
Capítulo 64
Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.
Connie fez uma pausa por um momento, lendo nas entrelinhas o desejo de Leonia de ir sozinha.
“…Você realmente sabe o caminho?”
Se fosse na propriedade do norte, ela teria deixado Leonia ir sem preocupação — mas esta era a capital.
Não havia como Leonia conhecer a disposição do local. Nem Connie nem Mia tinham ideia.
Seria melhor ter uma das empregadas locais para guiá-la.
“Estou bem.”
Leonia sorriu e apontou para si mesma.
“Posso encontrar o pai só sentindo a presença dele.”
Os caninos são realmente incríveis.
Leonia marchou com confiança pelo terreno da propriedade na capital, sozinha.
Embora se movesse distraidamente, sua direção estava fixa — concentrada totalmente em um único ponto.
O pai está no terceiro andar.
Era ali que ela podia sentir a presença de Ferio.
Agora que ela conseguia controlar melhor as presenças dos caninos do Besta, Leonia tinha se tornado especialmente sensível à presença dos outros.
Os caninos são uma extensão de si mesmo.
Ela lembrou-se do que Ferio lhe dissera durante o treinamento.
Os caninos do Besta eram um poder sobrenatural transmitido pelo sangue — uma parte do próprio corpo.
À medida que o poder crescia, também crescia a pessoa que o manejava.
Dominar os caninos era um exercício de treinamento pessoal.
Fazia você mais saudável e fisicamente superior à média das pessoas.
Por isso, a Casa Voreoti tinha há tempos reinado como uma família orgulhosa e temida.
“Besta, besta...”
Entoando seu canto de admiração, Leonia seguiu a trilha da presença do pai.
“Besta de coxas grandes e gordas.”
Músculos salientes, fortes e firmes.
As coxas do meu pai.
Cantando sua musiquinha cheia de admiração, de repente Leonia ergueu a cabeça, avistando um afresco no teto do corredor.
Estava lá há eras, mas as cores ainda estavam vivas, os traços refinados.
A pintura ia até o fim do corredor, sem interrupções.
Existe uma história aqui?
Parecia que uma narrativa se desenrolava na cena do quadro.
Leonia apontou para uma das figuras com o dedo.
Pelo cabelo preto, provavelmente alguém da Casa Voreoti.
Não podia distinguir o sexo, mas a aura era de uma beleza impressionante.
Seguindo a figura pintada, Leonia continuou caminhando.
Ao lado da Voreoti, tinha um leão preto. Atrás deles, diversos outros animais seguiam.
Um urso branco de pé, um iaque com pelagem espessa, um rena com chifres enormes, um lobo cinza—
E escondido abaixo deles, uma onça pintada.
...Nobres doidos!
Leonia percebeu que esses animais simbolizavam as principais famílias nobres do Norte. A onça escondida representava a Casa Pardus.
Se eles estão aqui, significa que Pardus também está envolvida.
A confiança entre a Casa Voreoti e a Casa Pardus era mais profunda do que ela imaginava.
O próprio fato de estarem retratados no afresco era uma prova disso.
Os Voreoti e os seis animais seguiram rumo ao Norte gelado. Apesar do caminho difícil, superaram cada obstáculo.
No fim, chegaram às Montanhas do Norte.
Mas além delas, apenas os Voreoti e o leão preto continuaram.
Os demais permaneceram, esperando na base da montanha.
O afresco terminava ali.
E logo abaixo do painel final havia uma porta.
Leonia sentiu forte a presença de Ferio atrás dela.
“Pai.”
Toc-toc.
Ela bateu na porta, que se abriu quase que instantaneamente.
“Jovenzinha!”
Lupe a cumprimentou com entusiasmo vibrante, convidando-a a entrar.
Leonia, surpresa com a recepção inesperada, piscou confusa.
Com um sorriso desconfiado, olhou para Lupe, como se quisesse entender o que estava acontecendo.
Tra, que também estava presente, a saudou com um entusiasmo exagerado.
“Como vai, minha senhora? Não está parecendo bem hoje, senhor?”
Apontando para Ferio, que estava sozinho ao lado da janela.
Ele parecia estar preparado para sair — bem mais arrumado do que na Norte.
Seu cabelo estava penteado para trás com cuidado incomum.
Porém, sua expressão era claramente azeda.
Parecia prestes a arrancar a gravata e jogar o sobretudo no chão a qualquer momento.
Vai sair aonde?
Acabaram de chegar na capital.
Para Leonia, que não tinha a história completa, toda essa situação soava absurda.
Sair logo após uma longa viagem, sem nem tempo para descansar — não era só exaustivo, era falta de consideração.
...Ah, então é por isso que ele estava de mau humor.
Leonia rapidamente juntou as peças.
Essa saída deve ter sido um compromisso muito desagradável para Ferio. Provavelmente, uma missão repentina, com alguém que ele realmente não gostava.
Alguém que o pai detesta na capital, mas que ainda tem o poder de convocá-lo de surpresa...
Só podia ser uma pessoa.
O Imperador.
Ferio se preparava para ir ao Palácio Imperial.
“Pai, para onde você vai?”
Fingindo não saber, Leonia se aproximou dele de mansinho.
Depois virou-se para trás, fazendo sinal de positivo para Lupe e Tra, com o polegar levantado por trás das costas.
Ela estava dizendo, Deixa comigo.
Foi só então que Lupe e Tra finalmente suspiraram aliviados.
Na verdade, Leonia não precisava fazer nada.
“Você nem vai descansar?”
Esta tradução é de propriedade intelectual da Novelight.
Só a presença dela já era suficiente para amodorrar visivelmente Ferio.
Aquela expressão azeda, sufocante, derreteu como se nunca tivesse existido.
“Saudades de você!”
“A gente acabou de se ver.”
Apesar do tom carrancudo, Ferio já a tinha levantado nos braços e gentilmente balançava-a.
O leve sorriso nos lábios dele denunciava seu humor elevado.
Tra ficou paralisado, admirando silencioso.
“Jovenzinha... você é demais...”
Era a primeira vez que via seu pai, tão gentil e carinhoso, e aquilo era um choque.
Quem diria que seu mestre seguraria e daria mimo a uma vida tão pequenina com tanta delicadeza.
“Ela só está começando.”
Lupe se empinou com orgulho, como se fosse ele o incrível.
“Então, pra onde você vai, pai?”
“Trabalho.”
O comentário deixou Ferio de volta à sua carranca. Ele rangeu a língua.
“Homem trabalhador é demais!”
“Eu sou demais sem precisar trabalhar.”
“De verdade!”
Ferio respondeu firme, e Leonia concordou sem hesitar.
Apesar disso, Ferio finalmente se aproximou da porta.
Nos braços, Leonia olhou por cima do ombro dele.
O cômodo era igual ao seu escritório no Norte, com certeza tinha a mesma função.
Lupe e Tra o seguiam, visivelmente aliviados.
Eles já estavam atrasados, mas, pelo menos, ele estava se movendo agora.
Leonia fez um gesto de despedida para os dois homens atrapalhados — seus pobres subordinados azarados.
Quando chegaram na entrada principal, Ferio a colocou no chão.
Leonia assentiu e agarrou a mão dele com força.
“Pai, enquanto estiver fora, acha um lugar bom pra comer.”
“Quer que eu traga algo de volta?”
Ferio pareceu confuso.
Costumava pedir para ele trazer petiscos ou doces sempre que saía.
“Quero ir comigo na próxima vez e comer juntos.”
Ela estendeu o dedo mindinho, pedindo uma promessa.
“...Você não quer que eu vá?”
Quando Ferio não respondeu, Leonia fez bico e abaixou lentamente a mão.
Depois, virou levemente, olhado pra ele com olhos esperançosos.
“......”
Depois de um silêncio longo, Ferio finalmente falou.
“Se eu... começar um golpe de Estado agora...”
Seus dedos, abaixo da coxa, tremiam rapidamente, como se calculassem alguma coisa.
“...quanto tempo levaria?”
A reação absurda congelou Leonia, Lupe e Tra no lugar.
“Um golpe,” ele repetiu calmamente, com clareza, só para garantir que todos tivessem escutado.
Depois olhou diretamente para Leonia.
Com os olhos arregalados de pânico, ela balançou a cabeça furiosamente.
Não ouse usar minha pessoa como desculpa! Eu não quero isso!
“Agora que penso bem, é só ridículo.”
O Mamãe Besta não vai parar por nada pelo Baby Besta.
Pensar que ele nem consegue levar a filha para um passeio simples por causa de algum engomadinho de poder...
Um sorriso ardente se abriu nos lábios de Ferio.
A pressão no ar era tanta que até Leonia recuou, quanto mais Lupe e Tra.
“Ele vira Imperador e de repente acha que é intocável.”
Ferio pensou nos últimos três anos.
Aquele covarde que tremia diante dele agora estava cheio de orgulho, bêbado com o título de “Imperador”.
E, além disso, forçou Ferio a permanecer na capital por três anos inteiros por causa de uma proposta idiota para fazer sua amante imperatriz.
Os quatro duques regionais — governantes de suas terras — perderam anos preciosos na capital por causa de um tolo cabeça de vento.
Pensar que essa coisa assumiu o trono do Império... o falecido Imperador estaria se virando no túmulo.
Ele tolerou até agora por pura apatia.
Mas talvez um golpe fosse a solução mais simples para todos.
“O pai perdeu a cabeça.”
Finalmente, Leonia saiu do estado de choque, batendo na coxa dele.
“Vai logo!”
Revolução ou não — ele precisava sair primeiro para que algo acontecesse.
Observando a expressão de urgência de Lupe, eles realmente estavam ficando sem tempo.
“Eu não quero que o pai seja Imperador.”
“Por quê?”
“Prefiro você astuta e manipuladora, puxando os cordelhos das sombras.”
Leonia declarou convicta.
“De quem você herdou tanta maldade?”
Ferio rangeu a língua.
“......”
“......”
Lupe e Tra ficaram calados, olhando fixamente para Ferio.
Quem mais?
Ela é sua sangue, senhor.