
Capítulo 39
Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.
“Leo tem aprendido muito com a filha do Visconde Kerata.”
Ferio tinha uma grande estima por Flomus.
Ela era uma presença preciosa—uma pessoa que, mesmo que por um breve momento, fazia sua filha, que já tinha uma maturidade precoce, parecer uma criança da mesma idade.
Seja qual for o caminho que aquela menina escolhesse seguir no futuro, ele pretendia apoiá-la.
“Elas também têm trocado cartas.”
Ele recordava vividamente o dia em que Leonia voltou de uma ida à cidade com sua aia e os cavaleiros acompanhantes, exibindo orgulhosamente o papel de carta que havia escolhido.
Por isso, tinha presenteado ela com cera de selar e um carimbo com o brasão da família gravado. Leonia ficou muito mais encantada com isso do que com o papel de carta novo.
“...S-Sinto muito, mas...”
Ferio, mergulhado na calorosa lembrança, desviou ◆ Noveligth ◆ (Apenas na Noveligth) seu olhar.
“A carta, aquela que chegou até minha filha...”
O Visconde Kerata puxou mais um lenço embebido e enxugou a testa.
Ferio inclinou levemente a cabeça.
“A carta?”
“Bem, como posso dizer...”
A carta que Leonia escreveu, como foi recitado por Flomus no dia anterior, estava repleta de conteúdo totalmente inadequado para uma criança de sete anos.
Flomus havia ficado empolgada com o que considerava uma escrita madura e impressionante, mas o Visconde Kerata não compartilhava do entusiasmo.
Técnicas para nocaute com uma xícara de chá.
Simular uma torneira como personagem de um livro de histórias.
Homens suspeitos rondando ao redor do pai dela.
“É só... adulto demais? Ou talvez avançado demais...”
Para ser honesto, parecia algo escrito por um adulto desiludido e emocionalmente vazio.
Mas ele não teve coragem de dizer isso na frente do pai do autor da carta—especialmente não ao Monstro Negro.
Naquela hora, ele preferiria ser cravado por um chifre de rena e dizer que viveu uma vida plena.
“...Exatamente o que ela disse na carta?”
Ferio, percebendo algo, fechou os olhos apertando-os.
“Pois é...”
O Visconde Kerata se preparou e finalmente falou.
***
“Leonia Voreoti.”
Nessa noite.
Ferio chamou Leonia, que estava lendo um livro na sala de estar.
“O que foi, Papai?”
Leonia olhou para ele com uma expressão inocente ao ser chamada para o escritório.
“Leonia Voreoti.”
Pela primeira vez desde que recebeu esse nome, Ferio a chamou pelo nome completo.
E disse duas vezes.
Isso já mostrava o quanto Ferio estava claramente abalado no momento.
“Faz tempo que desisti da sua inocência de criança.”
Como quem perguntasse: Você também sabe disso, né? Leonia assentiu.
“Sim. A gente desistiu de comum acordo.”
Foi após o escândalo envolvendo Regina e sua gravidez na adolescência, descoberto depois que ela passou tempo demais vivendo numa fantasia de sonhos de infância.
“Mas isso não dá o direito de sair por aí destruindo a inocência de outras crianças.”
“Eu não fiz isso!”
“O Visconde Kerata disse que leu a carta que você enviou para a Flomus.”
“Aff, por que os adultos de hoje em dia não respeitam a privacidade das crianças?”
Leonia reclamou com cara de idosa rabugenta, como se fosse o fim do mundo.
Ferio, sem aguentar mais, deu um tabefe na testa dela.
“Ai!”
“Você que é o problema.”
“Ugh, o que foi agora?!”
“Coloque a mão no coração e pense.”
Ferio questionou se o conteúdo da carta realmente tinha problema.
Embora resmungando, Leonia colocou uma mão no peito e fechou bem os olhos. Então, ela tentou recordar a carta.
“...Pois é, acho que foi um pouco sem filtros mesmo.”
Claramente incomodada com a pergunta, ela abriu os olhos e olhou para baixo, envergonhada.
“Mas eu tentei suavizar o texto.”
“Como dizendo que estava aprendendo a nocaute com uma xícara de chá?”
“Só estava escrevendo o que tenho aprendido!”
“Trazer a Condessa Bosgruni para te ensinar etiqueta, não técnicas de assassinato.”
“Isso não foi assassinato—foi defesa pessoal!”
Leonia tinha visto de perto a Condessa Bosgruni subjugar Ardea com uma xícara de chá. Uma xícara era uma arma mais forte que um dicionário grosso.
Aliás, ela achava que era culpa do pai dela por ter posto alguém como aquela como sua professora de etiqueta, ela argumentou.
“Além do mais, aprender um pouco de autodefesa é importante, né?”
“Para quê, se não é melhor usar as Presas da Fera?”
“Não acha isso mais brutal?”
As Presas da Fera significavam morte rápida e implacável.
“Se alguém mexer com você, tem que morrer. O que mais eles vão fazer—viver?”
Ferio falou como se essa fosse a conclusão óbvia.
“...Aff.”
A irritação de Leonia desapareceu na mesma hora.
“Bom, de qualquer forma, vou tomar mais cuidado.”
Ela bufou pelo nariz e encolheu os ombros.
Ferio expirou lentamente, puxando-a para seus braços.
“O Visconde Kerata não bisbilhotou sua carta.”
No caminho até a sala de jantar, Ferio explicou o que tinha acontecido.
“A filha dele ficou tão feliz de trocar cartas com você que leu para ele.”
“Entendi.”
A estima de Leonia pelo Visconde foi restabelecida.
“Mas ela também tem uns gostos meio esquisitos.”
Leonia tentou se defender, dizendo que não era a única estranha.
“Você deveria falar.”
Ferio achava que alguém conhecido na propriedade, como um verdadeiro fã de músculo, não tinha propriamente autoridade para falar.
Indignada, Leonia deu uma leve batidinha na testa dele com a cabeça.
Foi uma cabeçada inocente, sem maldade.
“Sabe o que ela me ensinou?”
Leonia segurou as orelhas arredondadas de Ferio com as mãos e sussurrou:
“Na verdade, rena...”
As pernas longas, que estavam caminhando para frente, de repente pararam.
O rosto de Ferio ficou sério, com uma expressão indescritível.
E Leonia continuou alegre e feliz.
“...Entendi.”
Assentindo como se algo finalmente tivesse feito sentido, Ferio retomou a caminhada.
“A família Kerata é totalmente do Norte.”
“Hã? Sério?”
Você não ficou mais espantada?
Dessa vez, foi o rosto de Leonia que ficou rígido.
Este texto é de propriedade intelectual da Novelight.
“Você realmente subestimou os nortistas até o núcleo.”
Na sala de jantar, Ferio acomodou Leonia na mesa.
“Os Nortistas puros-sangue são pelo menos metade loucos.”
“Isso é só uma forma de você se insultar, sabia?”
Ele era, afinal, chefe de uma dessas casas de sangue puro.
Por isso, sabia que não estava muito bem de cabeça.
Leonia, percebendo que seu comentário verbal não tinha sido tão eficaz quanto ela esperava, fez bico. Achou que tinha dado um golpe crítico, mas ele parecia completamente indiferente.
Enquanto pai e filha discutiam, um jantar esplendoroso foi disposto diante deles.
Leonia comemorou ao ver o frango cozido lentamente com molho de creme.
“Leo.”
Antes que ela matasse uma grande mordida na porção cortada, Ferio falou, colocando o garfo na salada.
“...Por que uma personagem de conto de fadas precisa puxar uma torneira?”
Os empregados presentes quase tiveram os olhos saltando para fora das órbitas.
“Ah, essa?”
Leonia mastigou o frango pensativamente e engoliu.
“A Flo disse que leu O Anjo e o Caçador.”
O Anjo e o Caçador. Ferio conhecia bem essa história.
Até o temível Monstro Negro já fora uma criança segurando livros de contos de fadas.
“Na história, o caçador rouba as roupas do anjo enquanto ela toma banho e faz dela sua esposa, né?”
“Isso mesmo.”
“Depois, a própria ângela acha as roupas e volta aos céus com os filhos.”
“Exatamente.”
“A Flo disse que sentiu pena do caçador.”
Por isso, Leonia escreveu na carta que o caçador era, na verdade, um criminoso terrível.
Para ela, a história era quase igual a “O Lenhador e a Fada” do mundo que ela lembrava.
Enquanto o livro tentava fazer o caçador parecer uma vítima, Leonia nunca sentiu pena dele.
“O caçador é um estuprador.”
Leonia cerru o punho pequeno com força.
Ferio assentiu. De fato, coisa que ninguém deveria fazer nos dias de hoje.
Começou a pensar seriamente em como destruir todas as cópias de “O Anjo e o Caçador” no Norte.
“Você se saiu bem.”
“Foi mesmo?”
“Mas isso não dá o direito de escrever palavrões na carta.”
O Visconde Kerata não se preocupou com o conteúdo da carta de Leonia, mas sim com a escolha das palavras.
“Quem escreve que a torneira deve ser puxada, colocada na boca de alguém e comida?”
Os dois empregados que estavam atrás deles, discretamente, apertaram os joelhos juntos.
“Onde você aprendeu uma coisa dessas?”
“...No orfanato?”
Leonia atribuiu a culpa aos alvos mais práticos—os professores do orfanato.
Os olhos de Ferio se estreitaram.
Por causa disso, a equipe do orfanato, que agora estava presa na masmorra subterrânea da mansão, ganhou mais uma rodada de boas-vindas fervorosas.
“Leo.”
Depois do jantar, sobremesas e vinhos foram servidos.
Os empregados que circulavam pelo cômodo estavam visivelmente mais cuidadosos do que o normal.
“Daqui a alguns dias, vamos receber uma visita na mansão.”
“Uma visita?”
Leonia perguntou, cutucando seu bolo de veludo vermelho com o garfo.
“Quem? Aquela velharia do Marquês, o vovô?”
“Por que esse velhaco viria como convidado?”
Ferio parecia genuinamente enojado.
“Prefiro que você o insulte.”
“Você nem acredita na educação que uma mãe dá para a filha...”
A educação nessa casa era uma podridão total. Leonia pensou consigo mesma, enquanto o cremoso queijo e o bolo fofo derretiam deliciosamente na boca.
“Então, quem será?”
Na verdade, poucas pessoas viriam àquela mansão como convidadas inicialmente.
A maioria dos visitantes eram vassalos de Ferio Voreoti ou comerciantes entregando utensílios domésticos.
“Um amigo meu.”
Ferio completou: “Por enquanto.”
“Pfft.”
Leonia quase soltou uma resposta espontânea, como um teste de reflexo no joelho—que tipo de amigo o pai dela poderia ter?—mas sua mão parou no ar.
O garfo, com um pouco de creme, escorregou dos dedos e caiu no chão.
Era só uma pessoa.
Uma única pessoa no império conhecida como o verdadeiro amigo duque Voreoti.
A pessoa que levou Ferio a tomar a decisão impulsiva de adotar.
A responsável pelo milagre que uniu pai e filha naquele orfanato.
Para Leonia, ele era um benfeitor incomparável.
“... Conde Rinne?”