
Capítulo 45
Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.
A voz de Leonia, ao fazer a pergunta, estava mais séria do que nunca.
Ferio não escondeu a verdade.
“...Existe.”
Porém, a maneira como os olhos negros de Leonia tremiam naquele instante fez que, por um breve momento, ele se arrependesse de ter sido tão sincero.
O que estava acontecendo agora não era algo que uma criança deveria saber.
No entanto, Ferio bem sabia que Leonia não era uma criança comum.
Sua única filha era mais sábia e inteligente do que qualquer outra. Seu gosto talvez fosse um pouco... distorcido, mas ela superava a maioria dos adultos.
“Tudo bem.”
Ao invés de esconder, ele optou por pedir sua compreensão.
“É um problema que nós, adultos, podemos resolver.”
“Será que é sério mesmo? É perigoso?”
Leonia rapidamente tentou recordar os acontecimentos da história original em sua mente.
Se fosse algo que pudesse colocar seu pai em perigo, ela precisava ajudar.
Porém, a verdade é que Leonia ainda não sabia exatamente em que ponto do cronograma da história original ela se encontrava.
‘(Pensando bem...)’
Ela se lembrou de algo que tinha esquecido de perguntar antes.
‘O aniversário do Primeiro Príncipe!’
A história original começava no aniversário de 16 anos do Primeiro Príncipe. Se ela pudesse descobrir a idade atual dele, saberia o cronograma — mas ela ainda não tinha perguntado.
“Pai, quantos anos tem o Primeiro Príncipe agora?”
“De repente assim?”
“Rápido!”
“Aquele garoto? Deve estar com onze anos este ano.”
Ferio murmurou que ele tinha dois anos a mais que o Segundo Príncipe.
Perguntou por que ela queria saber, mas Leonia mordeu os lábios de ansiedade ao invés de responder.
‘Antes da história começar!’
Finalmente, ela tinha a resposta — o momento presente era cinco anos antes do início da história original.
O que significava... todas as ações que lembrava do livro eram atualmente inúteis.
“...Tem alguma coisa que eu possa fazer para ajudar?”
Leonia perguntou, agora claramente alarmada.
“Pai, tem alguma coisa que eu possa fazer?”
“Leo.”
Ferio inclinou levemente a cabeça. Leonia estava inquieta, como um filhote que precisa fazer xixi. Seus olhos piscavam de forma desconfortável.
“Não precisa se preocupar.”
Sua filha precoce claramente percebia que algo não estava certo.
Infelizmente, sua intuição estava perfeita. Pelo rumo das coisas, algo ruim certamente estava vindo.
Mas isso era apenas pelo padrão normal.
“Não há nada que eu não possa resolver.”
Ferio falou com arrogância, quase como um orgulho.
Não havia nada que a Casa Voreoti, abençoada com as Presas do Demônio Negro, não pudesse superar.
E sua confiança orgulhosa não estava muito longe da verdade.
“Então, não se preocupe.”
Ferio levantou Leonia nos braços.
“Só há uma coisa que você precisa fazer.”
“...O que é?”
Leonia perguntou, com a ansiedade levemente aliviada.
“Comer, brincar e dormir.”
Ferio sussurrou enquanto beijava sua bochecha.
“Viva feliz, mais do que qualquer um, no lugar mais seguro do mundo — a propriedade Voreoti.”
Essa era a missão mais importante de Leonia Voreoti, filha do Duque.
***
Uma notícia um pouco agridoce chegou a Leonia, que passava seus dias desfrutando o tempo com a família Rinne.
“Voltamos para casa em três noites.”
Ufikla deu a notícia de que partiriam do Norte. Sua voz carregava decepção.
Seu primeiro encontro pode ter sido complicado, mas durante sua estadia na propriedade Voreoti, Ufikla criou laços com Leonia.
Apesar de ser bem menor, Leonia era inteligente e sempre cuidava dela. Ufikla passou a gostar muito da menina.
Leonia sentia o mesmo.
Ela havia se cativado com a família Rinne nos últimos dias.
Tinha a sensação de que logo iriam partir, mas ouvir a confirmação a deixou inesperadamente triste.
Por outro lado, Ferio tinha uma sensação completamente oposta.
“Finalmente.”
Ele não tentou esconder sua alívio. No momento em que Carnis se agarrou a ele fingindo tristeza, Ferio não hesitou em empurrá-lo com o pé.
“Ainda são convidados.”
Mesmo que seu amigo fosse uma incômodo, Ferio não podia simplesmente despedir-se de convidados nobres sem as devidas cortesias. Por isso, decidiu realizar um chá especial na mansão Voreoti.
Era uma demonstração de amizade entre a Casa Voreoti e a Casa Rinne para a nobreza do Norte.
“...Por que está tão sem jeito?”
Leonia cruzou os braços e olhou fixamente para ele.
Ferio parecia desconcertado.
“Você acha que isso é ser sem jeito?”
“Finge que não liga, mas parece que quer fazer várias coisas por eles.”
“Você está interpretando mal de novo.”
“...Não.”
“Qual é essa pausa?”
“Só... deixa pra lá.”
Ela deu de ombro como se fosse algo insignificante, mas por dentro, Leonia começava a colocar Carnis na sua lista de observação.
Uma prioridade maior até do que Lupe ou Mono.
De qualquer modo, os preparativos para o chá ocorriam sem problemas.
Fazia muito tempo desde que uma reunião foi realizada na mansão ducal. A última fora quando o anterior Duque e Duquesa ainda viviam.
Por ano, isso tinha acontecido há mais de sete anos.
Desde que Ferio herdou o título de Duque ao chegar à maioridade, ele não organizava um evento assim — nem mesmo semelhante.
Por isso, não era surpresa que os nobres que receberam os convites ficassem chocados.
Especialmente porque a data do chá foi marcada apenas dois dias após o envio dos convites.
Leonia achou que era algo bem ao estilo de Ferio.
“...Pai, você já pensou na agenda de outras pessoas?”
Sem conseguir se segurar, Leonia começou a repreendê-lo.
Era a mesma falha que tinha notado ao contratar seus tutores.
“Pai, sua consciência é ainda menor do que a minha inocência de criança.”
“Que insulto brutal.”
“Bem, é assim que você é.”
“Ainda não vejo por que eu deveria me importar com a agenda dos outros, no entanto.”
“Sério?”
Não havia nenhuma linha no romance original dizendo que seu pai tinha tendências sociopatas ou psicopatas.
Leonia franziu as sobrancelhas como se estivesse encarando algo incompreensível.
“Nós somos Voreoti.”
Ferio levantou um canto da boca, olhando para ela com um olhar desconfiado.
“Eles é que deveriam se adaptar a nós.”
Era uma confiança tão arrogante que parecia quase ofensiva.
“Pai, sério, um dia você vai...”
Leonia começou a responder de forma instintiva — então parou abruptamente.
Era errado pensar que Ferio talvez fosse um dia apunhalado pelas costas ou tivesse uma lâmina no lado — porque, como ele mesmo afirmou, Ferio era realmente demais para isso.
Sua riqueza aumentava a cada segundo, sua aparência era impecável, quase irritantemente perfeita.
Ele podia parecer preguiçoso, mas sua físico era firme, nenhuma parte fora do lugar, além de possuir a habilidade absurdamente poderosa conhecida como Presas do Demônio Negro.
E esse homem... era seu pai.
Um pai que a amava profundamente.
“......”
Leonia piscou várias vezes. Ela rapidamente se recuperou da ilusão.
“Pai.”
Então, de repente, ela avançou rapidamente e segurou firmemente a perna de Ferio com os braços.
“Eu adoro sua arrogância.”
“Isso não é arrogância. É confiança.”
“Mesma coisa.”
Ainda agarrada à perna dele, Leonia levantou repentinamente a cabeça.
“Quero viver minha vida amando a mim mesma tanto quanto você ama a si mesmo.”
“Então, viva assim.”
Ferio falou tão naturalmente como se estivesse dizendo para ela respirar.
“Mas eu tenho consciência.”
Leonia fez bico de arrependimento.
A menos que vivesse totalmente sozinha, não poderia viver desse jeito — especialmente quando sentiria culpa pelos outros.
“...Seu pequeno goblin com consciência.”
Ferio balançou a cabeça, exasperado, e pôs a língua para fora por um instante.
“......”
Abipher, que passava por ali e viu o pai e a filha, murmurou silenciosamente para si mesma.
Eles eram completamente iguais. Ela tinha certeza de que não existia outro par como esse pai e filha no mundo inteiro.
***
Todos os nobres do Norte participaram do chá.
Claro, crianças não eram permitidas.
Oficialmente, o motivo era o número elevado de adultos que poderia incomodar as crianças.
“É por causa do seu rosto, pai.”
No café da manhã do dia do evento, Leonia brincou com Ferio, dizendo que crianças gritavam assim que o viam.
Ela até fez um gesto zombeteiro mexendo os dedos em volta do rosto dele.
Condado e Condessa Rinne fizeram o máximo para fingir que não tinham ouvido nada e focaram na comida.
“Mas o Duque é bonito!”
“Tão elegante!”
Ufikla e Pinu continuaram felizes, sem se importar com nada.
Como punição por zombar do pai, Leonia perdeu seu lanche da tarde.
A data nos convites dos nobres era apertada, mas, na verdade, os preparativos do chá da Casa Voreoti começaram muito antes.
De uma forma ou de outra, isso mostrava o quanto Ferio valorizava Carnis e a família Rinne.
O chá começou à tarde, quando o sol começava a se inclinar para o oeste.
Carruagens chegavam sem parar pelos portões da propriedade Voreoti.
Era a primeira vez em sete anos que a mansão abria suas portas para estranhos.
Todos que chegavam estavam com expressões tensas, como se fosse um torneio de artes marciais e não um chá.
Nenhuma criança era permitida.
“Uau...”
Porém, havia uma exceção.
Flomus, descendo da carruagem, não conseguiu evitar um suspiro de espanto.
A filha do visconde Rebous Kerata, que tinha recebido convite pessoal com o brasão do Duque de Voreoti, estava claramente tensa.
A mansão ficava na extremidade da cadeia de montanhas do Norte, coberta o ano todo de neve branca. Era imensa e imponente, exalando autoridade e beleza.
As paredes exteriores pareciam envoltas por nuvens de tempestade, e os telhados totalmente pretos se erguiam de forma aguda no céu como se quisessem perfurá-lo.
Tão sinistra, que não seria surpresa se alguém tivesse morrido lá.
Flomus olhou para ela por tanto tempo que acabou inclinando a cabeça para trás e cambaleando um pouco.
Ela nunca tinha visto um edifício tão grande.
“Tá tudo bem?”
Sua mãe, a viscondessa, sorriu gentilmente de trás.
Flomus hesitou.
“Não é assustador, mas...”
Na verdade, ela estava com medo.
Este era a residência do Duque de Voreoti, afinal. O tamanho da mansão e sua aparência sombria e ameaçadora a assustavam — uma força de intimidação esmagadora.
Mesmo assim, ela tinha curiosidade.
Que tipo de lar a família Voreoti vivia?
Era verdade mesmo, como seu irmão dizia, que eles penduravam cabeças de monstros nas paredes?
E que comiam carne de monstro todos os dias?
“...Estou bem!”
Flomus cerru os punhos.
Era uma tentativa de reunir coragem, se enfeitando com resolução. Para seus pais, ela parecia absolutamente adorável.
Eles conteram o riso por ela.
Desde que começou a trocar cartas com Leonia, sua filha tímida claramente ficou mais ousada.
Diferente de antes, quando sempre perdia para o irmão mais velho, agora ela até começou a responder às vezes.
‘Aliás, o irmão dela não veio.’
Uma pontinha de orgulho surgiu no rosto inocente de Flomus.
Ela era a única convidada para o chá.
O irmão, deixado em casa, fez biquinho de inveja.
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“Sou amiga da Lady Leonia.”
Ela declarou orgulhosa aos pais, dizendo que não tinha medo.
Porém—
“Waaahhh...!”
Quando ela viu Ferio dentro da mansão, o queixo de Flomus começou a tremer e as lágrimas encheram seus olhos.