
Capítulo 70
Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.
Strige explodiu em risadas.
Ferio lançou um olhar fulminante para sua filha, como se não conseguisse acreditar na afrontosa ironia que ela havia acabado de dizer.
“O que, o quê?”
Leonia, a que fez fofoca, não ficou nem um pouco envergonhada — ela era descaradamente orgulhosa.
“Vossa Graça...”
Strige finalmente conseguiu engolir a risada e respirou fundo lentamente.
“Você realmente virou pai agora.”
“Mostrar um lado tão vergonhoso...”
“Por que há algo de que se envergonhar?”
Strige olhou com ternura para o pai e a filha, cuja semelhança chamava atenção tanto na aparência quanto no jeito de ser.
“Isso é o que família é.”
“...”
“Fico aliviada ao ver que vocês estão bem.”
Afinal, os rumores sobre o pai e a filha Voreoti que haviam chegado à capital eram em grande parte maldosos.
Mesmo que ela tivesse desconsiderado essas histórias como infundadas, Strige não conseguiu apagar completamente a sensação de inquietação que ainda a perseguia.
“Formar uma família é algo bem mais difícil do que a maioria pensa.”
Mas agora, ao ver os dois bestas de pé na sua frente, ela percebeu o quão falsas eram todas aquelas boatos.
Ela finalmente sentiu alívio, finalmente tinha paz.
“E vocês estão indo muito bem. Então, não se envergonhem.”
Ferio não tinha palavras.
Strige era uma das poucas adultas em quem Ferio confiava.
O fato de alguém mais velho que ele se preocupar de verdade tanto com ele quanto com a criança — isso aquecia o coração do Dragão Negro, trazendo um conforto real.
“Mas, sabe...”
Leonia interveio.
“O professor Ardea abandonou a esposa e o filho e fugiu para a Academia, né?”
“Esse homem...”
Strige deu uma risadinha suave.
“Ele é uma exceção, até aqui.”
Ela traçou uma linha ✧ NoveLuz ✧ (Fonte original) com um sorriso caloroso, porém firme, indicando que Ardea não deveria ser considerado o padrão da Academia.
Logo depois, os três entraram na Academia.
“Pai, quero dar uma olhada na Academia.”
Leonia, percebendo o clima, desculpou-se na hora certa.
Como Ferio tinha assuntos sérios a tratar com Strige, ele concordou prontamente.
Mas colocou uma condição: ela devia ficar perto dos cavaleiros.
“Não vai demorar.”
“Tudo bem.”
Despedindo-se de Ferio e Strige, Leonia saiu em direção à exploração da Academia com seus acompanhantes.
“Então, essa é a Academia, hein...”
Probo olhou ao redor com curiosidade genuína.
Como espadachim mágico ainda envolvido em pesquisas mágicas, tinha grande interesse por lugares estudantis como aquele.
“Aquele prédio grande além da janela é a parte principal da Academia,” disse Meleis, apontando para uma estrutura branca lá fora.
Um dos edifícios da Academia era conectado ao prédio principal de pesquisa por um corredor no térreo.
“Muitos professores da Academia também são membros do Instituto.”
Do teto dome do alto do prédio da Academia vinha o som distante de estudantes conversando.
Deve ser hora do intervalo.
“Eles são todos tão jovens...”
O olhar de Paavo, observando pela janela, era nostálgico.
“Oppa, você fala como um senhorzinho.”
Leonia fez uma expressão de reprovação. Paavo parecia incrédulo.
“Você que age como uma vovozinha, minha senhora...”
“Você que ainda é jovem e fala como alguém que já viu o fim da vida.”
“Quer dizer, esse tipo de conversa—”
Justo quando Paavo ia argumentar que ela era quem soava idosa, ele interrompeu com um suspiro.
Em vez disso, virou o olhar de volta para a Academia.
“Na verdade... tenho um irmão mais novo.”
“Um irmão? De onde tirou isso?”
“Ele é meu irmãozinho. Entrou na Academia no ano passado.”
“Incrível!”
Leonia exclamou surpresa.
A Academia na capital era uma instituição prestigiosa, uma das mais difíceis de ingressar, aceitando apenas os mais brilhantes.
Entrar lá era considerado uma grande honra, motivo de orgulho para toda a família.
Até entre os nobres, se alguém se formasse na Academia influenciava bastante seu futuro na sociedade.
“Espera... desde quando você tem um irmão?”
“Por que nunca comentou dele?”
Meleis e Probo ficaram surpresos — estavam ouvindo isso pela primeira vez.
“Bom... você sabe...”
Paavo coçou a cabeça de forma constrangida.
“Faz tempo que não vejo ele...”
Deixando escapar um suspiro, olhou para seus companheiros. Os olhares das duas cavaleiras e da jovem dama o fizeram suar frio. Finalmente, ele cedeu e explicou.
“Como vocês sabem, sou do Sul.”
Paavo vinha de uma família de comerciantes do sul.
Seus pais tinham um negócio de venda de joias e itens decorativos feitos de metais preciosos por anos.
Até que, um dia, o filho mais velho, Paavo, anunciou que queria se tornar cavaleiro.
“É claro que meus pais ficaram radiantes.”
Ser cavaleiro era uma posição honorária — tratada quase como nobreza.
Ter um cavaleiro na família era fonte de orgulho para os plebeus, o suficiente para animar uma festa na aldeia.
“Mas, quando disse que queria entrar na Gladiago, eles ficaram loucos...”
Paavo tremia ao recordar a resistência feroz dos pais.
“Queriam que eu entrasse na Guarda Imperial.”
“Mas o Norte é incrível! Gladiago é o melhor!”
Leonia, futura comandante da Ordem de Gladiago, ostentava as mãos na cintura, com orgulho.
Ela se sentia pessoalmente ofendida com os pais de Paavo.
Paavo respondeu com um sorriso tímido.
“Tem bastante preconceito regional.”
Meleis explicou em seu lugar.
Como o tema era delicado, ela falou com mais cuidado do que o normal.
“Por quê?”
Leonia não conseguia entender.
Mesmo nos romances que ela lia, o preconceito entre Norte e Sul sempre a intrigava.
Especialmente, a desprezo do Sul pelo Norte era exagerado, até absurdamente.
“Será que é assim em outras regiões também?”
Leonia virou-se para Probo.
“Não exatamente,” respondeu ele.
Como originário do Leste, Probo explicou que, apesar de haver rivalidade, o desprezo aberto como o do Sul era raro.
“Enfim, fugi de casa para me juntar ao Norte e fui deserdado por isso.”
“Então, não consegue ver seu irmão?”
“Antes de partir, dei a ele metade do dinheiro que economizei e deixei uma carta. Depois disso, obviamente, não consegui mais contato com ele.”
Porém, no ano passado, o irmão mais novo de Paavo enviou uma carta — iniciando o contato.
Essa tradução é de propriedade intelectual do Novelight.
A carta não continha uma única palavra de reprovação, e isso fez Paavo se sentir ainda mais grato — e culpado.
“Mas, você sabe... eu simplesmente não tenho coragem de ir até ele.”
“Oppa, isso não é coisa de você. Fica todo tímido assim.”
“Nossa, você, de todos, falando de modéstia...”
“Uma raríssima demonstração de humildade, de verdade.”
“Vocês estão sendo muito injustos.”
Paavo resmungou.
“Hmph. Ainda assim, enquanto estivermos na capital, pelo menos, devia encontrá-lo uma vez.”
Leonia deu uma forte palmada nas costas dele.
“Nunca se sabe o que a vida vai jogar na sua frente. Se quer ver alguém, o melhor é fazer enquanto tem chance.”
“Minha senhora...”
“Seu irmão provavelmente quer te ver também.”
Leonia sugeriu que ele levasse o irmão algum dia ao castelo e o apresentasse.
“Você disse que ele mandou a primeira carta, né? Talvez estivesse esperando por você o tempo todo.”
“...”
“Não deixe pra depois. Faça isso.”
“...Vou reunir coragem.”
Paavo fez uma reverência em sinal de agradecimento.
“...Ela tem sete anos, né?”
Probo sussurrou para Meleis, ouvindo a conversa de relance.
Ele já tinha perdido a conta de quantas vezes tinha feito essa mesma pergunta.
“Ela fará oito anos no outono,” corrigiu Meleis calmamente.
“Nossa senhora é madura e inteligente. Por isso, podemos ter essas conversas profundas com ela.”
“Conversas... profundas?”
Probo balançou a cabeça, não querendo exagerar.
Para qualquer outra pessoa, parecia exatamente como um ancião sábio acalmando um jovem nervoso.
Leonia, claro, tinha sido quem comandou toda a troca de conversa.
Mas isso já tinha acontecido antes, então Probo deixou passar rápido.
***
Logo após Leonia sair para explorar a Academia com os cavaleiros—
Ferio subiu as escadas ao lado de sua antiga professora, Strige.
Alguns funcionários da Academia que passavam por ali pararam ao ver seus cabelos completamente negros.
“Eles parecem assustados.”
Strige riu suavemente.
“Você tem um senso de humor e tanto, professor.”
“É uma coisa maravilhosa.”
Ver seu querido pupilo agora sendo Duque de Voreoti — e sorrindo, de verdade, feliz como pai — era encantador.
Ela ainda não tinha superado a visão de Ferio mais cedo, sorrindo suavemente enquanto observava a filha se afastar.
“A criança foi criada em um orfanato, não foi?”
“Então esse boato chegou até aqui?”
“A maior parte dos rumores que correm na capital são maldosos — mas, muitas vezes, têm um fundo de verdade.”
“...”
“Você fez um bom trabalho.”
Não havia um só sinal de abandono na criança que se parecia tanto com Ferio.
Mesmo com um encontro tão breve, Strige conseguiu sentir a confiança e o afeto inabaláveis de Leonia pelo pai dela.
O que significava que Ferio realmente se esforçou.
“...É bastante estranho.”
Ferio parou de caminhar. Strige parou com ele.
“Quando olho para você, professor, e penso em mim mesmo... a guerra Norte-Sul parece uma mentira.”
Ferio desviou o olhar do olhar orgulhoso que sua professora lhe dirigia.
Strige percebeu que seu aluno ficara um pouco envergonhado.
Ele nunca foi muito de se abrir — nem então, nem agora.
“Você acha que todos os sulistas odeiam o Norte?”
“Hoje em dia, parece que sim.”
“Pois é... hoje em dia.”
Strige sorriu de forma significativa.
Logo, os dois pararam diante de uma porta no final de um corredor.
A porta, feita de paulownia de madeira ricamente ligeirada, tinha uma placa: ACESSO RESTRITO.
Ferio olhou para a maçaneta.
“...Aquele culpado ainda não foi encontrado?”
A fechadura estava visivelmente arranhada e marcada, uma evidência clara de arrombamento.
“A investigação tem caminhado lentamente,” respondeu Strige, removendo a placa.
“As autoridades parecem pouco motivadas. Embora, de vez em quando, encontremos alguém que tenta fazer direito...”
“Posso imaginar como é.”
Requebrou a porta.
A sala lá dentro estava toda bagunçada.
“De verdade, destruíram tudo.”
Cada estante tinha sido derrubada ou quebrada. O sofá pequeno, feito para descanso, tinha sido cortado várias vezes, como se fosse com uma faca.
Cada gaveta tinha sido vazada, os conteúdos espalhados pelo chão.
“Essa aqui é a sala, não é?”
Ferio entrou, olhando ao redor com a habitual indiferença treinada.
“Conforme pediu, ninguém entra desde aquele dia.”
“Então, é exatamente igual.”
Ferio pisou sobre uma estante caída.
Strige, que observava silenciosa, virou a placa de ACESSO RESTRITO.
Na parte de trás, uma assinatura:
[Ardea Bosgruni]
Este era o laboratório de pesquisa de Ardea.