Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.

Capítulo 57

Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.


“Eu conheço o Olor.”


Leônia, que estava observando a linha azul no horizonte pela janela, virou a cabeça e falou.


O pai e a filha Voreoti estavam passeando à beira-mar, só eles dois dentro de uma carruagem.


A carruagem tinha sido emprestada da Casa Rinne. As carruagens dos Voreoti eram grandes demais e pretas demais — chamavam muita atenção.


O destino deles era uma pequena praia privada de propriedade da Casa Rinne.

Por ser propriedade privada, não havia invasores, e ainda tinha uma acolhedora villa.


Na volta para a praia, Ferio contou a Leônia, em detalhes, tudo o que tinha acontecido.


“A Professora Ardea disse que é um lixo que está poluindo o Sul.”


“Bem, não está errado, mas a Ardea realmente falou isso pra você?”


As sobrancelhas de Ferio se curtiram de irritação.


Ultimamente, a linguagem de Leônia tinha ficado mais áspera, e se fosse verdade que Ardea tinha sido o motivo, ele ia ter umas boas conversas com ele.


“Então, o motivo de você estar tão ocupado é por causa do Olor?”


“Se fosse só o Olor, seria um alívio...”


Ferio soltou um suspiro silencioso e irritado.


Nesse momento, a carruagem parou.


Ferio desceu primeiro e a ajudou a desembarcar em seus braços.


Quando ela tocou levemente o chão, Leônia respirou fundo o ar salgado.


“Papai, olha isso.”


Leônia apontou para o céu.


Gaviões sobrevoavam o mar em bandos, gritando com altos piados.


No momento em que perceberam a presença humana na praia silenciosa, os gaivotas voaram ainda mais alto, cautelosas com o que acontecia ao redor.


“Quero jogar bolacha de camarão pra eles.”


“Bolacha de camarão?”


“Tem um tipo... petisco de camarão...”


Leônia hesitou vagamente, enquanto caminhava de forma leve pela areia da praia.


“Mas depois de ouvir o que você disse, na verdade acho que nem preciso ir para o Oeste depois de tudo.”


A brisa do mar levantou seu vestido branco puro.


Seus cabelos estavam presos em dois coques feitos pelas criadas para facilitar os movimentos, deixando-a parecida com uma jovem cheia de energia.


“Você estava realmente preocupada comigo, hein?”


Leônia sorriu de forma travessa, quase convencida, como se estivesse alegre por si mesma.

“... Sempre existe uma chance de um em um milhão.”


Aquela chance que praticamente não existia, o “um em um milhão”.

Ele tinha considerado o pior cenário — que algum bandido desesperado pudesse tentar machucar Leônia — e a enviou para o Oeste, por segurança.


Ferio colocou um chapéu de abas largas feito de junco na cabeça de Leônia.


Assim como seu visual casual, Ferio também estava vestido de forma mais leve do que o normal.

Uma camisa branca folgada, que mostrava sua clavícula, calças pretas e sandálias de couro marrom que deixavam os dedos visíveis.


Além disso, sua franja nem tinha sido penteada para trás, reforçando o charme decadente de um jovem aventureiro.


Se Leônia não estivesse ao lado dele, e se ele não estivesse cuidando dela com tanto carinho, ninguém diria que ele era pai.


'Já pensei nisso antes, quando ele usava aquela túnica...'


Leônia lembrou-se de quando viu Ferio usando uma túnica branca.


'Sempre que o pai veste branco, ele parece tão... indecente.'


A maioria das pessoas fica com uma aparência pura e limpa usando branco, mas Ferio transmitia exatamente o oposto.


Leônia achava isso extremamente lamentável.


Se Ferio não fosse seu pai, ela ficaria tão encantada com ele quanto qualquer outra pessoa.


Para Leônia, Ferio deixou de parecer o protagonista de um romance — agora parecia muito mais uma figura familiar.


Era pior do que uma pintura que ela não poderia alcançar.


'Por isso tenho que proteger o papai!'


Ter um pai perfeito demais era cansativo de seu próprio jeito.


Ela se preocupava que pragas desnecessárias voltassem a se apegar a ele, como tinha acontecido com Lady Kerena Mereoqa.


Leônia observava atentamente o entorno na praia deserta.


“Não brinca com isso.”


Para Ferio, que não fazia ideia do que ela pensava, parecia apenas que Leônia estava brincando.


“Eu não tô brincando! Eu estou protegendo!”


“Protegendo o quê?”


“Estou protegendo você, papai!”


Leônia respondeu orgulhosa.

'... Será que isso é alguma brincadeira de faz de conta?’


Ele lembrou-se de que, uma vez, tinha lido em um livro sobre educação infantil que crianças pequenas muitas vezes se envolvem em jogos imaginativos.


Deixam a imaginação fluir e criam cenários diferentes, atuando de sua própria maneira.

'Uma criança ainda é uma criança.'


Ferio sentiu uma onda de alívio enorme.


Ele tinha medo do pior, mas nunca imaginou que Leônia pudesse realmente se envolver nesse tipo de brincadeira infantil.


Claramente, a melhor forma de estimular a inocência de uma criança não era forçá-la a isso, mas deixar que ela se desenvolvesse naturalmente.


“Vamos lá.”


Envolvendo a menina nos braços, Ferio entrou na villa.


Leônia, pendurada em seu ombro como uma sacola, começou a rir espontaneamente.


Assim que entraram, foram recebidos pelo cheiro de uma comida deliciosa. Graças aos criados da propriedade Rinne que tinham chegado antes deles, tudo já tinha sido preparado com cuidado.


Leônia cheirou o ar, engolindo a saliva com vontade. Ao mesmo tempo, seu estômago roncou alto.


“Acho que o chão vai ceder.”


Ferio brincou enquanto pegava a cesta de almoço.

“O chão não vai ceder por isso, tá ok?”


Leônia, envergonhada, fez uma carinha emburrada e seguiu atrás dele.


Enquanto o pai e a filha entravam brevemente na villa, uma grande sombra de proteção foi montada no meio da praia.


Leônia subiu na toalha de piquenique e imediatamente ficou encantada com a vista à sua frente.

O som rítmico das ondas quebrando.

Os gritos altos das gaivotas.

E uma deliciosa refeição por cima de tudo isso.


Ela deu uma mordida gigante em um sanduíche cheio de camarão, fechou os olhos de prazer.

Seu rosto se iluminou de felicidade.

“Deve ser o céu...”


“Que uma versão tão barata de céu.”


“Hmph, você também está sorrindo agora!”


“Tô sorrindo porque você parece ridículo.”


“O que eu fiz desta vez?!”


“Já tem camarão na sua cara.”


Mesmo assim, Ferio gentilmente limpou o sorriso de camarão nos lábios dela, com uma expressão rara e suave.


Aquele momento de apenas olhar o mar com Leônia, respirando fundo, era extremamente pacífico.


Especialmente ao ver Leônia comer com tanta alegria — era uma cena que ele adorava.

Suas bochechas inchadas e a maneira como ela mastigava e engolia como um esquilo eram estranhamente viciante.

Era como encontrar um esquilo na floresta, com as bochechas cheias de bolotas.

“Mm-mm-mm...”


Leônia murmurou algo com a boca cheia, deixando as bochechas arredondadas como as de um esquilo que guarda nozes.


“Engole primeiro, depois fala.”


Ferio, que não entendia nada, deu-lhe um copo de suco de uva e entregou.

“Vamos pra casa agora?”


Leônia bebeu tudo de uma vez, como se fosse vinho, e perguntou.

Os mágicos criminosos que traficavam criaturas mágicas secretamente tinham sido presos, então não havia mais motivo pra ficar no Oeste.


Leônia tinha saudades do Norte.

“Quero voltar pra casa.”


O Norte agora era seu verdadeiro lar.

Ferio suavemente afastou o cabelo dela com a mão.

Seus dedos grandes e grossos bagunçaram a mecha de cabelo bem arrumada dela.

“Mas deve ser difícil, né?”

Leônia olhou para ele. Seus pequeninos dedos estavam inquietos na toalha.

Como Ferio explicou, ainda havia questões não resolvidas escondidas na situação toda.

Percebendo isso, Leônia não podia insistir teimosamente em voltar para o Norte.

E, na verdade, ela não tinha intenção de fazer isso.

“…Sim.”

Ferio acariciou suavemente sua cabeça, com um olhar cheio de emoções conflitantes.

Sua filha, que tinha percebido tudo, fez com que ele se sentisse orgulhoso e emocionado — mas também culpado, por ela estar reprimindo seus próprios desejos pelo bem dele.

A caçada de Ferio ainda não tinha acabado.

“Vamos para a capital.”


***


“Entrei em contato com a mansão na capital.”


No dia seguinte.

Lupe, com olheiras tão pesadas que pareciam roxas, deu seu relatório em uma voz pálida e exausta.


“Disse que vocês chegarão em uma semana. O intendente falou que está tudo bem.”


Porém, quem fazia o relatório parecia longe de estar bem.


Depois de retornar tarde, resolvendo assuntos no Norte, Lupe estava tão exausto que não seria surpresa se desabasse ali mesmo.


“...Você está bem, senhor?”


Leônia ficou tão preocupada com o estado dele que pediu para ele se apoiar nela se precisasse.


Ela até mexeu o ombro, incentivando-o a não se segurar.


“Estou bem...”

Lupe sorriu de forma forçada, agradecendo.


“Papais, sério! Para de fazer o Sr. Lupe trabalhar tanto! Ele vai morrer!”


“Isso não é culpa minha.”


“Você é o chefe dele, não é?!”


“Estou bem, moça.”


Lupe tossiu e respirou fundo lentamente.


Leônia sentiu uma pontada de solidariedade ao ver ele forçar um sorriso.

Ter um chefe errado e sofrer por causa disso — era uma lembrança muito forte do seu passado, e uma sensação estranha de conexão surgiu dentro dela.


“Depois que tudo acabar, vou ganhar o triplo do salário e tirar um mês de folga.”

Por isso, ele estava se esforçando tanto agora, disse Lupe com uma risada.

E, pelo jeito dos olhos dele brilharem com clareza, mesmo com o rosto cansado, ele realmente queria isso.


“Que traidor...”

Leônia deu um ombro dramático, eliminando qualquer simpatia que pudesse restar.

“Os humanos são, por natureza, traidores.”


Lupe esfregou o polegar no indicador, ostentando a atração pelo dinheiro.

'Ainda assim... tô até com um pouco de inveja.'


Leônia realmente não podia culpa-lo.

Ganho triplo e um mês de folga?

Ela também se voluntariaria numa hora extra.

Aliás, o salário do Lupe não era exatamente pequeno.

Leônia se lembrou de uma cifra que ouvira uma vez — a renda anual dele superava bastante a de um nobre menor que governava um pequeno território.


“E também...”

Lupe entregou a Ferio uma nota pequena e dobrada.

“...”

Ferio pegou e leu ali mesmo, mas sua expressão permaneceu inalterada.

Apenas seus olhos se moveram rapidamente — para Leônia.

“O que é? Uma carta de amor?”

Leônia brincou, sorrindo.

“Esquece. Vamos?”

Ferio quebrou a nota com suas presas e entrou na carruagem com Leônia.


Ao deixar a propriedade Rinne e seu oceano para trás, logo entraram numa trilha de floresta exuberante.

Quando Leônia pediu para abrir a janela, Ferio a abriu levemente, deixando entrar a brisa.

À altura da fama do Oeste, a paisagem era linda — vegetação densa e ar puro.

“Tá parecendo um piquenique mesmo.”


“Não coloque sua cabeça muito fora da janela.”

“Tá bom.”


Enquanto a carruagem avançava, Ferio revisava os documentos que trouxera.

Leônia alternava entre observar o pai trabalhando e a paisagem que passava, cantarolando uma musiquinha que inventara.

“Uma família de bestas «N.o.v.e.l.i.g.h.t» preta vive junto~”

Mamãe, papai e o bebê também, todos aconchegados.

Vagando por uma floresta branca de neve.

As bestas pulam sobre as cadeias de montanhas.

“Além das montanhas...”


Justo quando cantava feliz, Leônia parou de repente.

Ferio, que tinha ouvido tudo em silêncio, mesmo fingindo não ouvir, também levantou o olhar de seus documentos.

“Papai.”


De repente, a carruagem saiu da floresta e entrou no território dos Hesperi.


Apesar de serem conhecidos como terra sagrada dos guerreiros, o domínio Hesperi tinha uma atmosfera estranhamente pacífica.


Mas as presenças de suas Presas eram afiadas — ela percebeu logo que algo estranho se aproximava.

“Tem alguma coisa lá fora...”

A pequena criatura com pelo eriçado se acolheu firmemente ao lado do pai.

Ela já tinha sentido essa sensação antes.

Foi como quando Ferio organizou o chá e ela percebeu a presença do Marquês Ortio atrás do picadeiro de equitação.

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