
Capítulo 60
Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.
Ferio mesmo não tinha esperado isso, embora nem sequer estivesse pensando seriamente em casamento ainda, ele acabara cultivando um carinho tão profundo por uma criança adotada impulsivamente, criando-a com tanta sinceridade e dedicação.
Palavras nunca poderiam expressar completamente o quanto aquela criança era adorável.
Ferio sentia uma satisfação imensa com a forma como as coisas estavam agora.
No entanto, ele não tinha intenção de mostrar esses sentimentos sinceros para a criança.
Afinal, Ferio não era exatamente uma pessoa emocionalmente madura.
Embora nunca admitisse, ele, à sua maneira, era um pouco tímido.
“Você não assediou sexualmente o Sir Ibex, não é?”
Assim, como de costume, expressava sua afeição com uma brincadeira provocativa.
“...Sério, você nunca me dá um momento de sinceridade.”
Leonia, que sentiu uma pontinha de culpa, resmungou e balançou seu pequeno punho de algodão na direção de Ferio.
***
A data de partida de Ferio e Leonia para a capital já havia sido marcada.
Antes de partir da região oeste, Leonia fez uma grande sequência de compras na praça.
Cada item escolhido por ela mesma, com a intenção de enviá-los como presentes para conhecidos no Norte.
“Esse é para o vovô Kara, aquele é para a Felica...”
Dos funcionários da propriedade Voreoti às suas únicas amigas pequenas, as irmãs Pinu e Ufikla, e às nobres senhoras das reuniões de chá na Oasis—nenhum ficou de fora.
‘Será que esqueci de alguém?’
Leonia conferiu duas e três vezes a lista de presentes que havia anotado em seu caderno.
“Você é melhor do que eu.”
De trás dela, Carnis cutucou Ferio com o cotovelo nas costelas.
“Você não tem esse tipo de atenção aos detalhes.”
“Você também não.”
De um sofá do outro lado da sala, Abipher deu uma risada seca às hipocrisias do marido.
“Querido, você não consegue ficar do meu lado pelo menos uma vez?”
“Ambos, olhem só para a jovem senhorita.”
Para Abipher, Leonia era muito mais admirável e madura do que eles dois.
Ferio, sem vergonha, deitado de barriga para cima no sofá de alguém, olhou de lado para Leonia.
Vendo ela organizar as coisas, instruindo os criados sobre o que faltava, realmente era impressionante.
“A jovem Voreoti já está levando a sério o papel de dona da casa.”
Carnis também achava Leonia surpreendente. Ela tinha só um ano a mais que Ufikla, mas a diferença entre as duas parecia enorme.
“Ela é assim porque se parece comigo.”
Ferio, silencioso, sentou-se ereto e olhou na direção de Leonia.
“Oni, olha só isso!”
“Pinu também! Pinu também!”
De perto, Leonia não apenas organizava os presentes, mas também cuidava dos irmãos Rinne ao seu lado.
Ufikla e Pinu estavam brincando de escrever, rabiscando letras em seus cadernos junto com Leonia.
“Nossa, você tem muitos amigos...”
Leonia olhava admirada para os nomes que Ufikla havia escrito no caderno.
“Eu realmente tenho muitos amigos!”
Ufikla orgulhosamente lia cada nome escrito em letras grandes.
Seguindo o exemplo da irmã, Pinu também gritava seu próprio palavreado incoerente com entusiasmo.
“Pinu, você fala alto demais.”
Ufikla suspirou e resmungou, incomodada com o volume ensurdecedor do irmão mais novo.
“Ele é só pequeno, é isso.”
Leonia acariciou os dois suavemente, encorajando Ufikla a ter paciência.
“...Tem certeza de que sua filha tem mesmo sete anos?”
Carnis cochichou para Ferio, pois tinha perdido a conta de quantas vezes tinha feito aquela pergunta.
A forma como ela acalmava as crianças menores fazia parecer que ela era uma babá experiente.
Ferio empurrou o amigo com desinteresse, mandando ele tirar o rosto de perto.
“Tenho amigos no Oeste e na capital.”
Ufikla era bastante popular à sua própria maneira.
Seus traços de raposa, adoráveis, ajudavam, mas a verdadeira razão era seu cargo de herdeira da Casa Rinne, que possuía o maior porto comercial e guilda de comerciantes do império.
“O pai diz que vocêtem que escolher bem seus amigos.”
“Ele não está errado.”
“E a mamãe diz que, na hora de fazer, faça sem parecer demais.”
“Humm...”
Leonia olhou para o grupo de adultos na poltrona.
O Conde e a Condessa de Rinne, ouvindo a conversa das crianças, acenaram de volta com sorrisos envergonhados.
‘Sim. Com certeza são amigos do pai...’
Não eram pessoas comuns.
“Então essa não é mais minha amiga.”
Enquanto listava orgulhosamente suas amigas, Ufikla de repente riscou um nome com um giz vermelho.
“Por quê? Quem é?”
“Hedy.”
Hedy era o herdeiro mais jovem da família Hieina.
Entretanto, Ufikla costumava dizer que gostava muito dele—ele frequentemente trazia lanche gostoso para compartilhar.
“Hedy hyung!”
Até Pinu sorria com brilho e chamava pelo nome familiar dele.
“Então por que vocês não são mais amigos?”
“Hedy é legal e eu gosto dele. Mas não gosto da irmã dele.”
“Por quê?”
Ufikla fez uma expressão de bico e não tentou esconder seu desagrado. Parecia que ela tinha se lembrado de algo desagradável.
“Lembra como eu gostava do Duque...”
“Gostava...”
“Gostava...”
Carnis e Abipher tiveram que segurar o riso diante da palavra de sua filha precoce.
Quando uma criança de seis anos diz “gostava,” provavelmente se refere a algumas semanas atrás, no máximo.
Até Ferio, observando tudo, não conseguiu evitar sorrir discretamente.
“Bom, ela também gosta do duque, né? E ela riu de mim antes.”
“O que ela disse?”
“Ela disse que eu sou patético.”
Carnis, que estava assistindo, levantou-se de repente.
Seu rosto, que antes estava cheio de sorrisos, se contorceu numa expressão ameaçadora.
Abipher, igualmente exaltada, não tentou impedir que o Mad Dog Revoo entrasse em fúria dessa vez.
“Sente-se.”
Ferio jogou o amigo de volta ao sofá, mandando-o não interferir na confusão das crianças.
Leonia, ouvindo tudo, bufou ridículo.
“Que besteira se preocupar com isso.”
Ela acariciou a cabeça de Pinu e perguntou, “Não é?”
Pinu concordou sem entender direito e aplaudiu suas mãos.
Seu risinho foi só um bônus.
“Quantos anos ela tem?”
“Não sei. Ainda não é adulta.”
“Então ela é só uma criança como você.”
Leonia aconselhou que, se essa garota brigasse novamente, Ufikla devia apenas dar um soco nela.
“Sempre são as menos importantes que armam a maior confusão.”
Essas crianças, de verdade.
Após conferir a lista final de presentes, Leonia entregou-a às criadas.
As empregadas da Casa Rinne mordiam os lábios enquanto apressadamente carregavam os embrulhos—quase sem conseguir segurar as risadas da conversa anterior.
“Mas...”
Ufikla murmurou.
“A mamãe diz que não se deve bater nas pessoas sem motivo..."
Esta tradução é propriedade intelectual da Novelight.
“Bata na surdina.”
Leonia usou palavras elaboradas de propósito, como se justificasse que desentendimentos entre crianças fizessem parte natural do crescimento.
De fato, os olhos de Ufikla brilharam enquanto ela acenava ansiosa com a cabeça.
“Mas faz uma batalha justa, ok? Um contra um, luta igual.”
“Sim!”
“Boa. Você é minha melhor aluna mesmo.”
Leonia sorriu orgulhosa e estendeu o punho.
Ufikla, lembrando-se do que tinha aprendido antes, estendeu seu próprio punho pequeno e o encostou no de Leonia com um leve baque.
“Eu tambémooo!”
Pinu agitou os braços animadamente, apertando-se entre a irmã e Leonia.
Antes que percebessem, as crianças começaram a conversar algo sem sentido e correram dizendo que iam brincar no jardim.
“... Então, até mais.”
Ferio levantou o queixo com uma confiança descarada, enquanto Carnis e Abipher o encaravam com olhares de reprovação.
“Minha filha disse alguma coisa errada?”
Honestamente, Ferio se via completamente de acordo com a filosofia que Leonia acabara de compartilhar.
Com certeza, existiam pessoas no mundo que só entendiam uma coisa: apanhar.
“Eu bato em todo mundo—exceto crianças.”
“Que cavalheiro cruel.”
“Vossa Graça, mesmo assim, não acha que deveríamos preservar a inocência delas...”
Embora Abipher gostasse de conversar com Leonia como uma amiga, às vezes ela se preocupava de verdade que a garota não tivesse nenhuma inocência infantil.
“Não se preocupe demais.”
Como se Ferio não tivesse a mesma preocupação.
Ele tinha tentado de tudo, feito esforços de várias formas para preservar a inocência de Leonia.
Após muitas tentativas, a conclusão a que chegou foi: laissez-faire.
Quanto mais tentava forçar alguma coisa, mais Leonia resistia.
Pelo contrário, não fazer nada resultava nos melhores resultados.
“Hoje ela já está transbordando isso.”
Em comparação com o dia em que se conheceram, Leonia agora parecia bastante uma criança.
“Transbordando? Mais parecia uma seca.”
Carnis retrucou, dizendo que ela quase parecia desidratada.
“Ela parece assim só porque é inteligente e competente demais.”
“Nossa, você...”
Carnis ❖ Novelight ❖ (Exclusivo no Novelight) finalmente se convenceu de que Ferio tinha se transformado em um pai superprotetor.
Sentiu uma maior ligação com seu velho amigo do que nunca antes.
Então, de repente, a risada das crianças ecoou pela janela.
“E também...”
Ferio pensou em Regina.
Sua prima, que enganou todos e fugiu, deixando Leonia para trás e depois faleceu.
“Nem toda inocência infantil é uma coisa boa.”
Ao imaginar o que a garota tinha sofrido sozinha, Ferio não pôde deixar de duvidar da ‘inocência infantil’ genuína.
“E além do mais...”
Ele murmurou baixinho, quase inaudível, enquanto batia distraidamente com os dedos no braço do sofá.
Uma ruga se formou entre as sobrancelhas enquanto seus pensamentos ficavam mais profundos.
Aquele cavaleiro errante.
A raiz de tudo isso.
Um homem cuja identidade como cavaleiro era questionável.
Ferio carregava há tempos pensamentos sobre esse homem—aquele que se presumia ser o pai biológico de Leonia.
***
Alguns dias depois.
Chegou o dia em que o pai e a filha da Casa Voreoti partiram rumo à capital.
Yaaaaawn...
Leonia, que acordou cedo naquela manhã, soltou um bocejo que parecia abrir sua boca ao meio.
Perto dela, Ferio deu uma leve batidinha nas costas, dizendo para ela acordar.
“Leo.”
“Hmm?”
“Você parece exatamente assim.”
Ferio apontou para a carruagem.
Na porta da gigante carruagem preta, estava gravado o brasão da família Voreoti. O leão no brasão tinha a boca bem aberta, rugindo—como se também quisesse mostrar que não ficaria atrás de Leonia.
“Por que você já quer brigar logo de manhã...?”
Ainda meio sonolenta, Leonia resmungou e se encostou na perna de Ferio.
Era seu jeito de dizer: estou cansada, me levante logo.
Ferio não respondeu e simplesmente cedeu.
“Me bate também...”
Encontrando um lugar confortável, Leonia apoiou o queixo no ombro de Ferio e deu um beijo de sono numa careta sonolenta.
Logo uma mão grande e firme começou a bater suavemente nas suas costas.
“Obrigado por tudo.”
Enquanto acalmava os dengoidos de sono da filha, Ferio deu uma despedida a Carnis e Abipher.
“Você realmente virou pai.”
Emoção, Carnis limpou os olhos, ficando sentimental.
Abipher lançou um olhar de passagem, silenciosamente achando aquilo ridículo—mas, na verdade, ela também se surpreendia toda vez que via Ferio com Leonia.
“Só espero que vocês não tenham sentido falta de algo durante a estadia.”
“Ficaram mais que à vontade, madama.”
“E eu?”
Carnis resmungou, fingindo-se magoado.
E, sendo justo, tinha motivo. Passara noites inteiras reunindo provas de tráfico ilegal de monstros. Trabalhou dias inteiros com os Cavaleiros de Gladiago para transferir secretamente filhotes de monstros capturados até o Norte.
Graças a isso, a região oeste escapou de um desastre—mas um reconhecimento maior não faria mal.
Embora Ferio não desconsiderasse isso.
“Eu te recompensarei direito depois.”
Aquelas palavras simples, sinceras, de Ferio logo fizeram o coração carrancudo de Carnis se derreter.