
Capítulo 38
Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.
Depois do treinamento com as Presas.
Ferio, que veio conferir como Leonia estava antes de dormir, disse:
"De agora em diante, corra uma volta ao redor do campo de treinamento todo dia."
Foi uma decisão que ele tomou naquela noite, após pensar bastante, ao ver a resistência de Leonia — que era praticamente inexistente.
Antes de treiná-la para lidar melhor com as Presas, era mais importante fortalecer seu corpo.
Naturalmente, Leonia resmungou.
"Que chatice..."
Ela se contorcia sob o cobertor fofinho. Seus pezinhos minúsculos protestavam.
"Se é tão chato assim, por que você até respira?"
"Você não sabe, mas estou muito ocupado."
"Sua consciência secou junto com sua inocência de criança, né."
Ferio ficou surpreso.
Em toda a propriedade Voreoti, a pessoa que mais ficava de moleza, sem fazer nada, era Leonia.
"Acorda de manhã, toma café da manhã, brinca um pouco, recebe aulas da Ardea, almoça, brinca de novo, faz um lanchinho, tira uma soneca, acorda, brinca, jantar, toma banho e vai dormir."
Ferio recitou sua rotina diária palavra por palavra, sem errar uma só vez.
Até as aulas eram só a cada duas semanas.
"Ufa, nem sabia que tava tão ocupada."
Mas Leonia fingiu que não era nada, com um sorriso maroto. Claro que isso não tinha efeito algum sobre seu pai bestial. Ele apenas bufou.
"Vai correr logo depois do almoço."
"Se eu correr logo depois de comer, vai doer meu estômago!"
"Até onde eu sei, você brinca por duas horas inteiras após o almoço..."
A rotina de Leonia estava na palma da mão de Ferio.
Enquanto ela ficava boquiaberta, um sorriso — que soava muito jovem para quem ele era — se insinuava nos cantos dos lábios de Ferio.
Leonia enterrou o rosto no travesseiro.
A criaturinha tinha perdido.
"Seu pai mau..."
Ela apareceu a cabecinha de fora do travesseiro, inflando as bochechas.
Suas pequenas narinas, achatadinhas contra as bochechas fofas, se estreitavam como amêndoas. Um olho ficava meio fechado por causa do apertão.
"Tem que fazer exercício regularmente se quer ficar forte."
Disse Ferio, ajeitando o cobertor ao redor dela.
"Então... se eu fizer tudo isso, posso brincar com as princesas cavaleiras e os grandes irmãos?"
Leonia estendeu o dedinho mindinho, prometendo que faria o melhor possível se aquela condição fosse atendida.
"Se prometer que não vai assediá-los sexualmente."
"Eu não assedio ninguém!"
"O Mono fez uma denúncia."
As inspeções musculares da jovem distraíam os cavaleiros de seu treinamento.
"Nossa, eu não imaginava que aquele fosse o tipo que dedura!
Ela está falando de mim às minhas costas?!", indignou-se Leonia, sentindo-se traída.
Nunca pensou que o cavaleiro rígido fosse dar uma facada nas costas assim.
"Estava feliz brincando com as princesas cavaleiras e os grandes irmãos!"
"Esse é o problema."
Leonia estava ficando demais íntima demais com os cavaleiros.
Eles se orgulhavam e se sentiam gratos por ela ter reconhecido os músculos que tinham construído com suor, esforço e lágrimas.
Leonia não era apenas uma criança musculosa pirata.
Ela era uma criança musculosa com conhecimento e gratidão.
Enquanto admirava seus músculos, também dava várias sugestões.
"De onde ela tirou tanto conhecimento sobre músculos..."
Segundo o relatório do Mono, a compreensão de Leonia sobre a estrutura muscular estava em nível profissional.
"Eu só sei bastante de músculos!"
Leonia sorria orgulhosa.
Ferio rapidamente buscou na memória.
Ele tinha uma lembrança vaga de ter pedido vários livros de anatomia e medicina para o médico da família.
Mas esses livros tinham sido transferidos para a sala do médico, não para a biblioteca.
"E eu só tenho um amor profundo por músculos."
Leonia bateu no peito com o punho.
"Amor pelos músculos..."
Ferio nunca imaginou ouvir palavras tão bizarras na vida.
Desde que conheceu Leonia, ele tinha vivido várias experiências novas — nenhuma mais inquietante do que esse "amor pelos músculos".
"Gosto de músculos, independentemente de gênero."
Ela continuou explicando que homens têm músculos masculinos, e mulheres, músculos femininos — revelando suas preferências bem específicas.
"Bem, isso é..."
Ferio ficou calado.
Um verdadeiro pervertido desnecessariamente igualitário e perturbador.
"Para as mulheres, acho que o melhor são os abs. Para os homens, os músculos da cintura."
Leonia exibia suas preferências pessoais com detalhes.
"E o papai tem um peitoral ótimo."
"Isso... é a primeira vez que ouço um elogio assim."
"Já experimentei seus músculos de perto, lembra?"
Quando ela veio para o Norte, o impacto do Portão a deixou tonta, e ela foi carregada nos braços de Ferio.
Naquela época, ela viu aqueles peitorais através do tecido — e depois teve uma visão direta com seus próprios olhos.
"Papai, você é o melhor!"
Seu dedinho de contente brilhou suavemente sob a luz da lua além da janela.
Brilhou de uma forma ridiculamente desnecessária.
......
Ferio ponderou seriamente se aquela declaração cabia como assédio sexual.
***
Recentemente, a jovem condessa Flomus, filha do Visconde Rebous Kerata, andava numa matéria ótima de humor.
Tudo por causa da carta que tinha à sua frente.
Excelente, agora tenho uma amiga para trocar cartas!
A pequena nobre, que antes invejava o irmão mais velho e os primos que recebiam cartas, agora batia com os pézinhos empolgada acima da cadeira, enquanto olhava fixamente para a carta.
Perto dela, havia um espelho para cartas, que uma empregada lhe entregara com cuidado.
Flomus delicadamente passou as pontas dos dedos pelo envelope rosa.
A boca do envelope, macia como seda, estava selada com cera preta — com a imagem de uma fera rugindo.
O brasão de nada menos que a Casa Voreoti.
Nem meu irmão recebeu uma dessas.
Flomus virou amiga por correspondência com Leonia depois de ficarem próximas durante um chá recente.
No começo, ela tinha ficado muito assustada, mas, depois de trocar cartas e se encontrarem mais algumas vezes, ficaram muito mais amigas.
Com cuidado, ela abriu o envelope com a espécula e puxou a carta de dentro.
Um aroma doce a recebeu primeiro. Junto com a carta, veio um doce de morango com leite.
Depois descobriu que o doce de morango com leite que Leonia distribuíra na festa do chá era uma sobremesa feita por um famoso pâtissier do Império.
Segundo dizem, um doce custava o equivalente a um bolo de luxo inteiro.
E esse doce em particular estava atualmente monopolizado pela Casa Voreoti.
Ferio tinha comprado os direitos exclusivos dele para sua única filha.
Sem que Leonia soubesse, o próprio doce que ela colocava na boca por tédio a fez uma celebridade em todo o Império.
Claro que Flomus não sabia de tudo isso. Ela apenas colocou o doce precioso na boca com muito cuidado.
O sabor rico de morango com leite derreteu na saliva dela, envolvendo suavemente todo o corpo.
Por um instante, mergulhada na felicidade, Flomus abriu a carta com atraso.
Ela guardou o restante do doce na caixinha de joias na gaveta, para proteger do irmão.
Cheque-cheque.
"Flo."
Nesse momento, o visconde Kerata bateu na porta.
"Pai!"
Flomus pulou da cadeira e o cumprimentou com um sorriso radiante.
"Queria saber o que minha filhinha tava aprontando, então vim dar uma olhada."
"Recebi uma carta!"
"Da jovem senhorita da Casa Voreoti?"
"Sim!"
Filha de orgulho — ela avisou que estava quase para ler a carta.
O visconde Kerata sorriu com ternura.
Por causa da timidez de Flomus, o visconde e a esposa sempre se preocupavam se ela conseguiria se dar bem com crianças da idade dela.
Mas, desde aquele chá com Leonia, essas preocupações sumiram.
Ela era só um pouco mais lenta que os outros — socializava à sua maneira.
E, ah, como ela tinha explicado com entusiasmo sobre renas para as outras crianças.
Lembrando disso, o visconde sentiu-se profundamente satisfeito. Flomus deu um sorriso inocente ao pai.
"Se for possível, pode me contar o que diz a carta?"
Quando ele perguntou, Flomus assentiu ansiosa, como um cachorrinho prestes a sair para passear.
O visconde Kerata deu risada, sua barriga grande balançando de acordo com o movimento.
Ela trouxe a carta para ele.
"Para a Flo mais fofa do mundo, segurada pelas duas mãos mais queridas —"
"A jovem senhora da Voreoti é realmente esperta."
Até ela ter reconhecido que nossa Flo é a mais fofa do mundo, o comentário do visconde Kerata deixou Flomus corada com um sorriso tímido.
"Oi, Flo! Como você está?"
Flo voltou a ler a carta.
"Recentemente, estou..."
Conforme a carta alegre seguia, o rosto do visconde Kerata ficava cada vez mais sério.
Enquanto isso, o rosto de Flomus ficava ainda mais radiante.
"E assim, aprendi a subjugar alguém com uma xícara de chá com a condessa Bosgruni."
A leitura inocente da carta não parava, continuava sem parar.
***
No dia seguinte, o visconde Kerata foi ao castelo da Casa Voreoti mais apressado do que nunca.
Na verdade, não foi só por causa da carta...
Ele enxugou o suor da testa com um lenço.
Havia uma ordem do duque que precisava acompanhar, além de relatar a remessa para a guilda de mercadores.
Então, tecnicamente, sua visita à mansão tinha múltiplos propósitos — ele se convenceu de que não era só por urgência relacionada a uma carta.
O lenço em seu bolso já estava encharcado.
Ao chegar à mansão, o visconde Kerata foi direto ao escritório.
"Visconde Kerata."
Ferio, que estava atolado em papelada, levantou-se e ofereceu-lhe o sofá.
A recepção calorosa deixou o visconde surpreso.
Era raríssimo o duque tão elevado receber alguém pessoalmente.
Ah... É por causa da jovem senhora da Voreoti.
Ele entendeu. Foi por causa da amizade de Leonia com Flomus.
"Este é o cronograma revisado e o relatório de quantidade dos bens a serem entregues à guilda Tabanus."
Mas o visconde logo se recompôs e foi ao verdadeiro propósito de sua visita.
Ferio revisou os documentos ali mesmo. Depois de verificar cuidadosamente os detalhes, deu um pequeno aceno.
"Adie a data de entrega à guilda Tabanus por enquanto. Não precisa correr."
"Entendido."
"Você não vai perguntar por que estou dando uma instrução tão absurda?"
Ferio o observou com um olhar de avaliação.
"...Realmente, não entendo tudo,"
Quando recebeu a ordem pela primeira vez, o visconde Kerata acreditou que o conde Tabanus devia ter provocado a ira do Bicho Preto de uma forma ou de outra.
Mas, por isso, a resposta de Ferio foi estranhamente silenciosa.
Ele não suspendeu as remessas — apenas adiou o cronograma até uma data específica.
"Deve haver uma razão por trás."
O palácio do visconde Kerata era uma das famílias nobres mais leais do Norte.
Eles conheciam melhor do que ninguém o poder do Bicho Preto — e sabiam que ele nunca agiria sem motivo.
Por isso, o visconde não tinha reclamações ao receber as instruções.
No final das contas, o Bicho Preto era um senhor generoso — contanto que não o provocassem.
"Você fala de mim com muitos elogios, visconde."
Ferio quase cruzou as pernas, mas parou na hora.
"... Talvez seja porque minha filha fica miando o tempo todo sobre minha má postura que virou hábito."
Ferio deu uma desculpa sem que ninguém pedisse.
"Filhas são sempre tão inteligentes e preocupadas, não é mesmo?"
E assim, os dois pais acharam um entendimento comum e mergulharam numa conversa animada.
Pela primeira vez, o visconde Kerata sentiu Ferio Voreoti mais próximo.
Antes, ele só tinha reverência pelo governante do Norte — mas agora, sentia que era um vizinho com filhos da mesma idade.
"Falando nisso, ontem minha filha enviou uma carta para a jovem senhora da Voreoti..."
O visconde, que vinha rindo com facilidade, de repente congelou no meio da frase.