Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.

Capítulo 41

Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.


......Bem, isso é verdade.


Ferio ajustou levemente os braços que seguravam Leonia e sorriu de modo sutil.


“Você não é do tipo que desiste.”


De jeito nenhum sua filha seria alguém que abandona facilmente.


“Seu temperamento é algo fora do comum...”


“Quantas vezes tenho que repetir que não é bem assim?”


Hum. Ferio virou a cabeça e soltou algumas tossidas constrangidas.


“Aquela garota...”

Então ele deu de ombros e disse,

“Ela gosta muito do pai.”


“O quê?”


“O rosto do pai... funciona de várias formas.”


“......”


Leonia o fitou, absolutamente boquiaberta.

Parecia que o pai, cuja “face funciona de várias formas”, tinha completamente esquecido como só de vê-lo fazia as crianças chorarem até a desmaiar, lá no orfanato e na festa do chá.

‘...Huh?’

Leonia piscou, com a expressão tão vazia e enrugada quanto uma couve em conserva de sal.

‘Que diabos?’

Ela não conseguia acreditar no que estava ouvindo.

Por mais que fosse difícil de acreditar, o próprio Ferio Voreoti — a Fera Negra do Norte, capaz de fazer até uma criança sorridente desmaiar — estava mesmo se gabando para a filha sobre ser popular?

Leonia pensou que tinha escutado errado de verdade.

Porém não... neste momento, seu pai estava discretamente olhando para ela de canto de olho.

Exatamente como um grande predador que espera ser elogiado.

‘... Sério?’

Leonia abriu a boca em um “O” perfeito.

‘Será que ele realmente quer que eu fique com ciúmes?’

Que Deus. Leonia ficou realmente pasma.

Desde o último treinamento com o Penetrador, Ferio vinha de modo sutil esperando que Leonia o elogiasse, olhasse para ele com olhos brilhantes de admiração.

Era, entre todas as emoções que ele tinha experimentado, uma das mais calorosas e felizes.

Porém, com a personalidade dele, ele nunca admitiria isso abertamente.

Mesmo assim, ele não queria abrir mão dessa esperança.

Então, agora que a filha de um amigo — alguém que sempre foi apaixonada por ele — estava visitando, ele achou que não seria um grande problema provocar um pouquinho de ciúmes nela.

Ainda que sua idade mental fosse como a de uma pessoa de cinquenta anos de experiência, Ferio tinha certeza de uma coisa: sua filha o amava.

‘Olha só, esse pai...’

Leonia sorriu de forma malandra.

Ferio também sorriu.

Pai e filha, com as mentes perfeitamente alinhadas, sabiam exatamente o que o outro estava pensando só de trocar olhares.

“Então não perca.”

“Vai ficar frustrada se eu perder?”

“Um pouquinho?”

“Então é melhor você assistir ao que eu vou fazer.”

Porém, o espírito competitivo de Leonia já ardia por dentro.

‘Vou proteger meu pai!’

Algum garoto de uns seis anos, que tinha acabado de chegar de lugar nenhum, nem contava como adversário de verdade.


Leonia já se sentia confiante — sua idade mental sozinha lhe dava vantagem.

“Pai.”


Leonia esfregou o rosto todo no ombro de Ferio como se estivesse rezando por vitória.


A mão grande de Ferio a acariciou suavemente nas costas.

‘Ahh...’

‘Meu Deus...’

‘Até nesta casa... uma cena tão acolhedora...’

‘Um milagre aconteceu...’

Os criados que estavam de pé silenciosamente assistindo ousaram lançar olhares calorosos ao pai e filha, como se fossem uma família de verdade.

Leonia, com o rosto colado no ombro de Ferio como uma criança mimada, parecia um filhote embaraçado enroscado no abraço caloroso de seu predador de pai.

Quase podia ouvir um ronronar suave no ar.

“…Snif.”

Até Kara tinha tirado os óculos para enxugar uma lágrima.

Na mansão Voreoti, sempre fria, finalmente começava a soprar uma brisa suave de primavera.

Com o queixo apoiado no ombro de Ferio, Leonia olhou para baixo.

‘...Os músculos trapézio dele também são firmes.’

Como esperado do meu pai.

Infelizmente, essa brisa de primavera, tão suave, trazia junto as preferências pessoais um tanto pervertidas de uma certa jovem senhora.


***


“... Parece um cachorro.”


Um dos criados Voreoti cochichou ao apontar para o brasão pintado na carruagem da família Rinne.


“É mesmo um cachorro.”


“Huh? Sério?”

O criado, surpreso, olhou novamente para o brasão da família Rinne.

O perfil de um cachorro — que parecia querer seguir qualquer pessoa e amá-la incondicionalmente — era tão fofo e amigável que até dava vontade de lançar um graveto ou uma bola só para ver ele brincar.

“Por isso é Conde Rinne (Cachorro).”

“Ahh...”

“Agora pare de latir e empilhe esses caixotes.”

O criado mais velho deu um tapinha forte na cabeça do mais jovem que não parava de talkuar.

Enquanto os criados Voreoti descarregavam as malas da família Rinne e se apresentavam a seus próprios criados, o mordomo Kara foi adiante para receber os convidados.

“Há quanto tempo, Kara.”

Carnis abriu os braços e puxou Kara para um abraço.

“Seja bem-vindo, Conde.”

Kara perguntou respeitosamente se a viagem foi difícil.

Seu tom demonstrava preocupação genuína, especialmente porque as olheiras sob os olhos de Carnis estavam visivelmente profundas.

“Então, Ferio...”

Carnis hesitou antes de perguntar cautelosamente,

“...Ele trouxe a criança, não é?”

Tsk. Incapaz de aguentar mais, Abipher segurou o braço do marido e puxou-o ao seu lado.

O jeito que ela olhava para o marido era cheio de silêncio repreensão — controle-se.

“O mestre está te esperando.”

Como um mordomo competente, Kara não se atreveu a explicar nada. Em vez disso, guiou-os até a mansão para que pudessem ver com seus próprios olhos.

Calma, respira.

Carnis engoliu seco.

“Uau! É enorme!”


“Muito grande! Extremamente grande!”

Ufikla e Pinu gritaram, olhando para a imensa mansão.


Seus vozes animadas e agudas, junto com as repreensões de Abipher sobre comportar-se bem, tudo isso passou completamente despercebido por Carnis.

A cobertura preta contra a neve branca e opaca... e as paredes desbotadas pelo tempo...

Embora [N O V E L I G H T], a mansão Voreoti fosse um lugar familiar, onde ele já tinha ido várias vezes, hoje ela parecia estranha — e assustadora.

Carnis se viu sem fôlego diante da presença imponente da casa.

Vai ficar tudo bem.

Hoo. Carnis exalou lentamente.

A ar fresca do norte enchia seus pulmões, refrescando-o por dentro.

Em comparação com estar dentro da carruagem, isso ajudava a acalmar seu coração.

Este conteúdo é de propriedade exclusiva da Novelight.

‘Ferio, você também deve ter suas próprias circunstâncias.’

A ideia de que seu amigo meticuloso e autodisciplinado tinha um filho ilegítimo ainda era um choque — mas agora que Carnis estava de frente com Ferio, ele se sentia estranhamente calmo.

‘Você deve ter ficado tão nervoso quanto eu.’

Carnis pensou na hora em que Ufikla nasceu.

Ele tinha esperado tanto por aquele momento, de conhecer seu primeiro filho, e mesmo assim foi um pai desajeitado, estranho.

Mesmo quase tendo se preparado mentalmente por dez meses, ele tinha se atrapalhado — então, o quão pior deve ter sido para seu amigo, que virou pai de um dia para o outro?

Será que Ferio teve sequer tempo de explicar-se? Carnis sentiu vergonha por ter se sentido magoado e traído, em vez de tentar ajudar primeiro.

E também pelo filho.

‘Preciso mostrar a ela como é que se é um tio legal.’

Carnis decidiu ser um tio confiável para sua sobrinha — que ainda nem tinha visto.


***


Essa decisão durou menos de um minuto.


“Waaaahhhh! Waaaahhh!”


No instante em que viu Ferio saindo para receber a família com uma criança no colo, Carnis se quebrou em soluços altos e descontrolados.


“Waaaahhh!”

Surpreendido com a explosão repentina do pai, Pinu também começou a chorar.


“Como assim?! Como assim?!”

Carnis bradou, batendo com as mãos no chão, e abraçou seu filho chorando descontroladamente.

Sua filha mais velha, Ufikla, se aproximou silenciosamente e fingiu que não os via, ao lado de Abipher.

“O que foi que aconteceu com vocês?!”

Abipher o repreendeu, com o rosto vermelho de vergonha. Chorando assim na casa de outra pessoa — que cena! Mesmo amando muito seu marido, ela não ia ficar ali toda vez que ele fizesse papel de bobo na porta de alguém.

“Eu confiei em você! Acreditei em você!”

“Então, não chore!”

“Então por que você—”

Carnis arregalou os olhos verdes, molhados de lágrimas.

Aqueles olhos tristes e bagunçados se voltaram para Leonia, que estava nos braços de Ferio.

“Waaaah!”

Carniss chorou ainda mais alto.

“Eek!”

Assustada, Leonia envolveu os braços ao redor do pescoço de Ferio e enterrou o rosto nele.

“Você não me contou que seu amigo era tão doido—quer dizer, estranho!”

Pelo menos, ela se segurou de xingar, já que era amigo do seu pai.

“......”

Ferio não disse nada.

Na verdade, ninguém aqui estava mais chocado do que Ferio mesmo.

Aquele idiota era seu único amigo, e ele fazia tempo que não via — como ia saber que ele tinha virado esse cara?

Se ele soubesse, nunca teria deixado Leonia conhecê-lo.

Já estava preocupado com a maturidade precoce dela — esse tipo de influência poderia ser catastrófico.

Sentiu uma dor de cabeça pela primeira vez na vida.

Foi então —

“Duca Voreoti.”

Uma garotinha tinha silenciosamente se aproximado, agora parada bem na frente deles.

“Ufikla.”

Ferio se abaixou um pouco. O olhar de Leonia caiu junto com o dele.

A menina com cabelo castanho claro bem penteado piscou com olhos verdes.

Era Ufikla Rinne, a filha mais velha de Carnis e Abipher.

Com uma carinha toda asseada, que lembrava um filhote de raposa, Ufikla cumprimentou com toda educação.

"Meu nome é Ufikla Rinne. Obrigada por nos convidar para a Casa Voreoti. Ficaremos sob seus cuidados pelos próximos dias."

“...Você deve estar cansada da longa viagem, moça.”

Enquanto os pais faziam cena, a filha mais velha, bem treinada, tinha a sensatez de cumprimentar o senhor da casa.

Ferio sentiu um pouco de alívio.

Leonia ficou impressionada.

“Uau, você é realmente bem treinada.”

Observando a etiqueta sólida, Leonia elogiou, claramente impressionada.

“......”

Ufikla olhou fixamente para Leonia.

“......”

Leonia retribuiu o olhar, as duas jovens se encarando firmemente.

Elas eram apenas crianças, olhando uma para a outra — mas, de alguma forma, o clima ao redor começou a mudar de modo estranho.

Até mesmo Ferio ficou surpreso, e Leonia mesmo aparentava estar visivelmente nervosa.

‘O que... o que é isso?’

Olhos verdes que pareciam medí-la minuciosamente estavam completamente fechados para qualquer brecha.

Leonia não estava evitando o olhar — não havia motivo — mas não conseguia entender por que essa menina que ela nunca tinha visto antes a encarava daquele jeito.

A entrada ficou silenciosa.

Como o silêncio que precede uma nevasca.

Até mesmo Carnis, que chorava como bobo há poucos instantes, tinha parado de chorar.

“...Ela é mesmo sua filha, Sua Graça?”

Ufikla foi a primeira a falar.

“...E o que tem?”

O tom de voz soou áspero aos ouvidos de Leonia, e ela acabou respondendo com uma provocação que não pretendia.

“Quando eu crescer, vou me casar com Sua Graça.”

Ufikla, ousada, soltou uma bomba.

“Então, isso quer dizer que vou ser sua mãe!”

A boca de Leonia se abriu de surpresa.

“Por que você tem que ser gentil comigo?”

Ufikla, como se pensasse que estava fazendo um favor, continuou.

“Então, é melhor você cuidar bem de mim!”

“Que diabos é essa doida—!”

“...Nossos convidados devem estar cansados da longa viagem. Por favor, conduza-os aos quartos.”

Ferio cortou rapidamente Leonia antes que ela dissesse algo pior, assumindo seu papel de anfitrião.

Era a recepção mais triste que já se viu, sem esperança ou sonhos.

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