suficiente para serem considerados amigos, construindo uma forte conexão apesar de seu orgulho e arrogância semelhantes.
Por causa disso, seus filhos frequentemente se viam desde jovens, e os adultos esperavam que se entendessem.
Mas, infelizmente, essa esperança nunca se concretizou.
"Que idiota..."
Ferio Voreoti, um desses filhos, murmurou enquanto apontava para os documentos que Lupe trouxera.
"Deixe-me explicar rapidamente o quão tolos eram."
Depois, descreveu a tentativa de transação ilegal envolvendo monstros ocorrida no Norte.
Enquanto os papéis acumulavam e Ferio listava os nomes dos envolvidos—um a um—
a expressão do Imperador Subiteo ficou visivelmente pálida.
No entanto, ele lutou para manter uma expressão calma.
"Pois é, pois é."
Ferio admirou isso internamente.
O homem que costumava tremer de inferioridade toda vez que se encontravam... parecia ter finalmente aprendido a suprimir suas emoções.
Lupe também parecia impressionado, fazendo um gesto de assobio silencioso.
Ainda era desajeitado—mas era um avanço.
"...Ah, peço desculpas."
Ferio falou de repente, com tom tranquilo.
"Falei demais na frente de Sua Majestade. Minhas palavras foram fortes. Vai me perdoar?"
E apesar disso, sua voz não demonstrava a menor agitação—calma e fria como gelo.
Era uma cortesia mínima ao Imperador, que pelo menos tinha aprendido a controlar suas emoções.
Embora, na verdade, fosse mais uma zombaria.
"...Cuidado com as palavras."
Subiteo conseguiu um sorriso quase aceitável, mas por dentro, ainda não estava em paz.
Ferio assentiu educadamente.
"Então, continuarei."
Os papéis à sua frente continham nomes e evidências de todos os envolvidos no incidente atual.
Incluindo a família Tabanus, que liderou a operação, além de três casas do Norte e várias famílias nobres do Oeste—entre elas, Barão Hirqus.
Eles até haviam conseguido a lista de convidados que planejaram participar do leilão, caso o comércio ilegal tivesse continuado.
Havia menos de dois meses, Ferio havia realizado uma operação no local.
Conseguir tanta informação em tão pouco tempo foi fruto de uma investigação meticulosa, iniciada durante a caçada aos monstros no inverno passado.
"Você fez um trabalho minucioso."
O Imperador Subiteo finalmente abriu a boca, com os lábios tremendo.
"Sua aprovação é generosa."
Ferio respondeu com uma humildade praticada.
"Capturar aqueles que ameaçam a base do Império—não é nada difícil."
Com o relatório concluído, Ferio recostou-se preguiçosamente no encosto do sofá.
Como se essa sala de recepção imperial fosse seu domínio.
"Apenas estou feliz por ter ajudado Sua Majestade."
"......"
"Então, não há necessidade de me agradecer."
Se alguém devia agradecer, seria Ferio. Graças a isso, ele finalmente conseguiu um golpe.
Na verdade, não esperava que o Imperador se envolvesse diretamente nesse incidente.
Era possível, sim, mas o Subiteo que ele conhecia era do tipo que evitava envolvimento direto a todo custo.
Esperava que ele apenas aproveitasse a situação, apoiando-se na Consorte Usia ou na Casa Olor, colhendo os benefícios.
Mas, ao contrário, ele se mostrou surpreendentemente prático—ou talvez simplesmente ingênuo.
De qualquer forma, Ferio achou que isso aliviasse, um pouco, a irritação acumulada nos últimos três anos de residência forçada na capital.
"Tudo graças a Sua Majestade."
"Agradeço pelo seu esforço."
O Imperador elogiou-o casualmente, cruzando as pernas.
Ferio inclinou a cabeça suavemente, com os olhos semicerrados.
Era um gesto quase de zombaria—uma provocação sutil a um Imperador que fingia não sangrar por dentro.
Os dedos do Imperador tremeram inquietos em seu joelho.
Exatamente como Ferio havia esperado, as entranhas do Imperador estavam em pedaços.
Os documentos à sua frente lhe tiravam o ar dos pulmões.
A maioria dos acusados eram nobres aliados dele—e alguns, como a família Tabanus, eram seus apoiadores mais fiéis e entusiasmados na operação.
O Imperador fechou os olhos com força.
Perder a família Tabanus foi um golpe enorme.
A família Tabanus tinha laços estreitos com a coroa imperial há muito tempo.
Se distanciaram durante o reinado do Imperador falecido, mas Subiteo recebeu grande ajuda deles na ascensão ao trono.
"O que foi pego no local foi o herdeiro do Conde Tabanus, mas o próprio Conde também pareceu estar profundamente envolvido."
O Imperador rangeu a língua, irritado.
"Um idiota inútil."
Ao contrário do pai, o jovem herdeiro tinha ambição e inteligência, e Subiteo confiava nele o suficiente para ligá-lo à família da Imperatriz.
Mesmo assim, era assim que ele retribuía.
Que decepção.
O verdadeiro arrependimento não era pela perda de lealdade—mas pela perda de utilidade política.
"E, além disso, contrataram vagabundos..."
Os "vagabundos" que Ferio mencionou eram nada menos que os Cavaleiros Imperiais.
Foram entregues a pedido da Consorte Usia, dizendo que a operação precisava de apoio.
Mas, num instante, esses homens foram reduzidos a simples vagabundos sem nome—e destruídos pelos Cavaleiros de Gladiago.
O Imperador ficou desorientado, incapaz de recuperar a compostura diante da investida.
Ferio lançou um olhar de lado para ele e passou ao assunto da punição.
A maior parte das decisões cabia a Ferio.
Por agora, a cabeça do Imperador Subiteo estava em estado de desmantelamento.
"...Acredito que uma punição nesse nível seja adequada."
Ferio falou quase sozinho.
"O que o Senhor mestre acha?"
"O herdeiro do Tabanus..."
O Imperador mal conseguiu falar, a voz vazia.
"O herdeiro do Tabanus... onde ele está agora?"
"Está morto," respondeu Ferio.
Este é um conteúdo de propriedade intelectual da Novelight.
"Fui eu," disse Ferio calmamente.
O rosto do Imperador Subiteo ficou vermelho de fúria.
"Como pôde agir sem um julgamento adequado...!”
"Não fui eu."
Ferio franziu a testa levemente, como se estivesse incomodado com uma confusão prematura.
"Presumi o prender dele e dos demais no calabouço para averiguar as acusações. Infelizmente, ele foi morto durante um ataque de monstros."
"Ataque de monstro...?"
"Havia um escondido na sombra do herdeiro do Tabanus."
Ferio nomeou o monstro que os matou.
"Era um Inopaco."
Parecia inofensivo—como um lobo ou um cachorro.
Mas, como o nome sugere, era uma criatura selvagem que se escondia na sombra de sua presa e atacava de surpresa.
"Sempre ficamos em alerta contra ele durante as caçadas de inverno."
Era um monstro encontrado nas profundezas das montanhas do Norte. Ferio comentou simplesmente sobre o motivo dele estar lá.
"Provavelmente, enquanto transportavam os filhotes de monstros, um Inopaco se esgueirou na sombra do herdeiro."
A explicação mais detalhada deixou os lábios do Imperador ainda mais secos.
Pois exatamente aquele monstro... era um que ele já tinha demonstrado interesse em manter.
"Em termos de nível de perigo, está entre os cinco mais perigosos."
Quando Ferio terminou de explicar, uma ideia lhe ocorreu:
Talvez teria sido melhor deixar o monstro também devorar o Imperador.
***
Nessa noite—
No jantar, Ferio compartilhou com Leonia o que aconteceu no Palácio Imperial.
"Então, tio Lupe não foi punido?"
Leonia perguntou enquanto engolia o pedaço de comida.
Afinal, Lupe tinha se juntado a eles para jantar naquela noite.
"Isso... é uma coisa boa?"
"Bem, sim, acho que sim."
Lupe respondeu enquanto cortava lentamente sua carne com uma faca.
"Já fui rotulado de ‘traidor’ da Casa Pardus, e agora estou herdando uma importante casa nobre do Norte. Isso certamente vai desapontar eles."
"Pai, tudo bem?"
Leonia se virou para Ferio.
"Não há razão para não ser."
Ferio tomou um gole de seu copo de vinho e respondeu.
O vinho rubro, encorpado, deslizou suavemente pelo copo redondo antes de passar pelos lábios.
"A Viscondessa Ricoss morreu há várias décadas, mas registros mostram que houve um casamento direto entre essa família e o Marquês de Pardus."
"Na verdade, meu avô," acrescentou Lupe, indicando-se com um garfo cravado numa carne, sorrindo brilhantemente.
"A linhagem Ricoss serviu a Casa Voreoti ao longo da história. Esse título me cai melhor do que qualquer outro."
"Você pode simplesmente... doar títulos assim?"
"As casas consideradas ‘centrais’ estão sob a jurisdição de Voreoti."
Ferio explicou.
Na fundação do Império, um dos acordos feitos entre o primeiro Imperador e o chefe do Norte foi a autonomia absoluta do Norte.
Um desses acordos concedeu à Casa Voreoti a autoridade de conceder títulos nobres a famílias específicas—agora chamadas de ‘casas nobres centrais’.
Como a concessão de títulos era uma exclusividade do Imperador de outro modo, era um privilégio altamente excepcional.
Ao ouvir isso, Leonia se lembrou das três casas nobres do Norte que foram punidas no incidente recente.
Suas propriedades foram confiscadas e eles foram exilados do Norte.
No entanto—eles ainda mantinham seus títulos nobres.
Isto porque, além das famílias centrais, todos os outros títulos nobres estavam sob a autoridade do Imperador, não de Ferio.
"Entendi."
Leonia assentiu, compreendendo.
Não é de se surpreender que o Imperador estivesse tão amargurado.
Pois parece que o Duque tomou um nobre da oposição e o transformou em nobre central, ampliando assim a influência da Casa Voreoti.
O Imperador tem um complexo de inferioridade em relação ao Norte.
Leonia recordou como o Imperador tinha sido descrito na novelística.
Como na maioria dos governantes imperiais, Subiteo Aquila Bellius nutria um desejo obsessivo e inexplicável pelo Norte.
"Então, basicamente, o pai deu um golpe pesado, né?"
Leonia sorriu, com orgulho. Sua boca estava coberta de molho vermelho brilhante.
Ela gostava tanto de molho de carne que raspou tudo com o garfo.
Ferio limpou os cantos da boca dela com uma toalha.
"Então, esses pedaços de evidências,"
A pequena besta, sentada quieta enquanto seu pai cuidava dela, parecia estar pensativa.
"Aquele incidente de comércio ilegal de monstros."
Ela perguntou se poderiam usar isso para pressionar o Imperador.
Ferio respondeu que poderiam.
"Então por que você não fez?"
"Foi uma ordem dele."
Lupe respondeu orgulhoso.
Na verdade, quando coletaram as evidências e rastrearam ✧NоvеIight✧ (referência original) os envolvidos, a aprovação silenciosa e a cooperação sutil do Imperador eram flagrantes.
Naquele momento, Ferio quase foi ao palácio próprio para agarrar o homem pelo colarinho e gritar para ele acordar.
Porém, Ferio mandou apagar tudo isso.
Por duas razões.
A primeira era a estabilidade do Império.
Já se passaram apenas três anos desde a morte do imperador anterior, que foi considerado pelo povo o governante mais perfeito da história imperial.
Não havia necessidade de causar agitação desnecessária ao expor as falhas do atual Imperador.
"Então,"
Ferio levantou a mão.
Lupe, que tinha começado a divagar, ficou instantaneamente em silêncio.
"Qual você acha que é a segunda razão?"
Ferio perguntou, voltando-se para Leonia.