
Capítulo 43
Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.
Apesar de tudo o que tinha acontecido, a família Rinne ainda era hóspede de honra do Duque de Voreoti.
Eram tratados com o máximo cuidado e hospitalidade.
Os servidores de Voreoti também faziam o possível pelos visitantes tão raros.
Leonia não era exceção.
— Você dormiu bem?
Ela cumprimentava a família Rinne todas as manhãs.
Tradicionalmente, era papel da duquesa perguntar pelos hóspedes pela manhã, mas como o duque ainda era solteiro, era Leonia quem cumpria esse dever.
Abipher ficou impressionada com a postura impecável da garota.
— Nossa, que postura tão refinada.
— A condessa Bosgruni é minha tutora de etiqueta.
— Ela é bem famosa na sociedade. Dizem que ela é tão assustadora com uma xícara de chá que jovens nobres desmaiam só de olhar. A reputação dela chega até a capital.
Leonia sorriu de maneira agradável. Mas por trás daquele sorriso inocente, escorriam gotas de suor frio e uma tremenda sensação de medo.
‘...Ela provavelmente matou alguém com uma xícara de chá. Como é que todo mundo sabe disso?!’
Leonia pensou na briga entre o conde Bosgruni e seu marido.
A condessa deve ter conquistado a capital na juventude—com uma xícara de chá.
— Imagino que você seja bem parecida com ela também, madame.
Para Leonia, Abipher também se assemelhava à condessa Bosgruni.
— A maneira como ela repreende a filha e o marido—ela rivaliza com um cão de guarda imbatível.
Felizmente, Abipher interpretou as palavras de Leonia, carregadas de medo, como elogio.
Embora sua primeira impressão tenha sido, bem, intensa, Abipher Rinne era, no fundo, gentil e amável.
Observando-a agora, Leonia lembrou de Connie, a professora do orfanato que havia cuidados dela.
E, assim, ela não sentiu mais medo.
Enquanto conversavam, Ufikla e Pinu entraram cambaleando, com sono no rosto.
— Bom dia.
Leonia foi a primeira a cumprimentá-los.
Pinu, ainda tímido, rastejou até Abipher e se escondera em seu abraço.
Só depois de se aconchegar, timidamente levantou uma mão gordinha e acenou.
— Oi...
Ufikla, por outro lado, murmurou seu cumprimento com uma voz tímida.
Desde que foi severamente repreendida por sua brincadeira de “ madrasta”, ela parecia visivelmente abatida toda vez que via Leonia.
Leonia não pôde deixar de sentir um pouco de pena dela.
— Oi.
A pequena garota de sete anos tocou o ombro da mais alta, de seis anos.
‘Mesmo achando que ela era um pouco...’
Leonia, que inicialmente comparou sua primeira impressão de Ufikla a um cachorrinho, reviu seu julgamento.
— Afinal, ela só é uma garotinha de seis anos.
A idade mental de Leonia era muito maior que a dela, e mesmo deixando isso de lado, ela era mais velha. Como mais velha, não era difícil cuidar da filha da amiga do pai.
Por isso, decidiu ensinar uma lição.
— Tenho também algo para pedir desculpas.
Como uma irmã mais velha de verdade, Leonia foi quem estendeu a mão primeiro.
— Quase te chamei de louca.
Abipher, que observava a cena comovente entre as duas pequenas, ficou boquiaberta, chocada.
Ao perceber a expressão no rosto da condessa, Connie sentiu que tinha dito a palavra proibida e começou a mexer-se, cheia de culpa.
— Louca? Louca?
Pinu cutucou o queixo da mãe e repetiu a palavra como um passáro.
— Isso é uma palavra feia!
A esperta Ufikla reconheceu na hora. Ela ficou tão chocada que até perdeu o tom formal.
— Mas eu já peço desculpas, não foi?
Leonia, que tinha feito a palavra proibida, sentiu-se muito melhor agora que tinha desabafado.
— Você é uma coitadinha. Deixa eu te contar uma coisa—virar madrasta não é tão fácil assim, sabia?
— Eu... se eu me casar com o duque, serei a madrasta dele!
— Acha que é só isso, né?
Com um breve estalido de pena na língua, Leonia suspirou.
— Sobre a vida, vou te contar uma coisa.
Com sua mentalidade endurecida pelo realismo e a idade mental quase chegando aos trinta, Leonia começou a ensinar a uma garotinha de seis anos, que ainda não entendia as nuances do mundo.
— Nada na vida é fácil. A realidade é dura.
— Dura?
— Existem mais de vinte anos de diferença de idade entre você e meu pai. Sabe o que isso significa?
Ufikla balançou a cabeça negativa.
— Isso quer dizer que, se você diz que ama meu pai, está fazendo dele um pervertido total. Vinte anos?! Isso é escandaloso!
Connie não tinha certeza de mais nada, mas tinha uma certeza: os pulmões da condessa Rinne estavam explodindo de tanta raiva agora mesmo.
— Mas...
Ufikla gaguejou com voz trêmula, relutante em desistir de seu primeiro amor.
— Ouvi dizer que o amor tudo supera...
— Quem foi que disse isso?
— Um... continho de fadas...
Leonia desejou de coração que Ferio estivesse ali para ouvir isso.
Se o homem que tanto tentou recuperar sua inocência de criança tivesse escutado, talvez finalmente jogasse fora todos aqueles livros de contos sentimentais que ainda assombravam sua estante.
Contos de fada eram mais perigosos que livros banidos.
De repente, Leonia se lembrou de sua mãe biológica, que apaixonada cega, fugiu de casa e acabou ficando grávida.
Ela levantou a mão para massagear o pescoço, que começava a doer só de pensar nisso.
Precisava de apenas uma Regina perdida em um mundo de fantasias delirantes.
— Vem cá, sua.
A forma como ela fez sinal com os dedos parecia mais uma gangue de rua atraindo um transeunte pobre do que uma acolhida calorosa.
Assustada, Ufikla olhou rapidamente para Abipher.
Mas nem mesmo Abipher conseguiu impedir.
Leonia tinha boas intenções, mas para todos os outros, a pressão que ela transmitia tornava impossível recusar.
Era a prova de que Leonia tinha começado a incorporar realmente o nome Voreoti.
— Vou te ensinar uma coisa boa, tá?
Ufikla era a filha preciosa de Carnis Rinne—única amiga de Ferio.
E herdeira da Casa Rinne, uma das casas nobres mais ricas, além das duas linhas ducal e das quatro marquises.
Ela precisava de orientação adequada.
Leonia ofereceu sua ajuda com generosidade—de coração aberto.
— Ouça bem.
Sobre a vida—
Começou a palestra de Leonia.
Esta tradução é de propriedade intelectual da Novelight.
***
O Império Bellius era dividido em cinco regiões.
No centro ficava o palácio imperial e a capital. A leste, havia uma região repleta de charme exótico. A oeste, florestas e lagos de um azul encantador. Ao sul, praias de águas sem fim. E, ao norte—um território eternamente coberto de neve, mesmo na primavera.
Dentre elas, a Oeste era conhecida como o santuário dos guerreiros.
Crianças da região cresciam com espadas de brinquedo na mão. Assim como aprendiam as letras, cada bairro tinha pelo menos um instrutor de esgrima para ensinar o uso da espada.
Famílias nobres muitas vezes contratavam cavaleiros ativos como tutores particulares, pagando bem por isso.
— E...
Ferio arregaçou as mangas até os cotovelos e olhou para as três crianças reunidas na sua frente.
Leonia, com os cabelos negros presos firmemente; Ufikla, com o cabelo castanho macio trançado em bolinhas de ambos os lados; e Pinu, com o cabelo castanho claro reunido num rabinho de cavalo curtinho que parecia uma maçãzinha.
Ferio deu uma inclinada de cabeça.
— Agora estão se dando bem?
Já fazia mais de uma semana que a família Rinne estava na propriedade Voreoti.
Levando em conta como tudo começou, Ferio achou que seria difícil as crianças se aproximarem—mas, para sua surpresa, elas criaram uma ligação forte.
Ufikla e Pinu agora seguiam Leonia como patinhos.
— Tornamos irmãos de alma.
Leonia deu um joinha orgulhosa.
O gesto parecia mais de um bêbado velho do que de uma jovem refinada, mas Ferio já havia aprendido que esse tipo de dissonância não o perturbava mais.
Ele sabia, por experiências diversas, que tratar sua filha como qualquer criança comum não era possível.
Por isso, desenvolveram uma relação pai e filha bastante única—and Ferio gostava disso.
Era uma dinâmica familiar que ninguém mais conseguiria replicar. Era Voreoti na essência.
— Como isso aconteceu?
Ferio perguntou, curioso para saber como ela conseguiu conquistá-los.
— Eu ensinei o que é a vida.
— Condessa... peço desculpas de verdade.
Ferio se virou para Abipher, que estava ao lado, e pediu desculpas.
— Por que está se desculpando?!
Um punho redondo e pequeno bateu repetidamente na coxa de Ferio.
— ...Tá tudo bem.
Vestida com roupas confortáveis para treino, Abipher sorriu timidamente.
Ela tinha estado presente na “lição de vida” de Leonia e ficou bastante abalada com o que ouvira.
— Leona disse que... o primeiro amor deve doer.
Ufikla, que agora chamava Leonia de “irmã mais velha” com respeito sincero, tinha um olhar sério nos olhos.
Mas, ao levantar o rosto para Ferio, uma expressão de nostalgia estranha tomava seu rosto jovem.
— Ela disse que a dor faz você crescer.
Somente quem teve o coração partido no primeiro amor pode se tornar adulto. E quem realmente conhece o amor também precisa ter coragem para deixar ir.
Da palavra da irmã, Ufikla aprendeu uma lição profunda.
— Então, decidi desistir de me casar com o duque.
Por todos.
Sua voz séria entregou uma despedida calma.
Os cavaleiros próximos lutaram para conter a risada. Se não fosse o olhar mortal de Ferio que lhes dizia para ficarem quietos, provavelmente teriam explodido em gargalhadas.
— Obrigada por sua consideração.
Ferio aceitou a despedida com dignidade.
Nesse momento, Carnis chegou ao campo de treinamento com seu próprio uniforme de treino.
— ...Que bom que ela foi dispensada antes dele chegar.
Leonia sussurrou para Ferio, observando Carnis entrar, ainda sorridente, como se não soubesse de nada.
Ferio deu uma leve palmada na cabeça da filha, concordando.
— Hoje, a condessa vai liderar os treinos de espada.
— E você, pai?
— Pode emprestar o duque para mim por um tempo?
Carnis colocou um braço sobre o ombro de Ferio e puxou-o para perto.
— ... Por quê?
Leonia olhou de relance, desconfiada.
— É só treinar.
Ferio deu um tapinha leve nas costas da filha, direcionando-a para Abipher, alertando para que não criasse conclusões bobas e fosse treinar.
Puxada por ela, Leonia olhou para os dois homens adultos que subiam na plataforma de treino.
— Suspeito...
— O quê?
Abipher sorriu enquanto entregava uma espada de madeira para Leonia.
— Sempre tem um homem perto do meu pai.
— Ahh...
Então é esse tipo de situação mesmo, pensou Abipher, rodando a espada de madeira na mão como se fosse um lápis, tentando não rir.
— Eu... tinha umas dúvidas quando namorávamos.
— Sabia!
Seguindo Lupe e Mono, Carnis agora fazia oficialmente parte da lista de suspeitos de Leonia em relação ao “homem suspeito perto do papai”.
— Devemos focar agora?
Abipher, já bastante acostumada com a personalidade única de Leonia, gentilmente guiou a garota até as outras crianças e colocou a espada de madeira em suas mãos.
A aula de espada de Abipher era clara e eficiente. Ela demonstrava cada movimento com precisão, explicava brevemente e permitia muitas repetições—dentro do razoável.
Leonia praticava com zelo, cuidado para não exagerar.
Enquanto isso, Ufikla balançava sua espada com habilidade impressionante, até tentando movimentos avançados.
E Pinu—apesar de ter apenas dois anos—segurava sua espada com uma destreza surpreendente.
— Você é uma cavaleira, senhora?
Leonia perguntou, impressionada com a habilidade de Abipher.
— Na região oeste, a maioria aprende a manejar a espada.
— Meu avô é um cavaleiro muito forte!
— Cavaleiro!
Ufikla e Pinu responderam orgulhosos.
— Ele pertence à prestigiada Ordem Reboeo!
Se no capital havia a Ordem Imperial, ao norte os Cavaleiros Gladiago, na região oeste ficava a Ordem Reboeo.
Em termos históricos, era muito mais antiga e venerável do que qualquer uma das ordens centrais ou do norte.
— Uau!
De repente, um grito forte surgiu do campo, seguido por uma carga de energia feroz como uma tempestade passando pela arena.
Abipher colocou-se defensivamente à frente das crianças e olhou para cima.
— Devem estar em treinamento de duelo.
— Quem está?
Leonia ficou pasma. Ela nunca tinha visto os cavaleiros tão animados assim.
— O duque... e meu marido.