
Capítulo 29
Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.
Como o irmão mais velho, com as unhas dos dedos apontadas para cima, deu um passo à frente, Flomus tremeu e recuou.
"Ela é a filha da fera negra do norte."
"O que isso quer dizer?", ela sussurrou para o irmão.
"Aquela criança também é uma fera."
Rosnando, Flomus tremeu com a brincadeira do irmão.
"Você não ouviu falar da condessa Tedros? Ah, já não é mais Tedros. Enfim, você ouviu o que aconteceu com ela. Ouvi dizer que ela foi ignorante quanto ao seu lugar, foi perfurada pelas presas da besta de Lady Voreotti e virou uma louca."
"Louca, louca…?"
"Ela não consegue fazer nada sozinha."
Ela só fica ali, sem reação, como uma boneca quebrada.
Rumores de que, sem alguém para apoiá-la, ela não consegue se alimentar, ir ao banheiro ou trocar de roupa. Esses rumores se espalharam de tal forma que até crianças cochichavam sem que os pais soubessem. A flor do mundo social caiu de forma tão vazia. Mas ninguém dizia que os boatos eram exagerados. Na verdade, eles deviam ter sido reduzidos, mas a maioria deles eram só palavras ao vento, que a verdade seria ainda mais cruel.
"N, não…"
Ela queria dizer que não, mas Flomus também era uma criança nobre nascida e criada no Norte.
'Uma criança desobediente que não escuta os pais é levada pelo duque Voeroti à noite, certo?'
'As presas da fera estão te observando!'
'Se continuar chorando, o fera negro vai te morder?'
É um ditado usado por adultos só agora para repreender crianças, mas a família de Duke Voreotti realmente existia. A habilidade de usar as presas da fera também era uma força terrível, algo que realmente existia.
Fera negra do norte.
Soberano do norte.
Tudo no norte, até os monstros, baixavam a cabeça diante do duque Voreotti.
"O que, o que fazer…?"
"O que fazer? Você será comido!",
"Uwaaangg!"
Flomus chorou ao ser provocada de forma brincalhona pelo irmão mais velho. Ainda assim, em vez de consolar a irmã mais nova, o irmão mais velho zombou dela, e só parou quando o visconde, que estava apenas procurando por Flomus, o encontrou e o repreendeu.
"Não precisa forçar para ser amigável."
O visconde enxugou o rosto da filha pequena, molhado de lágrimas e coriza, e disse que estava tudo bem.
"Por favor, diga olá para ela também."
O sorriso do visconde acalmou o soluço de Flomus.
'… ok.'
Embora ela tenha fugido assim que Pellio apareceu na festa de chá, Flomus relembrou as palavras do pai e ganhou coragem. Na verdade, suas pernas tremiam, mas ela estava dez vezes melhor que o irmão, que tinha fugido chorando há pouco.
'Meu irmão chorou bastante.'
Ele até correu e caiu. Flomus sorriu levemente, lembrando do irmão mais velho que chorou. O irmão que zombava dela por ser feia era bem mais feio.
Sim, ela era mais corajosa que ele.
Ela era filha da viscondessa Kerata, que organizou a festa de chá. A filha da anfitriã não podia deixar os convidados sozinhos.
Logo atrás de Flomus, havia um grupo de crianças assustadas. Seus pais mandaram que elas fossem brincar logo, então as crianças que saíram constrangidas nem olharam para Leônia.
Porque Pellio não tirava os olhos de Leônia.
Ele observava sua filha, preocupado se ela se daria bem com as outras crianças, mas, sem perceber o carinho paterno, as crianças estavam apavoradas com a possibilidade de a fera negra as pegar.
Nessa comparação, Flomus era melhor. Porque ela tinha visto ele uma vez recentemente, então ficava menos assustada.
"Com licença…"
Ela reuniu a coragem e foi até o lado de Leônia.
* * *
Leônia, que tinha sido praticamente forçada à área de brincadeiras, tinha uma ferida na parte de trás da cabeça. Quando ela olhou ao redor, Pellio a observava com os olhos arregalados. O amor paternal inútil que dizia: 'Vou te observar brincando com as crianças' só ardia nos olhos escuros.
Porém, devido ao olhar de Pellio, as crianças nem chegavam perto de Leônia.
Deviam estar em uma festa de chá amigável. Agora, até aquelas pequenas estavam lutando para sobreviver. Leônia olhava para os sapatos que estavam bem sob seus pés com uma expressão de pena.
'Ah, sério…'
Ela queria beber algo.
Sentindo-se cansada após um longo tempo de diferença entre sua idade mental e física, Leônia pegou uma bala do bolso em sua mão ao invés da garrafinha verde de nostalgia e comeu. O doce sabor de morango milk se espalha a cada rolar na boca.
Leônia estava preocupada.
'Brinquedos ou crianças?'
No chá de hoje, Leônia tinha apenas duas opções.
Primeiramente, brinquedos estavam fora de questão. Eles estavam por toda parte na mansão, e ela não queria olhar para eles. Mesmo alguns dias atrás, enquanto cavalgava, ela pensou dezenas de vezes sobre o porquê de sua vida ser tão inútil. Depois de andar um pouco mais, ela chegou a um estado de iluminação, quase possuindo outro mundo.
Se for assim, e as crianças?
Havia alguns pontos a considerar nisso.
Leônia gostava das crianças do orfanato. Ela não podia se sentir desconfortável com os pequenos porque, na época, cuidava das crianças. Em vez disso, sobreviveu àquele inferno terrível graças às crianças que olhavam e apoiavam ela.
Mas aqui na festa de chá, todos estavam no mesmo nível.
Elas tinham que brincar e conviver juntas.
'Podemos brincar juntas?'
A filhote da fera estava choramingando por um longo tempo, pensando nisso.
"Com licença…"
Flomus se arrastou até ela e cumprimentou. Ela disse que tinha coragem, mas sua voz tinha uma leve tremedeira.
"Flo!"
Leônia, que já estava quase quebrando a janela para fugir, sorriu brilhantemente. Sua bochecha protuberou com o sorriso, por causa da bala na boca.
"Sim, você estava aí!"
Leônia, que se aproximou de repente, segurou a mão da criança. Flomus tremeu como um peixe fora d'água.
"Faz tempo, né?"
Então, Leônia colocou o braço ao redor do ombro de Flomus, que tinha uma expressão de confusão. Mesmo sendo da mesma idade, a diferença de altura fez com que Leônia naturalmente levantasse o calcanhar, e Flomus se curvasse para trás.
"… Essa postura tá meio estranha?"
Leônia, achando que aquilo não era exatamente o que queria, soltou os braços e segurou a mão de Flomus. Flomus ficou surpresa com o toque irresistível de Leônia.
'Dona Voreotti me tocou!'
Não é que ela odiava, mas era tão repentino que ela não sabia como reagir. Mas logo, Flomus se recuperou, fechou as mãos em punhos fofos.
"Olá, senhora."
Flomus tinha a obrigação de ajudar a mãe a cuidar das crianças convidadas.
"Seja bem-vinda à festa de chá."
Primeiro, ela cumprimentou Leônia com educação. Era uma saudação bem tardia, então Flomus se sentiu com mais força do que nunca.
"Obrigada por me convidar também."
Na verdade, Leônia não era grata, mas diante da garotinha, respondeu com um sorriso, sabendo que Flomus era inocente. Por isso, a expressão de Flomus ficou mais leve. Ela se sentiu um pouco orgulhosa por ter sido corajosa.
"Algum incômodo?"
Leônia, que acabara de chegar à festa de chá, deu de ombros.
"Hoje, há doces deliciosos e sucos doces de diferentes sabores. Se quiser alguma coisa para comer, pode pedir às criadas ali. E mais tarde, teremos tempo para ver as renas."
Flomus explicou com afinco. Ela observava secretamente o quanto seus pais haviam se esforçado para preparar essa festa de chá, e queria mostrar à senhora Voreotti uma festa bonita.
"Rena? Rudolf?"
Os olhos de Leônia brilharam.
"Rudolph?"
"O renas de nariz vermelho."
"É uma rena criada por Voreotti?"
"Não exatamente, é a história de uma rena que foi zoada pelas outras por ter o nariz vermelho, e depois se tornou líder do grupo por causa disso, e sua vida floresceu."
"Uh…"
Como Flomus não conseguiu entender a explicação de Leônia, virou a cabeça, mas contou para ela sobre a rena que conhecia.
"Rena geralmente tem o nariz um pouco vermelho em dias frios."
"Sério?"
Flomus viu os olhos de Leônia se arregalarem, dizendo que não sabia, e sentiu o ombro ficar tenso.
"No verão, em troca, o parasita choca os ovos e sai do nariz!"
Porém, ela deu a Leônia fatos que ela nem precisava dizer, porque era muito enérgica.
Leônia, que vinha imaginando isso, franzia o nariz de nojo. Era uma sensação de que sua infância, que ela nunca teve, ficava ainda mais seca.
"… Você conhece bem as renas?"
"Eu amo renas!"
Porém, Leônia não podia contar isso à criança, porque seus olhos brilhavam assim.
De alguma forma, ela se lembrou dos membros da família que cuidava no orfanato.
'Será que é melhor do que pensei?'
Assim, ela não precisava odiá-las tanto. Ficou um pouco tímida ao pensar que Flomus estava fazendo uma tempestade em copo d’água sozinha.
Conforme Leônia se sentia mais tranquila na festa de chá, as crianças começaram a perceber e lentamente se aproximaram para cumprimentar. Algumas ouviram a explicação de Flomus sobre a rena. À medida que o número de ouvintes aumentava, Flomus, que explicava, ficava mais animada.
"As renas são crianças muito gentis e bonitas. A cor dos olhos muda com as estações. Ah, quando meu avô cortava as renas, com a boca nua, ele…"
"… ei, ei, ei!"
Não ultrapasse essa linha!
Leônia, que vinha ouvindo alegremente, interveio com uma expressão assustada. Flomus, prestes a dizer que mordeu os ovos quentinhos, as crianças que mal recuperaram o fôlego e começaram a brincar, e os adultos que observavam tudo com um suspiro, todos olharam para Leônia.
"Ah, não, quero dizer…"
Leônia, que percebeu repentinamente o olhar, suou frio desconfortável.
"Dentu, bala!"
Havia uma bolsa que seu pai lhe dera.
"Vamos comer isso?"
Felizmente, a bala funcionou.
* * *
"Senhor Gaber."
Pelliot fixou o olhar e abriu a boca enquanto Leônia compartilhava sua bala com as crianças.
"Como você acha que a Leônia está agora?"
"Ela parece uma boa menina, que cuida de todos os amigos."
Pavo estava orgulhoso de Leônia, que se dava bem com as crianças da mesma idade. Ela era tão madura que isso era o que Pavo e os outros cavaleiros frequentemente se preocupavam. Às vezes, esqueciam a idade real da senhora. Por exemplo, ficaram surpresos porque na última vez que saíram para beber com os cavaleiros, ela comentou que também queria beber.
"Isso é o importante."
Pelliot tomou um gole de seu chá.
'Ela é muito pequena.'
Era bom ver sua filha se dando bem com os colegas. Mas isso fazia a pequena fisique de Leônia parecer ridícula. Ele soltou um longo suspiro e abaixou a xícara.
"… Mestre."
A voz vigilante de Pavo sussurrou suavemente. Seus olhos, de repente, ficaram amargos e focaram intensamente em um ponto. Pavo falou baixinho.
"Afaste-se."
Logo, Pavo deu um passo atrás.
A fera moveu os olhos lentamente.
"Duque Voreotti."
O marquês Pardus se aproximou e o cumprimentou de forma amistosa.